A Caçadora E O Vampiro

16 O passado de Mike


Notas iniciais
Oi leitores lindos!!!De novo eu demorei pra postar, me desculpem, as provas estão chegando e eu estou estudando feito louca, nem estou tendo muito tempo para escrever, mas assim que as férias começarem as coisas voltam ao normal e eu volto a postar mais rápido!!!
Espero que gostem deste capítulo, ele me pareceu meio emotivo, mas achei que precisava falar algo sobre o Mike...

A casa estava toda iluminada, mas não tinha ninguém dentro. Procuramos em todos os cômodos e nem sinal de Alice, Laureen e Sophie. Estava cada vez mais preocupada, sabia que Mike e Mark também estavam como eu, mas eles pareciam estar lidando com isso melhor do que eu, eles estavam calmos tentando entender o que estava acontecendo enquanto eu estava desesperada para achá-las, andava de um lado para o outro na sala tentando manter meus pensamentos sob controle.

“Você quer parar?” perguntou Mike me olhando andar “Está me deixando tonto”

“Desculpa” respondi “Como você consegue ficar parado?” me dirigi para o sofá, Mark envolveu minha cintura, me puxando para seu colo, me aninhando em seu peito.

“Não adianta nada ficar andando como uma louca, temos que pensar” seu tom de voz era calmo, mas seus olhos me fitavam mostrando que estava consternado por dentro.

“Alguma ideia de onde elas podem ter ido?” perguntou Mark, ele afagava meu braço tentando me acalmar.

“Não” respondi, sentindo meu corpo entorpecido.

“Também não” falou Mike, nos olhando tristemente.

Ficamos um tempo em silêncio que me pareceu muito longo, não fazia ideia de onde elas estavam e era noite de lua cheia, estavam correndo perigo ficando muito perto de Sophie. As palavras de Dean não deixavam minha mente, ela poderia se transformar a qualquer minuto e se mordesse Alice ou Laureen seria culpa minha novamente. Eu devia ter ido ajudá-las mesmo que elas não tivessem aceitado minha ajuda...

“Não é culpa sua” falou Mark, beijando meus cabelos. Me ajeitei melhor em seu abraço, recostando minha cabeça em seu peito desconsolada. Sabia que não era culpa minha, mas não conseguia deixar de me culpar, se algo acontecesse com elas eu não conseguiria me perdoar.

“Millie, você não pode se culpar por tudo que acontece nessa cidade” Mike veio se sentar ao nosso lado no sofá.

“Eu sei” sussurrei. Enxuguei uma lágrima, tentando reprimir as outras.

“Elas podem estar na floresta” sugeriu Mark.

“Não sei, a Alice deixou o celular aqui e a Laureen também, não tem como saber onde elas estão. O jeito é esperar e torcer para que nada de ruim aconteça”

“Nós não podemos ficar aqui parados, temos que sair para procurá-las” falei, tentando me levantar, mas Mark me impediu, me abraçando mais forte.

“Não vou deixar você ir atrás dela, é perigoso demais sair por estas florestas. Lembra quando eu te disse que eu era a criatura mais boazinha que encontraria por aqui?” ele me olhava consternado.

“Mas Mark...”

“Não” me interrompeu autoritário “Nós vamos ficar aqui e esperar. A Laureen é experiente nisso, ela não vai deixar nada de ruim acontecer a elas, confia em mim”

“Experiente?” perguntei, confusa. Não sabia muito sobre o passado de Laureen, nunca conversara com ela sobre isso.

“Ela tem mais de duzentos anos, já conheceu vários lobisomens antes... o namorado dela era um” seu tom de voz ficou mais triste ao falar isso, não entendia direito por que... talvez eles se conhecessem.

“Sério?”

“Sim, mas ele morreu muitos anos atrás, um vampiro mordeu ele... Laureen ficou com ele até os últimos instantes, assim como ela esteve lá para ele quando ele se transformou pela primeira vez... A Sophie e a Alice vão ficar bem, acredite em mim” ouvir isso me reconfortou um pouco, mas não o suficiente, ainda me sentia inquieta.

Mais um longo tempo se passou, a cada segundo eu me sentia afundar em um poço profundo do qual não conseguia sair de tão entorpecido que meus membros estavam, era como se eu estivesse em um estado emocional tão deplorável que não conseguia ao menos sentir alguma emoção, me sentia vazia, como se tudo a minha volta estivesse mais frio que o normal... era uma sensação horrível, ainda pior do que a culpa que havia me acompanhado nos últimos dias – era estranho pensar que tudo começara há apenas dois dias.

Mark afagava meu braço e beijava meu cabelo para me acalmar, Mike olhava para o teto branco fixamente, seu rosto não transparecia nenhuma emoção assim como o meu, estávamos ambos entorpecidos pelo medo que sentíamos no âmago de nosso ser. Não sei por quanto tempo ficamos assim, era como se o tempo tivesse congelado enquanto esperávamos por notícias. Também não sei ao certo o que esperávamos, as meninas não estavam com os celulares, não tinha como elas mandarem notícias – a não ser que carregassem um sinalizador dentro das botas, o que com certeza elas não faziam.

“O que vocês acham que está acontecendo com a Sophie?” perguntei tentando quebrar o silêncio agourento que dominava o cômodo. Sabia que não era o melhor assunto, mas era algo para conversarmos, algo que nos preocupava a ambos.

“Eu não sei, só espero que ela não esteja se transformando” sussurrou Mike, transformando meus pensamentos em palavras.

“O que acontece? Quer dizer, quando ela se transforma o que acontece realmente?” por mais que soubesse relativamente o que acontecia, era bom saber sobre isso vindo de um especialista no assunto, teríamos que lidar com isso sete dias por mês.

“Dor, principalmente dor. Acho que por não ter dor enquanto a saliva do lobisomem contamina o corpo, as primeiras transformações passam a ser muito dolorosas, é como se todos os seus ossos estivessem sendo quebrados em vários lugares e em milhares de pedaços... é algo horrível de presenciar.” falou Mike submerso no mar de lembranças que ele tinha sobre determinados assuntos.

“Mike, sabe uma coisa que você nunca me contou?” perguntei sem pensar, queria continuar conversando, tentando fazer o tempo passar mais rápido para que a espera não parecesse tão longa quanto realmente deveria parecer.

“O que?” ele me olhou sem entender, ele sabia que não havia segredos entre nós, mas eu sabia que existia um, um que sempre foi um mistério que me deixava intrigada sempre que me lembrava do assunto.

“Você nunca me contou sobre o que aconteceu com você para que se tornasse um caçador, quem te ensinou tudo isso, como você sabe de tantas coisas...” minha voz foi sumindo aos poucos enquanto falava, não queria que ele ficasse incomodado por ter tocado neste assunto que ele abominava.

“Quer mesmo saber?” falou fazendo uma careta, se não fosse um assunto ruim e uma hora péssima, teria rido.

“Sempre quis, mas você nunca me contou”

“Nunca contei porque não gosto de relembrar meu passado... foi doloroso”

“Também foi doloroso para mim, mas às vezes é melhor enfrentarmos o passado do que continuarmos tentando ignorá-lo sem obter exito algum.” ele suspirou e desviou o olhar do meu, fitando a lareira apagada no canto da sala e logo olhando para uma parte puída do tapete, pensando na melhor maneira de começar a contar sua história.

“Eu perdi meus pais quando tinha cinco anos em um terremoto e estava morando com meu irmão mais novo em um orfanato em Rowland, Carolina do Norte. Meus avós paternos não quiseram ficar conosco, eles nunca aprovaram o casamento de meus pais porque minha mãe vinha de uma família pobre e havíamos perdido contato com a família de minha mãe há algum tempo.

“Moramos lá por muito tempo, ninguém queria nos adotar, todos os casais que apareciam queriam ficar com os bebês, criar uma família sem complicações... Eu tinha dezesseis anos quando tudo aconteceu, naquela noite eu estava andando com meu irmão, ele tinha catorze anos, eram apenas dois anos de diferença entre nós. John e eu, não tínhamos nada para fazer no orfanato, eram poucas as crianças da nossa idade por lá na época, o que nos dava um pouco mais de liberdade, não tínhamos que dividir nossas coisas com ninguém e podíamos ir e vir quando bem entendêssemos, contando que voltássemos para casa às 10:00 p.m...

“Enfim, estávamos andando pela cidade, o sol já estava quase se pondo completamente no horizonte...

Rowland – Carolina do Norte – Estados Unidos – Agosto de 2005

O por do sol tocando as copas das árvores era maravilhoso, a cidade estava banhada em um brilho alaranjado com leves toques de verde em todos os cantos, algo que conferia ao lugar um ar saudável e acolhedor. A cidade era pequena, não chegava a ter dois mil habitantes, o tipo de lugar onde todos se conheciam e a fofoca corria mais rápido que a ambulância do hospital local ao receber um chamado de emergência. As casas eram pequenas, pintadas em tons pastéis, com amplas janelas de vidro e portas de madeira antigas, grandes e pesadas. Os jardins bem cuidados com flores coloridas que atraíam várias borboletas e outros insetos eram cercados apenas pelas laterais para dividir o terreno. Era o tipo de lugar no qual se via uma bicicleta jogada na grama de cada casa ou encostada em um lata de lixo prateada perto da calçada. Ninguém tinha medo de assaltos ou coisas do tipo, era provavelmente a cidade mais pacífica em todo o país.

Enquanto andávamos várias crianças estavam jogando bola na rua alegremente ou pedalando suas brilhantes bicicletas novas com os amigos, apostando corrida ou apenas aproveitando a brisa suave que percorria as ruas, refrescando a cidade durante o verão escaldante que se apoderava do estado todos os anos.

Como queria poder mergulhar em uma piscina profunda e gelada para me refrescar... mas tudo que conseguiria era um rápido banho de mangueira já que estávamos tendo que economizar água. Sentia meu corpo pegajoso por causa do suor que parecia transbordar de dentro de mim. Caminhamos até a praça, nos sentando em um banco sob a sombra de uma árvore majestosa perto da igreja, que estava começando a encher, as pessoas daquela cidade eram muito religiosas, todos os domingos a igreja lotava de fiéis e turistas que estavam na cidade em busca de quietude e de um refúgio para tudo que as assombravam nas cidades grandes.

John se sentou ao meu lado, ele parecia cansado também, o verão era a pior época do ano para nós, o orfanato parecia ainda mais abafado do que de costume, dormíamos mal por causa do calor, acordávamos cedo por causa da luminosidade que infiltrava nosso quarto pela janela sem cortinas. Sem falar que os banhos tinham que ser rápidos, não dava nem ao menos para nos refrescar direito. Pensava em tudo isso ali, apreciando a brisa e a sombra da árvore observando o que acontecia a minha volta.

Várias crianças andavam por lá acompanhadas das mães que sorriam ao ver os filhos correrem para se juntar aos amigos nos balanços e no escorregador. Várias senhoras idosas estavam indo para a igreja e outras estavam sentadas nos bancos com linha e agulha em mãos fazendo casaquinhos e sapatinhos para bebês. Casais de namorados andavam de mãos dadas ou abraçados conversando e tomando sorvete.

“Por que que isso não pode acontecer com a gente?” perguntou John, observando um casal andando de mãos dadas.

“Eu não sei, talvez porque somos órfãos e não temos dinheiro algum” respondi dando de ombros, não queria que ele percebesse que isso também me atormentava.

“Eu queria comprar um sorvete”

“Se eu tivesse dinheiro comprava um pra você” o olhei, estudando atentamente seu rosto.

Ele era pequeno e magro, seus cabelos castanhos levemente ondulados estavam rebeldes naquele dia, seu rosto pequeno e pontilhado por pequenas sardas causadas pelo excesso de sol que tomávamos no verão, seus olhos verdes como de nossa mãe estavam tristes, como na maioria das vezes. O fato de termos perdido nossos pais tão cedo o afetava mais do que a mim, mas ainda tínhamos um ao outro, o que amenizava um pouco a situação. Eu era um bom irmão mais velho, cuidava do John, me preocupava com ele o tempo todo, éramos melhores amigos, mas isso não sobrepunha a falta que sentíamos de nossos pais.

“Você acha que vamos ser adotados um dia?” perguntou, fitando seus pés descalços.

“Eu não sei, às vezes eu acho que nunca vamos sair daqui, mas eu tenho esperanças ainda... só espero que possamos ficar juntos se formos adotados” eu queria poder alegrá-lo, mas não podia mentir para ele, mesmo que isso nos deixasse ainda mais tristes.

“Eu também espero” ele me abraçou, pude ver lágrimas se formando no canto de seus olhos, mas ele logo as enxugou, tentando parecer mais forte do que realmente era.

“Vai ficar tudo bem, John” ele se afastou e passou a mão pelos cabelos indomáveis, bagunçando-os ainda mais, algo que me parecera impossível até o momento. “Eu sinto falta dos waffles da sra. Plunket” falei tentando distraí-lo, o que funcionou.

“Os waffles dela são os melhores” ele sorriu ao se lembrar da cozinheira, o dia de waffles e bacon eram todas as quintas-feiras, o melhor dia para tomar café da manhã no orfanato, os outros eram bem mais simples, nós sempre íamos comer na padaria perto da igreja, o sr. O'Neil nos deixava comer o que quiséssemos de café da manhã, ele era um velhinho simpático e carismático, um dos poucos amigos que tínhamos na cidade.

“Será que dá pra gente ir na piscina da cidade amanhã?” perguntou esperançoso.

“Amanhã é nosso dia de ajudar a limpar a casa” lembrei-o a contragosto, gostava de vê-lo sorrindo.

“ Eu já tinha me esquecido”

“Não esquenta, a gente vai lá na terça-feira, prometo” tentei animá-lo um pouco, ele merecia ser feliz.

“Espero que a Sam esteja lá” meu irmão tinha uma paixonite secreta pela Sam, uma amiga de escola. Ela era bonita, mas também era a mais esnobe da turma dele, fazia de tudo para fazê-lo se sentir mal por ser órfão, por mais que tentasse fazer com que ele a esquecesse, ele continuava apaixonado por ela.

“Você devia tirar ela da cabeça” aleguei, mesmo já tendo falado isso para ele milhares de vezes antes.

“Eu sei que ela não gosta de mim e provavelmente você está certo, o melhor a fazer é esquecer ela, mas não consigo deixar de gostar dela” murmurou bravo consigo mesmo. Dei um tapa leve em seu ombro.

“Com o tempo você consegue”

O sol estava quase sumindo no horizonte, dando lugar a uma noite estrelada e mormacenta. Seria mais uma noite difícil para se dormir. O sino da igreja começou a bater descompassado e estridente indicando que a missa iria começar. John e eu nunca fomos muito religiosos, no orfanato eles nos ensinaram a rezar e nos levavam à igreja quando éramos pequenos, mas eu preferia orar sozinho, sem ninguém por perto para me escutar. Sabia que John também preferia assim. Pude ouvir o coro começar a cantar enquanto o padre percorria o longo corredor que levava ao altar.

“Nós devíamos ir, não quero perder o jantar de novo” comentei, me levantando.

John me acompanhou, ele parecia estar faminto. Caminhamos calmamente até o orfanato, sem nos preocupar com nada, éramos apenas duas pessoas andando e apreciando mais uma linda noite de verão.

O orfanato estava quieto e calmo, algo estranho já que o ambiente era sempre tomado pelo choro dos bebês. Estávamos indo para a cozinha quando a sra. Plunket nos alcançou no corredor, seu cabelo grisalho estava preso em um coque desajustado, suas roupas amassadas e seu rosto transtornado. Ela nos olhou por alguns instantes, se demorando mais ao olhar o John que estava parecendo muito confuso com tudo aquilo.

“Está tudo bem, sra Plunket?” perguntei gentilmente.

“Ah, meninos, não sei nem como dizer isso à vocês” ela falou, ainda olhando para o John, sua voz indicava que ela estava prestes a chorar “A Sam foi atacada por um animal, ela foi levada para o hospital, mas...” ela soluçou e enxugou algumas lágrimas “Ela... ela perdeu muito sangue e... não resistiu” ao dizer isso, ela começou a chorar incontrolavelmente. Sam era sua neta, devia ser muito difícil para ela.

John estava em estado de choque, seu rosto não exibia emoções, sua boca levemente aberta, como se estivesse em busca de ar. Passei um braço por seus ombros, sabia que seria difícil para ele lidar com tudo isso, mesmo que Sam o tratasse como um idiota, ele a amava, ela foi seu primeiro amor. Peguei a mão da sra Plunket com minha outra mão, afagando-a, ela parecia péssima, me partia o coração vê-la assim, ela era como uma avó para mim e vê-la assim me deixava péssimo por dentro.

Guiei os dois para fora da casa, guiando-os para o hospital, onde grande parte da cidade se encontrava. O hospital estava lotado, a noticia da morte de Sam havia percorrido a cidade rapidamente e todos haviam ido até lá para ajudar a família no que fosse preciso, mas eles só estavam piorando as coisas com toda a curiosidade evidente em seus olhos e em seus trejeitos. A sra. Plunket soltou minha mão e foi abraçar sua filha que estava chorando desconsolada em uma banco no corredor enquanto os médicos estavam fazendo alguns procedimentos necessários em casos como esse.

A noite foi muito longa, John não queria voltar para o orfanato, mas consegui convencê-lo de que não havia nada que pudéssemos fazer e voltamos para casa com o resto dos funcionários e colegas que foram prestar suas condolências à família. No quarto que dividíamos, John foi direto para a cama e afundou a cabeça no travesseiro, sem ao menos trocar a roupa pelo pijama. Sentei-me ao seu lado, afagando seus cabelos, não sabia o que fazer para consolá-lo, eu ainda estava em choque quanto ao que havia acontecido.

Meu irmão chorava, ele havia se mantido firme durante a noite, mas ele não era tão forte assim. Em meio às lágrimas ele acabou adormecendo. Troquei de roupa e me deitei na cama, me cobrindo com o lençol branco até o queixo. Ainda não conseguia acreditar no que havia acontecido, não eram muitos os casos de ataques de animais, os que aconteciam eram em cidades maiores, nunca havia acontecido algo do tipo na pequena cidade de Rowland, Carolina do Norte. Acabei adormecendo mais rápido do que achei possível.

Acordei de madrugada, ainda estava escuro, meu relógio marcava 3:00 a.m. Tinha acordado com um barulho. Olhei o quarto e percebi que John não estava mais na cama. Não conseguia mais dormir, o calor era intenso de mais. Olhei pela minha janela, observando o céu estrelado, mas algo me fez olhar para baixo, onde avistei John, andando em direção à rua, ainda vestindo as roupas que usara o dia todo. Não pensei duas vezes, calcei meus chinelos e saí atrás dele, sem me lembrar de vestir uma camiseta.

“John” gritei, mas ele apenas começou a andar cada vez mais rápido, andando para longe de mim sem rumo definido. Ele não me queria por perto, sabia que devia deixá-lo ir, ele precisava de um tempo sozinho, mas algo dentro de mim me impulsiona a seguir a diante, não podia deixá-lo andar sozinho tarde da noite.

Andamos por um longo tempo até que chegamos em uma parte da cidade afastada do centro, com poucas casas, sendo em sua maioria casas mal cuidadas e pequenas, era a parte mais pobre da cidade. John entrou em uma rua sem saída e seguiu até o fim, se sentando na calçada, com um pequeno bosque às suas costas. Me juntei a ele, sentando-me ao seu lado. Ele se deitou, apoiando a cabeça em meu colo, suas lágrimas molhando minha bermuda cinza.

Não sei quanto tempo ficamos ali, já estava começando a ficar incomodado de ficar sentado na mesma posição por tanto tempo em um lugar desconfortável. De repente pude avistar alguém vindo em nossa direção.

“John, nós temos que ir, não podemos ser vistos fora da cama tão tarde” falei, tentando fazer com que ele se levantasse, mas ele apenas resmungou e permaneceu imóvel. E a pessoa continuava se aproximando.

Meu corpo me alertava para que saíssemos dali o mais rápido possível, mas John não parecia sentir o mesmo. A cada passo que aquela pessoa dava, meus instintos gritavam cada vez mais alto para que saísse dali.

Percebi que era um homem que vinha em nossa direção, mas isso só me deixava ainda mais apreensivo. O homem usava jeans e jaqueta, roupas completamente erradas para o clima que fazia, devia estar fazendo 26º graus do lado de fora. Ele chegava cada vez mais perto, com as mãos nos bolsos da calça parecendo relaxado, tinha algo errado nisso tudo, mas não conseguia perceber o que exatamente.

“O que fazem fora da cama tão tarde da noite?” perguntou o homem, parando de frente para mim, seu rosto sereno e compassível.

“Quem é você?” minha voz estava fraca, mas o homem havia me ouvido.

“Desculpem-me, é falta de educação não me apresentar. Meu nome é Nicholas White” ele estendeu a mão para mim, apertei sua mão para ser educado, a sensação de perigo ainda tomava conta do meu corpo.

“Mike, esse é meu irmão John”

“É um prazer conhecê-los” Nicholas sorriu revelando dentes amarelados e mal cuidados. “Vocês não deviam estar na casa de vocês? Seus pais vão ficar preocupados se não acharem vocês”

“Nós não temos pais” falou John, levantando-se, enxugando o rosto com os braços.

“Eu sinto muito” o homem falou, mas ele não parecia estar compadecido com nossa história.

“Nós temos que ir” me levantei e puxei John pela gola da camiseta, fazendo-o se levantar a contragosto.

“Mas nós acabamos de nos conhecer” reclamou Nicholas “Fiquem mais um pouco, vamos conversar, talvez possa pagar uma bebida para vocês” ofereceu.

“Não, obrigado, nós realmente temos que ir” puxei John pelo braço, deixando aquele homem estranho para trás. Andamos devagar para não chamar atenção para nós, podia sentir que o homem nos olhava, mas a vontade de meu corpo era de sair correndo dali e ir para a segurança do orfanato.

“Sabe, não é educado sair andando assim sem ao menos se despedir” falou Nicholas, que surgira à nossa frente vindo do nada. Meu coração deu um salto em meu peito, fazendo-me recuar, levando John comigo – que parecia estar presente somente de corpo, já que seu rosto estava completamente inexpressivo.

“C-como... como você fez isso?” gaguejei.

“Fiz o que?” seu sorriso era cínico, ele nos achava ingênuos de mais, mas eu sabia me proteger e conseguiria proteger meu irmão facilmente, o homem não era muito mais alto que eu e não parecia ser muito forte tampouco.

“Apareceu do nada... você estava no fim da rua...”

“Criança, eu consigo fazer isso porque não sou um simples humano” riu-se ele. Não entendia o que ele queria dizer, provavelmente estava bêbado, apesar de não parecer.

“O que você quer dizer com isso?”

“Eu sou um vampiro” ele mostrou seus dentes pontiagudos enquanto sorria para nós divertido. Ele estava me assustando e parecia estar gostando disso.

“Vampiros não existem”

“Não acredita em mim? Eu matei sua amiguinha, o sangue dela não era tão bom assim, mas me ajudou a me controlar um pouco.” o olhava ainda sem acreditar em suas palavras “Deixe-me fazer uma breve demonstração” ele estendeu o braço em direção ao meu irmão, puxado-o para perto de si. O movimento foi tão rápido que não percebi o que ele fazia, só me dei conta quando vi John se debatendo, tentando se livrar dos braços que o envolvia, mantendo-o colado ao corpo do homem de cabelos escuros e rebeldes.

“O que você está fazendo? Solta meu irmão” gritei, tentando me aproximar dele para soltar John, mas ele me empurrou, fazendo-me cair sentado no chão a alguns metros de onde ele estava, o local onde me tocara doía.

“Você não acreditou, aproveite o show, você é o próximo” Nicholas puxou os cabelos de meu irmão, expondo o pescoço branco e veias esverdeadas. Tentava me levantar, mas não conseguia comandar meu corpo. O homem aproximou sua cabeça do pescoço de John sem problemas, era como se meu irmão nem ao menos estivesse tentado se libertar daquele maluco. Quando Nicholas cravou seus dentes naquele pescoço, meu irmão começou a gritar de dor, seu sangue escorria, manchando sua camiseta, o homem parecia estar se deliciando. Ele soltou meu irmão depois de um tempo, seu corpo flácido, mas ainda vivo, caiu no chão em um ângulo doloroso. Nicholas se aproximou de mim, se agachando a minha frente “Agora é sua vez”

“Não” uma voz masculina reverberou pela quietude noturna. Nicholas virou a cabeça para ver quem o interrompia.

“Parece que terei um banquete hoje. O menino pode esperar mais um pouco, mato você e depois mato ele, não tem importância” ele deu de ombros se dirigindo para perto do homem de cabelos bagunçados e rosto sereno.

“Você não vai querer mexer comigo” avisou. Nicholas se aproximava do homem, mas ouvimos vários barulhos altos, como se alguém estivesse atirando uma arma de fogo, logo Nicholas caiu no chão, gemendo de dor. “Eu avisei” o homem falou, olhando para o homem caído. Ele cuspiu na cara de Nicholas e tirou algo do bolso da calça “Diga adeus” ele cravou uma estaca de madeira no coração do vampiro, que começou a ficar levemente acinzentado. O homem andou até meu irmão que ainda estava caído “Eu sinto muito pelo seu irmão, mas não posso deixar que ele viva, não queremos mais um vampiro na cidade, certo?” ele cravou uma estaca no coração de meu irmão. Meu peito doeu intensamente ao vê-lo fazer isso, minha boca estava aberta, mas o grito não saía pela minha garganta. O homem me olhou “Eu sinto muito, mas não podia deixá-lo se transformar, foi melhor assim” ele estendeu uma mão para mim, me ajudando a me levantar. Sentia meu rosto molhado pelas lágrimas que escorriam pela minha face. “Vamos embora, daqui a pouco o sol nasce e eles viram cinzas” ele passou um braço pelos meus ombros me impulsionando a ir em frente. “Meu nome é Dean”

“O Dean te treinou?” perguntei incrédula.

“Sim, ele me treinou, me ajudou a superar. Mas ele acabou desistindo de caçar, já que me tinha como caçador. Foi quando ele começou a fazer experimentos, principalmente envolvendo lobisomens, por isso sou especialista no assunto.” ele me fitava tristemente ao relembrar seu passado.

“Eu sinto muito” falei, tocando seu rosto.

“Eu também” resmungou.

Ouvimos gritos vindo em direção à casa, seguido de uma porta se batendo audivelmente. Alice e Laureen entraram em nosso campo de visão pouco depois, ambas estavam com as roupas rasgadas, os cabelos bagunçados e os rostos transtornados. Corremos para junto delas, as guiando para o sofá, elas pareciam prestes a desmoronar. Batidas incessantes na porta podiam ser ouvidas de onde estávamos, mas quando Mike se levantou para abrir a porta, Alice e Laureen o impediram.

“O que aconteceu?” perguntou Mark olhando para Laureen consternado.

“A Sophie se transformou”

Notas finais
O que acharam? Mereço reviews???
Beijinhos e até o próximo capítulo!!!