A Chave Do Segredo - Dark Mystery
22 Capítulo 21
Notas iniciais
Capítulo 21
Mundo Sombrio.
Dias atuais.
Lauren.
Tudo ao meu redor estava nublado. Sempre que tentava focar em alguma cena específica, esta fugia de mim.
Comecei a correr, tentando escapar daquele turbilhão de confusão, onde eu nunca achava algo a qual me agarrar. Queria desesperadamente fugir daquele lugar, voltar para o ambiente de paz onde eu certamente estava antes de ser jogada no meio dessas trevas.
Até que finalmente tudo entrou em foco. E eu parei.
Estava em uma campina, a qual eu com certeza conhecia. Tudo ainda estava envolto em grossas sombras. Meu cérebro começou a pensar, tentando desvendar as encruzilhadas que minha mente estava fazendo. Eu tinha um pressentimento ruim sobre aquele lugar, como se algo que fosse me matar ocorreria ali.
De acordo com a minha vida nos últimos meses, aquela possibilidade era bem provável de acontecer.
Dei um passo à frente, mas não conseguia me descolocar. Tentei inúmeras vezes, chegando a gritar de frustração; até que tive de me convencer que não sairia dali tão cedo. Bufei de raiva, uma mera tentativa de afastar o medo de dentro do meu peito.
A lua, então, apareceu no céu, finalmente desvendando aquele mundo da escuridão. Porém, eu desejei que não tivesse acontecido.
Ouvi um grito – meu grito! – e vi tudo acontecer ao mesmo tempo. O talho dolorido que levara, a traição de Life e... A morte de Cameron. Foi então que eu percebi que aquilo não era um sonho. Não apenas um sonho. Eram lembranças.
Na parte de Cameron, a cena se desenvolveu lentamente, como que para me torturar. Percebi os míseros detalhes: como a imagem daquele homem desconhecido foi se transformando na do garoto de olhos azuis que eu amava, como aqueles mesmos olhos demonstravam toda a dor que devia estar sentindo... A hora em que ele sussurrou meu nome, como se eu pudesse salvá-lo. E finalmente a hora em que o brilho que ele tinha se desvaneceu. A hora em que ele perdeu seus resquícios de vida. A hora em que parte de mim também morreu.
Urrei em desespero, tentando romper a barreira que me separava dele, que me deixava presa àquele chão. Berrei tanto, me debati tanto, que minhas energias rapidamente acabaram. Tudo estava voltando à escuridão, mas eu não podia permitir. Tinha que tocá-lo, recuperar a vida dele. Tinha que...
Acordei em uma cama gritando e chorando, com as imagens completamente vívidas em minha mente.
Aquela realidade era definitivamente pior.
***
— Lauren, Lauren... Ei, olhe pra mim! – alguém estava tentando me pegar, mas eu via apenas um borrão por causa das lágrimas que não paravam de escorrer. – Docinho, pare de se debater! Volte para mim!
Gemi e arranhei quem quer que fosse. Por que não me deixavam livre?! Por que eu continuava presa quando estava claramente queimando em desespero? Será que não conseguiam ver que eu precisava correr, chegar a Cameron?! Como não...
— Ah, saia da frente. – uma voz com um timbre diferente tomou o lugar da outra pessoa. – Lauren, pare de chorar, pelo amor de Deus, isso se Ele existe.
Tão cruel. Cameron. Por que ele continuava a morrer em minha frente diversas vezes?!
— Vai piorar! Não toque nela, Death! Não ouse...
Escutei um barulho e a lateral do meu rosto começou a doer. Levei minha mão a minha bochecha; minha mente se afastando dos meus pensamentos dolorosos para um tipo de dor diferente. As lágrimas tinham secado, e eu agora conseguia distinguir quem estava na minha frente.
Não sei se eu ficava aliviada ou chorava ainda mais. Derek estava um pouco afastado, e sua mãe estava me encarando com uma sobrancelha arqueada, esperando que eu voltasse a mim – ou que eu voltasse a entrar em choque para que ela pudesse me dar mais um tapa.
— Docinho?
Encarei Derek, amando ver seu rosto belo e aqueles olhos escuros que somente pertenciam a ele. Eu tinha medo da escuridão, mas não daquela. Aqueles olhos me amavam profundamente.
Num pulo, ignorei Death – ainda sentada em minha cama – e corri para aqueles braços fortes, que nem hesitaram em me agarrar ainda no ar. Senti-me tão protegida ali, como se nada do mundo fosse capaz de me afetar. Nunca mais eu seria machucada ou machucaria alguém enquanto estivesse sob aquela proteção. Nunca mais...
— Shhh, está tudo bem, querida. – ele murmurava em meu ouvido como se eu fosse um bebê. – Eu peguei você. Tudo bem, tudo bem.
Ouvindo aquela voz tão gentil, tão amorosa, não pude evitar em chorar novamente. Derek me protegeria a partir de agora, tudo ficaria bem. Eu deveria ser protegida um pouco, não deveria? Oh, sim...
— Ela só chora?! – a voz de Death irritada chegou a mim. – Mas que garota patética você foi arranjar, Derek!
— Pare com isso, Death. Não vê como ela está?! Por favor, ela acabou de quase morrer! Dê um tempo a ela! – Derek também estava começando a fica irritado. Encolhi-me em seus braços. Não queria vê-lo bravo.
— Laury, olhe para mim. – obedeci e ele beijou a ponta do meu nariz. Por sorte, não estava escorrendo, ou então seria nojento. – Está tudo bem.
— Quero... – um soluço me interrompeu. Tentei respirar para me acalmar e conseguir falar. – Quero dormir, Derek. Faça-me dormir, meu amor, por favor.
Ele ergueu uma sobrancelha negra para mim, claramente incomodado com algo. Talvez tivesse sido o tom desvairado que estava minha voz. Ou talvez aquela tivesse sido a primeira vez que o chamava de amor. Logo em uma situação como a que estávamos passando. Nem um pouco bizarro.
— Você dormiu bastante, Laury... – fechei meus olhos e estremeci. Ele não havia entendido. Eu precisava que ele me proporcionasse doces sonhos, nem que fosse por apenas uma hora.
Sabia que eu tinha que tomar uma decisão em relação a algo, mas para isso eu precisaria me lembrar o que era. E para isso seria necessário relaxar – como se fosse possível.
— Sonhos. – sussurrei. – Quero sonhar com você.
Death bufou e silenciosamente deixou o quarto. Derek franziu a tez, mas me levou de volta para a cama, na qual me colocou suavemente. Ele não se deitou ao meu lado, porém ficou acariciando meus cabelos rebeldes, o que ajudou a me acalmar mais um pouco.
— Então tudo bem, Lauren. Durma, docinho. – como se estivesse com medo de me assustar, abaixou-se lentamente para depositar um beijo no alto da minha testa.
Foi então que eu apaguei. Mas dessa vez, não havia nenhuma campina, ou sangue, ou morte. Havia Derek e eu estava em seus braços. Não conversamos ou fizemos mais que estar um ao lado do outro.
Por mais que aquela imagem me proporcionasse uma imensa alegria, de alguma forma conseguiu despertar ainda mais tristeza.
Então era aquilo. Eu sabia.
***
— Aquilo tudo aconteceu mesmo? – perguntei, gaguejando. Eu estava acordada há apenas cinco minutos, mas minha mente não conseguia parar de pensar no que ocorrera.
— Sim... Você até chegou a morrer por alguns momentos. – Death falou. – Mas Derek conseguiu trazê-la de volta... O que é muito curioso.
Derek bufou e eu arqueei uma sobrancelha.
— Ninguém traz uma alma de volta sem ser Life ou eu. E agora, você. – acho que a ouvi murmurar “um poder tão grande nas mãos dessa pirralha”, mas não tive certeza.
— O que isso indica?
— Não sei. Acho que é mais uma coisa para se descobrir. – suspirei. Ótimo.
— Alguma teoria?
— Talvez sua alma esteja tão ligada a ele, que quando ele foi te buscar... Simplesmente o sentiu e o seguiu. – Death deu de ombros. Derek pareceu animar-se com a parte da minha alma estar conectada com a dele. Fiquei presa a outros detalhes.
— Como foi me buscar? – olhei para ele. – Você quase morreu também?!
— Óbvio que não. Death só me ajudou a me livrar do meu corpo... Temporariamente.
— Mas podia ter morrido?
Nenhum dos dois respondeu. Respirei por entre os dentes.
— E Cameron está...
— Morto. – Death respondeu antes de Derek. Fuzilei-a com o olhar. Eu nem sabia o que ela estava fazendo aqui. Preferia muito mais conversar apenas com o seu filho. – Não foi minha culpa. Na verdade, apenas aquele guerreiro maldito iria morrer, mas ele reverteu a situação.
— O que quer dizer? – grunhi.
— Que aquele homem trocou de lugar com Cameron de alguma forma no momento exato. Seu namorado morreu, mas o outro continua vivo. Ele também se livrou do receptáculo.
— NÃO! – gritei, pulando da cama e me sentindo tonta subitamente. Derek me agarrou antes que eu caísse. Deixei que ele me acalmasse novamente. Eu precisava ser acalmada.
Death revirou seus olhos e manteve-se em silêncio.
— Como você pôde permitir isso?! Por quê?! Cameron não tinha nada a ver. Ele sempre tentou... Tentou... – minha voz falhou conforme as lágrimas caíam.
— Eu já disse que a culpa não foi minha. – Death suspirou. – Se você não acredita... No entanto, precisamos ficar unidas agora. Morrigan e Life estão por aí, e as duas juntas são poderosas. Sem contar o guerreiro, que também deverá vir te perseguir. Bem...
— Não quero sua ajuda! – rosnei. – Não quero saber disso nunca mais!
— Lauren, por favor... Fique calma. Sabe que precisa da ajuda dela... Da minha – Derek implorou e estendeu a mão. Tomei-a.
— Não posso, Derek. Não mais. – choraminguei. Não me importava o quão frágil eu parecia. Nunca fora forte de verdade. – Não mais.
— Tudo bem, docinho. Não pense nisso agora, certo? Temos tempo para que você se acalme e... Para que encontremos alguma solução. – sua voz parecia incerta. Ele sabia que não tínhamos tanto tempo assim.
— Isso. Pense mais um pouco e tome uma decisão. Uma decisão esperta, Lauren. – Death mostrava que eu não fazia isso com frequência. – Acho que todos já fizemos coisas idiotas o suficiente.
Fiquei surpresa por suas últimas palavras. De alguma forma, ela estava se culpando também. Um pouquinho de satisfação me invadiu, mas antes que eu pudesse fazer algum comentário irônico sobre isso, ela se levantou e deixou o quarto.
Ficamos apenas Derek e eu no local, e ele imediatamente me abraçou, encostando sua cabeça no vão entre meu pescoço e ombro.
— Por favor, Laury. – ele respirou profundamente. – Não faça nada que...
Ele não terminou. Mas não precisava. Estava pedindo para que eu não fizesse nada que nos separasse.
Mordi meu lábio e deixei algumas lágrimas caírem silenciosamente. Mal sabia ele que eu já tinha decidido tudo.
***
Segurei a mão de Derek muito forte e entrelacei meus dedos aos dele. Seus olhos esquadrinharam meu rosto, e um pequeno sorriso se formou em seus lábios. Tentei sorrir também, mas estava muito tensa para conseguir.
Já estava ali há dois dias. Derek e Death – que graças aos céus não tinha mais cruzado o meu caminho – acharam melhor que eu não voltasse para minha casa ainda. Brooke concordara com eles, e eu ainda não sabia o que sentia a seu respeito. A marca da traição ainda era profunda. Tão profunda que não consegui encará-la quando ela viera me ver.
Megan não gostara nada quando eu liguei avisando que ficaria um pouco mais com Derek (sim, aparentemente até o Mundo dos Mortos tinha sinal), e eu gostara ainda menos das notícias que ela me deu. O corpo de Cameron havia sido encontrado e sua família estava completamente chocada. Como se pudesse ser diferente. Alguém, uma testemunha falsificada, dissera que ele se suicidou. Eu estava certa que Derek estava envolvido nessa história, mas não falei nada com ele até agora. Não queria ter que falar tudo o que eu precisava dizer. Não ainda.
O enterro de Came seria dali alguns dias, e eu não estava convidada. A mãe dele ligou sua morte a mim, já que ele estava, em suas palavras, “totalmente triste por seu término com aquela menina vadia”, e deixou completamente explícito a Megan que, se eu aparecesse por ali, seria expulsa e humilhada.
Não a culpei, mas estava magoada de não poder dizer adeus a Cameron. Não pudera nem me despedir dele enquanto o vira morrendo no chão daquela campina. Não pudera salvá-lo, ou dar minha vida no lugar da sua, como eu faria de bom grado. Não pudera fazer tanta coisa para ele...
Percebendo que eu começava a ficar nervosa e emburrada, Derek me cutucou e rapidamente passou seus braços em minha volta. Suspirei, agradecida. Cada vez que ele me tocava, meus pensamentos se desviavam da culpa que eu sentia. Era por causa dele que eu conseguia dormir a noite. Derek sempre vivia me proporcionando bons sonhos.
Infelizmente, isso estava prestes a acabar. Mas mesmo assim, rejeitei a ideia por mais algum tempo. Só de pensar no que eu teria que fazer, entrava em desespero. Num desespero que nunca pensei que poderia sentir.
***
Depois de mais alguns dias, nem Derek pôde evitar que eu sonhasse com Cameron. E, quando eu sonhei com seus olhos azuis me acusando, simplesmente não aguentei mais.
Acordei e senti o corpo quente de Derek ao meu lado. Suspirei e me virei para encará-lo; ele dormia pesadamente. Era difícil ver seu rosto tranquilo como estava, sem nenhum resquício de malícia ou desespero. Na verdade, nunca o vira como ele verdadeiramente era até esses dias turbulentos: gentil e compreensivo. Antes, ele jamais poderia ser classificado desse jeito.
Doeu-me estender a mão e balançar seu corpo. Não queria que ele despertasse e ouvisse o que eu iria dizer. Não queria ter que deixá-lo partir. Mas se não o fizesse agora, não faria mais.
— Docinho? – ele chamou. Sua mão tateou até meu corpo e me arrastou para mais perto dele. Derek sorriu, ainda com os olhos fechados. – O que houve? Algum pedido especial?
Eu imaginava o que ele queria dizer com isso. Quase sorri. Quase.
— Sim. – sussurrei. – Quero te pedir uma coisa...
— Hm... O quê? – suspirei e me afastei dele, que certamente não estava esperando por aquilo. – Lauren, o que foi?
— Preciso... Falar com você. – agora seus olhos negros estavam completamente abertos.
— Não sei se quero ouvir. – odiei ver dor em seu rosto.
— Derek... Eu tomei uma decisão. – ele abriu a boca para contestar, mas o impedi. – Não adianta falar nada. Eu já sei o que vou fazer.
Silêncio. Hesitei.
— Quero que me leve para casa.
***
Londres, Inglaterra.
Dias atuais.
Lauren.
— Lauren, vamos conversar. – Derek disse enquanto encostava o carro na frente da minha casa. Suspirei. Já sabia que ele iria tentar me dissuadir da minha decisão, mas eu não cederia.
— Não tenho mais nada para falar.
— Mas eu tenho! – ele bufou. – Não pode simplesmente terminar comigo!
— Eu posso sim, Derek. É claro que eu posso.
— Por quê?! Você... Precisa de mim. E eu preciso de você. – seus olhos se reviraram. Ele não estava acostumado a ter que dizer coisas como aquelas. – Não pode me pedir para deixá-la ir.
— Não posso mais... – pigarreei. – Eu não consigo olhar para você e permanecer tranquila. Não posso evitar me sentir culpada e... Isso está me destruindo, Derek. Não aguento mais olhar seus olhos e me odiar por gostar deles.
Mentiras. Com ele, eu poderia ficar calma. Poderia ser feliz.
— Não vou cair nessa. Desista. – droga, por que ele tinha que dificultar tudo?! Muito bem...
Engoli em seco enquanto fingia uma cara de desgosto. Fazer aquilo me custou muita concentração, pois o que eu mais desejava era ir até ele e beijá-lo até não pensar em mais nada. No fim, não sabia se tinha conseguido uma boa máscara ou não.
Hora de falar sobre Cameron.
— Por que você não o ajudou?! – acusei. — Por que você não me disse nada sobre Morrigan, o guerreiro, Cameron... Por quê?! Que droga, Derek, você deve estar feliz que ele morreu, não é?! Devia ter me deixado morrer também! – coloquei o máximo de dor e desprezo na voz. Aquilo estava me matando.
Ele ficou surpreso. Vi mágoa em seu olhar e ignorei.
— Está fazendo isso por Cameron? – ele sussurrou. Por favor, Derek, acredite nisso porque senão eu não teria mais nenhuma desculpa!
Ambos ficamos em silêncio, e ele me destruía. Estava cansada e só queria acabar com aquilo.
— Eu não sabia sobre Cameron. Só soube momentos antes, e ainda assim... Não tinha certeza. Minha mãe nunca me contou sobre ele. Mandei Megan verificar o garoto, mas ela não o tinha visto por perto. – Derek apertou a ponte do nariz. – Juro, Lauren, que eu não sabia que era ele até vê-lo na campina.
— E foi você quem inventou a história sobre o suicídio?
— Megan contou. – deduziu e franziu a boca.
Balancei a cabeça.
— Por que suicídio? Ele não merecia isso, Derek! – sequei minhas lágrimas antes que elas caíssem. – Não merecia ser lembrado como o garoto que se matou! Ele tinha tanta vida dentro dele! Nunca pensaria em uma coisa dessas!
Derek não disse nada. Apenas continuou me encarando, implorando em silêncio para que o perdoasse por isso, para que retornasse à sanidade e me atirasse em seus braços. Era tão tentador!
— Desculpe, Derek, mas eu já estou cansada. – mordi meu lábio. Precisava terminar. Meu coração estava se partindo cada vez mais. – E não quero mais você me causando confusão. A morte de Cameron foi a última coisa que... Que eu tenho que suportar. Então, desista de mim. Não quero saber mais de nada.
— Lauren...
— Não! Você sabia sobre Morrigan, guardou esse segredo, como se não me envolvesse também! “Você é a chave”, ela disse. Mesmo assim, não me contou nada... Destruiu tudo na minha vida. Meus pais, meu namorado... Tudo! E para quê?! Para me ter, mas sabe o que conseguiu? Parabéns, você acaba de me perder!
Desatei o cinto de segurança e abri a porta do carro. A mão de Derek me impediu de sair.
— Não diga isso. – ele implorou. Não quis olhar seu rosto. Não tinha a coragem de fazer isso. – Por favor...
— Derek, vá embora. – rosnei. – Eu te amo, sim, meu Deus, como eu te amo! Mas não quero mais esse amor. Vou arrancá-lo de mim e arrancar tudo de mal que ele me trouxe.
Sua mão me soltou, a contragosto.
— Você sabe que isso não acaba aqui. Ainda vamos ter que nos ver. Mas tome um tempo para você. Só saiba que...
— Eu também te amo.
Não me permiti derrubar nenhuma lágrima enquanto deixava o carro. Não olhei para trás enquanto destrancava a porta da minha casa, esperando que ele não visse o quanto que minhas mãos tremiam.
Entrei e tranquei-me. Não tranquei apenas a porta, mas o meu coração. Eu choraria mais um pouco e depois seguiria em frente. Teria que fazer isso se quisesse recuperar o mínimo de normalidade de antes.
Não ouvi o som do motor dele. Meus ouvidos não escutavam mais nada enquanto escorregava para o chão. Se eu usasse a imaginação, conseguiria sentir Derek por trás daquela porta. Seu calor, sua vida...
Estava sozinha.
Ter esse conhecimento conseguiu acabar ainda mais com a minha carcaça. Porque não era mais uma pessoa inteira. Não naquele momento, e duvidava que em qualquer outro.
Infelizmente, ao largar Derek e toda aquela insanidade, eu larguei minha última parte completa. E agora estava acabada.
***
Terminei meu banho e fui ainda de toalha para o meu quarto. Estava frio, mas eu mal o sentia. Não sentia mais nada depois de virar as costas para Derek e sair do carro aconchegante, que tinha seu cheiro.
No momento, a casa estava vazia senão por mim. Brooke, que voltara a ser minha guardiã, tinha me dado um tempo para pensar. Quanto a sua volta, não sabia o que deveria sentir. Não pude negar, mas também não a aceitei de braços abertos. Por mais que eu soubesse que não fora ela quem me traíra, não tinha como não associá-la a destruição.
Brooke tentou me explicar tudo enquanto eu ainda estava no Mundo Sombrio. Explicara-me como Life havia se passado por ela e me enganado por algum tempo, mas eu estava tão distraída que nem percebera o quanto ela estava estranha – e se agora eu parar e relembrar, estava mesmo diferente. No final, eu permiti que ela continuasse comigo, mas ela sabia que iria demorar até não ver mais a palavra “traição” grifada em seus pelos marrons.
Suspirei e sentei em minha cama. Estava cansada de usar minha mente, e talvez devesse dormir. Um barulho, porém, fez com que eu me levantasse e apanhasse o pequeno papel que o tinha provocado. Olhei confusa para aquilo e em seguida ao meu redor. Não havia ninguém aqui.
Abri-o e engoli em seco. Um pequeno poema estava escrito com uma letra cursiva elegante. Rangi os dentes e o amassei. Aquilo não fora escrito por Derek. Aquilo fora escrito por quem matara Cameron. Aquele guerreiro maldito.
"A vida é breve e difícil
A morte é infinita, fácil
Mas um segundo de vida
Compensa uma eternidade
De doce e adorável morte"
As palavras ficaram gravadas em minha mente, e só identifiquei um significado. Ele não desistiria de mim.
Acabei jogando o papel no lixo e me deitei. Não senti medo. Senti raiva. Ele estava brincando comigo, então eu também brincaria com ele. Pela segunda vez no dia, tomei uma decisão. Eu também não desistiria dele.
Eu o queria morto. Assim como estava Cameron agora. Queria vê-lo frio e imóvel, ver seu sangue rubro deixando seu corpo. Também queria ver a vida se esvaindo pouco a pouco dos seus olhos, do mesmo jeito que tinha visto a de Came.
Agora eu sabia. A morte sempre estaria mais próxima de mim.
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