A Chave de Pandora
1 Olhos Saídos de um Conto-de-Fadas (I)
Abril, 1920
Oxfordshire, Inglaterra
Sua irmã costumava dizer que tudo aquilo que podia ser observado podia ser, também, transformado em um conto-de-fadas. “Tudo pode ser uma história”, costumava sussurrar na calada da noite, depois que a mãe as havia colocado na cama. Debaixo das estrelas e das cobertas, ela ouvia sua irmã com a mesma solenidade que as mulheres escutavam os sermões do domingo. Na grande maioria das vezes, mesmo estando sonolenta, a ideia de dormir sem ouvir uma última história era-lhe impensável – seria como observar o céu inexplicavelmente se derramar em tons terrosos, ou talvez assistir aos móveis da casa desprendendo-se do chão sem nenhum aviso. O mundo de uma criança possui eixos muito específicos, e podia-se dizer que um deles era aquilo, a simples existência da voz daquela pessoa e as histórias que ela compartilhava de sua imaginação para que os sonhos de sua irmã nunca fossem solitários enquanto as duas se separavam no mundo do sono.
Talvez não fosse exatamente gentil dizer que aquilo era o que mais sentia falta naquela pessoa, muito mais do que sua presença, o jeito com que revirava os olhos quando a outra não queria acompanhá-la em alguma travessura como escalar árvores ou roubar doces recém-preparados na cozinha, ou o som de seu vestido roçando contra o tapete enquanto caminhava de um lado para o outro no quarto que dividiam, não querendo apenas desperdiçar sua tarde de castigo.
Mas gentileza, ao que estava aprendendo, era um artigo de luxo na vida de uma órfã.
Violet costumava chamá-la de Lily, como a flor (“para combinar com o meu”, completava), e somente depois de perder este nome é que o percebeu por aquilo que era: um fragmento de genuíno carinho que se desprendia dela como o calor do sol, assim como tudo o que vinha de si. Como uma semente que se enterra na terra, esperando um dia florescer, “Lily” era a garota que fechava os olhos e se permitia ser amada por aquele nome e toda a brandura escondida por trás dele, mesmo quando utilizado em uma de suas incontáveis brigas. Uma pequena flor que, agora, podia apenas se lembrar do formato do sol, incapaz de sentir seu calor outra vez.
Mesmo sua mãe, que a chamava de Lilian (ao menos, enquanto não estavam sozinhas) desde o dia em que Violet reclamara que ela própria não possuía um apelido e, portanto, não era justo que sua gêmea tivesse esta vantagem sobre si, o fazia de um jeito que também criava ondas dentro de seu coração. De olhos abertos no meio da noite, sob a proteção das sombras, a memória de sua mãe chamando-a ao lhe dar boa noite era como se aquelas ondas estivessem se chocando delicadamente contra areia, e o som nostálgico que deixavam para trás, reverberando até mesmo nas mais profundas fendas de seu cérebro, fazia-a perceber que fora aquela mulher que escolheu seu nome e que, um dia, também o disse em voz alta pela primeira vez, e que o amou desde então. Fazia-a perceber que era muito fácil esquecer daquilo, como uma concha levada pelo mar para muito longe.
As pessoas daquela casa também a chamavam de Lilian. Mas o que havia por trás de cada sílaba eram verdades rudes e segredos que tiravam seu ar, tal qual aquele corpete.
— Respire fundo. — A empregada ordenou, e Lily o fez, mesmo que fosse difícil, mesmo que estivesse sendo difícil desde o dia em que veio morar ali.
Com as mãos apoiadas sobre as bordas do espelho enquanto era manuseada como uma boneca, a garota observava a si mesma distantemente, como um espécime, do jeito introspectivo com que seu padrasto assentia para si mesmo ao prender as asas de uma borboleta à sua crescente coleção.
Era como estar olhando outra pessoa vestir-se de rendas e sedas enquanto usava, também, seu rosto.
Aquela noite seria muito especial para ela, ou ao menos era o que deveria estar achando.
No auge de seus dezessete anos, depois de uma longa temporada de tragédias, chegara a hora da efêmera temporada de sua flor ser apresentada ao mundo. Madame Blenner estivera declarando a semana toda, entre uma compra e outra, que iriam transformá-la na mais bela debutante do salão e, certamente, estava havendo uma real tentativa disto, se suas costelas compressas contra o material do corpete fossem algum sinal, mas...
Ao verdejante de seus olhos, ela ainda se parecia apenas com Lily. Nada mais, nada menos.
Aquela não era uma perspectiva muito gentil, não mais do que perceber-se ainda sentindo falta de fragmentos desimportantes no grande esquema das coisas e, definitivamente, não para a madame que estava apenas tentando seu máximo fazê-la se sentir bela depois de tudo o que aconteceu. Mas, como sempre acabava percebendo, a gentileza era realmente um artigo de luxo na vida de uma órfã.
O vestido que escolheram para si naquela noite acabou não sendo nenhum antigo da senhora da casa, ela própria declarando que precisavam de algo um pouco mais moderno se quisessem causar uma boa impressão nos demais. De tafetá ciano, com pequenas elevações que emprestavam uma textura que lembravam flores-de-lis, contra a luz dourada das lamparinas o azul até mesmo se tornava o tom preguiçoso de uma aurora, deixando ainda mais em evidência sua compleição pálida. A renda branca adornando seus punhos e pescoço, e os laços envoltos em pálido rosa, a faziam parecer-se com a bela flor de quem roubara o nome. O azul realmente pertence a você, ainda assim ela pensou, vendo a si mesma outra vez como uma estranha – não, melhor dizendo, como alguém deveras familiar. Por um instante, com fios dourados soltos contra suas costas e seu vestido de festa escondendo todas as imperfeições, ela enxergara Violet e não a si mesma, e pensou vaga, maldosamente, até mesmo indulgentemente em sua particular crueldade, que a irmã estaria agradecida se estivesse, merecidamente, em seu lugar. Apesar de ser muito mais aventurosa, ela sempre foi, também, a que mais gostava de coisas belas.
Próxima à penteadeira, com as mãos sobre a cadeira estofada, a senhora da casa a chama, misericordiosamente dando um fim a seus pensamentos inúteis. Ouviu vagamente, por detrás do eco de seus pensamentos, a empregada da casa pedir licença e se retirar, enquanto assistia a si mesma, outra vez daquele jeito distante, reagir ao convite lançado.
— Sente-se aqui, querida, precisamos arrumar seus cabelos agora.
Longe do alívio que achou que fosse sentir, aceitar o convite e sentar-se frente à mulher foi sentir o material comprimir seus pulmões com a força de um abraço realmente insistente. As heroínas de seus livros, recordou-se ligeiramente, pareciam estar sempre reclamando daquele tipo de coisa, mas ela não soube o quanto tinham razão até aquele momento.
— O que acha do pingente de flores em seu cabelo, Lilian? — Madame Blenner pergunta, enquanto massageava seus cabelos com o pente, alheia à tempestade escondida por debaixo do azul.
A jovem, que até então não esboçara reação contra uma roupa a qual não teve participação nenhuma em sua escolha, não poderia começar a procurar agora, dentre todos os momentos, por alguma objeção.
Mesmo que estivesse se parecendo com sua irmã contra o espelho, ainda era apenas Lily. Nada mais, nada menos.
— Acho que está, mais uma vez, certíssima, senhora Blenner.
O nome saiu daquele jeito pois não havia como evitá-lo, mesmo sabendo-o repleto de espinhos. Dos componentes daquele casal, Louise Blenner tinha sido sua mais incansável aliada, ou o mais próximo disso que haveria de ter nas atuais circunstâncias, sempre que fosse possível a trazendo para perto de si em suas atividades diárias, convidando-a para que treinassem costura juntas quando percebeu-a inexperiente naquilo, lendo com a garota no fim da tarde, e até mesmo excitando-se mais do que a própria debutante com a perspectiva de uma gloriosa temporada de apresentações. Para uma mulher sem filhos, Lily imaginava, a perspectiva de poder dar tudo de si para uma garota, mesmo que já não fosse uma menininha maleável, certamente parecer-lhe-ia uma versão muito particular de algum paraíso.
No início, a Madame deixava transparecer o quanto não ser chamada de “Louise” a decepcionava, talvez porque fosse uma dor muito nova para ter aprendido a se defender contra, mas àquela altura provavelmente já aprendera a treinar sua expressão. A loira não encontrou nem mesmo um resquício de hesitação em seus habilidosos dedos.
— Não é? Isto também vai combinar com seus brincos. — Concordou, não deixando escapar nada além daquela gentileza que fazia com que Lily se sentisse vagamente desconfortável, como uma coceira a qual não podia alcançar e aliviar. — Estava pensando em trançar seu cabelo como costuma fazer, mas usá-la para erguê-lo em um coque depois disso. Certamente evidenciaria seu rosto. O que diz?
Assistia no espelho a si mesma treinar aquele mesmo sorriso todos os dias, montando-o cuidadosamente em fios e puxando-os como o faria com uma marionete. Ela os treinava para momentos como aquele.
— Eu acho que pode fazer isso por sua conta e risco... Precisa tomar cuidado, ou não irá conseguir me vigiar com tantos rapazes me pedindo para dançar.
A senhora da casa riu, mas no peito da jovem não houve alívio nenhum em saber que seu segredo estava protegido por mais um dia.
Quem sabe, aquela fosse exatamente sua intenção. Seria maravilhoso, afinal de contas, casá-la o mais rápido possível com algum rapaz desavisado para se livrarem de sua mancha e poderem, assim, se concentrar no herdeiro flexível, moldável, realmente importante que dormia no berço do outro lado da casa.
Seu padrasto costumava dizer que nenhuma refeição era de graça. Lily nunca duvidara, nem por um instante sequer, de que aqueles seus amigos, que tão graciosamente a acolheram depois de tudo, também pudessem pensar assim como ele.
E talvez não fosse exatamente gentil, nem mesmo justo, julgar a atenciosa madame daquele jeito, não quando ela se esforçava para emoldurar seu rosto amargo com toda a doçura de um lindo penteado...
Mas a gentileza continuava sendo, e sempre seria, um artigo de luxo na vida de uma órfã.
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