A Cidade Escolar
4 O Aluno Transferido. (03/04)
Parte 3
Escola Sant'Angelus, dia seguinte:
— Isso pode ser repentino... Mas a partir de hoje teremos um novo aluno estudando conosco. Ele chegou há pouco tempo então não está acostumado com a Cidade Escolar, por isso eu espero que vocês possam se dar todos bem. Muito bem, você pode entrar.
Chamou Flamel olhando para a porta por onde Riley passou e ficou ao lado dele.
— Esse é Riley e ele irá participar de nossas aulas a partir de hoje, espero que se deem bem com ele. Você pode se sentar em lugar vazio.
Os alunos murmuravam a respeito do garoto enquanto ele vasculhava a sala procurando por uma carteira vazia até que avistou uma ao fundo.
Ele seguiu a passos calmos até perceber a figura de uma garota de cabelos negros que estava sentada ao lado da janela olhando para fora distraidamente.
Hm? Será que é a mesma de ontem...? Não, isso deve ser apenas imaginação minha.— disse a si mesmo enquanto andava até o fim da sala.
Ao lado da garota estava à carteira vazia no qual ele se sentou. Ele se virou para a garota e a observou.
"O que ele está fazendo?", "Esse cara é louco?", "Alguém avise ele, rápido!".
Era o que alguns alunos conversavam baixinho, mas no fim ninguém fez nada e aula prosseguiu sem maiores interrupções.
— Arthur, como vice-representante de sala, mostre a escola para Riley. Mesmo não parecendo, ele tem um péssimo senso de direção. Então o ensine pelo menos o básico para que ele não se perca dentro da escola.
— Entendido.
Arthur era um garoto de aparência responsável, mas que expressava um olhar gentil também.
Seus cabelos claros à altura do pescoço eram macios, sedosos e cobriam a parte entre os olhos castanhos; ele devia ser alguns centímetros mais baixo que Riley.
Após se apresentar a Riley, eles andaram exatamente por toda a escola e durante todo o caminho Riley escrevia as informações que Arthur lhe dava em um pequeno caderno de notas.
Essas informações eram: qual caminho seguir para chegar até a entrada da escola, qual caminho seguir para chegar até a biblioteca, que corredor virar para chegar a sala de aula, tais como outras informações similares.
A escola possuía quatro prédios com cerca de três andares cada um.
Um desses prédios era somente para os clubes escolares.
O outro possuía salas de computação, a enfermaria, a biblioteca, a sala de exposições da feira de ciências da escola, uma sala que continha o histórico completo da escola desde sua fundação assim como algumas das invenções que ganharam o primeiro lugar na exposição cientifica e tecnológica da Cidade Escolar, a sala dos professores, a diretoria, a pedagogia e também o refeitório.
Os outros dois prédios se resumiam apenas em salas de aulas.
Atrás dos prédios havia os ginásios esportivos, como os de basquete, vôlei e o de futebol de salão que às vezes também era usado para queimada e handball.
Também havia o campo de futebol, campo de beisebol, quadra de tênis, piscinas e pistas de corrida.
Após andarem por todos os lugares da escola — incluindo também o terraço e o porão -, eles finalmente param para descansar um pouco.
— Acho que isso é tudo.
— Essa escola é bem grande e bem exagerada também.
— Ouvi dizer que o diretor prioriza bastante a qualidade de ensino e convivência escolar dos alunos.
— Hm... Acho que compreendo o porquê desse lugar ser extremamente grande.
— Bem, agora que já lhe mostrei a escola, que tal irmos ao refeitório, soube que hoje eles terão torta de morango no cardápio.
Embora não aparentasse, Arthur era uma pessoa completamente apaixonado por doces — assim como Riley. Ambos seguiram para o refeitório onde os alunos estavam reunidos.
Arthur e Riley literalmente batalharam contra os outros alunos que estavam tumultuados, eles tiveram de imobilizar pelo menos duas pessoas para que pudessem conseguir pegar uma das tortas de morango.
Aquela cena mais lembrava a disputa mortal por um prêmio do que a disputa por uma fatia de torta de morango.
Enquanto os garotos saíam vitoriosos com o seu premio — uma fatia de torta de morango para cada um — o tumulto atrás deles simplesmente parou.
Os alunos abriram um caminho pelo qual uma única garota passou, pegou uma fatia de torta de morango e saiu; após isso os alunos voltaram a batalhar novamente — como Riley e Arthur estavam distraídos procurando um lugar para sentar, não presenciaram aquela cena.
— E então, o que está achando da nossa escola?
Perguntou Arthur ao se sentar em uma das mesas vazias que havia ao fundo do refeitório.
— Bem, até agora me parece um lugar muito agradável e divertido. Parece que irei me divertir bastante por aqui.
— Oh. Espere até você ver o festival escolar em dezembro.
— Festival escolar?
— Sim. É um evento que reúne todas as escolas em vários tipos de disputas, torneios, campeonatos e várias outras coisas por durante uma semana completa.
Arthur pareceu extremamente animado enquanto explicava para Riley que comia sua fatia de torta de morango alegremente.
— Mas na minha opinião, o melhor de todos os é o tornei avaliativo que ocorre no terceiro dia de eventos.
— Tornei Avaliativo?
— Sim, é um torneio onde os candidatos se inscrevem para mostrar suas habilidades físicas e no manuseio de Spirituali. Mas somente alunos do ensino médio podem participar e o vencedor ganha um milhão de créditos e o direito de subir de nível.
— Créditos? Subir de nível? Não estou entendendo muito bem...
— Como você é novo aqui provavelmente ainda não realizou todos os procedimentos. Bem, explicando de uma forma mais simples, todas as pessoas da Cidade Escolar ganham um cartão-identidade e nesse cartão estão cadastradas todas as informações do usuário, algo como um tipo de banco de dados.
Arthur mostrou o seu para Riley.
Era um cartão metálico e dourado com um total de doze números no canto inferior esquerdo, na parte superior havia a foto de Arthur e atrás do cartão havia um pequeno retângulo onde estava uma marca de digital — provavelmente do polegar de Arthur.
— Mas esse cartão não tem apenas essa função, ele também funciona como um cartão de créditos onde todo mês é depositada uma quantia igual para cada aluno dependendo de seu nível. Normalmente os alunos de nível 01 recebem cerca de 720 créditos por mês, e esse valor aumenta conforme seu nível; os de nível 02 recebem 3.000 créditos por mês e assim em diante.
— O valor aumenta conforme o nível.
Murmurou Riley, mas Arthur pareceu não tê-lo escutado, já que continuou com sua explicação.
— Os níveis permitem vários tipos de benefícios aos alunos e professores. Esses níveis são de 01 a 05 e são divididos da seguinte forma: 01 são os alunos, 02 são membros do conselho estudantil, 03 são os professores, 04 são os diretores e 05 são os que estão acima dessa hierarquia. Não se sabe muito sobre os desse nível, mas alguns dizem que o Diretor-geral de toda a Cidade Escolar é um nível 05, assim como a Elite Dez também, mas eles agem sob as ordens do Diretor-geral, por isso não se sabe muito sobre quem são seus membros exatamente.
— Elite Dez?
— Sim, é um grupo de dez alunos que formam um tipo de corte onde todas as decisões e problemas da Cidade Escolar são tomados e resolvidos. Eles também são membros das Doze Famílias Principais — os descendentes dos doze monges que ensinaram a humanidade a usar Spirituali.
Riley parecia estar bem interessado nesse assunto, pois ele não piscou um minuto sequer durante a explicação de Arthur.
— A cada ano eles realizam um duelo pelo titulo de novo presidente. É algo relacionado à formação do atual presidente, quando um presidente é eleito ele fica no poder até sua formatura, mas como isso não é limitado apenas aos alunos do primeiro ano, os alunos do segundo ano também disputam essa posição.
Arthur estava tão concentrado em sua explicação que esqueceu até mesmo de comer sua fatia de torta de morango.
— Por exemplo, se você está no segundo ano e ao final do ano você disputar pelo lugar de presidente e vencer, no ano seguinte quando entrar no terceiro ano já irá entrar ocupando o cargo de presidente da Elite Dez.
— Mas pelo que você falou, parece que isso é apenas limitado a eles. Como se apenas eles pudessem disputar por essa posição de presidente.
— Não exatamente. Outros alunos também podem disputar com eles e isso ocorre durante o Torneio Avaliativo, mas como eles são membros das Famílias Principais, suas habilidades e manipulações de Spirituali estão em um nível totalmente diferente. E também há muitos outros fatores envolvendo o caso da presidência.
— Compreendo. Mas voltando ao eixo principal da conversa, quais os benefícios que são adquiridos ao subir de nível e como isso ocorre?
— Bem, como eu expliquei há pouco a forma como os níveis são divididos, existem duas formas. Primeiro: você pode ocupar um dos cargos que citei antes, aluno, membro do conselho estudantil, professor, diretor, Diretor-geral e membro da Elite Dez.
Atualmente sou um aluno, então suponho que meu nível seja 01.— pensou Riley.
— Ou segundo: você pode entrar no Torneio Avaliativo e vencer, podendo assim ocupar o cargo de presidente. Mas caso você fique em quinto lugar, poderá disputar com o último lugar da Elite Dez, e se vencer, poderá ocupar uma vaga entre eles, ou seja, pular do nível 01 ao nível 05, mas creio que essa seja a mais difícil de alcançar.
Compreendo... É uma boa maneira pra se saber se tem a capacidade de subir de nível ou não.
— Os benefícios ao subir de nível lhe permitem a entrada em novas áreas da Cidade Escolar, como a biblioteca de Alexandria, que é o maior prédio de toda a cidade e está localizada exatamente no centro. Os alunos de nível 01 e nível 02 só tem permissão para irem até certo andar, enquanto os de nível 03 e 04 podem ir a andares mais elevados, mas só até certo ponto, a parti daí somente os de nível 05 podem prosseguir.
Biblioteca de Alexandria...? Ah, aquele prédio grande que vi ontem à noite enquanto procurava pelo dormitório masculino.— lembrou-se Riley enquanto imagens da noite anterior surgiam em sua mente como flashes.
— Há um boato de que ninguém sabe exatamente quantos andares a biblioteca de Alexandria tem, já que ela possui todo o conhecimento adquirido pela humanidade desde muito tempo atrás, mas certa vez um grupo de alunos tentou descobrir exatamente quantos andares ela possuía e o quão vasto ela era, e dizem que eles passaram meses e não conseguiram encontrar um limite dentro dela. Isso contribuiu para que ela fosse conhecida como um dos sete mistérios da Cidade Escolar.
— Oh, acho que entendi. Mais uma coisa, como a Spirituali é tão conhecida por aqui?
— Bem, isso é fácil de explicar e está gravado na história mundial. Como no início apenas doze pessoas não podiam enfrentar uma raça de anjos sozinhos, eles ensinaram as pessoas a manipular a Spirituali, e assim essas pessoas ensinaram outras pessoas e assim por diante seguindo o exemplo de uma pirâmide decrescente.
Entendo. Então é por isso que aqueles dois de ontem pareceram surpresos quando citei sobre isso.
— Aqui na Cidade Escolar é muito comum para as pessoas usarem Spirituali no dia a dia, aliás, ela faz parte do cotidiano de 90% das pessoas daqui, já que existem escolas que são próprias para o ensinamento dessa área. Mas não são todos que possuem aptidão para manipular essa energia e por isso abdicam esse poder e passam a viver como simples humanos normais. Simplificando, aqui na Cidade Escolar a Spirituali é usada em larga escala.
— Oh, entendi.
Riley se lembrou do pequeno confronto que teve noite passada e ao se espreguiçar, virou o rosto e notou uma figura familiar sentada numa mesa sozinha e afastada de todos os outros alunos.
— Oh, então era realmente ela. Não imaginei que ela estudasse aqui.
— De quem está falando? Ei, onde está indo?
— Yo.
Saudou ao se aproximar da garota de cabelos negros que comia distraidamente sua fatia de torta de morando.
Ela lentamente levantou a cabeça surpresa com a saudação, já que ninguém nunca fez aquilo antes, mas depois virou o rosto ignorando completamente o garoto.
— Completamente ignorado...
Lamentou-se Riley espatifado sobre a mesa.
— Desista, eu o aconselho. Nebrissa... Ela nunca fala ou anda com ninguém e prefere ficar sozinha, muitas vezes as pessoas nem sequer percebem sua presença.
— Como assim?
— Ela sempre senta ao fundo da nossa classe e nunca fala com ninguém, mas suas notas são perfeitas. Ela está entre os melhores dessa escola, assim como a presidente do conselho estudantil, a nossa representante de sala e eu.
— Então ela se afasta do outros por isso? Orgulho ou narcisismo?
Riley parecia um pouco preocupado.
— Não, e também não parecer ter relação alguma com isso. Assim como você, ela também entrou nessa escola ainda esse mês, mas ouvi dizer que na escola onde ela estudava antigamente todos a evitavam por sempre ser a preferida dos professores, ou seja, os alunos a isolaram do resto da turma, ou melhor, da escola por ela ser completamente perfeita no que fazia.
— Entendo.
Riley levantou-se mais uma vez e indo em direção a ela.
— Você não desiste, não é?
— Olá.
Saudou Riley novamente, mas a garota o ignorou completamente, o que o fez manter um sorriso azedo.
Nebrissa se levantou e passou pelo garoto ainda o ignorando completamente, mas ao passar tão próximo a ele, quase o tocando, ele sentiu uma incrível energia emanar dela.
Uma energia que o fez sentir calafrios.
Riley engoliu em seco enquanto uma gota de suor frio escorria por seu rosto.
— Viu só? Eu disse que ela não fala com as pessoas.
Arthur se aproximava por trás do garoto que estava paralisado, o loiro segurava a pequena colher de metal em sua boca enquanto falava.
— Não é muito incomum você ver grupos de garotas fofocarem ou espalharem boatos sobre ela, também é bem normal ver garotos se confessarem a ela e serem completamente ignorados... Ei, você está bem?
Mas o que diabos foi aquilo...? Aquela energia insana. Era como se ela estivesse guardando uma espécie de besta selvagem dentro dela...
— Ei, cara, você está bem? — Arthur lhe tocou o ombro.
— Ah! Ah, sim, sim, eu estou bem.
— De toda forma, é melhor não se aproximar muito dela, dizem que aqueles que a perseguem por muito tempo acabam sofrendo um grande acidente.
—...
De alguma forma, Riley se sentiu preocupado com aquela garota.
Ele não era o tipo de pessoa que forçaria a barra para cima de alguém, mas também não hesitaria em ajudar alguém quando sabia que a pessoa estava precisando de ajuda.
E para ele, Nebrissa parecia pedir por ajuda, mas havia algo que lhe empatava de dizer aquilo. E era isso o que o garoto ainda não sabia dizer o que era.
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