A Chave-estrela
7 No qual Haru percebe o quanto é fraco
Notas iniciais
Espero que gostem! *-*'
Boa leitura!
O plano estava tomando forma exatamente como Haru o planejara. Ele e Liam seguiram pela estrada pela qual o garoto havia chegado ao Reino da Floresta. O caminho tortuoso adentrava o conjunto de árvores e arbustos escurecido pela noite sem estrelas da Terra de Lá. O elfo contou que os adultos sabiam que as crianças desapareciam quando estavam na floresta, então a melhor maneira de capturá-lo será caminhar pela estrada que levava ao Reino das Flores.
E, de fato, eles não demoraram a perceber um homem aproximar-se deles.
Ele tinha uma barba espessa, ruiva, a mesma cor de seu cabelo, cortado rente à cabeça. Os olhos pequenos, de cor verde, que encaravam os meninos, causavam-lhe arrepios. Havia algo naqueles orbes que lhes dava uma sensação de desconforto. O homem não era tão alto. Em verdade, era poucos centímetros mais altos que os garotos. Mas era forte, robusto, e sua barriga parecia uma montanha para Haru.
O homem abaixou-se, para ficar na altura dos olhos dos meninos, um sorriso estampado em seu rosto redondo. Não era um sorriso amigável, porém. Não era como os sorrisos inocentes que Haru e Liam. Ele pigarreou e tocou o ombro do humano.
– Olá, meninos – cumprimentou-os. – O que estão fazendo na floresta à noite?
Os dois ficaram calados, apenas encarando o rosto de expressão falsa do homem. Haru perguntava-se por quanto tempo ele conseguia manter um sorriso daquele.
– O que acham de vir comigo? — a mão sobre o ombro do garoto fechou ligeiramente. – Preciso de sua ajuda.
Liam estava levemente assustado. Seus enormes olhos verdes fitavam o rosto robusto do homem. Haru lançou seus orbes azuis para a mão que lhe segurava. A cada minuto que se passava, o aperto ficava mais forte, fazendo seu rosto contorcer-se em dor. A outra mão do homem foi ao bolso de sua calça, e ele retirou uma pequena pedra amarela, que brilhava forte hipnotizantemente, contra o rosto dos meninos.
Os olhos de Liam não possuíam mais um simples tom de verde; eram feitos de amarelo, azul, verde, escarlate e violeta; eram uma mistura de brilhos e cores. Haru tentou não fitar a pedra; ele vira que o elfo ficara hipnotizado por ela e tinha um mau pressentimento sobre isso. Contudo, fizera de tudo para o homem não perceber que seu olhar não estava focado na pedra. Io tremelicou em seu capuz.
Ao perceber que o elfo estava completamente hipnotizado, o homem fechou a mão em torno da pedra. Seu sorriso transfigurou-se em malícia, como Haru pôde perceber. Ele soltou seu ombro. O garoto tentou perceber cada movimento do elfo ao seu lado, a fim de fingir estar, também, preso ao feitiço que o homem havia lançado. O plano estava correndo exatamente como queria.
Haru planejara, assim que ouviu a história de Liam, que serviria de isca para quem quer que estivesse sequestrando os elfos pequenos. Não imaginara que o homem hipnotizava as crianças e teve que pensar no mesmo momento como poderia se esquivar. Sorte a sua que Liam havia prendido a atenção do homem. Ele até mesmo havia segurado o ombro de Haru para ter certeza de que ele não fugiria, enquanto fixava seus olhos em Liam.
O homem andava à frente deles, e Liam foi logo atrás. Haru seguiu-os um pouco mais devagar. Levou-os a uma cabana de madeira, que ficava entre inúmeras árvores. Não era uma casa do Reino da Floresta, pois não estava localizada em nenhuma clareira e, provavelmente, fora construída após muitas árvores serem derrubadas. O homem pediu que os meninos entrassem e, logo, fizeram-no. Ele não os seguiu, e não havia porta alguma na casa.
Haru olhou ao redor. Havia muitos outros elfos naquele lugar, e todos possuíam olhos que refletiam todos os brilhos e cores do mundo. Liam sentou-se no chão de madeira e encostou suas costas à parede, mirando o nada. Haru estalou os dedos na frente dos olhos do elfo, mas ele não reagiu. Io saltitou para cima do colo de Liam. O menino estranhou; o lumpy não gostava de ficar perto de outras pessoas. Ele abaixou-se para mirar seu primeiro amigo e assustou-se.
Io também estava hipnotizado.
Shuu tentara entrar várias vezes na cabana. Porém havia algo parecido com uma barreira ao seu redor. Era impossível adentrá-la, e ele perguntava-se como as crianças passavam por aquela magia. Ele aproximou-se da entrada. Sempre mirava o interior, via os elfos pequenos, estáticos, como se algo os prendesse ali. Ainda não entendia o que o homem pretendia fazer com aquelas crianças.
Então, chegou à porta. Os dois encararam-se por um longo tempo, até que finalmente Haru disse:
– O que faz aqui?
Shuu levou sua mão à barreira e sentiu-a entre seus dedos. O menino também pôde senti-la.
– Isso não estava aqui, quando eu entrei – Haru comentou. Seus dedos formigavam contra a magia. – É o mesmo tipo de barreira que prende as crianças dentro do Reino da Floresta.
– Como você saiu de lá?
Haru tinha a mesma altura de uma criança élfica. Era impossível ele enganar a barreira. O menino entendeu o que estava implícito na frase de Shuu e lançou-lhe um olhar ligeiramente irritado.
– Eu fui mais inteligente que um monte de elfos – disse.
Shuu revirou seus olhos.
– Estou falando sério. Temos que descobrir como tirar as crianças desse lugar!
– É impossível, garoto – uma voz atrás do ladrão pôde ser ouvida.
Shuu virou-se o mais rápido que pôde, mas não conseguiu escapar da pancada em sua nuca. O homem poderia ser baixo, mas sua força equivalia à altura que lhe faltava. Haru pôs a mão sobre a boca, assustado, quando viu o ladrão cair contra o chão de terra, desacordado. Ele gritou seu nome, mas era inútil. Tentou, mais uma vez, sair da cabana. Contudo, a barreira prendia-o dentro. Quando ele entrara, ela não estava lá. Por que, justo naquele momento, deveria estar?
Haru amaldiçoou o homem diversas vezes, enquanto ele arrastava Shuu para a parte de trás da cabana. Os pequenos olhos verdes dele miraram o menino.
– Você é um garoto travesso, tentando enganar o velho Ellyon. Quando eu terminar com seu amigo, será sua vez – então, ele desapareceu de seu campo de visão.
Quando Shuu acordou, estava ajoelhado contra um piso de madeira. Suas mãos estavam presas a correntes, que o prendiam a uma parede. Tentou mexê-las e soltar-se, mas era impossível. Estava apertado. Então, observou os arredores inutilmente. O local estava deveras escuro, impossibilitando o garoto de enxergar um palmo à sua frente. Seu ouvido aguçado, por outro lado, conseguia ouvir a respiração de uma pessoa.
– Quem está aí? – perguntou.
O vento passou, assobiando, por uma fresta da parede de madeira, mas não houve resposta alguma por parte da pessoa. Ele tentou mais uma vez, e, da mesma forma, nada acontecera. Mexeu novamente em suas correntes. Todo esforço para soltar-se ou conversar com quem estava ali era ineficaz. Shuu praguejou e jogou a cabeça para baixo.
Ele não devia se importar com as outras pessoas. Era perigoso demais.
O homem voltou à cabana, assim que prendeu o garoto nos estábulos. Juntamente ao outro moleque que havia tentado arruinar seus planos. Logo, eles teriam o mesmo destino. Ele encontrou o menino de cabelos dourados exatamente onde o havia deixado: na entrada da casa. Havia lágrimas grandes a banhar seus olhos azuis. O homem abaixou-se e lançou-lhe um sorriso malicioso.
– Você devia ter ficado hipnotizado? Ou, pelo menos, continuado a fingir. Receio que seu destino não seja tão bom quanto o do seu amigo.
A expressão do menino transfigurou-se em ódio.
– O que pensa em fazer com essas crianças? E com Shuu?
O homem arqueou uma de suas sobrancelhas. Então, endireitou sua postura e adentrou a cabana. A barreira não o prendeu. Haru surpreendeu-se, sem compreender como aquilo era possível.
– Está dizendo que eu capturei o maior ladrão do Reino da Neblina, Shuu? Aquele que visita todos os outros lugares e rouba as pessoas mais ricas? – ele riu alto. – Que ótima piada! O que ele iria fazer em uma cabana pobre no meio da floresta? Ele deveria estar roubando o castelo do príncipe do Reino Rubi!
Haru enfureceu-se ligeiramente. Shuu não era como todos pensavam. Ele roubava apenas de pessoas desonestas, como Dandelion dissera. Ele não roubaria de qualquer um. E ele já o havia salvado várias vezes.
Mas, talvez, fosse melhor mentir.
– Pensei que o senhor cairia nessa – comentou.
O homem bufou.
– Que mentira decepcionante. Pensei que fosse melhor nisso, garoto.
Ele foi aproximando-se cada vez mais de Haru, que, a cada passo largo dele, dava dois para trás. Suas mãos correram à sua mochila e puxaram a espada que ganhara de Shuu. O homem riu.
– Ora, então o moleque tem uma espada.
O punho robusto do homem fechou-se, e a espada, entre os dedos do menino, começou a tremer, ficar quente e, finalmente, queimar. Haru soltou-a rapidamente, e ela voou pela porta.
– Não pense que ganhará tão fácil, moleque. Eu preciso de vocês para trabalhar nas minhas minas de rubi. Dizem que aquele príncipe inútil paga muito caro por qualquer pedra valiosa da cor vermelha. Querem que eu perca todo esse dinheiro?
Correntes serpentearam as pernas do menino, prendendo-o ao chão. Outras seguraram seus pulsos e derrubaram-no contra o piso de madeira. O homem aproximou-se e, com um chute nas costas de Haru, o fez ficar sem ar.
– Você me servirá por mais tempo, pois não é obediente. Prepare-se para sofrer ainda mais, moleque.
O homem afastou-se e saiu da cabana. Haru tentou soltar-se, mas era impossível, as correntes, que pareciam estar vivas, apertavam-lhe muito forte e a dor que sentia no corpo era insuportável. Ele gemeu levemente, quando, enfim, conseguiu sentar-se. Seus olhos correram a Liam, que continuava em transe.
Haru não tinha mais sua espada nem seus amigos. Como ele conseguiria, sozinho, escapar de um homem que praticava a arte da magia?
Abaixou sua cabeça. Era impossível. Ele era um fraco. Não era um herói e nunca o seria. Da primeira vez, dependera de Io, Shuu e Dandelion para salvar-se. Ele não passava de um garoto inconsequente, que não temia o que estava à frente, ainda que não conseguisse se salvar. Não agia, não salvava os outros. Nem mesmo conseguia salvar os amigos que o ajudaram no momento em que eles precisavam dele.
Não merecia nem mesmo procurar a Chave-Estrela, que todos almejariam se conhecessem a lenda.
Então, deixou que algumas lágrimas banhassem-lhe o rosto. Tudo o que sabia fazer era chorar e pedir por ajuda. Era fraco e odiava-se por isso.
Notas finais
Ah, me desejem sorte na prova de Latim amanhã ;D
Takoyaki ~ HARU SALVE SEU SEME HOTHOTHOT!
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