A Cidade Escolar

16 Assuntos Escolares. (02/06)


Parte 2

Sala de Economia Doméstica:

As aulas de Economia Doméstica aconteciam no terceiro período da manhã, pouco antes do almoço, então os alunos normalmente almoçavam as refeições que eles mesmos preparavam durante as aulas.

— Escutem bem, meus adoráveis alunos, cozinhar não é apenas cozinhar, cozinhar envolve paixão e calor. Para se alcançar o sabor perfeito vocês precisam colocar todo o seu amor enquanto cozinham e adicionar o calor de seus sentimentos enquanto preparam os ingredientes. Cozinhar é uma arte, cozinhar é uma dadiva divina!

Dizia o professor enquanto preparava a massa de um bolo rapidamente, ele adicionava os ingredientes numa velocidade incrível e assustadora ao mesmo tempo.

— Agora eu quero que vocês, meus amados alunos, deem o melhor de vocês para preparem uma refeição maravilhosa, usem toda sua paixão enquanto a preparam, entenderam. Eu irei provar de uma por uma e então direi se vocês são dignos de serem meus queridos alunos. Formem grupo de quatro pessoas.

— Evangeline, você gostaria de fazer parte do nosso grupo.

— Ah, Arthur, eu ainda não tinha te visto hoje.

Evangeline possuía longos cabelos carmesins e olhos amendoados, sua feição era serena e possuía um sorriso natural; era mais baixa que os garotos, mas parecia ser mais matura que eles.

Em nível de beleza não ficava muito atrás de Nebrissa, apesar de possuir curvas menos volumosas.

— Ah, deixe-me apresentar ele, esse é...

— Riley Salvatommis, quinze anos, foi transferido há pouco mais de uma semana, recebeu suspensão por ter cometidos atos de violência...

Violência? — perguntou-se ele. O que diabos Flamel disse para o Conselho Estudantil?!

—... Obteve as maiores notas no exame de admissão e atualmente é virg...

— Isso não é bom, Evangeline, você é representante de classe, mas não é necessário que saiba tudo a respeito dos alunos, até mesmo informações pessoas e íntimas.

Arthur tapou a boca de Evangeline com as mãos enquanto sorria e lhe dava um sermão, mas mesmo assim ela não alterou sua expressão serena ou mudou seu sorriso.

Espere aí! Ela ia dizer virgem, não ia? Hm!!! E como é que ela sabe disso!?

— Ahahaha... Muito prazer, eu sou Riley, vamos estudar juntos daqui pra frente, então vamos nos dar bem.

— Muito prazer, Sr. Virgem, eu sou Evangeline, vamos nos dar bem de agora em diante.

— Ei!

Arthur gritou repreendendo a garota.

Por que agora meu nome virou Virgem? Hein, por quê!? Essa escola está cheia de gente esquisita!

— Evangeline não se dá muito bem com garotos, por isso ela age assim, então não fique bravo com ela por causa disso.

— Ela parece se dar bem com você.

— Se você soubesse os nomes que eu tive de escutar para chegar até aqui, com certeza daria um livro.

— Muito bem, todos já formaram seus grupos? Alguém ficou de fora. Você aí, linda jovem, por que está sem um grupo?

— Todos parecem estar ocupados.

— Não, não, não, não. Você não pode ficar de fora, todos têm que participar, senão não há o calor dos sentimentos quando estiverem preparando as refeições. Veja, aquele grupo ali só tem três pessoas, você está com sorte, vamos lá.

— Tsc, aquela vadia está vindo pra cá.

Eh? Por que a representante de classe está agindo como alguém rebelde?!— Riley se perguntou enquanto notava Evangeline virar o rosto para xingar Nebrissa. E por até a Nebrissa está com um olhar de nojo e repugnância no rosto?!

— Arthur... Err... Será que... Hã... Por acaso essas duas... Será que elas não...

— Como você pode ver, elas não se dão bem.

— Como é?!

— Parece que elas são como rivais, bem, começaram a ser desde o dia em que Nebrissa chegou aqui.

— Não pense que vai se sair melhor do que eu aqui só porque ficou em primeiro lugar nos simulados.

Provocou Evangeline.

— Hoho, então você vai querer duelar comigo aqui? Ótimo, assim irei te mostrar quem é a melhor na frente de todo mundo aqui.

— Pode vir.

Riley e Arthur, que apenas observavam tudo calados, não puderam evitar alguns comentários depois daquilo.

— Parece que elas realmente não se dão bem, não é? E por que é que eu consigo ver chamas saindo dos olhos delas?

— Esse é o poder da determinação que elas possuem.

— Uou, por algum motivo eu sinto que o clima esquentou bastante aqui.

— A propósito, Riley, você sabe cozinhar?

— Hm... Sim, mas por que você quer saber?

— Eu não sei cozinhar.

— Hã? HÃ?!

...

Após o professor dar o sinal de que todos podiam começar, Nebrissa e Evangeline se posicionaram e começaram a cortar os legumes em uma velocidade extraordinária.

As duas pareciam mais uma maquia de retalhar do que alunas com aventais, e era incrível a precisão com que elas cortavam todos os pedaços de cenoura e batata que possuíam o mesmo tamanho e chegava a ser impossível de acreditar que um humano tinha feito aquilo.

E enquanto as duas cortavam os legumes para preparar o prato que foi escolhido por Arthur, que foi pego de surpresa e respondeu a primeira coisa que lhe veio à cabeça — ensopado de carne com legumes -, podia-se ver uma aura em chamas emanar das duas.

— Err... Garotas, eu acho que deveríamos nos ajudar para poder preparar a refeição, não há sentido em competirmos se estamos no mesmo grupo.

Riley tentou fazê-las parar de competir, mas fracassou completamente e logo foi xingado pelas duas ao mesmo tempo.

— Calado, seu virgem!

— Calado, careca!

Hã?! Por que agora o fato de eu ser virgem virou uma forma de xingamento? E por que careca?

— Riley, desista, quando essas duas começam a disputar, não tem ninguém que as pare.

— E se pedíssemos ao professor Carlyle?

— Veja.

Arthur apontou para a direção onde o professor estava.

— Ah, ah, meus alunos finalmente entenderam o que é colocar o calor dos sentimentos na hora de cozinhar, eu estou tão feliz. Mamãe, eu não tenho mais nada para ensinar, agora eu finalmente posso morrer em paz.

— Por que é que ele está tão feliz quando duas de suas alunas estão emanando chamas pelos olhos? Se reparar melhor, vai perceber que apenas elas duas estão nisso, os outros alunos estão cozinhando normalmente.

— Riley, deixando aquelas duas de lado, como eu não sei cozinhar, você vai ter que ficar responsável por essa parte. Ah, mas eu posso ajudar na hora de cortar os legumes ou preparar os ingredientes.

— Hm, acho que numa ocasião como essa talvez um prato simples seja melhor. Certo, irei preparar hambúrgueres cozidos, tudo bem pra você?

— Sim, nenhuma objeção quanto a isso.

— Certo, então vamos começar. Primeiro pegue os ingredientes que eu citar.

— Entendido.

Arthur pegou todos os ingredientes que Riley citou e os deixou próximo do garoto enquanto ele temperava e preparava a carne.

— Riley, o que você está fazendo?

Perguntou o amigo curioso.

— Ah, isso, eu estou prevenido que a carne não se despedace na hora de cozinhar. Fazer bolas de carne e depois as jogar dessa forma tira o ar que está dentro, e isso faz com que a carne não se solte quando está cozinhando.

Riley explicava enquanto fazia uma pequena bola de carne e a atirava de uma mão para a outra rapidamente, e enquanto os dois preparavam um prato, Nebrissa e Evangeline continuavam disputando acirradamente no outro lado.

— Você é realmente bom com essas coisas, como foi que aprendeu?

— Quando eu era mais novo eu encontrei um livro de culinária, então pedi a alguém que sabia cozinhar para me ensinar a prepara as receitas daquele livro. Eu acabei gostando e comecei a praticar mais até que um dia consegui preparar as receitas sozinho.

— Alguém sabia cozinhar? Vocês tinham um cozinheiro na sua família?

— Sim, um chefe de cozinha mestrado.

— O quão surpreendente você consegue ser?!

— Hã? Isso é tão incomum assim?

— Mas é claro que sim. Quem teria um chefe de cozinha com mestrado trabalhando em casa?

— Meu pai um dia apareceu em casa e disse que tinha contratado um cozinheiro de um restaurante que ele foi enquanto viajava a trabalho, então eu meio que acostumei com isso. Embora ele tivesse a mania de criar pratos birrazos...

— Afinal de contas, o quão radical sua família é?

— Certo, agora só precisamos deixar cozinhar por um tempo e logo estará pronto.

— Oh, nada mal, e pelo cheiro também parece estar muito bom.

— Hehe, cozinhar é uma das minhas maiores especialidades.

— Oh! Oh! Oh! Maravilhoso! Esplendidamente maravilhoso! Esse doce aroma da carne banhada por um molho perfeitamente balanceado. Ah, que maravilhoso.

— Professor Carlyle, não nos assuste dessa maneira!

— Eu sinto muitíssimo, mas quando esse delicioso aroma alcançou meu nariz não pude evitar de segui-lo até sua origem.

— Certo, vou entender isso como um elogio. E falando nisso, poderia dar um jeito naquelas duas ali? De algum modo elas fugiram completamente da receita.

— Hahaha! Eu não perderei para alguém com peitos de vaca como você!

— O que meus seios têm a ver com isso? Não me culpe por possuir dois pães de queijo no seu peito.

— Ora sua...! Eu vou acabar com você!

— Pode vir! Eu irei te mostrar quem é a melhor cozinheira daqui!

As duas garotas estavam em chamas enquanto cozinhavam, e assim como Riley havia dito, elas fugiram completamente da receita original; estavam acrescentando ingredientes de acordo com suas intuições.

— Isso não vai acabar bem.

— Hm, por você diz isso, Riley?

— Bem, é fácil deduzir isso por aquela fumaça negra saindo das panelas.

— Ah, entendo.

— E se você reparar direito, aquilo já não é mais nenhum um tipo de comida feita nesse mundo, é apenas uma matéria escura e completamente desconhecida.

As duas continuavam a acrescentar ingredientes que não tinham relação alguma com a receita até que, ambas as panelas simplesmente explodiram e liberaram uma espécie de gás que fez com muitos alunos ali desmaiassem, inclusive o professor.

Todos correram para fora da sala imediatamente pouco antes que a sala ficasse completamente lotada com aquele gás desconhecido.

Riley, utilizando uma máscara de gás que inesperadamente estava em um dos armários, abriu todas as janelas e fez com que o gás desconhecido juntamente com a cortina de fumaça negra que cobria a sala se dissipassem.

Quando todo o gás e a cortina de fumaça negra se dissiparam completamente e o ar dentro daquela sala voltou a ser respirável novamente, a figura de Evangeline e Nebrissa surgiu, ambas estavam com os rostos e roupas chamuscadas e com algumas partes queimadas.

— Fazer com que um ensopado de carne e legumes exploda é algo incrivelmente impressionante.

Comentou o garoto ao tirar a mascara de gás e observar atentamente a figura das duas garotas que tinham seus rostos cobertos pelos cabelos, ambas não disseram uma palavra sequer.

— Olha só, vocês não precisam...

— Xiu, não diga mais uma palavra sequer, seu virgem...

— É, não diga mais uma palavra...

As duas pareciam em total concordância naquele momento.

— Afinal de contas, como foi que elas conseguiram fazer com que um ensopado de carne com legumes explodisse?

— Nem me pergunte, e quanto aos hambúrgueres cozinhando, Arthur?

— Estão salvos, eu tampei a panela antes que aquela fumaça negra se espalhasse.

— Bom trabalho.

Arthur andou até as panelas onde as duas garotas estavam cozinhando e olhou atentamente o que havia sobrado do que era pra ter sido algo comestível, e tudo o que havia ali era apenas uma mancha escura e totalmente desconhecida, talvez fosse até mesmo um material nunca descoberto na Terra antes.

— Que droga é essa?!

— O que foi, Arthur?

— Você já reparou nisso aqui?

— Ainda não, deixe-me ver... Uau! Como foi que elas conseguiram fazer isso? Espera! Se olhar direito vai perceber que tem um rosto gritando de agonia aí dentro!

— Rápido! Pegue um celular ou uma câmera digital, eu tenho que fotografar isso e publicar em algum lugar! Posso até mesmo ficar famoso... Urgh!

— Não brinque com isso!

Exclamara as duas garotas ao mesmo tempo enquanto acertavam um forte chute nas costas do loiro que foi ao chão violentamente; as duas garotas que alguns minutos atrás estavam eu ritmo de disputa, agora estavam em perfeita sincronia.

...

— Eu sei que vocês duas queriam saber quem era a melhor na cozinha, mas não precisam ficar assim só porque estragaram a receita.

— Ei, peituda, o que vamos fazer com isso? Jogar fora?

— Por que você não come o que preparou?

— E quanto a você?

— Não, nem pensar, ainda não quero morrer.

— Ah, é. O mesmo aqui. Por ora vou jogar isso no lixo.

— Ei! Não coloque isso na boca do professor enquanto ele está desmaiado!

— Hm, por que não? Não é o mesmo que um cesto de lixo

— Claro que não! A propósito, por que esse desprezo por homens?!

— Porque todos os homens deviam morrer.

— Ei! Madame, você não está exagerando?!

— Por ora vou pegar alguma coisa para comer em uma maquina de vendas.

— Ai, ai. Parece que não tem jeito mesmo. — Riley suspirou — Aqui, eu preparei algumas porções a mais, então vocês duas podem comer conosco.

— Mas não era esse o objetivo aqui, preparar algo em grupo para depois comerem?

— Sim, eu também não entendo porquê ele diz que podemos comer junto deles, pois nós teríamos de fazer isso desde o inicio, não é?

— Não eram vocês duas que estavam disputando mais cedo para ver quem é a melhor?!

Resultado da disputa culinária entre Nebrissa e Evangeline: nenhuma das duas sabe cozinhar.

— Ah, Riley, você estava aí então?

— Hm, And, gostaria de se juntar a nós?

— Ah, claro, nós também preparamos algo no nosso grupo, e o que foi que vocês prepararam?

— Hambúrgueres cozidos.

Riley servia as poções nos pratos para as garotas, Arthur havia sido obrigado a provar o que elas haviam feito, e por esse motivo teve de correr apressadamente para o banheiro.

— Oh, pelo cheiro parece estar delicioso.

— Obrigado, Lucia. O que foi que vocês preparam?

— Bife acebolado com arroz e omelete.

— Hein! Isso não é um pouco pesado demais? Sempre achei que as garotas tivessem preocupações com o peso.

— Ah, na verdade todas as garotas do nosso grupo estão no clube de judô, por isso sempre queimamos muitas calorias todos os dias enquanto treinamos e praticamos. E também, And e eu não ganhamos peso assim tão facilmente, não importa o quanto comamos.

— Isso deve ser maravilhoso para vocês... Hein? Porque as duas aí ficaram quietas de repente? E por que estão evitando contato visual?! Nebrissa, não me diga que você...

— Calado, careca, você não entende os sentimentos de uma garota quando prova algo delicioso e não consegue parar de comer tão rápido... É um sentimento pesado e triste você saber que toda aquela alegria de comer algo delicioso vai pesar na balança mais tarde...

— Um grande virgem como você não entende como é se sentir assim... Não fique se achando só porque consegue cozinhar algo delicioso!

— Eh?! Por que você está irritada comigo? E isso foi um elogio ou uma critica?!

Enquanto o grupo se divertia com as implicâncias e respostas atiradas que Riley dava contra as garotas e o oposto também, de fora da sala a figura de um homem usando jaleco branco observava tudo; ele fumava um cigarro com a menor das menores preocupações.

— Parece que ele está se dando bem com todo mundo, e também fez alguns amigos bem rápido logo depois de chegar aqui. Você não precisava se preocupar tanto assim a ponto de manda-lo até mim como ultimo pedido de vida...

Ele soprou uma pequena nuvem de fumaça para cima enquanto parecia olhar para muito distante dali, e soprou em homenagem a alguém que não es¬ava mais entre eles.

—... Professor, meu velho amigo...

Ele apagou o cigarro na parede do corredor, colou as mãos nos bolsos do jaleco e desapareceu enquanto caminhava por aqueles corredores.