A Collab Tale - Oito
3 A Ruiva Mendiga - Thugles
"Nasceu em Kerning, sua mãe era prostituta(até hoje não se sabe onde ela está) e o pai um bêbado que morreu assassinado, anos depois de ser ficar cego nos dois olhos em uma briga de bar, quando Helena tinha dez anos. Desde então, vagava sozinha, gostava de ficar nos topos dos edifícios da cidade, pensando — costumava ficar com seu pai vendo as estrelas até tarde da noite. Sempre foi ágil e esperta, andava pelas ruelas de Kerning, aprendendo a usar a adaga e a sobreviver sem ajuda. Foi enviada para Edelstein aos catorze anos, com cinco outras pessoas, para um "intercâmbio", mas não era nenhum intercâmbio. Aquilo era uma obra dos malignos Black Wings, que planejavam fazer experimentos com as crianças, mas, um dia, a prisão em que estavam foi invadida, e ela conseguiu sair, porém, seus quatro colegas foram capturados e mortos ali mesmo enquanto fugiam. Sendo mais ágil, conseguiu escapar, pois sabia que não poderia fazer nada. Tentou voltar para Kerning, mas a Edelstein havia sido fechada e ela foi obrigada a ficar na cidade, pois não conseguiria passar pelos guardas, já que era uma prisioneira fugitiva. Desde então, vive escondida, ajudando pessoas sempre que pode, e, quando tem oportunidade, matando Black Wings sempre que "se excitam demais" com prisioneiros. Mas nunca perdeu seu coração, nem seu senso de justiça."
Era uma noite fria em Edelstein. A maioria das pessoas estava dentro de casa — muitas horas haviam se passado desde que os sinos determinaram o toque de recolher. A punição para quem violasse o toque era passar alguns meses na prisão.
Mas como nem todos tinham uma casa onde morar, haviam sempre as centenas de mendigos e sem-tetos por aí, espalhados nos becos e ruelas esquecidas da cidade. Eles podiam ficar fora o tempo que quisessem, é claro — não que valesse a pena. Ninguém se disfarçava de mendigo apenas para violar o toque de recolher, porque os "cidadãos da noite" de Edelstein chegavam a ser quase tão perigosos quanto os próprios Black Wings. Não, se você ver um mendigo noturno em Edelstein, ele é um mendigo mesmo.
O toque de recolher era apenas uma das variadas leis que os Black Wings propuseram. Eles revistavam as casas sem aviso, programavam os trabalhos para cada pessoa, e se você desobedecesse, morria.
O irônico é que a taxa de assassinatos decaiu muito desde que os Black Wings chegavam. A população era rigorosamente controlada, e a pena por matar alguém é tortura, desmembramento e depois, morte. A vida era, na verdade, um completo tédio. Não se podia fazer nada, nem sair da cidade — embora, uma semana por mês, alguns sortudos tivessem oportunidades de viajar, vigiados por um grupo de soldados, é claro — e você simplesmente trabalhava, e descansava. Sim, você podia sair pela rua a qualquer hora do dia, mas aí, você correria o risco de topar com guardas Black Wings igualmente entediados. E eles tinham maneiras nada gentis de aliviar o tédio.
Os mendigos também não escapavam das revisões. Os guardas não os atacavam — que graça tem atacar uma pessoa que dorme em uma caixa de papelão e provavelmente nem tem condições de se levantar? — mas, ás vezes eles queimavam uns sem-teto. Com quem a população poderia reclamar? Centenas de reclamações chegavam todos os dias na prefeitura, mas o prefeito sempre declarava que "estavam fazendo o trabalho deles" ou "a pessoa merecia o que recebeu". Algumas vezes, a pessoa que denunciava era punida por atacar a moral de um guarda capacitado e blábláblá. Há muito tempo as pessoas haviam desistido de se queixar, e apenas ficavam quietas em seus cantos, e rezavam para não serem alvos da ira de nenhum Black Wing entediado.
Dois Black Wings conversavam, em uma praça pública deserta. Exceto por alguns jornais e caixas de papelão, que eram as camas de algumas pessoas que dormiam ali.
–Argh, esses nojentos — comentou um deles, olhando para um homem ferrado no sono, o jornal pequeno o suficiente para exibir uma perna cheia de feridas vermelhas — Não sei por que ainda os deixamos aqui.
–Eles são cidadãos de Edelstein, e não fazem mal nenhum — disse o outro. Ambos carregavam espadas longas nas cinturas, e usavam o uniforme preto com detalhes dourados dos guardas. Usavam o símbolo dos Black Wings no peito: Uma bola dourada com asas negras. — São apenas excluídos, vivendo do jeito deles. Não são mais do que baratas.
–Por mim, encheria eles de gasolina e tacava fogo. Todos eles — resmungou o primeiro homem. — E ainda colocava a culpa em algum morador, hein, Hank?? — sorriu, cutucando Hank com o cotovelo. Ele riu.
–Não, deixe eles aí — disse, dando de ombros — Eles vão morrer por eles mesmos, de um jeito ou de outro. A coisa vai ficar realmente divertida — se rosto assumiu uma expressão que misturava prazer e maldade — Quando terminarem a revista de amanhã.
O outro homem assentiu, ainda sorrindo.
–Ah, sim... mal posso esperar. Queria muito ter sido chamado pra ser Revistador. Ver a cara desses inúteis, quando chegarmos na casa deles, dando uma desculpa qualquer para dizer que estão planejando uma revolta, e depois, levá-los ao Gelimer...
–Ui, isso eu não quero nem ver. Dizer que Gelimer corta os braços das cobaias e então os substitui por partes robóticas, abre as pessoas e instala órgãos mecânicos... não quero nem imaginar o que vai acontecer com eles.
–Eles nem imaginam — riu o outro homem, o que não se chama Hank — Mas vamos ter a oportunidade de torturá-los, se tentarem alguma coisa.
–Mal posso esperar — suspirou Hank, esfregando as mãos — Dessa vez, esses mendigos chechelentos vão ter sorte. Ninguém quer insetos feridos para experimentar. Queremos pessoas fortes. Jovens, e...
Ele parou de falar, pois o outro homem erguera a mão. Ele também havia ouvido — um leve farfalhar de um jornal, não muito longe de onde eles estavam. Hank se virou rapidamente, e viu uma caixa de papelão perto de um banco da praça. Mas ele teve certeza de ter visto um par de olhos se escondendo rapidamente na caixa, durante um segundo.
–Ora, ora, ora — sorriu o outro guarda, que também tinha visto. — Parece que temos alguém quem insônia aqui — desembainhou a espada, e começou a andar lentamente em direção à caixa. Hank o imitou.
–O que você acha, Hank? Alguém está aqui tentando escutar nossa conversa? O que será que pode ser? — disse, chegando ainda mais perto.
–Quem sabe... talvez algum rebelde estúpido, que acha que pode conseguir informações de dois pobres guardas noturnos, pra nos prejudicar de alguma forma? — responder Hank, olhando para o colega. Ambos sorriram. Estavam prestes a ter um pouco de diversão.
–Que foi, está com medo? — perguntou o outro guarda — Por que não podemos saber que você está aí? Vamos, não seja tímido! Venha, só queremos conversar!
–É, apareça, seu inseto nojento! — gritou Hank, e ambos riam.
Seriam bem lentos com quem quer que estivesse ali. Afinal, ele havia ouvido sobre o que eles realmente queriam fazer na próxima Inspeção, e isso não podia passar. Na verdade, não havia um motivo real pra eles matarem o mendigo. Estavam entediados, e matar era uma coisa que os divertia.
Eles golpearam a caixa com a espada uma, duas, três vezes. Ouviu-se um gemido estrangulado. Não haviam batido com muita força, mas quem quer que estivesse ali sabia que tinha sido descoberto. Os guardas deram gargalhadas.
–Vamos, seu inseto nojento! Qual seu nome, inseto? — perguntou Hank. Seu colega olhou dentro da caixa.
Ali havia um pequeno corpo embrulhado em um jornal, encolhido contra um dos cantos da parede de papelão. O guarda começou a balançar a caixa, e então, rápido como um raio, a pessoa se levantou.
O guarda soltou um grito estrangulado e caiu no chão, sem nem ao menos ver a cor do cabo da adaga espetada em seu coração. Hank ergueu a espada instintivamente, e atacou depois que o mendigo pulou da caixa. Ele desviou o golpe para o lado com uma das adaga na mão esquerda, e cortou a garganta dele com outra adaga na mão direita.
Hank soltou a espada e caiu no chão, os olhos arregalados, as mãos tentando inutilmente estancar o sangue que escorria da garganta. O mendigo se agachou, até seu rosto ficar a centímetros do dele.
E então, ele teve uma surpresa. O rosto era de uma menina, jovem e liso, emoldurado por cabelos ruivos, longos e ondulados, olhos castanhos, frios e divertidos — era difícil distinguir conforme o sangue deixava seu corpo. Ela sorria.
O último sorriso que ele veria em sua vida.
–Eu me chamo Helena — disse, com uma voz controlada e agradável. O sorriso sumia e os olhos ficavam mais frios, à medida que o fluxo de sangue de Hank diminuía. -Muito obrigada pelas informações.
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