A Clareira Onde há Amor
1 A clareira onde há amor
A clareira onde há amor
Cheguei à clareira onde há amor e o ar me faltou. O sol vermelho do crepúsculo dava contraste ao ambiente colorido, e o vento movia as plantas, dando a impressão de que aquele lugar vivia. O capim verde e molhado crescia cheio, como que com vontade de engolir os pés dos forasteiros. Eu era um velho conhecido, então o capim se abriu para mim. Toquei uma das rosas vermelhas da cor de sangue. Eu não sabia o nome da rosa, mas eu a conhecia muito bem. Toquei em seu corpo e seu espinho me furou. Uma gota de sangue escapou do meu dedo cortado e caiu em cima dela. Ela pareceu gostar. Dei um sorriso amarelo para a rosa vampira e continuei a andar em direção ao centro. Enquanto eu andava eu sentia o cheiro forte de vegetação. Eu cheirava aquilo como uma droga.
Lá no centro a terra era mais evidente, o capim cessava um pouco. Era fofa e cor marrom avermelhada. A cor da fertilidade. Ajoelhei-me e cravei meus dedos nela. Era como se eu literalmente sentisse a natureza, cada partícula de terra que alisava meus dedos e entrava em minhas unhas me fazia vibrar. Era uma sensação muito engraçada e agradável. Eu fechei meus dedos em torno de um punhado de terra e o tirei de lá. Comecei a manusear o elemento com as duas mãos até quase toda a terra cair no chão. Tirei meus sapatos e meias e pisei na terra. Era bom. Era reconfortante. Era morna e macia. Não entendia o porquê, mas aquilo me emocionava. Retirei meu casaco e o joguei no chão. Olhei para a frente e vi a árvore.
A nossa árvore.
Comecei a chorar e corri até ela. Encostei minha mão no seu tronco. As camadas de madeira estavam ameaçadoramente expostas, mas eu não tinha medo das farpas. Que furassem minhas mãos, as farpas. Eu queria sentir tudo o que eu tinha direito.
Olhei para cima e vi suas folhas amarelas ressecadas. Elas caiam numa dança divina cortando o vento que insistia em soprar furioso. Eu peguei uma das folhas que caia em minha direção. Olhei para ela por alguns segundos. Era pequena e quebradiça. Fechei minha mão em torno dela e a escutei se partir em milhares de pedacinhos. Abri minha mão e deixei as partículas voarem. Que voem para longe, pensei.
Que voem para sempre.
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