A Chance for You
37 Us against world - Hiroto Kiyama
Notas iniciais
Há muito tempo atrás, existia um planeta chamado Terra. Lá os humanos viveram por séculos. Um dia, os recursos foram tão explorados, que a Terra se tornou um lugar inabitável. Os humanos não tiveram escolha e procuraram outro planeta para morar, no caso Marte. Eles só não esperavam que houvessem marcianos. Depois de muita conversa e acordos, as duas raças concordaram em compartilhar o mesmo planeta. Assim, os bizarros marcianos se viram frente a frente com os humanos aterrorizados.
Você fecha aquele livro de história pertencente aos humanos. Suspiros de desgosto escapavam de sua boca enquanto arrependimento te consome. Ler aquele parágrafo foi suficiente para piorar seu dia. Desde que os ex-habitantes do planeta azul pisaram em Marte, desta vez para ficar, tudo mudou drasticamente. Num piscar de olhos, seu lar virou uma floresta de concreto, edifícios e arranha-céus. Indignação era notável nos rostos de seus semelhantes. Teriam que se ajustar a rotina deles sendo que eram somente refugiados.
Pior, cada raça ficava de um lado. Jamais se atreviam a misturar as espécies. Ambos acabavam adquirindo ódio. Não tardou que grandes rixas aparecessem, exilando o único resquício de paz. Os marcianos experimentavam a ingratidão. Este foi o preço em troca da gentileza de abrigar aquelas criaturas.
Num clima de quase guerra, uma medida teve que ser tomada para apaziguar a situação. E qual melhor decisão do que simplesmente unir todo mundo? Foi assim que ambos os governos criaram juntos, programas de inclusão. Agora, humanos e marcianos deveriam estudar e frequentar os mesmos locais, apesar de contragosto. Inicialmente veio o choque e vários protestos, além de algumas rebeliões, mas no fim todos se acostumaram.
Costume, só isso. Porque a afinidade que um lado tem pelo outro é marcada puramente de desprezo. Uma vida de tensão define o planeta Marte no atual presente.
Sua mão se move para segurar seu queixo. O parapeito da janela de repente virou seu local de reflexão. A vista refletida através dos vidros transparentes e limpos, é de um solo avermelhado repleto de construções humanas, o céu negro do espaço sideral ambientado por outros planetas do Sistema Solar. Era possível avistar Júpiter e suas quatro luas, Vênus oscilando e brilhando, satélites e outros astros circulando em torno do Sol.
A paisagem lhe permitia refletir calmamente. Seria mais bonita se vista do terraço daquela escola humana. Qual o nome mesmo? Acho que Raimon. De cima o céu era encantador, pena que os humanos geralmente ficam por lá. Você ajeita a saia de seu uniforme, outra novidade trazida pelos terráqueos, desnecessária em sua opinião. A vestimenta não define o caráter de alguém, mas parece que os humanos adoravam rotular.
Suas pernas a direcionam para a sala de aula. Passos tranquilos e desanimados. Quanto tempo mais essa guerra fria vai durar? Seu corpo recebe um ligeiro impacto. Alguns humanos esbarraram em você. Mesmo pedidos educados de desculpas não puderam amenizar o clima.
— Aqui. — De repente um ruivo de pele alva e olhos verde-esmeralda te estende o livro que derrubara. Você agradece e se prepara pra caminhar novamente, mas o ruivo a segue. — Antenas legais.
Instantaneamente, um riso travesso escapa de seus lábios. Estava claro que ele tentava puxar assunto. Novamente você o agradece, é raro um humano elogiar desse modo. Só gostaria que ele não fizesse milhões de questões a respeito de marcianos. Como não era a primeira vez falando com terráqueos, já imaginava essa situação, além de ser incômodo quando acontece.
— Cabelo legal. — Você também não é boa de conversa. Seu humor estava péssimo e acabou transparecendo na voz.
— Valeu. Quer jogar futebol? — A pergunta te deixou abismada, pois não sabia o que é isso.
— Isso é uma cantada humana? — Sua acusação o deixa sem graça e ele meneia a cabeça negativamente. — Qual o seu nome?
— Hiroto Kiyama.
Um pequeno sorriso meigo por parte dele é dedicado a você, que apenas informa o seu de maneira monótona. Você chega na sala e o vê se afastar. Apesar de sentir-se mal por ter sido um pouco rude, você dá de ombros imaginando que jamais o veria de novo.
...
— Você sempre tem que ser tão emburrada?
Hiroto indaga meio impaciente ao seu lado. Quando foi que se tornaram amigos? Os dias se passaram tão rápido depois daquele. O ruivo te encontrava em qualquer hora e simplesmente desatava a falar assuntos aleatórios enquanto você só escutava.
— Por que continua falando comigo sendo que respondo rudemente? — Indaga brincando com uma mecha de cabelo. Pôde ver pelo canto dos olhos Hiroto se surpreender.
— Bem... Você nunca me pediu para te deixar em paz ou algo assim.
— ... É verdade. — Sim, era. Até agora permitiu que Hiroto te acompanhasse sem um motivo aparente.
E por vário e incontáveis dias, ou quem sabe até meses, a sua relação com o Kiyama se estendeu inexplicavelmente. Por mais que aos seus olhos isto fosse uma amizade que te deixa feliz, na visão de todo o resto do mundo é considerado um tabu.
Quando ambos saíam por aí, tão unidos como as criaturas mais alegres que existem, humanos e marcianos dedicavam-lhes diversos olhares. Alguns preconceituosos, outros de estranhamento. Os que mais incomodavam com certeza são os de nojo, mas por incrível que pareça há aqueles cheios de admiração pela coragem dos dois, de ultrapassar os limites das regras sociais.
— Trágico, não? — Hiroto lamenta com uma expressão fechada. — Todos nos olham incrédulos como se estivéssemos cometendo um crime.
— Infelizmente isto não vai mudar... Pelo menos não até que todos tenham compreensão e abram suas mentes. — Você desabafa e Hiroto concorda.
— Quando isso começou? — Você abre a boca para perguntar o que ele queria dizer, mas é cortada. — Digo... Quando comecei a gostar de você?
— Hipoteticamente?
— Romanticamente.
Seu rosto esquenta ligeiramente, numa sensação que podia ser descrita como boa. Ambos caminhavam pelas ruas de Marte num horário noturno e decidem ir para uma espécie de praça pública, onde descansaram as pernas num banco.
— Então, você me ama, Hiroto?
— Sim.
A resposta deu lugar ao silêncio. Cada um ocupado com suas próprias reflexões, vez ou outra se entreolhavam de esguelha. Você se esforçava para responder àquela confissão. Como uma marciana, possui sentimentos igual aos humanos, só não conseguia distinguir a proporção, nem a importância das emoções. Por isso, os marcianos são considerados rudes e calculistas, mas somente porque se sentem confusos em casos assim.
— Uma moeda por seus pensamentos.
Ele te observa divertido, enquanto você pensa no que falar. Desde o começo, você o tratou como uma pessoa qualquer, porém agora, é... Diferente. Agora realmente se importa com o impacto de suas palavras no ruivo. Como se não quisesse o magoar ou afastar. Hiroto Kiyama agora é especial para você. Tendo um lugar reservado no seu coração, como diriam os humanos de maneira poética.
Talvez mais do que isso. É a única explicação para as batidas descompassadas deste órgão tão significativo, os sorrisos travessos e tímidos que te escapavam, além de outras sensações gostosas. Era ele quem provocava tudo isto. Mesmo assim é algo tão novo para uma marciana, que não deixa de ser confuso. Ainda haviam coisas que precisava entender.
— Então eu te amo também, Hiroto. Bem... Não sei esclarecer ao certo. — Suas mãos esfregam-se uma na outra nervosamente. Seu olhar se mantém nas orbes esmeraldinas do Kiyama, de modo a passar a convicção de suas palavras. — Você me faz feliz. De um jeito que eu nunca experimentei antes. Acho que isso pode ser considerado amor, não é?
— Só há uma forma de descobrir. Sendo assim, feche os olhos.
A expressão meiga dele te convenceu. Apesar de relutante, você obedece aguardando suas ações. Quando algo macio e quente encostou em sua boca, seus olhos se abrem por reflexo. Foi um pequeno susto até notar que ele a beijava. Você paralisa por não saber o que fazer. Achou que devia corresponder...
Sim, foi exatamente o que fez. Mesmo que não tivesse experiência. E assim, ambos continuaram nessa demonstração de amor, sem se importar com os olhares de reprovação vindo dos outros.
...
Quem diria que esse amor como qualquer outro, acabasse causando tanto rebuliço em Marte? Em pouco tempo, o planeta todo sabia do romance entre a marciana e o terráqueo. Murmurinhos e boatos variados caíam nos ouvidos de um e outro. Os olhares se tornaram mais severos, críticas vieram e nenhuma das raças aprovava essa mistura vista como absurda. Este foi o estopim do preconceito.
Você e Hiroto deviam ser eliminados para preservar os limites das duas espécies. O dever dos marcianos era de acolher os terráqueos gentilmente e o dever dos humanos era retribuir o favor respeitosamente. Coisas além disso são consideradas como infligir a paz.
— O que vamos fazer? — Você questiona desesperada ao ruivo.
A esse momento, uma multidão os procurava raivosamente. O mais irônico é que para esse tipo de coisa, as duas espécies se uniam sem protestar. Você e o ruivo se escondiam numa casa abandonada.
— Vamos seguir com o plano. Você confia em mim, certo?
Ele pergunta, estendendo um pequeno frasco com líquido roxo escuro. Hiroto também tinha um igual nas mãos. Sua cabeça meneia um sim hesitante. Estava com medo. Porém não havia tempo a pensar, o barulho das pessoas agitadas se aproximava da casa.
Num ímpeto, os dois colocaram o líquido goela a baixo e logo caíram. Ainda permanecia meio consciente, podendo usar a audição. Quanto ao resto do corpo, não podia controlá-lo. Um baque te assustou. A porta foi arrombada e passos adentraram. Pôde escutar um monte de murmúrios assustados. Uma mão checou sua pulsação, respiração e batimentos cardíacos, afastando-se depois.
De repente a voz de um garoto berrou o nome de Hiroto e também o seu. Com tanto desespero e raiva, que diria até que estava aos prantos.
— Viu o que vocês fizeram?! Este é o resultado desse preconceito ridículo! — Agora conseguiu identificar que se tratava de Endou Mamoru, o amigo de Hiroto, que acabou se tornando seu amigo também.
— Mas não é correto misturar as raças dessa maneira. — Alguém argumentou.
— Isso faz diferença? — Endou questiona friamente. — Vocês só estão com medo porque não podem prever o que acontecerá com essa miscigenação. Até quando vão manter suas mentes fechadas por causa desse medo?
Um silêncio mortal tomou conta do recinto. Kazemaru, um outro amigo, entrou retirando a multidão do local e só depois de meia hora, você pôde abrir os olhos e se mexer. Hiroto pareceu fazer o mesmo. Endou por sua vez, se assustou incrédulo.
— Estão vivos! — Kazemaru tampa a boca do goleiro escandaloso e o repreende, temendo que alguém estivesse por ali. — Mas... Como?
Vocês três se põem a explicar o plano, que era beber o líquido especial, o qual é capaz de paralisar os músculos de uma pessoa e diminuir suas funções vitais por meia hora. Assim, deixando-a num estado como se ela estivesse morta, mas ainda viva. Kazemaru por sua vez, foi encarregado de verificar se tudo correra bem e tirar todos para que ambos pudessem despertar. O objetivo final era fazê-los acreditar que tivessem se envenenado. Quanto a Endou, foi apenas uma parte inesperada que acabou se encaixando bem na situação.
— E por que não me falaram antes? — O goleiro, agora indaga indignado.
— Você não ia conseguir guardar segredo. — Kazemaru responde.
— Viu? Eu disse que ia dar tudo certo.
Hiroto lhe conforta sorridente. Entretanto, é claro que ainda não estava bem. Ambos teriam que viver escondidos, neste caso na casa de Kazemaru, que concordara; até as coisas melhorarem. Enquanto essa guerra fria continuasse, você ficará desanimada por toda a ignorância presente. Mas o fato que a consola é de ter pessoas a seu lado que fazem a diferença.
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