A Chance for You
20 Anjo da Guarda - Atsuya Fubuki
Notas iniciais
Você abriu os olhos suavemente. De imediato começas a analisar o local onde se encontrava. Paredes claras; uma cama com lençóis de cor igual; alguns utensílios médicos. Ao olhar para si, percebe que veste uma roupa de hospital.
"O que aconteceu? Só me lembro de atravessar a rua e... — Sua mente aos poucos se relembra dos fatos. — No momento que atravessei, um carro veio em minha direção e senti uma forte dor... Então... Foi isso."
Depois de tirar uma conclusão final do que realmente aconteceu. Algo lhe chama atenção. Ao lado de sua cama havia uma pessoa parada em pé. Podia dizer que era um garoto, cabelos cor pêssego, os olhos eram um misto de azul e cinza e a pele branca como neve. A figura ficara te observando calada com uma expressão de indiferença.
— Olá. Quem é você? — Você começa um diálogo. O garoto continuava no mesmo estado. — Hey, está me ouvindo? — Novamente tenta, mas ele não move um músculo. — Estou falando com você garoto, vai me responder ou ficar parado igual estátua me olhando? — Desta vez, você impacientemente estrala os dedos na frente do rosto dele como se estivesse acordando-o. Ele por sua vez, muda drasticamente a expressão para uma de surpresa. Fica mais alguns segundos calado e finalmente começa a falar.
"Você pode me ver?"
— Mas é claro que posso, que pergunta idiota! — Você responde estupidamente e estranha a pergunta feita. — Vai me responder?
"Meu nome é Atsuya Fubuki." — Respondeu ele com uma cara emburrada.
— Eh... Me desculpe por falar daquele jeito. Me irritei por você não dizer nada. — Se desculpa meio que sem jeito e fala seu próprio nome. — Mas o que faz aqui no meu quarto?
"Só vim verificar uma coisa."
— Como assim? — Este garoto não era nenhum conhecido, amigo e muito menos algum parente seu. O que ele viera verificar então? Você se perguntava.
"Nada. Bom, já que está tudo bem eu vou indo. Tchau." — Após despedir, Atsuya se levanta e sai do quarto. Você tenta ir atrás dele, mas ele já tinha sumido de vista.
...
Após o ocorrido, você recebe alta do hospital e volta para casa. Dois dias se passaram e não conseguias parar de pensar nos estranhos acontecimentos. Aquelas poucas palavras daquele tal Atsuya deixaram-lhe confusa. Era como se ele estivesse falando por enigmas, e por mais esforço que fizesse para adivinhar o que significavam, não tivera nenhum sucesso.
Era uma noite agradavelmente calma. Tão calma que você decide descansar um pouco em sua cama. Ao deitar-se no colchão macio e relaxar a cabeça no travesseiro, seu corpo começa a deleitar nos sintomas do sono lentamente. Pouco a pouco suas pálpebras iam se fechando com a sensação de conforto.
Um súbito barulho fez com que seus olhos se abrissem abruptamente. Como que de imediato, se focaram de onde parecia ter vindo, a janela. Os vidros estavam abertos e sua expressão mudou para uma de surpresa. Havia uma pessoa dentro de seu quarto! Entretanto, logo reconheceste a cabeleira cor pêssego e os olhos azuis cinzentos. Assustada, levanta e acende as luzes do cômodo. Sua percepção estava certa, era ele.
— A-Atsuya?! O que faz aqui? Ou melhor, como sabe onde moro? — Ele apenas ouvia suas questões novamente como uma estátua de gelo. Igual àquele dia. Ambos ficaram se encarando em silêncio uns segundos.
"Você... Realmente me vê?"
— De novo essa pergunta estranha? É claro que eu te vejo! Por que não veria, você é um fantasma por acaso? — Você ralhou impaciente.
"Como? É possível? Será que você tem algum tipo de poder especial?" — Atsuya faz as perguntas mais para si mesmo e te ignora.
— Tá me escutando? — Sua paciência começa a se esgotar.
"Hum..." — Ele coloca um dedo no queixo pensativo.
— Estou cansada de você e seus enigmas! Me responda agora! Quem é você? O que quer de mim e como me conhece? — Agora seu tom saiu mais alterado que antes. O garoto te olhou com um pouco de surpresa, dando um suspiro antes de falar.
"Sou seu anjo da guarda." — Atsuya responde seriamente. Você fica confusa de início, porém não acredita nas palavras. Ao abrir a boca pra contrariar, ele continua falando. — "Desde que você nasceu fui mandado para te proteger. Olha, não faço ideia de como consegue me ver, mas isso não é normal." — Ele cruza os braços após terminar.
— E você acha que eu acredito? Se é mesmo um anjo, por que não prova?
"Ok então esquentadinha." — Atsuya zomba e de repente seus pés saem do chão. Ainda em pleno ar, ele flutua até a porta atravessa-a sem nenhuma dificuldade e volta até onde você estava. — "E aí?" — Ele te dedica um olhar de vitória.
Enquanto você, estava completamente boquiaberta e estática. Sua ficha ainda não havia caído. Um garoto flutuava em sua frente, era sonho? Ilusão? Talvez um pesadelo. Com cautela, você se aproxima e tenta tocá-lo. Sua mão apenas atravessa o corpo, e neste momento as coisas pareciam fazer muito sentido.
— Mas por que só eu te vejo? — Ainda confusa, questionas.
"Já disse, não faço ideia e nem como. Simplesmente não é comum."
— Ok. E o que acontece agora?
"Sei lá." — Atsuya dá de ombros.
— Então... Acho que vou dormir. Ou pelo menos tentar. Quem sabe quando acordar, tudo não seja só um sonho estranho? — Você indaga meio atordoada. Vai até a janela e a fecha. Deita na cama. — Hey, você vai ficar aí?
"Talvez, por quê?"
— Não consigo dormir com alguém me olhando... — A sensação de ter um anjo lhe vigiando não era nada agradável.
"Dã... É claro que não vou ficar a noite inteira te vendo roncar. Prefiro dar uma volta por aí. Bye." — Atsuya atravessa a janela.
Por outro lado, você ficou meio aliviada, e do outro se perguntava o porquê de tudo isso. O cansaço e sono vieram à tona interrompendo seu conflito interno. Tentaste dormir sem pensar em mais nada.
...
Você acorda bocejando e espreguiçando o corpo todo como um gato manhoso. Rapidamente relembra os fatos da noite anterior e começa a vasculhar o quarto com os olhos à procura de um certo anjo.
— Foi tudo um sonho então? — De repente algo aparece bem perto de sua face.
"Bu!" — Seu coração dá um salto de surpresa ao avistar uma figura humana transparente. Quase caíste da cama. "Desculpa, mas acho que sou bem real." — Atsuya lhe olhava com uma cara travessa.
— Okay... Deixa eu ver se me lembro bem... — Você se recupera do susto. — Seu nome é Atsuya Fubuki, não está vivo e é meu anjo da guarda desde que nasci?
"É tão assustador pra você simplesmente aceitar isso? Até quando vai me encher de perguntas?" — Queixou-se irritado.
— Você mesmo disse que esse tipo de coisa não é normal! Então deve ter algum motivo de eu conseguir te ver. Ou já existiram várias pessoas que viam seus anjos também?
"Que eu saiba não, mas eu que não quero perder tempo descobrindo o porquê... E é melhor se arrumar pra não se atrasar pra escola."
Você olha o relógio descobrindo que ele tinha razão. Como um jato você se arruma, faz a higiene matinal e anda para o colégio. Obviamente, Atsuya lhe seguia onde quer que fosse.
— Você precisa me seguir a todo momento? — Aquilo lhe incomodava um pouco.
"É meu dever te proteger de possíveis perigos. Por isto tenho que ficar te vigiando toda hora." — Esclareceu em um tom entediado.
— Não preciso que cuidem de mim. Sei tomar cuida... — Você tropeça em seu cadarço desamarrado e sente o corpo ser empurrado na direção contrária onde parecia que ia cair. Ao levantar-se da queda, percebe que do seu lado havia um aglomerado de pequenos fios elétricos, que faiscavam debaixo de um poste de energia. Ao parecer, algum eletricista estava fazendo seu trabalho e deixou os fios embaixo. Havia uma placa dizendo cuidado, mas você não prestara atenção pois estava falando com seu anjo da guarda.
"O que você disse mesmo sobre saber tomar cuidado?" — Atsuya caçoa irônico.
...
Um mês se passou desde que viu Atsuya pela primeira vez. Durante um tempo, você se questionou sobre o motivo disto ocorrer, porém depois simplesmente deixou o assunto por isso mesmo. Afinal conviver com ele não era algo ruim. Atsuya podia ser mal-humorado, entediado e reclamão, mas sempre te fazia rir com seus comentários irônicos. Algumas vezes se tornava um garoto legal. Além de tudo, ele estava sempre a protegendo de qualquer um ou qualquer coisa.
— Ai! — Você geme de dor ao cortar seu dedo com uma folha de papel.
"Como pode alguém ser tão desastrado? Se cortar com papel é algo que poucos tem a proeza de fazer." — Atsuya tinha o hábito de zombar de sua mente distraída. — "Achei que crescendo daria menos trabalho, mas vejo que você não mudou nada."
— Te dei muito trabalho quando era pequena, é? — Seu dedo havia parado de arder.
"Há! E como! Me lembro até hoje o dia em que você quase se afogou na privada!" — Ao completar a frase, Atsuya começa a rir freneticamente.
— O quê? C-como isso aconteceu? — Seu rosto queimava de vergonha.
"Quando tinha um ano, simplesmente decidiu entrar no banheiro e tentar escalar a privada. Então caiu nela." — Ele continua a rir.
— E você me salvou?
"Bem, não." — Essa resposta te fez ficar confusa. — "Deixa eu explicar, tem algumas coisas que não podemos fazer quando um humano está perto e no caso sua mãe estava, mas conversando com alguém no telefone, e não te viu. Então tive que dar um tipo de 'aviso' para assim, evitar que você continuasse presa lá."
— Ah entendi. — Por alguma razão você se sente aliviada com a explicação. Refletindo um pouco, percebe que Atsuya sabia de várias coisas sobre sua vida, mas você não sabia nada sobre ele. Quem ele foi? O que fazia e o gostava? Teve família? — Ahn, Atsuya? — Ele vira a cabeça em sua direção. — Eu queria... Saber mais sobre você... Digo, antes de ser um anjo.
Atsuya ficou em silêncio alguns segundos com uma expressão séria no rosto, como se estivesse pensando.
— Se você não quiser falar... — Você diz vendo que ele podia estar incomodado.
"Eu gostava de jogar futebol... — Começando a narrar, Atsuya se senta ao seu lado. — Eu tinha um irmão gêmeo chamado Shirou, Fubuki Shirou, e nós jogávamos juntos. Na verdade, éramos muito ligados, tipo... Um completava a frase do outro. — Um sorriso contorna os lábios dele. — Ele era gentil, educado e um pouco sensível, completamente o oposto de mim. Arrogante, metido e agressivo. Apesar das nossas diferenças, a gente se dava bem em tudo, até mesmo no futebol. Eu era o atacante perfeito e ele o defensor perfeito. Shirou sempre foi meu irmãozinho menor, o qual eu tinha que cuidar a toda hora, assim como você. Ele me completava e eu o completava, como duas metades inseparáveis." — De repente Atsuya mudou a expressão para uma de pura tristeza e seu tom de voz se tornou melancólico.
— "Aí então, aconteceu aquele acidente... — O anjo guardião dá um longo suspiro. — Foi num dia como qualquer outro. Eu, Shirou e nossos pais estávamos indo a um torneio de futebol. Ficamos tão empolgados porque afinal, era nosso primeiro torneio. Mas... morávamos em uma região extremamente fria e congelante, onde sempre nevava. No meio do caminho, nosso carro passou perto de uma montanha coberta de neve. E então... Uma avalanche nos atingiu. Tudo o que consegui fazer naquela hora, foi empurrar Shirou pela janela do carro para salvá-lo. Tudo ficou escuro e quando acordei, percebi que tinha morrido. É só o que lembro." — Atsuya deu de ombros finalizando o relato.
— Desculpe por te fazer relembrar isso. — Realmente a história mexeu com seus sentimentos e você pensa ser injusto o que aconteceu com seu anjo da guarda. Mas pelo contrário você o conheceu por causa desse acidente. Era um tipo de pensamento cruel e egoísta, que você fez questão de esquecer.
"Na verdade me sinto melhor... Como se uma parte do peso fosse tirada. Obrigado por ouvir minha história."
— Eu que agradeço por abrir seu coração pra mim. — Ambos sorriem.
...
Mas depois daquele dia, você observa que Atsuya anda diferente do que o normal. Várias vezes o encontrava isolado em um canto com o olhar vazio. Você se aproximava dele e tinha que chamar seu nome alto para que ele percebesse sua presença.
"Ah, se eu pudesse... Escolheria ser o anjo da guarda do Shirou. Mas pelo visto nosso encontro vai demorar." — Ele murmura para si.
Você não sabia dizer exatamente o porquê se sentiu afetada por essas palavras. Só viu que ficara tão distraída pensando, que não viu quando um carro atingiu com força, seu corpo o jogando no asfalto frio. A única coisa que ouviu, foi alguém chamando seu nome desesperadamente. Aos poucos sua mente perdeu os sentidos. Até acordar na cama do mesmo hospital que ficou um mês atrás.
— Ah, mas, o quê? — Atsuya estava do seu lado com uma cara aflita. Ao te ver acordada, colocou as mãos sobre as suas.
"Gomen, Gomen, Gomen! — Ele se desculpou várias vezes e abaixou a cabeça. — Se eu não tivesse distraído naquela hora, você..."
— Você não tem culpa, só estava pensando no Shirou... — A frase escapou de seus lábios sem querer.
"O quê?"
— Atsuya... Me perdoe... Se não fosse por mim você poderia ficar junto com seu irmão. É mais do que justo vocês ficarem um ao lado do outro. Peço desculpas por ter que gastar seu tempo comigo. — Seu tom era de tristeza.
"Não diga besteiras! — Atsuya grita fazendo você se assustar um pouco. — Eu amo meu irmão e sempre vou amar. Não é sua culpa não estarmos juntos agora. Era pra acontecer. Eu já protegi meu irmão enquanto estava vivo, mas hoje outro anjo protege ele. Agora eu devo te proteger. Não porque sou obrigado, mas sim porque gosto muito de você, e eu não trocaria isso por nada. Então pare de dizer essas coisas ou vou ficar bravo."
— Atsuya... — Você ficara sem palavras para descrever o quanto se sentia feliz. Você chega perto do garoto e lhe dá um abraço mesmo que o corpo de Atsuya seja feito de luz e seus braços ultrapassem-no. A única coisa que sentiste, é uma energia quente, como se fosse calor humano em suas costas. Atsuya retribuía o gesto igualmente enquanto murmurou algumas palavras em seus ouvidos.
"Eu irei ficar ao seu lado até seu último suspiro cessar, e quando você acordar estaremos juntos no paraíso."
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