Notas iniciais
Oi gente. Essa é uma One shot que eu escrevi enquanto pensava em uma pessoa que vi um dia. De fato, eu não conhecia essa pessoa, gostaria de conhecê-la para poder dizer quem me inspirou.

Bom, espero que vocês gostem! ^^

Kay estava correndo por um campo gramado, rindo, se divertindo. Livre. Embora estivesse feliz, a moça não saberia dizer a cor de nada que se encontrava a sua volta. Nem do céu, nem da grama, nem da árvore que estava ao seu lado. “Bom...” pensou ela encarando uma folha que flutuava ao vento “vou precisar encontrar alguém que me ensine o nome das cores. Ninguém nunca me ensinou antes, mas eu nunca precisei”.

Naquele momento, Kay pôs-se a refletir sobre as coisas que teria que aprender, coisas estas, que não seriam poucas. A primeira coisa, como já tinha pensado antes, era aprender o nome das mais diversas cores que a cercavam. Depois, gostaria de aprender a ler, pois não precisaria pedir para ninguém mais ler para ela.

— Terei que aprender tantas coisas... — Ela murmurou para si mesma — Nem sei por onde começar.

Então, como se fosse mágica, uma grande forma peluda surgiu ao seu lado. O focinho molhado esfregando a sua perna, os olhos chorões pedindo carinho, a cauda balançando de um lado ao outro exibindo a mais pura alegria e a guia no pescoço, lembrando a Kay a realidade.

A moça abriu os olhos, não que fizesse muita diferença. Estava tudo escuro, mas não era noite. Ela sabia disso pelo grito ensurdecedor do despertador e pelo choro insistente de seu cão guia. Fechando os olhos novamente, Kay amaldiçoou aquele dia que surgia e a tirava de seu tão amado sonho.

Esticou a mão a frente e encontrou com algo úmido, com dois buracos que cheiravam sua mão. Com um sorriso, a moça tateou até a cabeça larga se seu cachorro e lhe fez um carinho. Depois, tateou até encontrar o despertador e, com um soco, o desligou.

— Bom dia, Presidente Washington — Kay cumprimentou o seu cachorro — Pronto para mais uma jornada?

O cachorro apenas arfou animado e Kay, apoiando-se na cama, se sentou. Ela sentiu uma movimentação ao seu lado e percebeu que o lençol caíra da cama. Tentou se abaixar para pegá-lo, mas ele parecia muito longe de suas mãos e, por mais que tateasse a volta de seus pés, não encontrava o tecido. Com uma praga, ela suspirou e virou o rosto para onde imaginava estar o cão guia.

— Presidente Washington? — Ela chamou e ouviu o barulho do rabo do labrador batendo na parede — Meu lençol.

Demorou um pouco, mas ela sentiu o cão com o pano na boca. “Se você vai viver com um cão guia pelo resto de seus dias” dissera sua mãe, quando Kay anunciara que poderia viver sozinha “Não vai poder ser nojenta porque ele vai pegar muitas coisas com a boca”.

A moça agarrou o lençol e o jogou para cima da cama. Ela torceu para não ter jogado o pano com muita força e ele não ter caído do outro lado. Com as mãos, ela tateou o seu criado mudo até encontrar os óculos de sol. Encaixou-os no nariz e depois os empurrou para cima da cabeça. Ainda tinha que trocar de roupa.

Despiu-se rapidamente e, com a ajuda de presidente Washington, ela caminhou até o guarda-roupa. Escolheu uma calça legging, tateando o tecido com cuidado, para ter certeza de que não estava do avesso, e uma blusa qualquer. Suas roupas, em sua maioria, eram calçasleggings e blusas brancas ou pretas. Embora não enxergasse, Kay era vaidosa e morria de medo de sair pela rua afora se vestindo de forma bizarra.

Passou as mãos pelos cabelos a fim de abaixá-los. Kay costumava dizer que tinha sorte de ter o cabelo liso. Não que ela não gostasse de cabelos cacheados. O fato era que ela nunca tinhas visto um cabelo cacheado ou liso, mas sabia que os cabelos cacheados davam mais trabalho para arrumar e que, mesmo arrumando direito, eles poderiam armar. Dizia que era sorte ter cabelos lisos porque, pelo que tinha escutado, era mais difícil um cabelo liso ficar parecendo uma vassoura ou a juba de um leão. Não que fosse impossível.

— E então? — Ela perguntou ao cachorro — Como estou Presidente Washington?

Como resposta, o cachorro ganiu baixinho e ela concluiu que aquilo era um elogio. Abaixou os óculos sobre o nariz, pegou sua bengala, segurou a guia de Presidente Washington e, com autoridade, ordenou:

— Presidente Washington, para a cozinha.

***

A ideia do nome do cachorro viera de sua irmã, quando Kay ainda morava com a família.

— Por que não chama o cachorro de Presidente Washington? — Ela perguntara — Seria muito legal ver você falando por ai: “Presidente Washington, me leve para o banheiro”. É criativo e engraçado.

Depois de muito refletir, o nome acabou pegando. Presidente Washington fora pego quando filhote e treinado em casa mesmo. Os pais de Kay eram adestradores e, quando Presidente Washington adquiriu a idade certa, adestrá-lo fora tranquilo.

Na cozinha, Kay estava prestes a enfrentar mais um desafio: o café da manhã. Depois de muito insistir com os pais e provar que era capaz de se cuidar sozinha, Kay ainda tinha que seguir algumas regra básicas: nada de facas pontudas, nada de cozinhar, nada de fogão e outras regras que seus pais estabeleceram para sua própria segurança.

Presidente Washington levou a moça para o armário, onde ela se soltou de sua guia. Tateando, encontrou a porta onde ficavam os copos de plástico e, com cuidado, pegou um e colocou-o sobre a mesa, que estava as suas costas. Mais uma vez, ela tateou até encontrar a gaveta onde ficavam as “facas de passar margarina”. Em cima do balcão, pegou o pacote de pão de forma e a geleia de morango. Na geladeira, pegou a margarina e o suco. Café era uma coisa que, se Kay quisesse, teria de comprar em uma cafeteria.

Sentou-se na cadeira e começou a preparar seu desjejum. Estava quase mordendo o pão, quando ouviu o queixume de Presidente Washington e lembrou-se de que o cão ainda não havia comido nada: — Oh Presidente Washington, como pude me esquecer do seu café da manhã.

Com a ajuda do cachorro, Kay alcançou a sua vasilha de ração. Tateou a parede até encontrar o saco que ficava ali perto e depositou a ração na vasilha. Verificou se o cachorro tinha água e, acompanhada dele, lavou as mãos na pia e sentou-se a mesa novamente. Após estar com o pão da forma na mão, ela se virou para o cachorro.

— Pode ir comer, esfomeado — Anunciou. Ouviu quando o cachorro saiu em disparada para a vasilha de ração e começou a mastigar a ração.

Quando terminou de comer, e o barulho de Presidente Washington acabou, Kay guardou tudo que tinha usado no desjejum em seus devidos lugares. Já havia feito aquilo tanas vezes, que não via mais dificuldades em arrumar seu próprio café.

— Muito bem, Presidente Washington — Ela disse, sentindo um sorriso formar-se em seu rosto — Vamos para o Café Petit. Temos um encontro lá!

***

Já fazia um tempo que Kay e Presidente Washington estavam sentados na mesinha do Café Petit. O dia estava quente e a moça agradecia pelo guarda-sol, que lhe oferecia uma sombra, reconfortante. A moça não fazia ideia de quando sua companhia chegaria, mas não se irritava pela demora.

Muitas pessoas já haviam chegado e ido embora do Café Petit. Várias delas estavam acompanhadas de crianças e, frequentemente, Kay ouvia uma vozinha falando “Olha o cachorrão amarelo” embora a cor de Presidente Washington não fizesse muita diferença para ela, já que não sabia o que era “amarelo”. Algumas crianças se aproximavam e seus pais, imediatamente, puxavam-nas de volta. Kay sempre dizia que Presidente Washington não mordia e que os pais poderiam deixar a criança brincar com o cachorro, já que ela não sairia dali tão cedo.

Kay se espreguiçou quando a ultima criança que falara “cachorrão bonitinho” fora embora. Ela mesma se inclinou para fazer carinho em Presidente Washington enquanto esperava sua companhia. Pelo arfar do cachorro, ela percebeu que o sol estava deixando-o com sede e, quando uma garçonete veio, pela décima vez, perguntar se ela queria algo, pediu um pouco de água num pratinho para seu cachorro. Era férias e Kay não precisava se preocupar com os horários do trabalho.

O escritório de Advocacia geralmente ficava cheio e Kay tinha um dia corrido. Ela sabia, embora não visse, que as pessoas que atendia, sempre ficavam inseguras se ela, uma pessoa cega, poderia realmente ajudá-los, mas Kay tinha o argumento de que não se precisava enxergar para saber o que era certo ou errado e que uma pessoa como ela conhecia melhor o que era justiça.

Ela ouviu a garçonete colocando o pratinho com água no chão e agradeceu a ela. A moça se mostrou surpresa por Kay saber que ela estava ali. As vezes as pessoas esqueciam que um cego não estava surdo e podia muito bem ouvir alguém chegando.

Depois que Presidente Washington bebeu água, Kay sentiu uma coisa molhada na sua perna. Estava prestes a afastar o cachorro, quando percebeu que não se tratava de Presidente Washington e, sim de outro cachorro. Acariciou a cara larga e peluda o cão e o cumprimentou.

— Olá Rainha Elizabeth! Quanto tempo, não? — Então ela levantou a cabeça para onde imaginou estar o dono de Rainha Elizabeth — Olá John! Eu sou cega e você chega atrasado? O que aconteceu? Se perdeu? — Brincou.

— Desculpe-me Kay, mas a Rainha Elizabeth não queria colaborar — Explicou-se John — Ela resolveu passear por aí sem a minha ajuda e acabou indo longe de mais.

Kay riu. Diferente dela e Presidente Washington, John não era cego e a Rainha Elizabeth não era um cão guia, na verdade, ela era, como Kay e John costumavam dizer, o “cão guiado”, pois ela que tinha uma deficiência visual.

— E então? — Perguntou Kay — O que você trás para mim hoje? Espero que seja bem colorido.

John riu. Ele colocou o livro nas mãos de Kay, para que ela pudesse sentir as páginas e a grossura do volume.

— Parece interessante — Ela murmurou após algum tempo — Que livro é? Fala sobre o que?

— Que tal deixar eu ler para você? — John sugeriu — Assim você descobre.

— Não é nenhuma besteira, certo? — Ela arriscou.

— Você sabe que eu não leio nada que você não gosta — John lembrou e Kay aquiesceu.

— Muito bem então — Ela concluiu pegando a guia de Presidente Washington e se levantando — Presidente Washington, John, vamos ao parque.

Segurando a guia de Presidente Washington com uma mão, tendo a bengala apoiada no outro braço que estava entrelaçado com o de John, que segurava a coleira de Rainha Elizabeth com a mão livre, Kay caminhou, sorrindo, para o parque, começar mais uma aventura.

Notas finais
E então, gostaram??? Como nunca escrevi fics sobre esse assunto, não sei se está coerente ou não. Qualquer coisa, me avisem, por favor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!