A Chave-estrela
1 No qual Haru conhece Io
Notas iniciais
Boa leitura! Espero que gostem.
O Reino das Cores era dividido em sete vilas. A Vila Violeta, assim como a Verde, era pacífica, pois não havia qualquer outra com uma tonalidade de cor confundível. Contudo, as Vilas Anil e Azul eram uma dor de cabeça para o Rei Colorido, que, todas as tardes, tinha que levantar-se de seu trono e apartar uma briga entre os vilões. As Vilas Vermelha, Laranja e Amarela, porém, viviam em paz, por causa de um acordo que apresentava quais tonalidades pertenciam a qual vila.
A Vila Amarela, em especial, era formada por pessoas extremamente parecidas: todas com belíssimos fios de ouro na cabeça e olhos de um azul impecável, além de obedecerem cegamente a toda e qualquer regra. Sempre foi assim e sempre seriam, pensavam. Toda criança era educada de forma a agir da maneira como os adultos agiam. Os pais de Haru, contudo, não entendiam o que havia dado errado na educação de seu filho. Eles ensinaram tudo o que puderam àquele menino, desde como sentar-se à mesa até como ler as placas de aviso. Mas ele não obedecia a nenhuma regra. Em verdade, quebrá-las era seu passatempo favorito. Houve o dia em que ele infringiu sua primeira regra, uma bem simples: colocada em frente à padaria da Srª Muffin, havia uma placa, em que podia-se ler perfeitamente JOGUE BOLA EM LOCAIS APROPRIADOS. Não havia mais janelas na padaria, depois daquele dia, e Haru ficou duas semanas de castigo.
Esse tempo trancafiado no quarto deu ao menino ideias cada vez mais mirabolantes. Se todos têm um sonho que querem alcançar a todo custo, por que não posso fazer do meu sonho quebrar todas as regras da Vila Amarela? Era muito mais divertido, ele pensava, fazer o que as placas proibiam. Não coma doces antes do jantar? Por que não se empanturrar de bolinhos na hora em que ele estivesse com fome, mesmo que fosse antes do jantar?
As ideias iam e vinham na mente de Haru. Todas as vezes que saía do castigo, quebrava uma regra e voltava para a punição. A diversão, porém, que sentia valia cada semana que ele passou sobre a cama, olhando para o teto. Ele gostava da excitação de violar o que os adultos escreveram. A sensação de liberdade que tomava seu corpo era indescritível.
Os garotos da sua idade eram proibidos de andar com Haru, a má-influência da Vila Amarela. Os adultos viam naquela criança tudo o que não queriam que seus filhos tivessem. Ficavam contentes quando o garoto estava de castigo e temerosos quando o viam a andar livremente pelas ruas. Os pais daquele menino, pensavam, poderiam trancá-lo naquele quarto para sempre. Talvez pudessem se livrar dele dessa forma. Os pais de Haru, sendo pessoas de bom coração, sentiam pena de ver seu filho sem amigos, no quarto, trancado. Não sabiam onde haviam errado e, se soubessem, queriam poder consertar.
Haru pensava diferente. Ele não se achava errado. Apenas agia da forma como queria agir, sem nada para mandar nele. Tinha a liberdade que queria. Para que confiar em placas bobas? Em livros de regras? Em histórias de terror que impediam as crianças de sair à noite, sozinhas?
Decidiu que não estaria satisfeito enquanto não quebrasse a possível maior regra da Vila Amarela: NÃO SAIA DA VILA SOZINHO. Não entendia o que havia de errado em sair sozinho pelos arredores da vila, além da placa. Os adultos, em verdade, nunca saíram da vila, em primeiro lugar. Como eles poderiam saber o que havia nos arredores?
Quando completou treze anos, Haru decidiu mostrar que não havia nada a temer na Grama Alta, nos arredores da Vila Amarela, e partiu. Atravessou ruas, passou por casas e lojas e pôs-se de pé entre a grama que lhe alcançava a cintura.
– Que venham as criaturas ferozes! – gritou e, então, desatou a rir, divertindo-se. – Que adultos bobos.
Haru avançou ainda mais na Grama Alta, a ponto de ficar o mais longe possível da vila. Ele podia ver, no horizonte, a Floresta, onde nenhum adulto da Vila Amarela uma vez pôs os pés. Talvez devesse ir até lá. Decidido, voltou a caminhar.
Uma movimentação à sua direita, porém, chamou-lhe a atenção. Era como se algo mais baixo que a grama se movesse rapidamente em sua direção. Os olhos azuis assustados do menino puseram-se sobre a movimentação e, logo, o que a causava pulou em sua direção. Primeiro, ele gritou e desequilibrou-se, caindo no chão com a criatura logo acima dele. Então, pensou sobre o quão bobo era.
A criatura não passava de uma bola de pelos roxos, com uma antena preta, em cujo fim havia uma pedra vermelha. Com dificuldade, o menino sentou-se sobre o chão de terra e lançou um olhar confuso para a criatura. Esta olhou-o, levemente desesperada.
– Socorro! – ela gritou e escondeu-se no capuz do casaco amarela de Haru.
Repentinamente, um animal ainda maior surgiu em frente aos olhos do menino. Aquele era digno de medo. Seu focinho enorme e farejador lançava lufadas de ar contra o rosto de pele pálida do garoto; os olhos amarelados encaravam o mundo com uma raiva descomunal; e as presas à mostra deixavam claro como ele estraçalhava suas vítimas.
Haru engoliu em seco. Estava certo de que aquela criatura o comeria vivo, e os adultos da vila usariam seu exemplo para ensinar as crianças a não infringir as leis. Contudo, a besta não chegou a estraçalhá-lo com seus dentes, nem o arranhou com as garras afiadas, nem ao menos o lambeu com sua provável língua áspera. Ela apenas fungou, virou-se de costas e deixou o local. A bola de pelos no capuz de Haru suspirou, aliviada.
– Essa foi por pouco – sua voz não condizia com a aparência fofa. Era um som áspero e grave. – Obrigado!
Haru estava atônito. O que havia acabado de acontecer? Por que aquela fera não o devorara? O que era aquele animal em seu capuz?
– É raro um humano aparecer por aqui – a criatura disse e jogou-se para longe do menino, pousando no chão. – Você sabe falar pelo menos?
As sobrancelhas do garoto ergueram-se, e aquela frase o tirou do choque repentino. Ele limpou a garganta e levantou-se no chão, batendo com a mão no calção sujo de terra.
– Meu nome é Haru – disse. – O que é você? E o que era aquilo?
– Oh, então, você sabe falar. Sua voz parece ser meio grave, ainda que seja fêmea.
– Fêmea? – a expressão do menino transfigurou-se em confusão.
– Sim. Você não é uma humana, fêmea?
Os olhos da criatura percorreram Haru por completo, desde seus longos fios de ouro, amarrados em uma trança volumosa, seu rosto pálido e ligeiramente andrógino, até seus pés pequenos e delicados. Era uma fêmea, com certeza era uma fêmea. Se não fosse pelo fato de ser macho.
– Eu sou um garoto! – protestou. – Todos na minha vila possuem uma aparência parecida com essa.
– Um garoto? – a criatura mostrava-se surpresa. Mas, logo, pôs-se a rir. Muito alto, em verdade. – Que tipo de homem é você? Tem a aparência de uma moça!
Haru bufou. Quem era aquela criatura para falar daquele jeito com ele?
– E ainda é baixinho!
Essa foi a gota d’água. Aquele ser minúsculo o chamara de baixinho. De fato, nunca deveria ter saído da vila. Fora um erro. As criaturas do lado de fora eram muito mal-educadas. A passos pesados, o garoto caminhou na outra direção, afastando-se do animal, que nem mesmo havia dito seu nome. Resmungava a todo instante. A criatura, porém, saltitou em sua direção e, em pouco tempo, estava bloqueando a passagem do menino.
– Ei! Você vai me deixar sozinho aqui? E se aquele licantropo voltar? Eles não comem carne humana, então o que custa me deixar ir com você?
Então, aquilo era um licantropo, o animal que protagonizava as histórias dos adultos como sendo um devorador de homens maligno? Uma criatura que não comia carne humana? Haru riu.
– Quer dizer que o licantropo não come carne humana? – indagou.
– Exato! O gosto de vocês não o apetece. Eles preferem os lumpy, como eu.
– Então, você é um lumpy?
– Sim! – a bola de pelos saltitou duas vezes para trás e sua antena esticou-se por completo. – Io, o lumpy mais legal da região, ao seu dispor.
– Oh, entendo, entendo – o menino falou mais consigo mesmo do que com o animal. – Desculpe, mas, além de não saber o que é um lumpy, não saio com pessoas que me chamam de garota.
Haru postou-se a caminhar mais uma vez, desviando da criatura que pulava desolada de um lado para o outro, reclamando o quanto aquele menino era cruel e sem coração. Haru não ouvia metade do que ele dizia. Seu cérebro parecia travar as mensagens que considerava desimportantes. Mas, em algum momento, algo chamou sua atenção:
– Você não quer nem vir comigo para a maior aventura de todas!
Haru virou-se em direção à criatura, enquanto ela ainda tagarelava, e deu dois passos.
– Aventura?
Io parou de falar e virou seu olhar para Haru. Um sorriso desenhou-se em sua boca. Ele pulou algumas vezes, aproximando-se do menino.
– A maior aventura de todas, garoto! – disse. – Vamos à procura da chave-estrela!
– Chave-estrela?
– Sim! – o lumpy saltitou novamente para dentro do capuz do garoto. – Se você me levar aqui dentro, eu conto toda a história da chave-estrela para você e, juntos, vamos procurá-la!
Haru pareceu pensar por um tempo. Em troca de andar com aquele lumpy idiota que o havia chamado de garota, conheceria a história de algum possível item mágico e poderia sair na maior aventura de sua vida. Não precisaria ficar o tempo inteiro trancafiado em um quarto por quebrar alguma regra. Sorriu.
– Certo! Eu aceito – disse. – Mas primeiro tenho que pegar minha mochila em casa.
O lumpy acomodou-se melhor dentro do capuz do garoto e murmurou algo como: “faça o que quiser, só me deixe dormir agora”. Haru voltou correndo para a Vila Amarela. Ele a deixara pouco antes do amanhecer, para que ninguém o tentasse impedir, mas, quando voltou, os raios de sol já banhavam as ruas e casas. E uma mulher andava de um lado para o outro, preocupadíssima. Era a mãe de Haru. Ela perguntava a todo mundo se havia visto o garoto, mas todos negavam. Seu coração já batia desesperado em seu peito, quando ele pôs os olhos no garoto.
– Haru!
O menino baixou seus olhos e murmurou um pedido de desculpas. Ela o prensou entre os braços e começou a chorar, perguntando onde ele estava, com quem estava, fazendo o quê. Ele sorriu.
– Mãe, não aconteceu nada. Mas agora talvez aconteça.
Haru desvencilhou-se do abraço da mãe e correu em direção à sua casa, um sorriso brincava em seus lábios finos. Ele sairia em uma aventura! Ele não precisaria mais aturar aqueles adultos e suas regras e seus castigos e aquelas crianças que tinham medo deles. Ele seria livre, como sempre queria ser.
O garoto adentrou a casa e subiu para seu quarto. Em uma mochila azul, ele jogou um caderno, um lápis, uma muda de roupa e uma espada de brinquedo, cujo cabo saltava para fora da abertura da bolsa. Colocou-a nas costas e mirou-se no espelho. Seu cabelo louro caía em uma trança volumosa por seu ombro, até alcançar sua cintura; seus olhos azuis mostravam a determinação de um aventureiro; suas roupas eram leves e folgadas: um casaco amarelo, uma camiseta branca e uma bermuda amarela, além de meias compridas, que quase lhe alcançavam os joelhos e sapatos. Estava pronto.
Então, a mãe de Haru adentrou o quarto.
– Filho? Aonde vai?
Ele virou-se para ela, um sorriso enorme estampado em seu rosto andrógino.
– Vou procurar a chave-estrela! – ele nem ao menos sabia o que era a tal chave-estrela, mas algo dentro de si dizia que era importante. – Vou ser livre!
– Filho... Você vai deixar a Vila Amarela? – ela perguntou, uma expressão triste em seu rosto. – Meu bem, você não pode deixar a vila.
– Mãe, é uma aventura! Eu não posso ficar aqui para sempre. Tem muitas... regras.
– São para protegê-lo, meu bem.
– Eu já morri alguma vez quebrando uma regra? – bufou. – Por favor, mãe! E eu não vou sozinho. Io vai comigo.
Ele puxou o capuz do casaco, a fim de mostrar a criatura à sua mãe. O lumpy roncava alto, enquanto dormia.
– O que é isso?
– É um lumpy! E os licantropos não comem humanos!
O coração da mulher doía. Aquele sorriso tão bonito estampado no rosto da criança desarmava tudo o que ela pudesse usar contra sua partida. Haru tinha, de fato, uma enorme determinação, e algo nisso o impedia de ficar preso em um lugar. Haru era um aventureiro de natureza.
Ela suspirou.
– Tudo bem. Mas leve pão e água. E queijo! E não se esqueça de mandar notícias.
A expressão no rosto de Haru passou a ser de felicidade pura. Ele pulou, saltitou, abraçou a mãe, beijou-a no rosto e correu para fora do quarto. Ela ainda não sabia se aquela era a decisão certa. Mas algo dizia-lhe que Haru ficaria melhor fora da vila.
O garoto pegou pão, água e queijo na cozinha e partiu. Despediu-se do pai no caminho, enquanto este trabalhava. Ele encarou a Grama Alta, triunfante. Io, dentro do capuz, parara de roncar e acordava lentamente. Então, Haru deu o primeiro passo.
Sua aventura ia, enfim, começar.
Notas finais
Essa é a primeira longfic de fantasia que eu posto. Podem dizer o que acham do Haru, do Io, do Reino das Cores, de qualquer coisa!
Anyway, até a próxima!
Takoyaki.
Fale com o autor