As horas se foram em conversa quando Sarah se despediu. Coberto com o véu azul profundo da escuridão, a noite soprava sua fria brisa, Liza se encolhe dando mais uma volta com seu cachecol ao redor do pescoço e caminhando mais rápido rua acima. Sarah realmente foi generosa em deixar-la na esquina de sua casa aquela noite, costumava a deixar no ponto de ônibus mas como o sol a muito já havia partido quando terminaram o papo achou justo deixar a jovem mais próxima de seu destino, Liz insistiu para que a deixa-se na esquina pois não queria que ela se arriscasse muito a noite depois de cinco latas de cerveja. Omitiu. Não queria que visse onde realmente morava, ela vinha de muitos degraus acima, não se sentiria confortável, acharia deplorável, é deplorável e imundo, sentiria pena dela, como odeia ver pena nos olhos deles, e gostava muito de Sarah.

—Eu odeio a noite.

Os últimos metros serpenteavam com as luzes do postes, a cada dia no subúrbio mais um poste seguia sem manutenção resistindo ao máximo para não morrer mas sempre falhando no final. Becos a observavam caminhar sobre a luz apenas, sua escuridão guardava mistérios que espreitavam aguardando a jovem pisar em seu território, como se pudessem devorá-la através do concreto assim que seu pé tocasse a sombra. Liza podia sentir um deleite do breu ao ver a frente de seu prédio coberto pelo véu sombrio, o incômodo se esgueirava lentamente garganta acima como uma criatura disforme se expandindo e ocupando seus pulmões, as mãos tremiam assim como os joelhos, gemidos exprimidos de agonia rompiam, algo naquele lamaçal de sombras espreitava paciente. Seus olhos percorriam o caminho até o portão indo e voltando tentando memorizá lo até de olhos fechados, se inclinou e correu balançando as chaves tilintando no vazio da noite, seu passos afundam no piche, corra, mãos dos mortos escalam suas pernas, afunde, a escuridão respirando miasma, morra.

A luz do corredor do prédio estala automática iluminando o corredor, Liz encosta na parede a procura de ar, o peito contorcendo-se em espasmos, mãos fora de controle largam as chaves ao chão, um estalo metálico ecoa três vezes antes da porta do 101 se abrir assustando a moradora quando a jovem reage com um grito suprimido se abaixando para pegar as chaves com suas mão aparentemente inúteis, enfiando o dedo na argola do chaveiro e correndo como uma presa assustada.

Cozinha-Sala-Quarto não apenas resumia o apartamento mas o definia, cinco pessoas de altura média deitadas uma acima da outra era a distância entre a entrada e o fim do ‘’AP’’. A vantagem para Liz ao comprar o lugar foi o simples fato da luz do lustre da sala alcançar praticamente todo o apartamento exceto pelo banheiro que se escondia ao lado do quarto como uma criança brincando de suite, mas a luz da salvação era alcançada a centímetros da entrada, vendido. Bateu a porta e se jogou de costas no carpete entre o sofá e a televisão alegre com o sol artificial insistente através de suas pálpebras fechadas, com o incômodo persistente dando olhos aos cantos escuros do apartamento esmurra o chão impotente diante de sua fraqueza e revira a bolsa a procura do vidrinho plástico de remédio em sua bolsa jogando para fora todo o resto, balançando próximo a seu rosto o frasco vazio.

—Merda, não!

Estava com fome, sua geladeira ocupada apenas por meia dúzia de ovos, algumas garrafas d'água e tomates. Não gostava de jantar miojo mas não havia nada tão fácil para suas mãos ainda inúteis, queria se acalmar, passo a passo você volta ao normal não pule etapas se cuide, seu roncante estômago teria de se sustentar com o famoso macarrão instantâneo por mais dois dias antes de seu pagamento. Sarinha nunca se atrasa nos compromissos com a livraria, pagamentos incluídos, em seu primeiro atraso não conseguiu evitar o riso ao ver a raiva na voz não expressada na fria face, como um boneco dando bronca, soube que seriam boas amigas quando não a demitiu. Se perguntava porque ainda comprava os pacotes misturados se nunca gostou do sabor artificial de carne no miojo era esquisito como um chiclete salgado, talvez pois todos os pacotes de galinha já haviam sido vendidos e precisava de sua ração de emergência, o próximo mercado era muito longe e estragava o conceito de ‘’ mercado mais próximo’’. Se dirigia com seu bowl japonês para o sofá quando as profundezas abissais tomaram conta do ambiente, toda a eletricidade sugada, germinando das paredes as mãos dos mortos, derretendo o chão em piche, respirando de cada fresta miasma, a escuridão.

—NÃO NÃO NÃO NÃO POR FAVOR NÃO POR FAVOR NÃO POR FAVOR NÃO !!!

Quando a luz finalmente retornou faltavam poucas horas para se encontrar com Sarah, o chão da cozinha grudento com o restos secos do caldo do macarrão. Carteira, estojo de maquiagem, celular, chaves e remédios jogados ao lado de uma bolsa revirada. Deitada próxima a janela sobre cobertores estendidos, Liza, curvada sobre si abraçada ao travesseiro se protegia com todos os quatro abajures da casa como sentinelas luminosos ao seu encalço, seu sonhos não lhe pareciam agradáveis com os resmungos e face contorcida. O despertador do celular berra do carpete da sala uma doce sinfonia de sinos estridentes e a jovem chuta um abajur ao se levantar assustada, com os olhos com suaves tons de vermelho e o cabelo bagunçado ela se arrasta até o aparelho colocando contra o ouvido e respondendo com um sonolento alo! os sinos voltam a tocar mais alto, desligando o alarme e digitando alguns números sua chamada não demora a ser atendida.

—Liz eu já estou saindo de casa- anunciou a chefe, viva voz ligado captava os sons metálicos do que parecia ser a cozinha- Amor me larga e presta atenção no fogo.

—Sarah…

—Não precisa levar almoço garota, Anthony fez o suficiente para nós duas sofrermos juntas com a comida- havia um tom de bom humor quase imperceptível, como uma pedra disfarçando felicidade- mas digas, por que me ligou?

—É que vou me atrasar um pouco…

—Para?- a severidade ela não disfarçava.

—Deixa a jovem se atrasar, com certeza é para dormir mais um pouco ou comprar mais casacos para se preparar para o frio que escapa da sua alma em uma aura gélida, certo?- brincou o jornalista conseguindo divertir um pouco Liz- ei estou com uma panela quente na mão não me bate.

—Eu tenho que passar no médico rapidinho, juro que chego a tempo de vermos o jornal juntas- Anthony grita em comemoração.

—Droga, não era para ele saber- resmungou Sarah

—Eu sabia que você assistia, não consegue ficar muito tempo sem me ver — ela estava certa sobre a arrogância dele notou liza, a provocação em sua voz era nítida — gosta de ver toda minha beleza e carisma transmitida para todo o estado.

—Gosto é de ver meu pavão com a boca ocupada- um silêncio, havia uma tensão no ar, morderia ela a isca?- Liz não se preocupe com o atraso, leve o tempo que precisar no médico- sim, ela mordeu a isca.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.