A Chance for You
43 Beautiful Shattered Girl - Tobitaka Seiya
Notas iniciais
O batom da cor rosa pintava e bordava seus lábios femininos em movimentos repetitivos de vai e vem. A textura cingia sua boca cada vez mais, até atingir o tom desejado. Um pouco de blush deu um ar saudável às maçãs do rosto. Suas mãos ajeitam as madeixas rebeldes, que ousavam se desarrumar.
Uma vez pronta, você contempla seu reflexo no espelho límpido da penteadeira. Impecável, como sempre. O penteado meigo e comportado de boa moça; uma maquiagem sedutora e doce ao mesmo tempo. O conjunto que modelava seu corpo, ou melhor, seu corpo de manequim perfeitinho e esculpido que moldava as roupas. Pois não havia uma que não se encaixasse em você. Até o uniforme escolar.
Só não podia deixar de usar o perfume. Uma vez que, por onde passava, seu cheiro impregnava em tudo e todos. Os olhares se voltavam em sua figura como se fosse uma modelo desfilando.
Após feito isso, pega sua bolsa escolar, mas se depara com sua mãe, escorada na porta de seu dormitório. Um sorriso do tamanho do mundo esboçando o rosto. Já sabia o porquê, orgulho. De vislumbrar sua filhinha querida e preciosa se tornando a cada dia, o que ela jamais pôde ser. A perfeição humana. Ambas se encaminham ao carro luxuoso da família. Vidros escuros com bastante segurança. Ela se despede de você dando um beijo em sua bochecha. Após sua entrada, o veículo é dirigido pelo mesmo trajeto matutino, rumando à escola Raimon.
A janelinha dos bancos do motorista se abre, atraindo sua atenção.
— Bom-dia senhorita. — Ele te cumprimenta formalmente denotando respeito na voz. Você responde igualmente. — Gostaria de saber por gentileza, se após o término de seus estudos, deseja que eu a leve para algum lugar especial. — Conclui com tom sedutor.
— Não. Obrigada pela sugestão. — Recusa prontamente sem olhá-lo.
O vidro escuro volta a se fechar e você revira os olhos em desgosto. Já descobriu que seu charme atraía até o chofer que beirava lá pelos trinta anos. Fato muito comum em sua residência, na verdade. Mordomos e empregados também se incluem na lista. O veículo para na porta do colégio. Você desce graciosamente e caminha até sua sala. Murmurinhos e olhares pousam em sua figura, era incômodo. Entretanto procurou manter a compostura e não se permitir ser afetada.
Chegando ao seu destino, se senta na carteira da frente, pois é o lugar da aluna preferida dos professores. Aliás, somente adjetivos positivos te classificavam. Em casa, a boa filha; comportada e fazia de tudo para agradar aos pais. Aulas de dança e música, canto e esportes. Realizava qualquer coisa com perfeição não importando o quê. Se dedicava de corpo para ser uma bailarina belíssima, cujo sonho é da mãe. E também uma empresária imbatível nos negócios, este por sua vez é o desejo do pai, que fazia questão de pagar-lhe aulas de administração com os tutores mais requintados do país. Contudo, os dois ainda brigavam para decidir seu futuro.
Na rua, a boa vizinha. Educada e humilde, que esbanjava simpatia e ajuda os necessitados com tudo. Sempre pediam auxílio para você, e não tinha o direito de negar seus favores. A descrição de sua pessoa é repleta de elogios.
"A garota que toca como anjo e tem voz de sereia. Dança como um pássaro bailando pelo céu. A verdadeira bondade da Terra."
É lógico que você se agradava com toda a bajulação exagerada, mas nada disso era pra si. Seus esforços, sua dedicação e alma, são totalmente para cumprir as expectativas dos outros. A cada dia sua essência se perdia. O que afinal estava se tornando? Um robô?
Sua boca não protesta nada a fim de contrariar. Tinha medo de decepcionar todos, mas em troca significa aguentar as consequências de ser usufruída. Seja por familiares que a exibem como o troféu mais precioso do mundo; a escola usando suas notas excelentes; ou até as falsas amizades atraídas pelo desejo de obter um status social.
É como se você não tivesse defeitos, melhor dizendo, como se não pudesse ter. Pois a pressão de ser superior não te permite nem que demonstre ser humana como os outros. Tinha que se destacar, colocar todos os outros pobres coitados em seu lugar; o nariz sempre empinar. E fazer isso não te agrada nem um pouco.
No interior de sua alma, ocultado pelas máscaras de seu alter ego magnífico, incandesce um desejo que contradiz com seu exterior. Uma simples vontade que só precisa de uma fagulha para se aflorar. Infelizmente, como essa chama não te encontrou, você continua com ela retraída.
Rasgar as roupas de seda, matar aula, sair falando palavras de baixo calão e muitas loucuras variadas. Queria experimentar deixar de ser a princesa e viver à toa por aí.
O período de aulas passou-se velozmente. Você absorvia aprendizado e resolvia os exercícios com bastante facilidade, agradando os educadores. O intervalo foi anunciado e os alunos se dispersaram pela escola. Você vai até o terraço em busca de ar fresco e calmaria, longe do rebuliço. Além de que hoje não estava a fim de ficar na companhia daqueles colegas desagradáveis. Queria refletir um pouco sobre seu futuro controlado e o presente entediante.
É raro não ter ninguém no local, portanto, obviamente encontrou um aluno. Tinha cabelos roxos num penteado incomum, olhos negros. Estava apoiado numa parte das grades de segurança. Você caminha até um canto mais longe do garoto, carregando uma fruta para saciar a fome. Não se deixaria intimidar por ele só porque era um rebelde. Sabia de seu status pelas suas roupas.
Ao passar perto dele, os olhares se cruzam cheios de indiferença. Cada um ficou em seu próprio lugar. Até o rapaz se aproximar de você e tomar a fruta de suas mãos.
— Pode me devolver? — Você indaga com tom indignado.
— Agora não dá mais. — Ele responde após morder um pedaço. Ato que a enfureceu. — Se tivesse com fome ia comer logo e não ficar enrolando com a comida na mão.
Sem esperar sua reação, ele se retira dali tranquilamente como se fosse algo natural, te deixando com cara de taxo, parada e sem entender. Na verdade, gostaria de ir atrás desse folgado e falar umas poucas e boas, mas não era muito aconselhável arrumar confusão com os rebeldes.
...
Aquele dia terminou tão rápido quanto começou. Voltando para casa, você se encontra no próprio quarto, se produzindo para a festa que seus pais preparam. O vestido chique e elegante brilhava em sua silhueta enquanto suas mãos se concentravam em colocar os saltos nos pés contragosto. Odiava esses eventos porque praticamente é obrigada a participar além de ter seus dedos esmagados pelos sapatos. De maneira alguma, tinha permissão para calçar um calçado baixo e confortável, portanto seria uma noite incômoda,
Um suspiro repleto de desânimo quase te convence a desistir de descer, mas com coragem, você resolve aparecer no salão cumprimentando a todos. A maquiagem escondeu sua cara de sono, porém, as pálpebras insistiam em fechar. Preferia muito mais ir para a banqueta de comidas saborosas, mas seus pais não a deixavam quieta. Te puxavam para lá e para cá introduzindo lhe aos amigos de famílias requintadas.
A música clássica era enjoativa e os convidados extremamente comportados; discretos; todos bem vestidos. Seu pai lhe arrasta pelo braço ao avistar um homem conhecido, provavelmente estava doido para te apresentar a ele.
— Esta aqui, é minha filha. — Seu pai diz cheio de orgulho. Você o cumprimenta. O nome dele é Shouji Tobitaka. Os dois adultos desatavam a conversar. Vezes se dirigiam a você, outras ficava de canto. — E como vai o seu filho, não veio?
— Ah, bem... — O homem passava a mão na cabeça aflito com a questão. Fato que lhe chamou atenção. Ele não fazia ideia de como responder.
De repente um grito feminino interrompeu o clima ameno do salão. Todos buscaram com os olhos e veem uma mulher assustada. O motivo era um garoto de cabelos roxos que acabara de socar outro fortemente no rosto. O Sr. Tobitaka parte em direção ao jovem agressor o repreendendo com raiva. Ambos começam a debater um com o outro, enquanto tinham os olhares de todo mundo em si. Era possível perceber a vergonha do homem.
— Você não tinha que ter vindo! — O homem esbraveja.
— Pelo contrário, acho que a maioria das pessoas está feliz por essa música chata acabar. — O jovem rebate, provocando com um tom de sarcasmo.
— Se fosse pra ficar assim, eu preferia te deixar na rua a noite toda, seu delinquente.
— Não fica preocupado, velhote, a festa só tá começando.
O garoto que havia apanhado, partia pra cima do filho do Sr. Tobitaka, que o provocava com insultos, xingamentos e tudo mais. O de cabelos roxos subia em cima das mesas e cadeiras, corria do outro numa brincadeira de pega-pega e nisto, acabou envolvendo todos.
Pegando a comida e tacando nos convidados, que tentavam atingi-lo e acertavam outros. Em poucos segundos uma guerra alimentícia aconteceu.
— Esse vestido foi confeccionado em Paris, custou uma fortuna! — Uma jovem de sua idade reclama tentando desviar a todo custo dos alimentos.
Você ficou estática, sem saber o que fazer. Seu instinto de razão, dizia-lhe para ajudar seus pais a chamarem os seguranças e dar um basta na situação, exatamente como a boa anfitriã. Mas... O que era essa súbita vontade em seu peito, de participar da algazarra? É errado. Porém, de alguma forma te lembrava crianças felizes, algo nostálgico. Uma infância marota, a qual você jamais pôde ter. Desde pequena se ocupava com deveres e responsabilidades.
E aquele garoto rebelde, tão desprovido de limites, sem escrúpulos ou papas na língua, representa bem o seu pequeno desejo de liberdade que estava reprimido.
Seguindo aquela vontade anormal, você vai até uma mesa de comida e pega uma porção de um prato cheio de molho, gordura e ingredientes variados. Com a mão na massa, procura alguém e acha a pessoa perfeita, no caso, a garota do vestido caríssimo.
Com toda a força de vontade que possuía, mira e acerta ela perfeitamente, que vendo o estrago na roupa, começa a chorar e se lamentar histericamente. Você dá uma risada gostosa. Sentia-se tão bem como há tempos não sentia, apesar de ter sido maldade. E aquela linda mancha custaria a sair na primeira lavagem.
...
— Você enlouqueceu? — Sua mãe perguntava com um timbre dramático.
A festa havia terminado com os seguranças expulsando o filho do Sr. Tobitaka, e o pai tentando desesperadamente se desculpar com todos, ao mesmo tempo que dava um sermão no rapaz. Já você, acabou sendo abordada por seus pais, que lhe davam a maior bronca. No entanto você aparentemente não se importava.
— Filha, você nunca foi de fazer isso. Tem algo acontecendo? — Seu pai questiona te olhando nos olhos, procurando vestígios de um motivo aparente.
"Tem sim, vocês. Que sempre tiraram minha liberdade e direito de escolha." É o que gostaria de responder.
— Será que é o começo de uma fase rebelde? Não quero que ela fique igual ao filho do Sr. Tobitaka! — Sua mãe exclama, colocando as mãos na cabeça aflita. Seu pai a consola e anuncia que conversariam amanhã sobre o assunto.
...
Que melhor maneira de começar o dia levando uma descarga de sermões matutinos de seus pais? Ao seguir para a Raimon, qual não foi sua surpresa ao encontrar o rapaz da noite passada? Não tanto, visto que estudavam na mesma classe. Só não esperava que ele estivesse tão tranquilo. Ao contrário de você, que estava com a cabeça dolorida de tanto ser repreendida. Na verdade, fazia um tempo que o observava discretamente.
Admirava a naturalidade com qual lidava qualquer situação, nunca se deixando intimidar por ninguém. Teimoso e imprudente, sempre fazia o que quer sem ligar para as consequências. Ao ser desafiado por alguém, respondia na mesma intensidade enfrentando tudo e todos.
Você nunca tomou coragem para dirigir uma palavra a ele. Quem sabe agora ambos possam conversar levando em conta o ocorrido de ontem como assunto inicial? Com este pensamento, você decide ir na direção do garoto escorado numa das árvores da escola. Tinha certo receio de ser mal recebida, mas seu interesse falou mais alto.
Quando o olhar do rapaz pousou em você, sentiu um leve nervosismo. Ele parecia rude. Por um breve momento, quis dar meia volta e fingir que tomara o caminho errado. Só que já estava a um palmo a frente dele.
— Com licença, você é o filho do Sr. Tobitaka? — Infelizmente não sabia o que mais poderia falar.
— Não me leve a mal, mas não pretendo me desculpar sobre ontem. — Ele responde com desdém.
— Não é por isso.
— Não? Então o que a princesa de Inazuma quer com o delinquente? — Escárnio era presente naquela voz cheia de si. Você franziu o cenho por causa do apelido. Até hoje nunca se acostumou com este título.
— Nada demais. Só perguntar o porquê de ter feito aquilo ontem. — Responde normalmente encostando-se na árvore também, se posicionando quase perto dele. Mostrando que não estava desconfortável ou intimidada.
— Não te devo satisfações. Mas se quer tanto saber, foi porque não aguentei aquele riquinho falando comigo como se fosse o dono do mundo. E dei o que ele mereceu. — O jovem tira um pente do bolso e ajeita o penteando com ele. — Quanto ao resto da bagunça... Foi só pra zoar mesmo.
— Foi legal. — Você elogia o vendo te observar desacreditado. — Estava farta de aguentar aquela chatice.
— Prefiro chamar de festa do ego, porque todos só falavam bem deles mesmos. É surpreendente alguém que pertence a este lado concordar comigo. — "Este lado" significa o da parte nobre.
— Eu não sou como eles. — Retruca, sentindo-se ligeiramente ofendida.
— É mesmo? Pois sua imagem indica o oposto.
— Meus pais criaram essa “imagem” sem minha permissão. — A conversa se tornava tensa, tomando um rumo desagradável. Por um motivo seus sentimentos foram muito afetados.
— Então a culpa é dos seus pais? — A questão saiu metade retórica e metade dúvida. — Eles fazem isso porque você deixa. — O garoto enfatiza exageradamente. Antes de exigir explicações, o sermão continua. Ele vai para sua frente, ambos ficando cara a cara. — Você não diz e não faz nada. Deixa eles te moldarem contra a sua vontade.
— Eu... — Você gagueja impressionada pela compatibilidade daquelas palavras com sua situação. Era tudo verídico. — Realmente não sou assim.
— Então prove. Para si e para todos. — Dito isso, ele dá as costas a ti, a deixando atônita, não... Furiosa.
— Eu vou provar! Eu... — Acabou de notar que desconhecia o nome dele. Fato que não foi um problema por muito tempo.
— Tobitaka Seiya. Se lembre desse nome, pois não quero ser chamado de filho do Sr. Tobitaka.
...
A partir daquele dia, a chama ascendeu em você, despertando sua vontade de realizar os seus sonhos e parar de concretizar os dos outros. Chega de normas e regras rígidas de comportamento. Você ria escandalosamente, não mais prendendo o riso. Andava sem parecer a rainha branca de Alice. Largou os vestidos exagerados, sapatos apertados e acessórios pesados. Passou a usar o confortável. Os tempos de boa moça acabaram. Depois de muito tempo se obrigando a agir como uma jovem recatada e discreta, sua personalidade mudou ao extremo. Agora estava mais espontânea e natural, mais você. Mudar não é a palavra, você sempre foi assim. Isso alterou sua rotina drasticamente, mas para melhor.
Obviamente as mudanças causaram alvoroço na família. Seus pais ficaram loucos e confusos, sem entender suas atitudes repentinas. Te abordaram de questões. Uma coisa que jamais pensou acontecer, aconteceu. Você e eles começaram a discutir. A diferença é que desta vez sua boca não se aquietou, dela saíram palavras de defesa, argumentação. Pena que eles custavam a aceitar seu eu interior.
Sua mãe se entregou aos prantos quando revelou que não iria ser bailarina e encerraria as aulas de Ballet. Ela não queria aceitar e te perguntava por que nunca disse antes, e dizia que você parecia não se incomodar ao fazer tudo o que ela gostava.
— Eu sabia que ia se decepcionar comigo, por isso me calei, mas agora... Não aguento mais toda essa pressão que me impõem. Vocês tentaram me fazer perfeita, mas isso é impossível. Eu sou humana.
Enquanto sua mãe reagiu dramaticamente, seu pai foi mais para o lado da raiva e indignação, te chamando ingrata e mal-agradecida. Foi quase impossível ter um diálogo com ele. O clima do lar ficava cada dia mais tenso. Você estava feliz e aliviada por não mais se esconder ou fingir ser perfeita.
Agora você é livre, mas recebia o desprezo da família. As coisas não eram mais como antigamente entre vocês. Eles já não mais sorriam quando fazia algo; conversas fraternais se tornaram extintas. Parecia uma estranha naquela casa.
Não suportava aquela situação oprimente. Você sai de sua moradia, caminha por aí sem rumo tentando dispersar as mágoas. Era fim de tarde e os últimos raios solares terminavam de banhar a cidade. A temperatura estava aconchegante, nem escaldante, nem com um vento arrepiante. O sol se pondo no horizonte dava-lhe calma e um pouco de moleza ao seu corpo. Suas pernas te levam até os arredores da Raimon.
Você adentra o edifício, bisbilhotando os lados a procura de algo interessante. Passando pelo campo de futebol, onde os membros do Inazuma Japan terminavam o treino. Sua surpresa foi avistar Tobitaka no meio deles.
— Não sabia que jogava. — Diz quando seus olhares se cruzam.
— Nem eu. Mas uma pessoa me convenceu a usar meus chutes para outro objetivo. — Você mostra uma careta confusa com essa fala enigmática. Sabia que o rapaz era conhecido pelos chutes, mas não soube encaixar isso com o resto da informação. — Esquece. O que faz de bom aqui?
— Fugindo. — Responde num desabafo indireto. Após ele se trocar, ambos se põem a caminhar.
— Do quê?
— Dos problemas. — Você esperava que ele te repreendesse, falando para enfrentar a situação, mas o que fez foi totalmente inesperado. Ele passa um braço ao redor de seus ombros aproximando os corpos sem interromper a caminhada. Com um sorriso gentil, diz.
— Eu tenho algo que vai te ajudar, garota linda e quebrada.
Você cora pelo súbito elogio e aceita ser ajudada por Tobitaka.
...
Não era capaz de adivinhar o porquê de o rapaz levá-la até onde morava com o pai. De acordo com ele, felizmente seria por pouco tempo. O Sr. Tobitaka a recebera com carinho e parecia entusiasmado com sua presença. Ambos bateram um papo longo e descontraído enquanto o jovem procurava algo em meio a casa. Assunto ia e vinha. Entre alguns intervalos ele reclamava do filho, mas com tom brincalhão.
— Já está envenenando ela, velho? — O rapaz logo aparece e te chama para sair.
— Se envenenar for sinônimo de ser sincero, então sim. — Tobitaka revira os olhos com a resposta do pai.
— Vou dar uma volta. Só estou avisando para não acabar enfartando de preocupação como da última vez.
— Só cuidado para não matá-la, você não está sozinho agora. — O pai avisa sem tirar os olhos do jornal que lia sentado numa poltrona confortável. O filho resmunga algo inaudível.
Você se pergunta o que a frase significava. Um leve medo percorreu lhe a mente ao imaginar o que o garoto estaria planejando. Pisando os pés fora, seus olhos só vislumbram uma moto toda preta e de tamanho grande.
Agora sim entendeu o aviso do Sr. Tobitaka. O rapaz tira dois capacetes e entrega-lhe um, ele ressalta que seria mais emocionante sentir o vento sem proteção, mas teriam que utilizar devido a velocidade, informação esta que te deixou abismada. Você pergunta com receio se seria perigoso, pois jamais passeou de moto.
Tobitaka apenas manda relaxar e ajusta o equipamento em sua cabeça, visto que tinha dificuldade em colocá-lo. Se sentiu um pouco envergonhada ao quase não conseguir subir no veículo. Uma vez que pôde se ajeitar em cima das duas rodas, ele diz para se segurar firme. Com receio, você entrelaça seus braços em sua cintura.
O motor liga e a moto começa a andar devagar pelas ruas de Inazuma. Depois a velocidade aumentara consideravelmente. Você aperta mais o garoto. Não havia tempo de prestar atenção na paisagem, tudo passava em sua vista como borrões. As luzes dos faróis e dos semáforos oscilavam em plena noite, o vento castigava sem dó o seu corpo e suas roupas pareciam voar. Os efeitos da adrenalina no seu sangue consistiam em fazer o seu coração pulsar rápido e forte, as mãos suaram um pouco e formigavam, os arrepios eram de emoção.
A rapidez da moto assustava ao mesmo tempo que a deixava ansiosa. Cada curva, um ligeiro nervosismo. Mesmo assim, você não queria que o rapaz parasse. Andar com ele a fez sentir-se ainda mais livre. As preocupações se dissiparam. Sua atenção se voltava para aquela aventura noturna.
O passeio durou vinte minutos. O destino no fim do trajeto fora um lugar meio isolado. Uma pequena colina repleta de grama e algumas árvores. Vocês desceram e se sentaram num amontoado de rochas e se põem a observar toda a cidade. Os milhares de pontinhos coloridos das luzes pareciam joias vistas do alto.
— Aqui estamos. O melhor lugar pra se fugir. — Ele quebra um leve silêncio em que pararam pra ver o cenário.
— E pensar que nesse momento eu estaria em casa sendo a boneca de porcelana. — Você relembra sua rotina anterior com deboche. — Obrigada.
— Pelo quê? — Tobitaka te observa com a sobrancelha arqueada.
— Por ter aberto meus olhos. Você sabe... Aquele dia.
— Seus olhos já eram abertos, eu só te ensinei a piscar. — Você demorou a entender o sentido da frase, ou talvez nem tenha compreendido direito. Um sorrisinho esboça sua face, Tobitaka às vezes gostava de fazer mistério. — Mas sabe, você não mudou muito. Ainda parece uma boneca. — Suas bochechas não puderam conter o rubor teimoso que escapara.
— É impressão minha, ou você tá a fim de mim? — Indaga em tom maroto, vendo o garoto se surpreender.
— São apenas suas ilusões. — Ele responde provocativo e se levanta indo em direção a moto.
— Bem... Primeiro você me chamou de linda e agora de boneca. E ainda me chama pra sair de moto. Tudo isso na mesma noite.
— Está certo, mas se quiser ficar aí analisando os fatos, tudo bem. Agora se estiver pronta pra mais uma volta...
— Com certeza! — Você aceita a oferta e pega a mão dele, que a ajudou a subir no veículo.
E de novo, Tobitaka Seiya te leva para esquecer os problemas nos paraísos da imperfeição.
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