O sol já se punha por trás das montanhas quando Daniel e Lucas finalmente encontraram uma clareira onde pudessem passar a noite. O corpo de ambos gritava por repouso, as pernas pareciam não mais pertencer-lhes, mas a mente permanecia elétrica, assombrada pelas imagens dos últimos dias. Ainda assim, havia algo reconfortante naquela pequena clareira, com seu chão coberto de folhas secas e o sussurro leve do vento entre os galhos.

Daniel reuniu gravetos com dedos trêmulos para acender fogo. Lucas tentou ajudá-lo, mas logo teve de se sentar sobre uma pedra, ofegante, o braço pressionando o ombro ferido.

— Ei, não força. — Disse Daniel, lançando-lhe um olhar terno por cima do ombro. — Já foi milagre ter te tirado vivo daquela caverna.

Lucas soltou um risinho fraco, mas não retrucou. Ficou apenas observando enquanto Daniel riscava a pederneira repetidas vezes até conseguir uma chama que logo cresceu, lambendo o monte de gravetos até virar uma pequena fogueira. O calor foi imediato, aliviando a umidade fria que se acumulava com a chegada da noite. Quando o fogo pegou firme, Daniel foi até Lucas. Ajoelhou-se ao lado dele e conferiu o curativo improvisado que fizera dentro da caverna. O pano estava duro de sangue seco.

— Merda… isso ainda tá feio. — Murmurou, apertando os lábios.

— Para de fazer… essa cara — Gemeu Lucas, tentando forçar um sorriso. — Já passei por coisa pior. Naquela excursão à Mina do Gongo Soco… uma retroescavadeira quase arrancou meu pé fora… lembra?

— Isso não é hora pra piada de arqueólogo fodido. — Retrucou Daniel, mas havia um pequeno alívio na voz, como se a bravata de Lucas fosse a prova de que ele ainda estava ali.

Daniel se virou e jogou uns gravetos maiores na fogueira. Quando terminou, apoiou mão na testa e olhou para o amigo, respirando fundo.

— Eu preciso te pedir desculpa, Lucas… — Sussurrou, a voz embargada — Eu… eu te trouxe pra esse inferno. Coloquei tua vida em risco em troca de absolutamente nada. — Sua voz quebrou, tornando-se apenas um fio — Você quase morreu…

Lucas ergueu a mão boa e pousou-a sobre o ombro dele, acariciando devagar.

— Ei… olha pra mim.

Daniel ergueu o rosto, os olhos marejados.

— Isso aqui, Dan… — Lucas apontou ao redor com um gesto fraco, mas determinado — Isso aqui… é o que a gente vive pra fazer. Achar o impossível… pisar onde ninguém pisou… segurar a história nas mãos. Eu não me arrependo de nada. Nem um segundo.

— Mas tudo se perdeu. — A voz de Daniel era rouca, quase um soluço — A cidade… as inscrições… as fotos, vídeos, registros. Tudo foi pelos ares com aqueles malditos explosivos. Agora quem vai acreditar em nós?

Lucas soltou um suspiro, então ajeitou-se na pedra, inclinando o corpo para a frente. Enfiou a mão no bolso da bermuda, tateando, até puxar um pequeno punhado de algo que cintilou à luz da fogueira.

— Talvez a gente tenha perdido a cidade… mas não saiu de mãos vazias.

Daniel arregalou os olhos quando viu as moedas de ouro repousando na palma de Lucas. Eram grossas, pesadas, com inscrições latinas e pequenos relevos de figuras imperiais. À luz da fogueira, brilhavam como se tivessem vida própria.

— Eu… guardei essas no bolso… antes de tirar a foto com a ânfora. — Mencionou, recordando — E agora… são nossa única prova.

Daniel segurou o pulso dele, como se temesse que aquilo fosse miragem.

— Lucas, isso… — Gaguejou, balançando a cabeça e estupefato com a revelação do outro — Não sei se isso é o suficiente pra provar que aquela cidade existiu. Mas vai provar pelo menos que não somos loucos.

— Ou ladrões de tesouros. — Disse Lucas, soltando um meio riso — Mas… Quer saber? Foda-se. A gente vai dar um jeito… de contar essa história. Nem que seja pro mundo nos chamar… de doidos. Eu sei o que eu vi. Você também. E isso basta.

Daniel soltou o ar num soluço quase risonho, admirando a determinação de Lucas e puxando num abraço cuidadoso para não apertar o ferimento. Ficaram ali, apenas respirando juntos, até o tremor no corpo de Daniel começar a ceder.

Quando a noite enfim caiu, Daniel limpou uma parte do chão embaixo de uma árvore e deitaram-se lado a lado, tão próximos quanto podiam. O frio começava a apertar, e a fogueira não alcançava todos os cantos da clareira.

— Dan… Eu ainda não te agradeci, mas… — Murmurou Lucas, a voz pesada de sono e dor — Obrigado… por não me deixar lá.

— Você é meu irmão, Lucas. Eu nunca te deixaria pra trás. — Respondeu Daniel, dando um leve apertão no ombro do amigo — Nem se o mundo inteiro viesse abaixo.

— Ele meio que veio… — Lucas soltou um risinho fraco, que logo se transformou num suspiro. — Mas eu tô feliz de ainda ter você.

Daniel não respondeu. Apenas riu e bagunçou de leve os cabelos de Lucas, num gesto de puro carinho fraternal, e ambos adormeceram, exaustos, sob o manto estrelado do sertão.

—X—X—X—

O dia seguinte amanheceu com um céu limpo, de um azul tão intenso que quase feria os olhos. A caminhada pela estrada de pedras estava fluida, porém silenciosa. O calor dos dias anteriores começava a ceder, substituído por uma brisa mais fria que dançava por entre os arbustos secos. O silêncio do grupo era apenas interrompido quando Rômulo, tomado por seu fervor ideológico, voltava a falar.

— Isso foi só o começo, sabem? — Disse ele, a voz carregada de entusiasmo — Os anos que se aproximam verão o Brasil, finalmente, redescobrir suas raízes verdadeiras. Uma pátria orgulhosa, forte, sem as amarras corruptas da República. E quando a Coroa retornar, será graças a homens como nós, que não temeram fazer o necessário.

Ebony soltou um grunhido baixo, talvez em aprovação. Elena apenas mantinha os olhos fixos na trilha. Depois de passarem a noite acampando ao pé da montanha, agora ela só queria chegar o mais rápido possível.

— Vocês acham que exagero. — Continuou Rômulo, sem esperar resposta — Mas tudo isso já estava em andamento. Bolsonaro foi o primeiro teste real: aparelhou as forças armadas, minou o STF, rasgou as universidades. O povo está pronto, ansioso por uma figura de liderança enérgica para adorar. Um rei. E nós lhes daremos isso.

— Mesmo que para isso precise soterrar qualquer rastro de história… — Murmurou Elena, sem erguer o olhar.

Rômulo lançou-lhe um sorriso duro.

— História é escrita pelos vencedores, minha cara. É assim que as coisas são. E nós venceremos.

A estrada de pedras enfim desapareceu por entre árvores mais altas, onde a sombra tornava o ar úmido e fresco conforme córregos de águas cristalinas voltavam a ser vistos correndo nas partes baixas do terrenos. Em certo ponto, Ebony começou a reconhecer o ambiente em volta e se sentir levemente incomodado. Haviam chegado ao local onde, dias antes, Lucas dera de cara com uma onça preta. O mato estava revirado, as marcas de garras ainda visíveis em algumas árvores, cicatrizes silenciosas daquele primeiro encontro.

— Aqui foi onde seu amiguinho quase virou jantar? — Zombou Rômulo, com um riso seco — O sertão tem suas maneiras de cobrar dos curiosos.

Mas como uma resposta do Universo à zombaria dele, naquele exato momento algo se mexeu adiante, junto a um tronco caído. Um vulto negro, pequeno. Quando se aproximaram, viram que era o filhote de onça preta. Seu pelo reluzia como veludo molhado à luz filtrada pelas copas. O filhote ergueu o focinho, farejando o ar, curioso, e então começou a andar na direção deles, emitindo um som baixo, quase um miado grave.

— Ah, que diabo é isso? — Disse Rômulo, revirando os olhos. Quando o pequeno felino se aproximou demais, ele deu um empurrão com o pé, afastando-o de maneira bruta.

O filhote cambaleou para o lado, soltando um guincho ofendido, e imediatamente o ambiente mudou. O silêncio que reinava foi substituído por um rosnado baixo, gutural, que parecia vibrar nos ossos. Saindo por entre duas árvores grossas, surgiu a mãe — uma onça preta adulta, imensa, os músculos se movendo sob o pêlo liso como cordas vivas. Seus olhos eram duas pepitas de âmbar dourado, cravados diretamente neles. Mais abaixo, as duas gigantescas presas eram bem visíveis na bocarra entreaberta do felino.

— Merda… — Murmurou Ebony, reconhecendo o animal e já erguendo o rifle — É a mãe.

Mas antes que pudesse mirar, outro rosnado ecoou atrás deles. Viraram-se de supetão e viram o macho — também preto, ainda maior que a fêmea, quase dois metros de comprimento, a cabeça larga ostentando cicatrizes antigas, o focinho molhado de saliva. Ele avançava devagar, cada passo silencioso demais para um animal daquele tamanho.

— Fiquem juntos! — Gritou Rômulo, erguendo a pistola. Elena sacou o facão e Ebony apontou o rifle, mas seus olhos iam de uma onça para outra, sem saber qual seria a primeira a saltar.

O macho soltou um estalo seco com a mandíbula, mostrando presas que pareciam adagas polidas. O filhote, agora atrás da mãe, soltava um miado aflito.

Rômulo engoliu em seco. Tentou dar um passo para trás, mas isso pareceu ser o sinal. O macho abaixou-se mais, os ombros ondulando, pronto para o bote. Ebony apontou o rifle, o dedo no gatilho, tremendo. A fêmea, por sua vez, também começou a avançar, rosnando tão forte que as folhas próximas vibraram.

Por um momento, o mundo pareceu prender a respiração. Então o silêncio foi quebrado por gritos — gritos humanos — e o estampido dos primeiros tiros ecoou pelas árvores.

Foi o suficiente para o inferno se soltar. As onças investiram quase ao mesmo tempo, sombras negras disparando sobre o grupo. Rômulo berrou, descarregando a pistola, Elena ergueu o facão num golpe desesperado, e Ebony apertou o gatilho, o rifle cuspindo fogo. O rugido das feras misturou-se aos gritos agudos, aos estalos dos galhos partidos, ao som úmido de presas se encontrando com carne.

A floresta ficou viva com o horror. Pássaros explodiram das copas, macacos e caititus gritavam longe, e o cheiro de pólvora e sangue empesteou o ar.

Por entre as árvores, o eco de mais tiros e gritos reverberou por longos segundos — e então foi se apagando, até restar apenas o farfalhar inquieto das folhas e o latido ocasional de algum animal menor.

O sertão, imperturbável, engoliu o som e voltou ao seu silêncio ancestral.

—X—X—X—

Daniel foi o primeiro a acordar. Passou alguns segundos só observando Lucas dormir, o rosto dele relaxado apesar do machucado. Então levantou-se, alongando os músculos doloridos.

— Hora de ir. — Disse, baixo, quando Lucas abriu os olhos — Temos que avançar o máximo que pudermos ainda hoje. Se acharmos a trilha que abrimos na vinda, vamos ganhar muito tempo.

Lucas assentiu e tentou sorrir, mas logo estremeceu quando moveu o ombro.

— Merda… isso vai me dar um belo de um torcicolo histórico.

— Eu te dou um atestado arqueológico quando voltarmos pra civilização.

Arrumaram o pouco que tinham — a pederneira, uma faça de caça e as moedas bem guardadas no bolso de Lucas — e seguiram mata adentro. Daniel ia na frente, abrindo caminho por entre galhos retorcidos, sempre atento ao som de água, de animais, ou — temia — de outros seres humanos.

Caminharam horas assim, contornando vagarosamente a base da montanha que abrigava a cidade destruída, até que finalmente alcançaram o início da trilha de pedras que haviam usado dias antes. Ver aquele caminho outra vez quase fez Daniel chorar. Lucas deixou escapar um suspiro tremido.

— Nunca pensei que fosse ficar tão feliz de ver essas malditas pedras. — Lucas soltou.

— Significa que estamos chegando. Vamos conseguir.

O ânimo renovado fez com que apressassem o passo. Mesmo Lucas, pálido, mancando e com o braço preso contra o peito, forçava-se a andar mais rápido. Conversavam pouco, focados em gastar energia apenas na caminhada, mas o silêncio entre eles não era desconfortável.

— Dan… — Disse Lucas em certo ponto, com a voz baixa — Quando isso tudo passar… quando a gente estiver longe daqui… quero que você me dê uma folga. Preciso me recuperar… E depois não quero fazer nada por um tempo.

Daniel sorriu, o coração apertado de ternura.

— Vou pensar no seu caso. — Devolveu, provocativo.

Lucas retribuiu o sorriso, o olhar brilhando apesar do cansaço.

— Então pensa com carinho. Serei eternamente grato.

O arqueólogo finalizou com uma risadinha de concordância, mas percebeu que a aparência do amigo estava cada vez pior. Ele estava muito pálido, os olhos fundos e contornados por olheiras enormes, e suas pernas bambeavam a cada passo. Eles precisavam dar um jeito de sair dali ou encontrar alguma ajuda ainda naquele dia, caso contrário ele não tinha certeza se Lucas conseguiria aguentar a noite seguinte. O assistente, porém, contrariando os temores do outro, parecia determinado a sair dali.

Ele disse que não quer morrer e não quer mesmo, Daniel pensou consigo mesmo, recordando a fala do amigo no dia anterior, quando ainda estavam presos na caverna.

Mesmo com a caminhada bem mais facilidade pela trilha já aberta por eles nos dias passados durante o trajeto de ida, demoraram ainda mais algumas horas para alcançar o local onde haviam deixado os veículos. O sol já adquiria os tons alaranjados do poente quando finalmente viram o clarão da pequena clareira entre as árvores, Daniel segurou o braço de Lucas, apontando adiante.

— Olha… os carros… eles ainda tão aqui.

Lucas arregalou os olhos. Lá estavam, intocados, cobertos apenas pela fina poeira vermelha do sertão. O SUV e a caminhonete de Daniel.

— Rômulo não os levou. — Observo, confuso — Nem Elena, nem Ebony. Mas… por quê?

— Talvez tenham saído em outra direção. Talvez nunca tenham voltado. — Disse Daniel, a voz carregada de algo entre alívio e estranheza. — Ou… talvez… — Hesitou, não concluindo a frase.

Aproximou-se dos carros com cautela. Daniel olhou o interior dos veículos, conferiu o capô, como se temesse encontrar armadilhas ou sinais de emboscada. Mas nada havia ali, exceto um silêncio pesado e o calor do sol acumulado no metal.

— Vamos embora daqui… antes que alguma outra maldição resolva cair na nossa cabeça. — Resmungou Lucas — Depois a gente… dá um jeito de buscar meu carro.

Daniel soltou um pequeno riso nervoso.

— Combinado.

Ajudou Lucas a subir na caminhonete. O motor pegou de primeira, um ronco reconfortante, quase musical. Enquanto manobrava para fora da clareira, Daniel lançou um último olhar para trás, para a trilha por onde haviam vindo.

— Não sei se o mundo vai acreditar em nós algum dia. — Declarou, num tom que misturava pesar e fascínio — Mas eu nunca vou esquecer o que vivemos aqui.

Lucas estendeu a mão boa e apertou o braço dele.

— Eu também. E por agora… isso é tudo o que importa.

Então aceleraram, deixando para trás as sombras da montanha, os fantasmas da cidade romana, e o sangue que manchara o sertão. Seguiram pela estrada poeirenta rumo à cidade mais próxima, ao hospital, à polícia — e quem sabe, depois, a uma cerveja gelada e uma boa noite de conversa jogada fora. Cada quilômetro parecia levar consigo um pouco do peso terrível daqueles dias. Não tudo — certas coisas ficariam para sempre dentro deles — mas o suficiente para permitir que ainda sonhassem.

E para Daniel e Lucas, naquele momento, isso era mais do que suficiente.