Notas iniciais
Boa leitura. Essa one foi escrita especialmente para uma garotinha de dez anos, a pedido de seu primo :3 ~Beatriz Tauro~

A caçadora em busca da princesa

por Beatriz Tauro

Capítulo Único

Um vulto amarronzado passa correndo entre as árvores, com uma garota logo atrás. A garota para por um minuto para tentar retomar o fôlego, abaixando o capuz que antes cobria seus cabelos ruivos. A menina esfrega uma mão na outra, a fim de se aquecer um pouco, e se senta em uma das grandes raízes que estavam no chão á seus pés.

Um assobio escapa de seus lábios rachados de frio, e um grande lobo branco aparece ao seu lado, batendo com o focinho na barriga da arqueira, fazendo com que essa acariciasse seu pelo.

—Vamos, Wang! Temos que ir até o castelo. —Diz ela, se levantando e pegando o arco que havia apoiado no chão. A loba branca rosna, mas a arqueira simplesmente retira uma flecha da aljava, posicionando-a no arco. —Pronto, menina. Fique calma. Agora vamos. Sabe que se chegarmos atrasadas a rainha é capaz de me prender.

A garota puxa novamente o capuz por sobre a cabeça e ajeita os fios para que todos ficassem encobertos por ele. E então ela entra mais fundo na floresta, seguindo o caminho que fizera para chegar até ali.

Logo ela encontra a trilha que a levaria direto para o castelo. A loba branca se aproxima mais ainda da arqueira quando esta devolve a flecha para a aljava e pendura o arco no ombro.

—Senhorita, pare e diga o que desejas! —Diz o guarda a frente do castelo, barrando a entrada da jovem.

—A rainha chamou-me aqui, senhor. —Ela diz, com autoridade, como aprendera a fazer com seu mestre. O guarda está prestes a manda-la embora quando as portas duplas se abrem, revelando a própria rainha em pessoa.

Por muitos anos, a beleza da rainha foi comentada, e por muitos anos ela seria comentada. A mulher era alta e pálida, com cabelos tão negros quanto à noite. Seus olhos possuíam um brilhante tom de violeta, e transmitiam a bondade de uma rainha. A esbelta mulher trajava um vestido da cor cinza, que não escondia seu corpo. Era como se ela não quisesse ser vista, o que era incompreensível.

—Minha senhora. —Diz a caçadora, fazendo uma longa reverência para a rainha á sua frente. O guarda também o faz, embora seja ignorado pela rainha. A mulher de cabelos negros inclina levemente a cabeça, fazendo sinal para que a caçadora adentre o castelo, seguindo-a.

—Minha pequena caçadora. —A rainha Calissa diz, sorrindo afetuosamente para a jovem, que abaixa o capuz e retira o casaco que lhe cobria o corpo.

A jovem aparentava ter em torno de dez ou onze anos, embora seu olhar transmitisse experiência. Possuía cabelos ruivos ondulados, e olhos violetas como os da rainha. Sua estatura era alta para a idade, e poderia passar por uma garota de treze ou até quatorze anos. Sua pele possuía uma palidez que era natural ao reino, mas que ficava ainda mais aparente quando a mesma corava, pois apenas algumas áreas de seu rosto se tingiam. A garota sorriu e deu um rápido abraço na mulher a sua frente, que a envolveu em seus braços.

—Oi tia! —Diz a garota, quando a mais velha a solta. A rainha sorri e se senta na cama, batendo no colchão á seu lado, mas a criança nega com a cabeça. A jovem sorri e caminha até a penteadeira que estava encostada em um canto, se sentando, pegando uma escova de haste azul e penteando os cabelos.

—Diga-me apenas por que me chamaste aqui, tia. Quero voltar para minha casa. Mamãe está irritada. —Ela comenta casualmente, apenas para escutar a gargalhada da tia.

—Elinor sempre foi irritada, minha querida Ester. Mas o assunto é sério, minha flor! —O tom da tia faz com que a pequena Ester pare de sorrir e passe as pernas por cima do banco aveludado, ficando com as costas para o espelho e os olhos pregados na tia.

—O eu houve, madrinha? —Ela diz, chamando a tia com um dos muitos títulos que a mulher arrecadara com o tempo.

—Karla está desaparecida. Ela disse que ia lhe visitar, mas não mandou-me nenhuma resposta sobre ter chegado. Diga-me que ela está com sua mãe. —Diz Calissa, levando as mãos ao peito, esperando a resposta da menina. Mas esta apenas volta os olhos para o chão, o que ela fazia quando a resposta era ruim. A rainha caiu em um choro silencioso. Por dois dias mantivera o sumiço da garota em segredo, alegando que a mesma estava na casa dos tios, embora seu coração dissesse o contrário. A jovem arqueira caminhou até a tia e passou as mãos em seus fios negros, enquanto sussurrava:

—Tia. Vou encontra-la. Não se preocupe. Wang a achará em dois minutos. —A garota diz, enquanto a loba apenas late em comprovação. A rainha solta uma risada e passa a mão pelo focinho da grande loba, que a deixa acariciar.

—Ainda não acredito que domares uma das grandes lobas da floresta. Karla não doma nem uma doninha. —Ambas sorriem. Ester sempre fora a mais aventureira das duas. Enquanto a ruiva amava escalar em árvores, sua prima preferia ficar dentro do castelo, provando alguns dos muitos vestidos que possuía. Embora, porém, fossem tão diferentes, eram amigas inseparáveis.

—Tenho que ir, minha madrinha. —Diz a menina, dando um beijo na bochecha pálida da tia. —Levarei Karla para casa e mandarei-te uma mensagem.

A rainha abraça a pequena caçadora junto a si, sorrindo. Deposita um beijo em sua testa e retira algo do meio das vestes. Entrega a pequena adaga nas mãos da menina, que apenas a esconde em um bolso interno do casaco, que agora estava novamente cobrindo seu corpo. Ela leva a mão até o capuz e o puxa. Quem a visse de longe podia jurar que a garota possuía entre treze e quatorze anos, o que lhe garantia um disfarce.

Ester caminha com passos rápidos a pequena distancia do castelo até a floresta, onde retira o arco de seus ombros e o carrega em mãos, garantindo uma segurança maior. Pela primeira vez em anos, seu coração dispara ao se distanciar da tia e adentrar sua tão amada floresta.

—Sei que está comigo á mais de um dia, minha felpuda. E também sei que és um espirito livre, mas poderá ajudar-me mais uma vez? —Ela sussurra, abaixando-se ao lado da loba e deixando que essa escolhesse. A loba se aproxima mais ainda da criança, e se deixa ser acariciada, como fazia ao aceitar uma das propostas da amiga.

Ela retira um pedaço de tecido que puxara de um dos vestidos da prima e o estende em direção a Wang, que a cheira e logo aponta com o focinho em uma direção, correndo para ela logo em seguida. A garota solta um sorriso discreto e passa a correr atrás da loba, seguindo apenas seu rabo peludo e branco.

A loba corre ainda mais em direção á casa dos pais de Ester, mas vira á direita no riacho que cortava o caminho. A garota quase salta o rio ao seguir seus instintos, que a levariam para casa. Mas, por sorte, a loba late, avisando a amiga, que vira em direção a outra parte da floresta no último segundo.

—Por que raios Karla virou a esquerda? Meus Deuses! —Ester exclama, voltando seu olhar para a lua que começava a nascer. Não estava acostumada a caçar durante a noite, mas não deixaria sua prima passar a noite sozinha na floresta. E, além disso, Wang estava junto dela, e a loba adorava caçar durante o período em que a lua recobria o céu.

A loba corre mais um pouco, chegando à entrada de uma antiga gruta. Ester franze as sobrancelhas, pois se lembrava das histórias que algumas pessoas contavam. Um barulho faz com que ela vire á esquerda, já com uma flecha preparada. Uma onça de porte médio sai de dentro da floresta, correndo em sua direção. A garota não hesita em soltar a corda do arco, acertando o feroz animal.

A loba late e aponta com o focinho para a gruta. Ester respira fundo e adentra o local seguindo novamente o rabo felpudo de Wang, que ia à frente.

Logo uma silhueta caída chama a atenção das duas. A jovem arregala os olhos e corre até sua prima. Esta possuía cabelos negros e olhos amendoados, que estavam fechados no momento. A arqueira retira um cantil de água de sua mochila e despeja um pouco do conteúdo no rosto da garota, fazendo a mesma tossir.

—Ter! —A mais velha gritou, abraçando o pescoço da prima.

—Kal. O que aconteceu? Não estavas indo até minha casa?

A morena suspirou, sabendo que seria difícil contar. Ao tentar se sentar, bateu com o tornozelo em uma saliência, o que fez com que seus olhos se enchessem de água e um gemido baixo ecoasse pela gruta.

—Maldito tornozelo! —Ela conseguiu sussurrar, o que fez com que a ruiva olhasse em direção ao tornozelo da prima, que estava inchado.

—Você quebrou seu tornozelo? —Ela pergunta o óbvio.

—Ei! Eu não o quebrei, ele se quebrou quando eu escorreguei pra dentro da gruta. —Retruca a mais velha, sorrindo. A mais nova se levanta e faz um sinal para que a loba fique perto da jovem.

—Fique ai. Não sai. Vou buscar meus pais. —Então, quando esta quase na porta da gruta, retorna e entrega a adaga da rainha para a princesa. Esta apenas assente com a cabeça e se ajeita de uma forma melhor. Wang vai mais para perto dela, apenas para se sentar e manter o olhar fixo na entrada, por onde a ruiva passa.

Ester corre silenciosamente e pula o riacho, caindo do outro lado com a ponta dos pés. Sabe que se fazer muito barulho o pai vai acabar saindo para caçá-la, o que não seria bom. Ao chegar mais perto da casa de madeira, ela abaixa o capuz e mantem o arco em suas mãos. Bate na porta da frente com os dedos fechados, e escuta a mãe se sobressaltear na cozinha, deixando um copo cair. A ruiva revira os olhos para o descuido da mãe, e escuta os passos quase silenciosos do pai. Ela fala antes que ele abra a porta:

—Mãe, pai, sou eu! Preciso de ajuda.

A porta é aberta rapidamente, revelando uma mulher idêntica à rainha, embora mais baixa, e um homem de alta estatura, cabelos ruivos e olhos verdes. Ele sorri ao ver a filha e a puxa para um abraço, mesmo sobre os protestos da mesma. Ela retribui o abraço sorrindo e dá um beijo na testa da mãe, que a afasta um pouco para ver melhor.

—Cresceu cinco centímetros! —Ela diz como sempre. A garota teria rido e retrucado, mas não o fez.

—Mãe, pai. Falo sério. Karla se perdeu na floresta. Já a achei. —Ela completa ao ver a mãe já ficar preocupada. —Mas ela quebrou o tornozelo e está fraca. Não conseguiria traze-la até aqui. E, antes que perguntem, não a deixei desprotegida. Wang está com ela e ela está com uma adaga.

O pai assente e pergunta onde a menina está. A ruiva dá as instruções, e ele vai com a mãe da garota, os dois armados com um arco e flecha cada. A menina sorri e retira o casaco, o pendurando no cabide ao lado da porta. Fecha a mesma atrás de si e caminha até seu quarto, onde guarda o arco e a aljava. Prende os fios ruivos em uma trança e vai até o quarto ao lado, onde seu irmão brincava com alguns bichos. Ela se senta no chão a seu lado e ele lhe dá um abraço, sorrindo sem um dos dentes da frente. A caçadora, ao notar isso, sorri e segura o queixo dele.

—Ei, meninão. Perdeu seu primeiro dente de leite? Está tudo bem. Eu também já perdi, e depois nasceram estes! —Ela exclama, mostrando os dentes permanentes para o irmão, que solta gritos animados. Ela o pega no colo e leva até a sala, onde se senta no tapete, contando para o irmão o que havia acontecido. Ele era seu maior confidente.

A porta da cozinha se abre de repente, e a caçadora rapidamente puxa uma das adagas do pai, que ficava escondida atrás do banco de madeira, enquanto empurra o irmão assustado para trás, se posicionando protetoramente em sua frente.

—Somos nós, Ester. —Grita o pai, fazendo a menina abaixar a adaga aliviada e puxar seu irmão para um abraço.

—Pronto, meninão. São só o papai e a mamãe. —Ela sussurra enquanto vai até a cozinha, onde encontra a prima sentada na mesa e a mãe enfaixando seu tornozelo.

—Esqueceu-se de falar para o Dennis que eu estou aqui também, selvagem! —Diz Karla, enquanto sorria para a prima ao chama-la com o antigo apelido.

—Verdade. Dê, não tem problema. São só o papai, a mamãe e a mimada da nossa prima! —Ela retruca, fazendo o garoto gargalhar e a prima revirar os olhos.

—E minha Wang? —Ela pergunta, quando já estão todos na mesa e logo depois da ruiva ter escrito uma mensagem para sua madrinha.

—Sabe que ela é selvagem. —Simplesmente responde o pai, bagunçando os cabelos do filho mais novo. Esse boceja e Ester se ergue da mesa.

—Deixa comigo, pai! —Ela diz ao retirar o garoto dos braços do pai, que dá um beijo na testa dos dois. Sabia que a garota acabaria dormindo logo depois de botar o irmão na cama, então já lhe desejou boa noite, assim como sua mãe e sua prima.

Ester coloca Dennis deitado na cama e se senta no felpudo tapete que revestia todo o cômodo, enquanto acaricia os cabelos ruivos do mais novo e sussurra uma canção de ninar.

—Senti saudades Ter. Pode dormir comigo? —Ele pergunta, fazendo com que a mais velha sorrisse e se deitasse por trás dele, o abraçando fraternamente.

—Também senti sua falta, campeão. Durma bem, príncipe. —Ela responde, e sente o irmão relaxando em seus braços. Ela sorri bem baixinho e fecha os olhos lentamente, adormecendo dentro do pequeno quarto, abraçada á pessoa mais importante de sua vida.

Fim

Notas finais
~Beatriz Tauro~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!