A Chance
31 Capítulo 30
Você não era feliz em seu casamento? – pergunta Sandra encarando Beatriz, atentamente.
Beatriz não presta atenção à pergunta. Fica pensando na última sessão de Hugo. Aquelas recordações a fizeram tão mal que ela fugiu da presença dos dois e foi para o quarto. Passou o resto da semana evitando Hugo ao máximo. Conseguiu finalmente que Jorge cedesse e fosse participar da próxima sessão, situação que foi bem fácil quando ela falou com Lúcia. Nem esperou que eles chegassem ao duplex e foi para a psicóloga. Precisa desabafar sobre aquela situação.
— Você não era feliz em seu casamento? – reforça Sandra, observando a distração de Bia.
— No começo... Talvez, mas depois de um tempo, não – responde Beatriz, entristecida — E nem fiz o Hugo feliz... Mas eu quis muito fazê-lo feliz.
— Entendo – afirma Sandra — Após você analisar seu casamento, você compreende quem foi responsável por toda essa situação? De quem é a culpa, para chegar a esse ponto?
— Sim... – responde Beatriz tentando não chorar — Eu...
— Errado – repreende Sandra secamente — Você iniciou isso, mas não é a única responsável. Você precisa enxergar que tanto seu casamento, quanto a sua vida em si, sempre teve muito mais gente envolvida nas decisões do que deveria. Falando da sua vida antes do Hugo, todas as decisões tomadas por você teve forte influência de todas as outras pessoas. Você nunca tomou uma decisão sozinha, porém acabou se colocando nessa posição. Faltou pulso para se impor. Os pais aconselham os filhos, pois querem o bem deles, mas os filhos precisam decidir se aquilo trará a felicidade. E você deixou tudo a cargo dos seus pais, ou melhor, de sua mãe.
— Você não conhece a minha mãe... – argumenta Beatriz.
— Realmente não a conheço. Mas eu conheço você e vejo que parou de enfrentar a sua mãe, como antes – explica Sandra. Ela aperta levemente os olhos — O que me deixa curiosa é que você mudou seu comportamento depois que se casou, se tornando mais complacente com sua mãe do que com seu marido. Porém, devo admitir que suas atitudes, quando enfrentava sua mãe, foram as piores. Você foi impulsiva a confrontando e acabou na situação em que está hoje. Quando deixou sua mãe dominar seu casamento, decretou o final dele. Eram três pessoas em um casamento, gente demais para fazer dar certo. Temos o Hugo que não teve pulso para se impor, mas como poderia com as duas sempre contra ele. Não entendo como conseguiram viver assim por tanto tempo.
— Porque no fundo, nós nos compreendíamos. Éramos parceiros, companheiros, amigos... – pontua Beatriz.
— Mas não amantes. – afirma Sandra.
— Não amantes – confirma Beatriz — Fazíamos pela obrigação de termos uma família, mas há muito que não fazíamos por prazer... Agora não fazemos por mais nada. Tudo o que posso fazer é tentar seguir em frente.
— Eu vou fazer uma pergunta e preciso de sua extrema sinceridade – avisa Sandra — Você amou o Hugo ou ainda o ama?
— Sinceramente... Eu o amei – responde Beatriz — Do meu jeito... Eu o amava pelo o que ele é... Da forma como ele era comigo... Mas com o tempo esse amor foi sumindo... E acho que já não o amava mais quando ele pediu o divórcio. Eu só não quis aceitar que fracassei em algo que lutei para ter.
— Beatriz... Você nunca o amou de fato . Na verdade, eu acredito que não saiba ao certo o que é o amor e o que ele envolve. Antes que você comece um novo relacionamento, preciso que tenha em mente três coisas: Nós somos os nossos próprios vilões, bem como nossos próprios heróis. A segunda coisa é você buscar entender que precisa mudar sua postura e a forma de lidar com as situações. E a terceira: Ame-se e aprenderá o que é amar alguém.
— Okay... Tentarei – responde Beatriz se levantando — Eu farei de tudo até a próxima sessão.
— Você não entendeu... Esse é um exercício para toda a vida. Ele nunca para – explica Sandra encarando Beatriz — E você nunca vai parar de aprender com isso. A única coisa que precisa fazer é... começar.
****
Beatriz chega ao apartamento pensando nas últimas palavras da psicóloga, sabe que ela está certa e que precisa mudar. Ela vai em direção à sala, mas é interrompida por Leninha que está com um sorriso de orelha a orelha.
— Oi, Leninha, tudo bem? – pergunta Beatriz, curiosa.
— Ele chegou – responde Leninha sorrindo — Está no escritório.
— Quem chegou? – pergunta Beatriz arregalando os olhos.
— Seu Flávio – responde Leninha — Ele chegou agorinha e está esperando a senhora.
Beatriz olha para o corredor, finalmente ele está ali. Finalmente, ele tinha voltado para ela.
****
A mão trêmula de Beatriz toca a maçaneta da porta. Sua respiração está cada vez mais forte e seu nervosismo, aparente. Espera por aquele momento durante semanas e agora se realizou, finalmente. Ela abre a porta do escritório, radiante, encontrando Flávio apoiado na mesa de madeira mogno, vestindo uma camiseta pólo branca, calça jeans escura e tênis branco. Segura nas mãos um porta-retrato, assim que percebe a presença de Beatriz ergue sua cabeça, encarando com seus olhos verdes gélidos e uma expressão vazia. Porém Bia não repara em nada disso, correndo em direção a ele. Ela o abraça fortemente, respirando fundo. “Finalmente”, suspira Beatriz.
— Que bom que está aqui – comemora Beatriz encostando a cabeça no peitoral de Flávio. Consegue ouvir o coração acelerado dele, o que a faz sorrir — Que saudade eu estava de você.
— Eu também estava – comenta sem abraçá-la de volta. Flávio afasta Beatriz, delicadamente até enxergar seu rosto.
— Quando chegou? – pergunta Beatriz sorrindo — Por que não me contou que viria?
— Porque queria fazer uma surpresa para você... – responde Flávio, sério — Mas eu acabei sendo surpreendido.
— Você está bem? – questiona Beatriz, confusa, segurando na mão de Flávio. Ela fita os olhos dele — Você não parece feliz em me ver... O que foi?
— Eu estava... Ótimo... Feliz... Eu estava louco para te ver – responde pressionando os lábios — Até que eu cheguei aqui e não te encontrei...
— Eu fui à psicóloga e acabei me atrasando um pouco – Beatriz interrompendo Flávio.
— ... Mas eu acabei tendo o prazer de encontrar três figuras muito interessantes em sua casa: Jorge, Lúcia e Hugo – continua Flávio, sarcástico. Ele solta a mão de Beatriz e continua — Três pessoas que eu jamais pensei que encontraria aqui dentro da sua casa. Tem algo que gostaria de me contar?
— Hoje é a última sessão de Hugo... É sobre os últimos acontecimentos – responde Beatriz, nervosa — E as pessoas que estavam próximas a ele eram o Jorge e a Lúcia. Só estou aceitando isso para ajudá-lo.
— Mas tinha de ser aqui? – questiona Flávio andando e apontando para a porta — Na sua sala? Não poderia ser em outro lugar?
— E onde seria melhor? – questiona Beatriz erguendo as mãos.
—Não sei... Que tal na casa da noiva dele? Ou na casa do melhor amigo? Ou melhor, ainda: Que tal onde ele está morando agora... – sugere Flávio encarando Beatriz. Ele franze a testa, encarando a expressão nervosa de Beatriz. Ele se aproxima dela e toca seu rosto — Onde ele está morando Beatriz? Onde...? Não me diga que...? Ele está morando aqui? Beatriz, o Hugo está morando aqui?
— Eu ia te contar – responde Beatriz, nervosa, acompanhando os passos irritados de Flávio que se apoia na mesa. Ela segura nas costas dele.
— Quando? – pergunta Flávio, irritado sem se virar para Beatriz.
— Não sei... Quando você desse sinal de vida no Skype. Você sumiu, Flávio... Nem deixou um recado – responde Bia, nervosa — Eu ia te contar no dia em que você fez a surpresa, mas...
— Você está me dizendo que ele está na sua casa desde aquele dia? – questiona Flávio, irritado. Ele encara Beatriz e respira fundo — Você tem mentido para mim desde aquele dia? Por que mentiu para mim?
— Para começo de conversa, eu não menti – defende-se Beatriz, ofendida.
— Não, apenas omitiu e é o que veio fazendo até agora – rebate Flávio com as mãos na cintura.
— Eu omiti, confesso. Mas eu ia contar – defende-se Beatriz — Mas quando você disse aquelas coisas... Eu fraquejei... Tive medo de te decepcionar...
— Você me decepcionou fazendo isso – esclarece Flávio, magoado — Eu achei que era o único com quem era sincera. Achei que não mentiria para mim nunca e que nossa relação seria baseada na honestidade.
— Eu ia te contar! – Beatriz, exaltada. Ela segura no braço dele — Eu juro que eu ia te contar assim que entrasse no Skype. Eu te esperei todas as noites para te contar, mas você desapareceu! Por semanas! O que eu podia fazer?
— Eu quis fazer uma surpresa! – exclama Flávio se afastando de Bia.
— Mas precisava ter desaparecido por semanas? – questiona Beatriz apontando para ele. Ela começa a chorar — Eu achei que... Esquece. Eu sinto muito se te decepcionei, não era minha intenção.
— O que achou? – pergunta Flávio franzindo a testa — O que achou, Beatriz?
— Eu achei que tivesse ido embora... Que tivesse percebido que eu sou complicada demais e voltado para sua vida... Sabe... O que você sempre faz... – responde Beatriz limpando suas lágrimas — Desaparecer e voltar anos depois, quando eu já estou acostumada a não ter você por perto.
— Eu... Precisei desse tempo para te fazer uma surpresa – comenta Flávio, cabisbaixo.
— E que surpresa precisa de semanas? Se a surpresa era chegar aqui em casa, não vejo por que usar semanas para fazer isso. Teria me enganado muito mais falando comigo regularmente.
— Eu me mudei para o Brasil, Beatriz! – revela Flávio segurando nos braços de Beatriz — Definitivamente. Eu precisei desse tempo, pois eu vendi meu apartamento em Londres, fiz contato com todos os meus clientes para falar a respeito da mudança e comunicá-los que estava deixando a sociedade no antiquário, pois vendi a minha parte.
— Por que fez isso? – pergunta Beatriz, perplexa.
— Porque queria te fazer uma surpresa. Eu queria te mostrar que o nosso relacionamento é sério – abraça Beatriz triste e continua — Eu tinha planejado tudo, ia chegar à sua casa e te contar tudo isso na sala, onde você sentaria emocionada... Depois eu... Mas nada aconteceu como eu queria. Além de perceber que eu era o único que estava levando a nossa relação a sério.
— Eu também estou... – alega Beatriz tocando a nuca de Flávio — Eu queria te dizer...
— Não está não – recusa Flávio afastando Beatriz de seu corpo — Você voltou a ser como antes. Eu tinha medo de acontecer isso, mas não posso me enganar.
— Como assim? Do que está falando? – pergunta Beatriz, confusa.
— Você voltou a ser à sombra daquela Beatriz que eu conheço – acusa Flávio.
— Como pode dizer isso? Eu mudei muito, Flávio – rebate Beatriz, transtornada — Eu realmente não sou a mesma de antes.
— Não mudou – nega Flávio, incrédulo — Se tivesse mudado, não teria permitido que essa situação acontecesse.
— Que situação?
— De o Hugo estar na sua casa. No fato das pessoas que você não gosta estarem aqui na sua sala. Se tivesse mudado as teria tocado daqui.
—Você não entendeu? Isso é para ajudar o Hugo. Se fosse outra situação...
— Você teria permitido. Porque é isso que você faz: Aceita tudo – acusa Flávio, irritado — E quer saber... Eu acho que sempre será assim.
— Não me acuse! Não, como se me conhecesse – esbraveja Beatriz apontando para o Flávio — Você nunca esteve aqui tempo suficiente para poder afirmar uma coisa dessas!
— Então diga que estou errado! – grita Flávio batendo na mesa —Diga Beatriz que o que eu falei está errado. Que você não faria de tudo para ajudar o Hugo, mesmo ele sendo um... As coisas que ele fez para você! Aposto que se esqueceu da forma como ele a tratava antes de perder a memória! Quer saber, parece que você perdeu a memória junto com ele!
— Independente do que ele fez comigo... Eu iria ajudar sim... Isso não é ser fraca – alega Beatriz chorando.
— Não é mesmo – concorda Flávio se aproximando — Ser fraca é permitir que ele volte para sua vida como se nada tivesse acontecido. Ser fraca é deixar que até quem te maltratou, entre em sua casa. Ser fraca é achar que tudo pode voltar como era antes...
— O que está querendo dizer? – questiona Beatriz de braços cruzados.
— O que está óbvio aqui – Flávio sorrindo irritado, enquanto ergue os braços — Você o quer de volta. Você quer a sua vida como era antes. Aquela vida, onde eu não pertenço.
— Isso não é verdade – murmura Beatriz balançando a cabeça — Não é isso o que eu quero.
— Então prove – desafia Flávio, sério — Com certeza a sessão já acabou, vá até ele e diga que não poderá mais ficar aqui, que o lugar dele é ao lado da Lúcia. E peça para que todos se retirem.
— Eu não posso fazer isso – recusa Beatriz balançando a cabeça rapidamente — Ele não recuperou a memória, então teremos de ver qual outro método o ajudaria.
— Eu sabia que não faria isso... – comenta Flávio — Eu sabia que iria usar a amnésia como uma desculpa.
— Não é desculpa! – grita Beatriz, irritada — O Hugo não conseguiu se lembrar de nada!
— E nem vai! – exalta Flávio — Nunca... Pois para voltar às lembranças, ele precisa perdê-las.
— O que você está insinuando?
— Que ele está mentindo para você! – explode Flávio. Ele aponta o dedo para ela— E quer saber? Eu acho que você no fundo também sabe disso, mas viu uma oportunidade para voltar com ele. O que não me surpreende, vindo de uma pessoa que tem prazer em ser humilhada.
— Cala a boca! – Beatriz batendo no rosto de Flávio. Ela olha apavorada para ele se arrependendo do que fez. Bia toca no rosto de Flávio — Desculpas, por favor. Eu não queria... Por favor...
— Não! – recusa Flávio se afastando — Você queria sim! Admita ao menos uma vez em sua vida algo! Você queria e fez, pois eu estava certo. O que me machuca ainda mais, pois eu me precipitei... Achando que gostava de mim.
— E gosto – afirma Beatriz indo até ele — Eu gosto.
— Não gosta. Essa Beatriz que está em minha frente não gosta de ninguém! Ela gosta de ser a vítima, a coitada da história – acusa Flávio desprezando Bia — Você não é a Beatriz que eu amo. A Beatriz por quem eu me apaixonei. A mulher que age em busca do que quer somente para si. Que faz escolhas confortáveis e não se arrisca. Você é somente aquela mulher que gosta que o mundo tenha pena dela, que nunca assume seus erros, fútil, mentirosa e que não ama ninguém. Essa Beatriz, eu odeio.
— Isso não é verdade – sussurra Beatriz entre os soluços segurando o braço de Flávio — Eu posso provar.
— Você já me provou – alega Flávio abraçando Bia fortemente — Eu gostaria de acreditar em você, Beatriz. Gostaria de olhar em seus olhos e ver a mulher que eu amo... A mulher por quem eu deixei tudo... Por quem eu morreria...
— Eu estou aqui – murmura Beatriz beijando o rosto de Flávio — Com você.
— Não está – nega Flávio segurando o rosto de Beatriz — Você só é à sombra da mulher por quem eu me apaixonei. A menina que me despertou o amor há 25 anos,não está dentro dos seus olhos. A mulher que não me deixou desistir ... Se foi. Eu sinto muito, pois agora vejo o quanto eu perdi... Por nada. Você nunca lutou por mim... Por nós... Acho que no fundo nunca quis de verdade. Eu fui só uma aventura.
— Não... Flávio... Não – gagueja Beatriz segurando no braço do homem a quem realmente sente amar — Vamos conversar... Está fazendo tempestade em copo d'água.
— Eu não estou – responde Flávio beijando a mão de Beatriz — Eu só acordei para a realidade e sei agora que não vamos ficar juntos, nunca. Eu não posso mais esperar por você... Porque você nunca irá mudar.
— Eu mudo por você – promete Beatriz, desesperada.
— Você não entendeu, não é mesmo? – Flávio, transtornado recebendo um olhar confuso de Beatriz— Não é por mim! Não é pelo Hugo! Não é por sua mãe! Você não tem que mudar por nós! Você tem de mudar por si mesma. Só não quer e eu vejo isso agora. E mesmo que queira, vai demorar muito, pois você não se arrisca.
— Eu posso fazer isso! – grita Beatriz — Eu consigo!
— Então me faça um favor – pede Flávio colocando a mão no bolso dianteiro da calça. Ele pega algo e coloca dentro da mão de Beatriz a fechando fortemente — Quando a Beatriz que eu conheci no Cairo aparecer... entregue isso, ela saberá o que fazer.
Ele afasta delicadamente Beatriz e sai do escritório com o olhar vazio.
— Flávio... – chama Beatriz com a mão fechada se virando em direção a porta aberta.
Aos poucos, ela abre sua mão, deixando o brilho do anel de Jadeíta surgir por entre seus dedos.
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