A Chance to Change [HIATUS]
6 Voltando à Hogwarts
Notas iniciais
Passamos boa parte da tarde jogando quadribol, eles jogando e Gina, Hermione e eu apenas olhando. Gina bem que queria jogar, mas não havia vassouras suficientes e eles não deixavam. Mal sabiam eles que Gina pega as vassouras para treinar desde pequena; logo voa tão bem quanto eles.
A pequena partida durou até a Sra. Weasley nos parar, solicitando que revisássemos os materiais e conferíssemos se as malas estavam todas em ordem.
– Harriet e Harry querido... – chamou-nos, enquanto os outros subiam – Já comprei os materiais de você e está tudo lá em cima – sorriu bondosa.
– Muito obrigada, Sra. Weasley – tentei mostrar o quão grata estava através da fala, Harry também.
Subimos as escadas, empolgados – na verdade só eu – para ver os materiais deste ano.
Chegando ao quarto de Rony, fui avisada de que meus pertences estavam no quarto de Gina. Sentei-me no chão enquanto via os garotos organizarem suas malas, vez ou outra tomava liberdade para folhear os livros novos.
Rony jogou uma pilha de coisas na cama de Harry. Um saco de dinheiro, inúmeros pares de meias, o 4º livro de feitiços da Miranda Goshawk, rolos de pergaminho, penas, ingredientes para as aulas de poções e um embrulho estranho.
– O que é isso? – Rony soltou em desagrado, fazendo-me franzir o cenho e lhe encarar.
Estendia uma veste pesada, grossa e de veludo marrom, cheias de babados brancos e cor creme... Eca! Não era nenhuma profissional de moda, mas essa coisa era horrível. Jack – o amigo gay da mamãe – morreria instantaneamente ao ver essa aberração.
Jack é personal style de modelos que estão no início de sua carreira.
Batidas foram ouvidas na porta, seguidas da imagem da Sra. Weasley adentrando o cômodo, com uma braçada de vestes de Hogwarts.
– Tomem... – estendeu-as aos garotos – Espero que dobrem direito para não as amassar – virou-se de costas para sair.
– Acho que você deixou uma das roupas de Gina comigo, por acaso, mamãe.
– Pelo contrário – concluiu ao ver ao que o filho se referia – são suas vestes a rigor.
– Vestes o quê?
– Vestes a rigor! – exclamou ela meio impaciente – Está em sua lista de materiais, para ocasiões formais. Harry também tem... Mostre a ele, Harry querido – apontou para o embrulho misterioso estendido na cama.
Engoli seco, discretamente. Harry me olhou brevemente, obviamente temeroso de encontrar algo semelhante às vestes do Weasley. Pude ver o quão aliviado ficou ao ver que pelo menos o seu traje não tinha babados.
Eram quase que as vestes de Hogwarts, só que em uma coloração verde.
– Achei que elas realçariam a cor de seus olhos – sorriu terna.
– As dele são legais! – Rony reclamava indignado – Eu não uso essa coisa nem que me paguem – dizia furioso enquanto balançava a veste marrom.
– Ótimo! – ela concluiu enfezada – Então ande nu! E Harriet, tire uma foto dele, estou precisando de boas gargalhadas – bateu a porta.
Levantei-me com cara de bunda sem saber o que fazer... Consolar Rony e dizer que a roupa não é de todo ruim ou sair e deixar tudo com Harry? Consolar Rony e dizer que a roupa não é de todo ruim ou sair e deixar tudo com Ha... Ah, que se dane!
– Bom, acho que eu também tenho vestes para olhar... Er... Vou lá! – saí em disparada.
Há passos da porta de Gina era possível escutar duas vozes conversando animadamente. Aproximei-me e aproveitei a fresta da porta para espiar.
Hermione rodopiava, sorridente, segurando um vestido azul colado na frente de seu corpo.
Bati na porta.
– Posso entrar? – perguntei com a cabeça já pra dentro.
– Claro – concordaram em uníssono.
– Você não acha o vestido da Hermione lindo, Harriet? – Gina me perguntou.
– Demais! – fui sincera, ainda observando os detalhes.
O modelo tinha um leve decote e ele era justo até a cintura. A saia era em camadas de babados... Ou algo assim, mas nada semelhante aos de Rony.
Sou péssima para descrever peças de roupas. Se as pessoas já me acham um terror descrevendo assim, é porque elas não me viram descrevendo homens... Porque é tudo a mesma coisa pra eles, convenhamos. Se nem eles sabem ao certo, por que eu deveria saber?
– Ele é maravilhoso! – afirmei babando.
– Espera até ver o seu! – Hermione falava ainda balançando de lá pra cá com o vestido – Mostre a ela, Gina!
– Ah, claro! – pegou um embrulho e estendeu a mim – Mamãe disse que criaria um contraste legal com a sua pele – comentou, sentando-se na cama – Bem... Não conseguimos segurar a curiosidade e abrimos antes – brincava com os dedos.
– Não tem problema! – ri.
No momento que o embrulho deslizou em direção ao chão, eu não soube ao certo o que devia pensar. Olhei torto para a peça e torci o nariz.
– Não quero ofender e nem ser mal agradecida, mas sua mãe tem um gosto... Um tanto que exótico.
– Por quê? Não gostou? Achou feio? Podemos trocar, ainda dá tempo – disparou em falar.
– Não! Não é isso... Mas – mordi o lábio antes de continuar – não estou habituada a usar uma cor tão chamativa. Olhem isso! Vou parecer uma abóbora quando vestir!
– Para de neura! – Hermione revirou os olhos – É tão lindo quanto o meu.
– ‘Tá falando isso, porque não é você que vai vestir essa coisa laranja gritante.
– Não surta Harriet – repreendeu-me Gina – Não é laranja... É um coral lindo! Puxado para vermelho, combina com os seus cabelos.
– E essa cauda então? – torci o nariz de novo e as vi rolar os olhos de novo.
O vestido era de cor abóbora, ou como Gina descreve: “coral” com mangas médias rendadas, justo até a cintura com detalhes sutis em prata e a saia tinha um corte diferente. Na parte de frente ia até o joelho e à medida que ia para trás, o comprimento aumentava, até chegar ao chão, formando uma espécie de cauda.
– Mamãe disse que é um modelo mais trouxa, muito usado pelas garotas. Não deixa de ser menos bonito – Gina foi franca – Mullet... Acho que esse é o nome do vestido.
– Não sei não... – fiz careta – Não estou acostumada a usar coisas tão... Chamativas.
– Pare de colocar de defeito em tudo, Cattleford! Eu daria tudo para vestir um desses.
Sorri sem graça e passei a mão nos meus cabelos. Gina só me chamava pelo sobrenome quando estava impaciente e bem... Não era nem por isso. Sabia exatamente ao que ela tinha se referido. A Sra. Weasley não podia se dar o luxo de sair comprando tudo que via pela frente e vestidos exuberantes estavam nesta lista. Entretanto, não quer dizer que seja impossível comprar peças belas sem gastar muito.
– Desculpa pelo meu ataque de mimada... – abaixei a cabeça constrangida – Acabo de fazer uma cópia perfeita da Parkinson. Eca!
– Também não precisa ficar assim amiga – vieram ao meu encontro, abraçando-me entre risos – Você anda muito neurótica.
– Neurótica é? Vocês vão ver a neurótica já, já! – confrontei-as sorrindo.
Em um movimento rápido com as mãos, consegui dar um pedala nelas e rir feito hiena das expressões de susto nos primeiros segundos. Estava rindo tanto que minha barriga chegava a doer.
– Ai socorro... – arfava – Vocês... – a risada não cessava – Vocês tinham que ter visto as suas caras! Cômico!
–X–
A excitação para a volta às aulas foi morrendo pouco a pouco, à medida que os últimos dias de férias se aproximavam; Percy não os melhorava em nada sempre nos instigando, a saber, o que era o evento misterioso. Desgraçado. Se não podia falar, que calasse a boca e não ficasse enchendo o saco, feito um mentido engomadinho.
O dia do regresso à Hogwarts amanheceu chuvoso, assim como os dias que o antecederam. Tomava o desjejum com as garotas na cozinha em silêncio.
A empolgação foi realmente para o espaço.
– Arthur! Mensagem urgente do Ministério! – o grito apreensivo da Sra. Weasley ecoou, seguido de passos apressados se aproximando.
A cabeça do Sr. Diggory havia aparecido com efeito de chamas mágicas na lareira. Falava muito e depressa, fazendo jus ao seu apelido de Bocudo, dado por mim.
– ...Você precisa ir pra lá.
Foi tudo que consegui pegar de sua fala atropelada. Felizmente, a Sra. Weasley tinha conseguido anotar tudo – a muito custo – em um pedaço de pergaminho, que agora, encontrava-se nas mãos do Sr. Weasley.
– O que foi que Olho-Tonto disse?
Olho-Tonto? Isso era um nome? Código? Apelido?
– Disse que havia intrusos no jardim. E que as latas de lixo o atacaram.
– Como elas o atacaram?
– Causaram estrondo e espalharam lixo para todos os lados. Aparentemente, pelo que soube no Ministério de algumas pessoas, uma das latas continuava no ar quando a polícia chegou,
– E os intrusos? – o Sr. Weasley tinha a testa enrugada de preocupação.
– Intrusos... – fez pouco caso, revirando os olhos – Sabe como Olho-Tonto é. Desconfiado. Era mais provável que fosse um rato revirando seus restos de comida. Você precisa ir, Arthur, é o único que pode livrá-lo de uma acusação mais séria. Pense na ficha dele...
– Tudo bem, estou de saída.
Socou as anotações no bolso e sumiu de nossa vista, indo se aprontar, certamente.
O Sr. Diggory pediu desculpas, enquanto era servido de torrada amanteigada. Agradeceu brevemente e seu rosto composto de chamas sumiu.
– Molly, leve as crianças à Estação de King’s Cross, certo? Tenham um ótimo ano letivo, garotos – acenou o Sr. Weasley saindo.
– Claro! Preocupe-se com Olho-Tonto.
– O que tem o Olho-Tonto? – Gui quis saber ao entrar na cozinha, acompanhado de Carlinhos.
– Ele não é aquele biruta?
– Seu pai tem uma boa visão sobre ele – a Sra. Weasley repreendeu.
De fato as opiniões sobre esse homem eram das mais variadas. E eu estava confusa. E com medo.
Fred diz que ele é todo doido. Carlinhos diz que ele é amigo de longa data do Dumbledore, um grande auror, ex-auror, seja lá como for. Todavia, aparentemente a idade tem afetado seu cérebro, fazendo-o ver magia negra em todo lugar.
O Sr. Weasley não conseguiu alugar carros do Ministério para que fossemos até a estação, então a Sra. Weasley optou por chamar três táxis trouxas.
De verdade, nunca houve uma ida tão desagradável como esta. Os taxistas concordavam comigo que eu sei.
Pichi voava de lá pra cá dentro da gaiola, piando irritantemente. Estava pedindo para ser jogada janela a fora. Já não era muito comum um bando de adolescentes levarem corujas, fogos que estouram dentro de malões muito menos. Os fogos Dr. Filibusteiro no malão de Fred estouraram repentinamente, assustando Bichento que por fim fincou as afiadas unhas no homem que dirigia, fazendo-o urrar de dor.
Não foi muito diferente com a gente, já que a bola de pelos com patas tortas era medrosa pra caramba. No fim, terminamos todos arranhados.
Para melhorar ainda mais este belo dia: o céu parecia estar caindo. A chuva havia se intensificado, obrigando-nos a correr feitos bobocas, com os malões, de baixo da chuva.
Não bastasse isso, ainda tinha a barreira para chegar à Plataforma 9 e ½. Éramos um grupo grande e por mais que tentássemos ser discretos, Pichi estragava tudo. Resolvemos nos separar em grupos para não atrair tanta atenção indesejada.
Harry, Hermione, Rony e eu passaríamos primeiro; visto que estávamos com Bichento, Cotton e Pichi. Edwiges ainda não tinha aparecido com uma resposta de Sirius. Encostamo-nos à barreira, fingindo espontaneidade e conversando despreocupadamente, deslizando pela mesma e vendo a Plataforma se materializar em nossa frente logo em seguida.
Ah, o doce ar de magia!
O Expresso estava logo ali, soltando fumaça, fazendo as imagens de alunos e pais de Hogwarts ficarem borradas.
Apressamo-nos em encontrar uma cabine vazia no trem. Colocamos as bagagens com pressa e tratamos de voltar para nos despedir de Carlinhos, Gui e da Sra. Weasley.
– Vejo vocês em breve, mais breve do que imaginam – ria em meio ao abraço com Gina.
– Por quê? – Fred perguntou interessado.
– Logo verá, mas não deixe Percy saber disso. Informações privilegiadas do Ministério.
– Ah, como gostaria de estar de volta à Hogwarts esse ano. Vocês terão um ano interessante – Gui entrou na onda de Carlinhos, divertido.
– Por quê? – repeti a pergunta de Fred, meio irritada. Odiava quando atiçavam a minha curiosidade de propósito.
– Talvez eu até apareça para espiar...
Antes que pudesse manda-los para algum lugar indesejado, a locomotiva apitou.
– Muito obrigada pelo convite e pela hospedagem, Sra. Weasley – disparei a agradecer vendo que logo o trem estaria se movendo.
Harry e Hermione repetiram os meus gestos.
– Não foi nada queridos! Adoraria os convidar para o natal, mas imagino que queiram ficar em Hogwarts por causa de alguma coisa ou outra.
– Até você, Sra. Weasley! – exclamei indignada.
– Que coisa, mamãe? – Rony implicou.
– Dumbledore os contará. Fico extremamente feliz que tenham mudado as regras!
– Que regras? – os garotos perguntaram ao mesmo tempo.
– Se comportem; Fred e Jorge principalmente – ignorou-os totalmente.
– Conte-nos o que vai acontecer em Hogwarts! – Fred berrou com a cabeça para fora da janela, no mesmo instante que o trem começou a se movimentar.
Voltamos à cabine e desatamos a resmungar sobre o quão injusto as pessoas conseguiam ser. E malvados também.
Rony apressou-se em jogar seu traje a rigor sobre a gaiola de Pichi, para que seus pios fossem abafados.
– Psiu! – Hermione nos fez calarmos, indicando a cabine ao lado.
–... Papai pensou em me mandar para Durmstrang ao invés de Hogwarts, ali eles não têm um velho caduco adorador de sangues-ruins – senti meu sangue ferver – não permitem esse tipo de ralé, mas mamãe acha muito longe. A política de lá em relação às artes das trevas é mais aceitável, visto que os alunos podem aprender e praticar.
Hermione se levantou, fechando a porta para abafar a voz de Malfoy.
– Então ele acha que a Durmstrang melhor, é? – falou zangada – Podia ter ido mesmo, não teríamos que o aturar.
– Malfoy não duraria uma semana lá – balancei a cabeça, contestando – É mole demais para aguentar.
– Durmstrang é outra escola de bruxaria? – foi vez de Harry falar.
– Segundo o livro Avaliação da Educação em Magia na Europa, sim. Possui uma péssima reputação por enfatizar as artes das trevas.
– Acho que já ouvi falar... Onde fica? – Rony quis saber.
– Não se sabe Rony. Por rivalidade entre as escolas, Beauxbatons e Durmstrang gostam de ficar escondidas para que seus segredos não sejam roubados – contei.
– Impossível! – o Weasley riu – Durmstrang deve ser tão imensa quanto Hogwarts, não teria como um castelo desse tamanho ficar oculto.
– Mas Hogwarts É escondida! – retrucou Hermione – Todo mundo sabe... Todo mundo que leu Hogwarts: Uma História.
– Então é só você... – vi a mulher dos doces passar, mas segurei a minha vontade para continuar a par da conversa.
– Só que não... – rolei os olhos, interrompendo a briga de casal deles.
É, sou uma vadia sem coração que ama corta o clima dos casais.
Eu li Hogwarts: Uma História também. Foi no primeiro ano. Estava perdidona e isso me obrigou a tomar medidas drásticas: ficar enfiada na biblioteca e sair de lá o menos confusa que conseguisse.
– O castelo de Hogwarts é encantado. Se um trouxa por acaso parasse lá, veria apenas uma velha ruína com uma placa indicando: “ PERIGO! NÃO ENTRE! ARRISCADO”.
– Então Durmstrang vai aparecer em ruínas também?
– Não dá pra saber – dei os ombros – algo assim.
– Mas eu acho que Durmstrang fica em algum lugar ao norte... Levando em conta as capas grossas que compõem o uniforme.
– Imaginem... – Rony fitava o teto, sonhador – Seria mais fácil matar o Malfoy e dizer que foi um acidente em uma geleira.
Vi a mulher com o carrinho dos doces passar de novo e desta vez, meu estômago não pôde deixar passar.
– Preciso de comida – anunciei de repente, já de pé – Vão querer algo? – os três negaram.
Saí pelo corredor seguindo a mesma direção que a mulher com seu carrinho.
Acabei levando uma caixa de feijões e algumas varinhas de alcaçuz para partilhar com todos. Na volta, alguém acabou trombando comigo, fazendo-me quase perder as varinhas.
Partindo do pressuposto que eu não olhava para onde estava indo, mas sim para a minha caixa tentando decifrar quais feijõezinhos eram os de sabores comíveis, a culpa é minha.
– Olha por onde anda, Cattleford.
Essa voz. Pronto, a culpa não é mais minha.
– Pra termos esbarrado, você precisava não estar olhando também, Malfoy – devolvi o tom, ainda olhando para os feijões.
– Mas não mesmo – olhei-o e ele sorriu escárnio – Eu precisaria evaporar para passar sem te tocar. Sabe... Você ocupa muito espaço – fez uns gestos com as mãos, dando a entender que eu era a gorda da história.
Cretino.
– Ora, seu... – fitei as minhas mãos e num pensamento inusitado, joguei um alcaçuz em sua cara – Para aprender a falar com as garotas.
– E cadê as garotas? – pegou o doce jogado, bravo e mastigou-o de maneira grotesca.
– Para um Malfoy, você tem modos demasiadamente terríveis. Ainda assim não duraria uma semana em Durmstrang – encarei-o, desafiadora.
– Como você... – fez cara de confuso, mas logo voltou a sorrir de lado – Escutar a conversa dos outros não é nada educado, Cattleford – amarrei a cara ao me tocar que tinha entregado o jogo.
– Fica difícil não ouvir quando a pessoa tem uma bocona que parece não fechar – rebati com classe.
– Tanto faz – enfiou as mãos nos bolsos e saiu, deixando-me só.
Idiota. Quem é ele para dar as costas e me deixar com a cara de bunda? Eu é que tinha que fazer isso.
Imprestável.
– Harriet? Você demorou – Hermione falou assim que eu pisei na cabine.
– Ah, foi... Deixa pra lá.
Quanto mais tempo passava, mais a chuva parecia aumentar. O trem estava tão escuro que tiveram que ligar as luzes antes de hora.
Em meados da tarde; Dino, Neville e Simas apareceram para comentar sobre a Copa Mundial de Quabribol. Simas portava uma roseta da Irlanda, já quase nem funcionando mais. Hermione ficou entediada com a discussão e começou a ler o Livro Padrão de Feitiços — 4ªsérie. Meus olhos apenas seguiam quem tinha a fala da vez. De lá pra cá, como em um jogo de ping-pong.
Não demorou muito para que Dino e Simas saíssem, ficando apenas Neville para nossa companhia.
– Vovó não quis comprar as entradas – Neville relatou enfezado – Mas parecia fantástico.
– E foi... Olhe só... – retirou do malão a miniatura que comprara de Krum – O vimos de perto, no camarote de honra...
– Pela primeira e última vez, Weasley.
Draco surgiu entre a fresta da porta, seguido por Crabble e Goyle – como sempre. Eles pareciam crescer mais em todo verão; Eram quase que duas muralhas.
– Não me lembro de alguém ter te convidado para a nossa cabine, Malfoy – Harry foi frio e direto.
Malfoy uivou.
Costume estúpido que adquiriu ano passado nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas. Quando Snape substituiu Lupin e começamos a falar à respeito dos lobisomens, para ser mais exata. Não sei o que se passa nos miolos dele. Acredito que seja a tintura afetando os nervos e ele ache que é realmente um lobisomem.
– O que é isso? – apontou para a manga marrom cheia de rendas cobrindo a gaiola que balançava, devido à agitação de Pichi.
Rony tentou esconder e eu bem que tentei impedir o Malfoy com um tapa na mão, mas acabou errei o tapa por centímetros e ele conseguiu pegar o traje.
– Não me diga que você pensa em usar isso? Isso é do século passado, Weasley! – debochou, obtendo risadas estupidamente imbecis das Muralhas.
– Vai participar, Weasley? Poderia tentar tirar a sua família do fundo do poço, trazendo alguma glória a eles e tem o dinheiro também... Poderia comprar vestes decentes, o que acha?
– Do que é que você está falando? – cerrei os olhos.
– Suponho que você vá entrar, não é mesmo, Potter? Nunca perderia a chance para se exibir.
– Explica logo ao que está referindo ou sai, Malfoy – Hermione indagou sem paciência, deixando o livro de feitiços de lado.
– Não me digam que não sabem? Você – direcionou-se ao Rony – tem um pai e um irmão no Ministério e nem ao menos sabe? Papai me contou faz séculos! Fiquei sabendo pelo Fudge também. Vai ver nem seu pai soube, pelo nível insignificante do cargo que ocupa lá.
– Ou vai ver que não deveríamos saber mesmo e seu pai é um baita de um bocudo – acusei, vendo com louvor, aquele maldito sorriso de deboche sumir – Não sei de nada do que você estava falando, mas de uma coisa eu sei... – mordi o lábio, fazendo cara de inocente, torcendo para que ele mordesse a isca.
– O que você... Sabe? – tentou não demonstrar muito interesse.
Mordeu a isca!
– Eu sei que... – levantei-me, ficando cara a cara com ele – Quem tem a posse da taça de quadribol do ano passado somos nós... Ene, ó, ésse! – soletrei, sentindo um sorriso vitorioso rasgar meu rosto.
– Por que você só sabe falar isso? – perguntou rabugento.
Era verdade. Eu era a pessoa que mais adorava esfregar na cara da Sonserina que a taça era nossa. Hábitos do ofício do meu lado competitivo. Adoro, mesmo, ver a cara deles.
– Grifinória, onde todos são inúteis como o Longbottom – provocava Malfoy, com o tom usual de arrogância.
– Pelo menos temos a taça de quadribo – rebati.
Até a Parkinson provou deste meu lado.
– Grifinórios se vestem tão mal – Pansy dizia alto – até demais – no banheiro feminino, para que eu escutasse.
– Pelo menos temos a taça de quadribol – sorri sem mostrar os dentes.
– Porque sim – mostrei-lhes a língua e sem dar uma oportunidade para que piscassem, fechei depressa a porta, batendo na cara deles.
– Não deixe o Malfoy te chatear, Rony.
– Como se ele pudesse – afirmou mal-humorado.
Não tive mais estômago para me dirigir a ele durante o resto da viagem. Quando Harry ou Mione tentaram puxar conversa, não obtiveram muito sucesso, já que até para colocar as vestes, a cara ficou amarrada.
Quando o trem parou na estação de Hogsmeade, pudemos ouvir trovoadas. Realmente, estava caindo o céu.
Vi de soslaio Hermione abrigar Bichento de baixo das vestes negras da escola e Rony cobrir Pichi com o traje marrom. Retirei um moletom do meu malão e agasalhei a gaiola de Cotton.
– Fica quietinha aí, porque não vai ser fácil pra nenhuma de nós duas, tudo bem? – murmurei, antes de sairmos pela chuva.
Chovia tanto que bastou apenas um segundo para que estivéssemos encharcados.
– Gelado, gelado... Tá gelado! – reclamava dando leves pulos cautelosos na tentativa de me esquentar e não escorregar e tombar no chão.
Andávamos encharcados pela estação, criando poças e trilhas de água para tudo que era canto, em direção às carruagens que nos aguardavam.
Antes que eu conseguisse subir e ocupar o último lugar da carruagem, Neville tomou a minha frente, roubando o meu lugar.
E o trio nem percebeu! Fiquei para trás. De onde já se viu uma coisa dessas? Furtar o lugar dos outros?
Bati o meu pé no chão, fazendo birra, ainda que sozinha, amaldiçoando-me logo em seguida, pelas gostas que respingaram em minha face. Mas o que era mais algumas gotas para um pobre Harriet, não é?
Estava furiosa.
Longbottom seu ingrato! Fui eu quem desfez o feitiço Locomotor Mortis do Malfoy no primeiro ano que você tinha levado!
Dispersa em pensamentos, subi na primeira carruagem que vi, balançando as minhas vestes, para que estas ficassem menos pesadas.
– Oh não! – um timbre enjoado me fez parar – O que você faz aqui, nojentinha?
Fechei meus olhos, rezando para que fosse apenas a minha imaginação.
– Não vai me responder, sangue-ruim?
Suspirei pesado.
Definitivamente não era só a minha imaginação. Tinha como ficar pior? Ah sim, tinha... Abri meus olhos e me deparei com a cara de buldogue de Pansy Parkinson e de Draco Malfoy, que nunca teria reparado se não tivesse aberto os olhos.
– Pelo amor de Merlin, não mereço... – resmunguei, passando a mão em meu rosto – Já posso chorar? – minha fala chorosa saiu abafada.
– Onde estão o Santo-Potter, Weasley-Pobretão e a Granger-sangue-ruim? – perguntou maldoso – Te deixaram, foi? – ergueu a sobrancelha daquele jeito que só ele sabia fazer.
– Calado! – ordenei de mal humor.
Os dois sonserinos malditos gargalharam.
– Vou pular da carruagem, senhor!
– Pode pular – a voz chata de Pansy invadiu os meus ouvidos novamente.
No ato mais infantil possível, voltei a balançar minhas vestes, para que as gotículas de água jorrassem e respingassem nos dois seres insignificantes a minha frente.
– Para! Para! – os gritos estridentes da Parkinson me alegravam, dando-me mais combustível para continuar – Meu cabelo, Cattleford! Para sua sujeitinha de sangue-ruim!
– Pansy, cala a boca! – Malfoy solicitava severamente, passando a mão nos fios loiros – Será que dá para ser menos irritante, Cattleford?
Isso me fazia comprimir os lábios e impedir a vontade de rir.
Dois coelhos numa cajadada. Sou um gênio.
– Não dá pra ouvir! A chuva... – berrei desnecessariamente, fazendo-me de surda.
Além dos berros, gesticulava exageradamente, fazendo mais água voar no rosto da Cara-De-Buldogue, gerando um berreiro da parte dos três.
Pansy surtava, Draco tentava acalmá-la – aos berros também e eu bem... Eu gritava, porque não tinha nada melhor pra fazer.
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