A Comando Do Rei
1 Apresentando toda a confusão
Sentei assustada. Verifiquei as horas no relógio digital de pulso, já eram 8 da manhã. Minha mãe deveria ter regressado dos teares há pouco tempo, e deveria estar em casa, preocupada. Ela não sabia que a filha passaria a noite fora. O plano era chegar em casa antes dela, que trabalhava durante a noite toda nos teares reais. Só dormi na central por que um infiltrado na corte descobriu que um comboio real cheio de ouro da rainha partiria às 2 da manhã para ir a uma província próxima. Oportunidades de roubo não podem ser ignoradas assim tão fáceis.
A propósito, sou uma ladra. Às vezes prefiro o termo ladina. Não roubo apenas pros pobres, roubo pra sustentar minha família também. Às 20 horas de trabalho diário da minha mãe (exceto aos domingos) não são suficientes, já que ela gasta todo o dinheiro com bebida para meu pai. Ele é um encosto pra nós. Suga tudo que minha mãe consegue produzir. Meus ganhos passam longe da vista dele. Nem minha mãe sabe como eu levo dinheiro pra casa. O importante é que nenhum dos meus três irmãos nem ela morreram de fome ou frio ou mortos pelo meu pai e suas ciladas. Não trabalho sozinha. Tenho uma espécie de clã. Sou membro de uma espécie de organização contra o Rei George e seu governo absolutista e abusivo. Tomo muitas providências em nome do Clã. Por exemplo, passo 10 horas por semana no palácio, fingindo ser uma mera dama de companhia da rainha. Acoberto ela e o rei em suas decisões erradas e secretas, ganhei a confiança deles. Por isso sou chefe da minha sessão no clã. Ele é divido em sessões e subseções. Ser chefe de uma requer muito trabalho e dedicação. O roubo da noite anterior foi um sucesso, posso levar pra casa essa manhã uns quatro mil ovrils, que garantirão o sustento da minha família por uns dois meses. Troco o jeans e a camiseta de algodão por um longo vestido creme. Não podemos usar tecnologia. Tudo que é mais tecnológico que uma catapulta é destruído, e seu dono é condenado a morte. Passo pelos corredores animados e felizes da central do Clã em direção a saída, que fica em uma falsa toca no leste do grande lago. A saída é muito perto da minha casa, o que torna mais fácil meu acesso a central. Suspendo as muitas saias do vestido para andar pelo corredor cheio de raízes e terra anterior a saída. Minhas sapatilhas feitas de pele de castor e couro abafam muito bem meus passos. Afasto a trama feita de capim, cordas e lama da entrada da “toca” e me impulsiono pra fora. Sento na borda e saio dela, pondo a “tampa” novamente no lugar. Ando uns três minutos até chegar em casa, abro a porta e minha mãe me abraça com força. Ponho o dinheiro discretamente no bolso dela, para não ser visto por meu pai. _Vou querer saber o motivo? _Perigoso demais. È isso que amo em minha mãe. Ela sabe que meu trabalho é muito arriscado e então não pede mais informações. Vou até a sala e encontro meu pai, com uma garrafa de bebida nas mãos. _Bom dia docinho_ diz ele com a voz mole e o tom sarcástico. _Não trouxe bebida ou dinheiro ou comida pra você, Walter. Com que dinheiro comprou isso? _Sua mamãe trouxe pra mim... O dinheiro. Fiz Toddy ir à taverna comprar. _Não os quero nesses lugares. Da próxima vez você vai aprender como uma faca é capaz de atravessar sua garganta em um milésimo de segundo. Saio da sala e vou ao quarto meu e de meus irmãos. Os dois mais novos estão dormindo, e Ronnie, que é mais velho que eu, está acariciando a cabeça dos pequenos. Ronnie é adotado, embora não falemos muito disso. Ele foi encontrado na floresta por minha mãe, um ano antes de ela ficar grávida de mim. _Toddy voltou com a bebida dele e muitos cortes e marcas_ Ron sempre me avisa sobre os meninos, não importa como, quando ou onde. _Ele está lá bebendo e importunando a mamãe. Trouxe dinheiro._disse com indiferença. Sentei de frente pra Ronnie e sorri pra ele. Ele tem dezoito anos e eu dezesseis. Somos muito amigos. Ele não é nem um pouco parecido comigo fisicamente. Eu tenho os cabelos ruivos, quase vermelhos, pele muito branca e os olhos azuis, e ele têm a pele naturalmente bronzeada, cabelos castanhos e olhos verde mar lindos. Ele também pertence ao Clã, é da mesma sessão que eu. Indicou-me para chefe e me apoiou durante as votações. _Julie pediu para nós dois irmos à próxima reunião._informo, sabendo a resposta dele. _Impossível, alguém tem que ficar com os meninos, Tar... A mamãe não pode ser. Talvez..._ele rastreia a mente em busca de alguém, assim como eu. _Professor Angus!_falamos juntos e animados. O professor foi quem nos mostrou o Clã, á quatro anos. Ele conhece os meninos e nossa mãe, trabalha em casa, poderia pedir a ele que ficasse com os meninos uns dois dias, para irmos a Central e resolver os problemas. Deito no ombro de Ron e ficamos lá com os meninos. Minha mãe é maravilhosa, tenta de tudo pra fazer com que nossa vida seja boa, mas como só fica em casa quatro horas por dia (e precisa dormir nesse período), me sinto como uma mãe para Toddy e Matthew. Ron é como um pai pra eles. Preocupa-se com eles, os protege. Nós quatro somos uma família. Quando estamos junto com minha mãe, tudo é tão perfeito. Gostamos de passar os domingos no lago atrás de nossa casa, pescamos, brincamos e fazemos uma fogueira a noite. O som de uma porta batendo me faz voltar à realidade. Ouço trombetas e vozes pomposas. Minha mãe está acordando os meninos. Ron chuta a cama e desenterra o alçapão. Abro-o e todos descem as escadas para o esconderijo que eu construí. Ron fecha o alçapão e usa um complicado mecanismo bolado pelo professor Angus para espalhar uma grossa camada de terra e poeira para cobrir a entrada e usa mais um para por a cama de volta ao seu lugar.
Pego o celular no bolso e minha mãe fica horrorizada. Ter tecnologia tão avançada assim resulta em tortura e morte se for descoberta. Ligo para Julie, minha melhor amiga e chefe geral de todo o Clã. _Alô? Tar? Aconteceu alguma coisa? _Julie, tem nobres na minha casa, estou com minha família toda aqui no abrigo subterrâneo... Pera aí, Ronnie o Walter tá aqui? _Tá sim, quando você tava em transe eu o arrastei pra cá e dei uma pancada na cabeça dele. Ele tá desmaiado._diz ele preocupado e olhando pro teto. _Okok, vou ver se uns infiltrados na corte podem te ajudar._diz Julie, agora nervosa. Desligo e sento num beliche do abrigo, ao lado de Ron. Depois de 10 minutos de espera recebo uma mensagem de texto de Julie. _ “Tudo limpo, pode sair. Mas tenha cuidado. Venha aqui assim que puder. Traga Ronnie;” _Eu vou lá fora, talvez ela esteja enganada. _ disse Ronnie enquanto se levantava do beliche. Ron se impulsionou para fora do alçapão. Enquanto o esperava retornar fiquei pensando na atitude da minha mãe quando a nobreza parou na porta da minha casa feia e suja. Ela sabia que a nobreza era nossa inimiga, mas sua atitude foi de pavor extremo quando pararam na nossa porta. E pensei no que resultaria o descuido de pegar o celular e fazer uma ligação pra uma menina considerada morta no cartório. Walter começa a grunhir e eu dou uma nova pancada na cabeça dele. A cabeça de Ron surge no alçapão. _Tudo limpo. Podem subir. Aquilo é sangue na cabeça do Walter?_ a voz de Ron me traz a tona. _Precisei dar outra pancada nele. Precisamos conversar urgente. Mãe, a senhora pode ficar com Toddy e Matthew enquanto nós damos um pulo no lago? Só nadar um pouco e esfriar a cabeça. Trazemos comida pro jantar, ok?_Digo meio nervosa _Tudo bem, já salvaram minha vida duas vezes só hoje. Se teu pai tivesse visto o dinheiro eu estava morta. A propósito, leve ele lá pra cima e o prendam no armário de vassouras. Eu digo que foram os nobres._diz ela com um ar divertido. Ron pega Walter e o joga em cima do ombro, com cara de nojo. O joga no armário de vassouras e pra garantir, põe um balde em sua cabeça. Tranca o armário e se vira pra mim. _Vamos? Não sei se é bom ou ruim, venho tentando fazer sair para um piquenique há meses. Nervosinha._diz Ron apertando meu nariz e sorrindo. _Vamos... Não se preocupe, será um dia divertido no lago.
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