A Chance for You
48 Crush - Kita Ichiban
Notas iniciais
Você estava de um lado do pátio, ele do outro. Mesmo que tentasse disfarçar, era inútil; qualquer um podia dizer de longe que você estava nervosa, isso a incomodava sem dó. Seu crush tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
Que sentimento tão complexo... Seu desejo é de agarrá-lo de surpresa e ali. Mas na realidade, apenas se ficasse do lado dele, com certeza ia morrer de vergonha. Que sensações estranhas... Sonhando com os lábios dele se encaixando nos seus; fantasia diversas que te arrepiam toda. Agora, na oportunidade de falar com o dito cujo, você trava.
Prefere viver na ilusão do que encarar uma rejeição. É automático da mente. Enfim, devia relaxar. Ele é só mais um crush, não existe maneira de dar muito certo. Porém suas amigas insistem em alfinetar sua coragem, dizendo para ir lá falar com ele; dar uma olhadinha.
Você decide olhar de soslaio, só para satisfazer seu coração. Se concentrou nos detalhes que desconhecia, afinal essa é a graça. Observar seu amado várias vezes com a desculpa de encontrar as qualidades e os defeitinhos que te atraem. Uma pena que não podia vislumbrar o que mais a fazia corar, seus belos olhos.
Ah! Parece que não é mais um problema. Ali estavam as orbes esmeraldinas, que contrastavam com as madeixas laranjas e rebeldes. E aquele rubor nas maçãs do rosto o deixa fofo. Espera! Desde quando seus olhos se encontraram?
Você trata de virar o rosto imediatamente, que vergonha. Ah, o amor. Sentimento que é maravilhoso se correspondido, mas sofrido quando só uma pessoa o sente. Quando você percebe, já está fazendo coisas sem sentido, como ficar em um local, só para ver a pessoa ou chamar atenção discretamente.
Um simples olhar, uma palavra. Tudo contribui para a ilusão continuar. Nunca se sabe o que o crush tá pensando, porém o amor engana dizendo que é uma coisa positiva sobre você. Resumindo, um belo melodrama. O próprio significado da palavra já revela o que supostamente é, pois crush em inglês pode ser traduzido como esmagamento, ou seja, é isso o que um crush faz com suas esperanças.
O sinal de fim de intervalo ecoa no recinto. Aos poucos você e um turbilhão de alunos se dirigem às salas. Como foi uma das primeiras a entrar, pôde ver todos os outros chegando. Você tenta agir o mais normal possível quando ele passa, mas um leve arrepio já percorreu sua espinha. Procura não o olhar mesmo que fosse difícil ignorar totalmente.
Contudo, esse fato deixou de ser sua preocupação no momento em que sentiu uma presença feminina parar ao lado de sua mesa. A jovem aparenta ter sua idade. A pele é alva e rosada, os cabelos castanho-claros ondulados e um par de belos olhos violeta, comparando-se com joias lapidadas, mas de coloração escura. Ela possuía uma expressão meiga adornando o rosto e esboçava um sorriso que era simpático e conquistava a amizade de qualquer ser humano. Seus olhares se cumprimentam e ela rapidamente se apressa em iniciar um diálogo.
— Oi, tudo bem?
A dona dos olhos ametista brilhantes, se senta na cadeira em frente a sua. Você a responde educadamente. Estranha a aproximação repentina porque desconhecia a garota. Não pertencia a sua classe.
— Meu nome é Tsukiyome Chie, prazer.
Um nome bonito. Após a clássica introdução, ela puxa assunto com você. O tempo todo você se pergunta o que ela queria justamente com sua pessoa. O motivo não vinha, não importa quanto tempo se passe. Ela conversava como se ambas fossem amigas e era sempre agradável, legal. Os tópicos partiam de diversas coisas mescladas, que davam origem a várias ideias que você nem sabia como surgiam. Ela tornava tudo divertido e efluente. Você se divertiu, apesar de ser uma completa estranha. O que ela queria, afinal? As questões que Tsukiyome fazia a seu respeito era: "Que tipo de música você curte? E livros? Séries e filmes assiste também? Qual carreira você pensa no futuro?"
As simples perguntas básicas para se conhecer um indivíduo.
E qualquer resposta sua, ela incrementava com uma série de informações. Desse modo, a conversa nunca morria. Mas qual o motivo de ser tão legal assim? Você não tardou a encontrar a resposta. O sinal indicando o recomeço de aulas a interrompe. Ela alega que teria que voltar. No fim de tudo, a garota pede seu caderno emprestado, tinha aula de história e estava perdida com o professor. Disse que os colegas de sua classe eram um bando de bichos preguiça e não havia ninguém a quem recorrer socorro. Sem falar que ouviu boatos de que você seria uma ótima estudante.
Você se indaga que outros rumores rondavam por aí e quem costumava falar sobre. Talvez Kita estivesse sabendo disso? Uma ponta a mais de esperança lhe domina só de pensar no garoto. Tsukiyome pede perdão por ter se aproximado de você somente por causa disso, mas diz que gostou do tempo que passaram juntas. Seu professor adentra a sala. A garota teve que se retirar. Seria esse, o início de uma amizade?
❣ ✿ ❣
Os dias seguintes mostraram que sim. A companhia de Tsukiyome os fazia passar rápido e tomar gosto pelo período escolar. Ela era legal. Seu adjetivo maior e mais característico é ser meiga. Porém há sempre um fator que não é bom, e por alguma razão, você desconhece o porquê. Suas amigas não gostavam dela e infelizmente ela também não simpatizou com elas. O que era irônico pois Tsukiyome é a rainha da simpatia a seu ver. Hoje, estranhamente, Tsuki como a chamava, estava com uma careta entediada. Ambas estavam a sós.
Mas... Nem tudo são flores e nem todas as flores são perfumadas. Um defeito chato que só a Chie tem, é de quase sempre falar sobre garotos. Portanto uma coisa é certa. A garota estava louca para namorar.
— E você? Não tá gostando de ninguém? — Tsuki pergunta com uma ponta de hesitação a qual não fazias ideia do porquê.
— Bem... — Você fica em dúvida sobre falar com alguém que ainda estava com a confiança a ser testada. Mas logo em seguida pensa que nada de ruim aconteceria. —Sim, eu gosto.
— Sério? Quem? Ele é bonito? — Você revira os olhos discretamente. Esse assunto anima Tsukiyome na hora. Timidamente, você procura seu amado e aponta com o olhar. — Onde? Cadê? Tem tantos...
— Ali! O de cabelos laranja. — Tsukiyome ainda não foi capaz de avistar e distingui-lo. — É o Kita, da minha sala.
— Kita Ichiban?! — A garota fala alto, quase o fazendo ouvir, para seu susto. Você queria esganá-la. — Nossa... Eu nunca pensei numa coisa dessas.
— Por quê? — Pergunta com imensa vontade de saber e um certo receio. O tom dela era de pura preocupação. Seu receio era de que ela não o achasse bom, ou dissesse algo muito ruim. Não era porque queria a aprovação de alguém, só não queria discutir com Tsukiyome. Amava Kita e não via defeitos nele, não somente por estar caidinha de amores.
— Me desculpe o que vou dizer, mas esse garoto não presta. — Com esta resposta, a Chie te assusta. — Kita é conhecido por quebrar o coração das garotas cruelmente. Digo, ele não tem consciência do impacto que suas palavras causam nas pessoas. Não porque quer. Ele simplesmente magoa sem pensar.
— Que pena... — Você não sabia o que dizer. Sua mente já era martelada por seu crush, com essa revelação, o medo da rejeição era bem maior. Porém achava Kita uma pessoa tão boa. Na equipe de futebol era a voz da razão de todos, o líder responsável. Será que fingia uma fachada boa. Mas Tsukiyome disse que ele não faz por que quer. Então talvez o rapaz seja insensível e tem o coração frio?
— Ouvi dizer que ele também não se atrai por garotas...
— Hã?! Ele gosta de garotos? — Sua voz sai exasperada, mas não a ponto de todos ouvirem. Você jamais imaginou essa hipótese. Agora o desespero te dominou e lágrimas já estavam para sair e ser consoladas debaixo do travesseiro. Se uma pessoa se atrai pelo sexo oposto, pode esquecer. A não ser que você nascesse de novo, dessa vez um homem, seria impossível conquistar esse amor. Ou talvez, por um milagre mais que milagroso, se ele for bi ou gostar de você apesar da identidade sexual.
— Ahn? Não, haha. O que quis dizer, é que ele dificilmente tem uma namorada; crush. Mas se bem que não tenho certeza. Talvez ele curte homens porque já o vi lançar olhares de interesse em alguns, mas também já o vi com namoradas e ficantes. Kishibe foi um deles. Ah, não sei, sinceramente.
Você realmente não sabia o que pensar. Se chora, se acha que tudo era um sonho, se acredita. O que ia fazer da vida a partir de agora?
— Não fica assim. — A Chie te consola tomando cuidado com as palavras. — Tem muitos garotos bonitos somente na sua classe, imagina na escola inteira. Sei que não é fácil superar problemas amorosos, mas te darei o maior apoio. Prometo.
❣ ✿ ❣
Ao passar do tempo, a sua decepção não teve fim. Você se recusava a abrir mão do amor. Mesmo com todos esses infortúnios, estava determinada a pelo menos tentar. Mesmo que ele não quisesse nada, mesmo com sua opção sexual, mesmo tendo um coração de pedra. E até mesmo se caso ele fosse de outro sexo. Bem, é possível acontecer de tudo nessa misteriosa vida. Já Tsukiyome, aconselhava sempre para que desistisse. Tinha medo de vê-la muito decepcionada, ou até humilhada. Mas Kita é seu crush. Apesar de não ter que levar tão a sério, ele acabou se tornando muito mais do que isso. Foi dessa atração que gerou um sentimento maior. E com isso, você ia tentar pedir para “ficar” com ele.
Numa tarde de fim de aula, você se prepara para voltar para casa se não fosse um imprevisto que se recordava. Mais cedo na escola, mas não muito, Tsukiyome te informou a respeito de um bilhete. De acordo com ela, Kita sabia sobre seu crush por ele e queria se encontrar a sós.
Claro que seu coração não ficou quieto no lugar. Emoções diversas entre felicidade, esperança, medo, confusão. Em primeiro lugar, como ele descobriu? Será que não disfarçou bem? Porém de qualquer forma, decidiu ver o que ele queria. A letra dele estava reconhecível no papel, portanto não podia ser pegadinha de alguém.
Seus passos queriam se tornar apressados e ao mesmo tempo não. Por que esse sentimento ruim?
Infelizmente, você não tardou a encontrar a resposta.
Seus olhos veem Tsukiyome, a garota que dizia ser sua melhor amiga, e Kita, o seu crush. Qualquer um diria que são amigos se não fosse o beijo que ela dava em seus lábios. A mando do coração, para a cena. A garota te encara descaradamente, como se fizesse aquilo somente para te provocar. Como se tivesse ganhado de alguma forma. Porém ao mesmo tempo não esperava a sua reação. Mas toda a coragem se esvaiu de um momento a outro. Você se afasta do local num misto de raiva, tristeza, decepção.
Não houve tempo de você sequer sair da escola, pois a falsa amiga aparece e logo se aproxima com um cenho franzido e a cara de ódio mais horrível que possui. Ela possui, passa reto, quase te ignorando e deixando para trás. Você a puxa pelo braço, a obrigando a te encarar.
— Que grande amiga você é, Tsukiyome. Sabia que eu gostava de Kita e mesmo assim o beijou na minha frente. Por que fez isso? — Sua voz estava alterada, igual sua expressão.
— Acha que eu deixaria você ficar com ele? — Tsukiyome puxa o braço e te responde com um tom de fúria.
— Então é você quem gosta dele. Por isso inventou aqueles boatos idiotas. — Responde na mesma intensidade que ela.
— Claro! Por que acha que eu começaria a ter amizade com você?
Neste momento, você se arrependeu de tudo o que dissera dessa infeliz. Percebeu que Tsukiyome não era a rainha da simpatia ou a flor mais perfumada que existe. Ela é uma rosa artificial. Serve só para enfeitar e enganar os olhos, que veem uma beleza quase inigualável, mas no fim não vale nada. Não tem vida. E essa frase dela foi jogada com tanta indiferença na sua cara; deboche, que não apenas te deixou decepcionada, como também indignada. Estava extremamente triste por existir pessoas tão cara de pau como a garota. Você realmente não queria descer a este nível, mas não é justo aquela criatura sair impune.
— Eu tinha gostado de você. De verdade. Mas esperava que me ajudasse com Kita e não virasse as coisas a seu favor, e usasse para si.
Já chega. Como ela pode dizer uma coisa dessas? Usar a seu favor? A errada da história é ela, que usufruiu da boa vontade de alguém para ter seus benefícios. Sua mão decola no rosto de Tsukiyome, que chegou a rodopiar pelo impacto inesperado. Um sorrisinho vitorioso contorna sua face. Que sensação ótima. Agora ela iria aprender a lição. A garota se recompõe surpresa, contudo não ia levar desaforo para casa. Uma mão levanta em sua direção a você, pronta para rebater a agressão. Suas mãos somente se erguem em prol de se defender.
A dor não veio de maneira alguma para surpresa de ambas. O rapaz de belas madeixas laranja, segurava o pulso de Tsukiyome.
— Vá embora, Tsukiyome. — Kita praticamente ordena em um timbre sério, causando um certo medo na garota.
— Mas Kita, eu... — Ela se parecia com um gatinho assustado. Era hilário.
— Quantas vezes vou ter que repetir? Eu tenho cara de gravador por acaso? — Kita humilhava e constrangia a Chie. Você segurou o riso com dificuldade pela fala do garoto.
— Não precisa ser tão rude comigo! — Tsukiyome rebate envergonhada.
— Preciso sim, já que você acha que é dona de tudo.
— Você sabe que eu te amo. — Ela confessa suplicante, como se ele a perdoasse.
— Mas eu não. — Com essa resposta, você até teve pena da Chie, mas tinha quase certeza que ela fez algo grave para o rapaz falar desse jeito. — Eu realmente não queria te tratar assim... Só que conversar com você em tom monótono não adianta. Então Tsukiyome, facilite as coisas. Para nós dois.
Desiludida, a garota enfim parte, com os olhos marejados e vermelhos. Kita se vira para te encarar; dirige a palavra a você.
— Tudo bem? Desculpe por isso. — Você o conforta, alegando que não se importa com a cena recém presenciada, e se estreme de nervosismo ao notar que ele segurava seus ombros delicadamente. — Tsukiyome é minha ex. Não se conforma com o término do relacionamento e vive afastando garotas de perto de mim; criando rumores para amedrontá-las. O bilhete que te entregou, fui eu, mas ela o pegou escondido de mim. Quando eu estava saindo, Tsukiyome apareceu e me segurou até você nos ver, e me beijou.
— Ah, entendo. — Agora a situação foi devidamente esclarecida. Só uma coisa não se encaixava, o bilhete.
— Eu não queria fosse assim, mas acho que não dá para adiar mais.
Kita segura suas mãos repentinamente antes de você pensar em indagar. O calor sobe em seu rosto e aparentemente no dele também, visto que aquela cor rosa de timidez, contrasta com a pele.
— Faz algum tempo que comecei a ter sentimentos por você. Não só amor, mas ciúmes. Além de alegria quando sorri e tristeza quando não está bem.
Ele se esforçava para manter o contato visual. Desviava os olhos esmeralda quase sempre. Que meigo. Desde quando é tímido assim? Porém, aquelas palavras são de verdade mesmo? Temia que fosse um sonho ilusório.
— Na verdade, sou péssimo com palavras, então não vou enrolar. Eu te amo.
Você ficou boquiaberta. Como assim? Era verdade mesmo! Mas ainda assim é complicado de acreditar. Nunca percebeu antes se ele sequer pensava em você. Apaixonados sempre costumam pensar no pior em primeiro lugar sem nem avaliar direito as chances. E ainda por estar desacreditada, pediu aquilo novamente. Tinha que ouvir para confirmar que não era um equívoco, engano ou outra brincadeira malvada.
— Eu te amo.
— Mais uma vez.
Incontáveis vezes, Kita se confessava. Cada vez, as três palavras soavam mais claras e verídicas. Era superficial para lhe convencer.
Um beijo interrompe tudo e define a situação de vez.
Você era a crush do seu crush. O que podia ser mais perfeito? E a ironia, é que a ex do seu crush tornou tudo isso real. Que vida sem sentido.
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