A Chance for You
82 Redenção de um Assassino - Nagumo Haruya
Notas iniciais
“Procuro me agarrar a essa doce luz para me livrar dessas trevas horríveis.”
No atual momento, você está na mesma residência de um assassino. Não, isso não é normal. O telefone da casa, repousava no cantinho, pedindo para discar o número de emergências da polícia, mas você não se moveu para pegar e nem ia. Porque não se trata de um sequestro comum. É um em que você tinha liberdade para andar, comer, se entreter, etc. Só não tinha permissão de sair.
É como se apenas morasse com ele.
Pior ainda foi que você aceitou .isso. Bom, não que tivesse direito a muitas escolhas, sendo ameaçada. É que na verdade, você tinha um vínculo com o sequestrador.
***
Não tinha para onde escapar, o labirinto de corredores finalmente cessou e você se viu como um rato enjaulado. Suou frio ao ouvir o som de uma arma sendo carregada. Se virou para encarar o homem com vestes negras e capuz, mirando o cano em sua direção. Se encolheu tanto no cantinho da parede, que parecia acreditar que um buraco se abrisse e te arrancasse daquele pesadelo.
Você optou por tentar um último recurso. Conversar com ele. Porque tudo se vale quando está prestes a perder a vida. Sem saber o que dizer, sua boca se moveu.
— Espera! Por favor não me mate. — Quis se estapear por isso. É claro que ele não ia te obedecer. — Se eu fiz alguma coisa pra você, me perdoe.
Silêncio por parte do homem. Não movia um músculo e agia como uma máquina de matança.
— Ou, se for dinheiro que precisar, posso te dar o dobro. — Arriscou, soou mesquinha com esse suborno, mas novamente enfatizo que quando sua vida está em jogo, você não pensa.
A falta de palavras e ações do dito cujo, só a deixava mais aflita e frustrada. Não que quisesse adiar sua própria morte, mas era uma agonia que lhe matava por dentro.
Tendo um pequeno momento pessimista, procurou tirar uma dúvida.
— P-pelo menos me diga, q-quem te contratou? — Seus olhos lacrimejaram imaginando quem queria lhe ver morta.
E por um momento, vasculhou sua mente em busca de ações e palavras que podem ter levado àquela situação.
Nada.
Nada que viesse à tona. Estava sendo hipócrita e ingênua?
Você voltou a realidade quando viu a arma abaixar lentamente e o assassino tirar o capuz, revelando cabelos mais vermelhas que sangue e olhos amarelo dourados. O choque foi extremo.
— Nunca imaginei que nosso reencontro seria assim. — Pronunciou ele, lamentando-se.
***
Seu coração estava em pedaços ao saber que o assassino de codinome Burn, era seu melhor amigo, Nagumo Haruya. Um furacão de dúvidas martelava sua cabeça e até agora, nenhuma fora esclarecida. Desde aquele dia, ele decidiu te levar para casa e manter em cativeiro. Isso era horrível e doía na alma quando às vezes ele algemava suas mãos para evitar que fugisse. Apesar de chocada e decepcionada, notou a repulsa que ele mesmo demonstrava ao fazer isso. Sem falar que não mostrava o mínimo de brutalidade ou agressividade. Tudo era feito de maneira suave para não lhe ferir ainda mais.
— Por favor, deixe-me voltar pra casa, juro que não falo nada sobre você. — Implorou, mas ao mesmo tempo, se recusava a deixar ele nessa vida. Você deseja saber o que aconteceu para chegar a esse ponto tão crítico.
Ele alegava que não poderia fazer isso. Queria mais não podia.
Se completava onze dias estando na situação. Ele não se abria, não falava mais que o básico do básico.
“Coma; vá descansar; vá se banhar.”
— Ei. — Você chama, tendo o brilho dourado fixo em sua figura. — Me conta?
Pediu nas várias vezes. E como sempre ele se recusou, dando-lhe as costas com melancolia. Aquele não era seu amigo.
Onde havia parado aquele garotinho sonhando em se tornar um jogador de futebol? E pior, estava tão diferente, triste e angustiado. Será que você é capaz de fazer algo por ele?
❣ ✿ ❣
A abordagem direta não funcionou muito, como o segurar pelo braço e pedir muito, muito mesmo que ele te contasse algo. Então apelou para a emocional.
Abraçou o ruivo por trás, transbordando confiança. Abraçou bem forte. Tanto que ele parou.
— Por favor, me conta! Acha que é justo você me deixar aqui cheia de perguntas?
Ele não contestou.
— Não é fácil te ver desse jeito depois de eu conhecer aquele Haruya de anos atrás.
O olhar dourado meio opaco, te fitou como um pedido de ajuda. O coração angustiou-se, só aumentou a aflição e a preocupação. Quando o ruivo se livrou de seu agarre, se preparava pra se trancar no quarto daquele apartamento onde se refugiava e não aparecer até a manhã seguinte.
E foi o que fez.
Você o aguardou do lado da porta. Ele iria aparecer a qualquer minuto para comer algo. Ou não. Acabou que você teve que fuçar a geladeira e se virar. Se alimentando sozinha, você foi atacada por doces lembranças.
***
— Um dia, vou ser o maior jogador de futebol e sair do Japão! — Um menininho de uns nove ou dez anos, declarava alegre e determinado.
— Achei que ia ser jardineiro. — Você alega o confundindo.
— Por quê?
— Ué, por causa dessa tulipa na sua cabeça! — Brincou e o outro inflou as bochechas.
— Não me chame de tulipa. Sabe que eu não gosto.
— Foi mal amigo, mas é muito estranho. Parece que tentaram usar sua cabeça como um vaso de tulipas. — Zombou e deu risadinhas. O outro se pôs irado e vermelho como seus cabelos.
— Cala a boca!
Você ressentiu de leve. Nagumo realmente não gostava das piadas quanto a suas madeixas. Indo até ele, você deu um amistoso e reconfortante abraço.
— Mas sabe, eu acho muito fofo. — A tentativa de elogiar não deu muito certo.
— Nossa, muito obrigado. — Agradeceu sem jeito. Meninos não gostam de ser chamados de fofos.
— Tá, se te consola, o seu cabelo também parece uma chama vermelha.
— Hum... Acho que sim. — Nagumo foi voltando ao seu humor normal. No fundinho do coração, ficou feliz pelo elogio.
— Sabe, se você for sair do Japão, vai ter que ser bastante rico. — Você declarou.
— Claro que sei disso. Ainda mais q — Ele ia completar com: é preciso pagar as passagens. Você o cortou.
— Ainda mais porque eu vou junto!
— Mas só jogadores da seleção podem ir. — Nagumo baixou sua bola, você entristeceu um pouco.
Vocês caminharam até o playground do orfanato em que Nagumo morava. Começaram a brincar nos escorregas.
— Eu poderia ficar num hotel. Ou ir escondida nas malas.
Haruya revirou os olhos.
— É que eu sempre quis conhecer outro país, qualquer um já tá ótimo. — Confessou seu sonho de criança. Sua família não tinha muitas condições de viajar.
— Bem, você podia jogar futebol também. Assim você pode vir comigo.
— Eu não sei. — Desanimou, sentada no topo do escorrega.
— Aprende.
— Vou te bater. — Você ameaçou, frustrada pela resposta dele.
— Tá! Eu ensino. — Nagumo se prontificou.
— Preciso de um professor.
— Ei!
— Que foi?
— Eu sou bom, tenho até uma técnica especial!
— Ah tá, por que não prova?
— TÁ! — Nagumo aceitou o desafio determinado e confiante.
O pequeno ruivo entrou na porta do orfanato e apareceu com uma bola em mãos. Se preparou e chutou com toda a força para cima. Uma espécie de efeito especial de fogo, é visto ao fundo. O menino flutua e chuta a bola no ar.
— ATOMIC FLARE!
Ele marca o gol.
— Viu? — Indagou convencido e orgulhoso.
— Legal. — Provocou não mostrando muito interesse.
— Só legal?
— Ok, então muito legal. Quer um biscoito?
— Eu suei para fazer essa técnica! — Nagumo bradou e se pôs a ficar decepcionado.
Comovida. Você o abraça de novo.
— Tô brincando. Foi sensacional!
— Sério?
— Sério.
❣ ✿ ❣
Mais tarde, a sede lhe acordou. Indo a cozinha, você avista um ruivo assaltando a geladeira. Tirava um pedaço de bolo. Ele notou sua presença e ficou constrangido, abaixou o olhar e foi para a sala de estar. Você o seguiu na esperança de puxar assunto com ele.
— Posso me sentar? — Ele assente e você se acomoda. Estava com as mesmas roupas e sentia falta de um pijama apesar de lavar e secar sua única de roupa, todo dia. Timidamente, o ruivo ofereceu sua sobremesa, você recusa educadamente e aproveitou para conversar. — Você não perdeu o costume, não é?
— O... Q-quê? — Perguntou num fio de voz. Ele parecia com vergonha de si.
— Comendo besteira de madrugada, ué.
— Como sabe que eu fazia isso? — Questionou chocada.
— Kiyama e os outros falaram.
De repente, uma aura triste se apossou dele.
— Haruya. — O chamou, sensibilizada. — Me conta.
Exigiu, suplicante.
Os olhos dourados a fitaram com determinação.
— Tudo começou quando eu fui adotado.
***
Nagumo Haruya tinha um mal pressentimento. Não queria ser adotado. Esse é o desejo de qualquer órfão, mas não dele. Estava feliz porque tinha todo mundo do orfanato, você, o senhor Kira e a senhorita Hitomiko. A companhia de todos já preenchia o espaço de uma família de verdade. Ali são todos amigos e unidos.
Porém teve a infelicidade de ser escolhido. Se pudesse, dava o lugar para outra pessoa. Sem falar que o ruivo não simpatizou com aquela mulher e aquele homem. É o pressentimento de criança.
Mas o menino não teve escolha senão ir.
O que devia ser um sonho, virou um pesadelo. O pai adotivo passou a ter problemas com álcool. Passou a abandonar a casa e a fazer dívidas por bebida, arrumou brigas na rua e com a esposa também. A mãe por sua vez, carregando todo o fardo nas costas, colapsou. Não conseguiu aguentar sustentar a casa, as contas e uma criança. O psicológico dela foi a baixo. A beira de cometer uma loucura, conheceu um homem e engravidou dele. A tragédia estava feita e a “família” arruinada.
E no meio de tudo isso, estava a criança. Nagumo não sabia o que fazer. Queria fazer algo para ajudar, mas era invisível ali. Nagumo faria qualquer coisa para retornar ao orfanato.
E como se o ciclo de tragédias não acabasse, o pior ocorreu. O pai matou a mãe na véspera em que a mesma iria fugir grávida, para viver com outro homem. Haruya presenciou tudo em choque. Assustado, o correto era ligar para a polícia, mas ele foi impedido e atacado pelo pai adotivo.
Sua morte seria certa nas mãos daquele homem perturbado. Então ele teve que reagir para sobreviver.
O matou. Sujou suas mãos de sangue. E seu pai foi o primeiro.
Antes de iniciar sua vida de assassinatos, o menino foi para um reformatório. Apanhou. Aprendeu a ser uma pessoa ruim e a fazer coisas ruins e fugiu. Abandonado como um moribundo, passou fome, desprezo, humilhação e quase ficou à beira da morte. Viveu no pior lugar para um indivíduo morar, até ser pego para criar por um homem em torno de seus quarenta anos.
Ele era um assassino também.
***
Paralisada e boquiaberta. Jamais ia imaginar que seu primeiro amigo, estava passando por tudo isso enquanto você, descobriu que fora adotada e sua verdadeira família tinha deixado uma espécie de herança para você. Era uma pena que só descobriu após a morte do pai e da mãe.
Mas mesmo com todo o sofrimento de Nagumo, não era certo dizer para ele continuar matando pessoas.
— Eu não quero mais fazer isso. — Desabafou, triste.
Por um lado, estava feliz por ele pensar dessa maneira.
— Eu também não quero te matar.
— Mas, quem quer que você me mate? — Perguntou angustiada. Nagumo fez drama.
— Tem certeza que quer saber? Vai ter que ser forte.
— Eu quero muito.
O ruivo fez cera e demorou uns tempos até abrir a boca e confessar.
— Sua tia Felicya.
Você quis berrar.
Felicya era a mulher que havia te procurado para revelar a verdade sobre seus pais e a herança. É sua tia por parte de mãe. Você segurou o choro e a decepção. Desde o começo, ela devia ter te procurado somente para forjar sua morte ficar com o dinheiro todo.
— Você está bem? — Nagumo questionou com cautela. Você assentiu.
— Bom, posso ser indelicada e te perguntar uma coisa?
— O quê?
— Como você... — Se parou, não queria o magoar, mas tinha curiosidade. — Como você matava suas vítimas sem deixar rastros?
Nagumo se surpreendeu, porém decidiu se abrir também. Nunca teve a chance de ter alguém para desabafar.
— Com fogo.
***
Uma garrafa de álcool e um isqueiro estavam em suas mãos. Era três da madrugada, a hora morta. Hora boa para se cometer um crime. Esgueirando-se pelos becos e lugares sombrios para despistar as câmeras e quem estivesse vagando por ventura ali.
A temperatura favorecia para que nenhuma vivalma seja a testemunha. A vítima não morava sozinha, seria difícil, mas não impossível. Sorrateiramente, o homem entrou pela tubulação. A casa estava silenciosa e escura. Perfeito. Se camuflando entre as sombras como uma cobra, Burn adentrou o quarto. A vítima estava em seu mais profundo sono e parecia uma rocha.
Seu alvo era um homem. De acordo com seus dados, um empresário. O que ele tinha feito de errado? Nagumo não sabia. E nem queria saber, ou melhor não tem o direito de saber. Não é um deus, nem um juiz do inferno para julgar. Apenas devia aceitar e fazer o serviço. Assassinos não escolhem para quem fornecem seus “trabalhos”.
Podia ser um homem bom, ou um homem horrível. Não faz diferença. Era hora de acabar com isso logo.
Olhou para o lado, uma mulher descansava calmante. Praguejou ao ter que removê-la para fora do cômodo. Injetou uma injeção de anestesia geral, aquelas usadas em processos cirúrgicos, no homem, para ele não acordar devido a dor. Derramou todo a garrafa de álcool. Com uma faísca, a chama se alastrou e matou o indivíduo sem que ele acordasse a tempo de se salvar. Sua esposa só percebeu a tragédia após acordar e notar que seu marido já estava carbonizado.
O mais curioso é que a casa não havia pegado fogo. Era como se ele tivesse controlado as chamas para só queimar o corpo.
***
— Sei que sou um monstro. — Se crucificou. Evitava seu olhar.
Ainda absorvida e impactada pelo relato, você chega mais perto dele.
— Haruya, acabe com isso.
❣ ✿ ❣
Nagumo decidiu se entregar e pagou todas as suas dívidas com a sociedade. Decerto que sua sina e culpa, jamais acabariam, mas estava se redimindo. As famílias de suas vítimas, o queriam ver morto, obviamente, se indignavam e gritavam por justiça. Ficaram ainda mais com cólera quando o assassino foi solto, além de medo. Nagumo não era assim mais. Só matou por impulso e a necessidade no momento. Errou, pecou e não agiu e nem pensou direito. Por isso, continuava a não ser totalmente perdoado por mais que tivesse sofrido ainda mais na cadeia.
Contudo, será que deveria ser pregado na cruz mesmo assim? Será que não poderia desfrutar de mais nada? Nagumo continuou a pagar preços mesmo após se provar ser humano. Julgamentos, críticas e ameaças nunca cessavam.
Naquela cerimônia, não tinha quase ninguém. Era bem reservada a pessoas íntimas, até porque as pessoas não iriam vir ao casamento de um indivíduo que fora um assassino, certo? Não importa. Pelo menos uma vez na vida, ele estava tendo direito a verdadeira felicidade.
E jamais esperou que algo assim ocorresse, se sentia como se não fosse digno de tal coisa, mas estava extremamente agradecido por essa sorte.
— Eu os declaro, marido e mulher. Pode beijar a noiva. — O padre consuma o casamento e vocês se beijam genuinamente.
Os planos de Nagumo Haruya eram se tornar um jogador de futebol, mas agora, seus planos eram, construir um futuro digno de redenção.
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