A Caçadora
14 Cérbero
Notas iniciais
Tomara que gostem!!
Ela estava com os olhos voltados para o Instituto, ainda sem voltar para lá. Viu John andar e sumir entre as sombras. Era realmente estranho. Bem que ela queria que alguém lhe procurasse assim. Mas também estava com medo por ele, de ele ser ferido, de se decepcionar, ou de até mesmo morrer. Era algo que eles não conheciam, e, mesmo com todo o seu instinto voltado para confiar em Mary, a sua parte lógica sussurrava em sua mente as coisas ruins que ela poderia fazer, a mentirosa que poderia ser.
– Cale a boca — Annie disse em voz alta, tentando se livrar dos pensamentos.
– Falando sozinha?
A voz lhe fez seu coração dar um pulo e os cabelos da nuca eriçarem. Ela girou o corpo, a ponto de olhar para trás, para encará-lo.
– Não é da sua conta, Jake — ela respondeu, fria e o contornando, para voltar ao Instituto. Não iria, de modo nenhum, falar com ele. Não depois do jeito que lhe tratou, como se fosse um lixo. Talvez foi, depois daquilo, que ela aprendeu a realmente a lidar com as pessoas. Do fundo do coração, mas do fundo mesmo, era-lhe grata. Mas não diria isso em voz alta. Jamais.
Mas o garoto não desistiu e lhe agarrou o pulso com uma das mãos frias e firmes. Nisso, Annie se virou e ficou encarando-o, furiosa. Ele não tinha mais nenhum motivo para fazer aquilo. Ele nem tinha motivo para tocá-la.
Com um movimento brusco e rápido, conseguiu soltar o pulso e o recolheu, colocando-o no bolso direito da calça, onde guardava uma arma de emergência. Ele somente levantou uma sobrancelha escura, com uma expressão de desdém no olhar negro. A raiva ferveu dentro de Annie, que deu a volta e tentou seguir para dentro do Instituto.
– Ela matou dois dos meus — Jake disse, colocando as mãos nos bolsos da calça.
Annie parou bruscamente e virou o rosto para o lado. Mesmo sem vê-lo, ela poderia saber se tinha se mexido. Seus dedos encontraram os buracos do soco-inglês e se fecharam sobre ele, pronta para atacar.
– Isso não tem haver comigo — ela disse, fria como um iceberg. — E ela foi embora, como pode ver.
– Mas ela é uma Nelphim.
As palavras fizeram-na perder o fôlego. Uma Nelphim? Não, ela era uma Meio-Sangue, como havia dito. Ou talvez realmente fosse. Mary disse que via os demônios, via esse mundo. Mas um romance entre uma Caçadora de Sombras e um deus?
– Mesmo assim — insistiu Annie. — Ela não foi criada como nós, e, mesmo se fosse uma — ela disse, e as palavras ecoaram como uma mentira em sua mente -, ela vive num mundo diferente. Não tem nada a ver com nós.
– Vocês vão pagar. Sei que nos odeiam e querem nos ver mortos, mas vão nos pagar, Caçadores de Sombras. E duvido que seu orgulho nos impeça disso.
Nesse comentário, Annie o viu se virando e sumindo entre as sombras. Com passos largos e rápidos, e chegou ao Instituto e fechou as portas atrás de si, se encostando nelas, como se Jake pudesse voltar e arrombar as portas.
Mary estava com os pés descalços em cima de Quione, acariciando-a. A loba estava meio tensa, mas jazia deitada na grama do jardim de Perséfone e Hades. Mary desistiu de pintar aquele quadro e o queimou. Estava bem irritada, e queimar aquilo lhe ajudou.
A garota deu um suspiro e jogou os braços para trás, para apoiarem o corpo. Não tinha mais nada para fazer. Poderia treinar, mas ela mão queria. Assistir televisão, talvez? Não. Televisão é algo muito estranho e complicado para ela. Então, decidiu ficar sentada sem fazer nada. O que também era difícil e irritante, por causa da TDAH.
Não aguentando mais, Mary se levantou, calçou as sandálias de tiras, douradas, e estava caminhando em direção ao palácio de seu pai com Quione grudada em seus calcanhares. Talvez para dormir? Estava meio cansada, e, se quando chegasse lá ainda estivesse com sono, dormiria. Caso contrário, arranjaria algo para fazer.
Mas todos esse pensamentos deixaram a cabeça dela quando escutou o barulho. Pareciam com sinos, e ela se lembrava deles. O alarme do Mundo Inferior.
Girando nos calcanhares, ela se pôs a correr o mais rápido que podia, com os cabelos soltos voando juntamente com o vestido. Suas pulseiras batiam umas nas outras, mas ela nem ligava. Só queria saber o que havia acontecido.
Passou pelos Campos de Asfódelos, indo a entrada da terra dos mortos. O porque, ela não sabia, mas tinha que ir para lá. E as fúrias também estavam naquela direção, então que se dane. Ela apertou o passo e viu Quione a ultrapassar, latindo alegremente, como se visse um amigo perdido.
Só que isso a preocupou. Cérbero, o rottweiler de três cabeças, estava logo a sua frente. Só que ele vinha em sua direção, como se estivesse perseguindo alguém. Seu lugar, a entrada do Mundo Inferior estava vários metros atrás dele.
Mary estancou no lugar, confusa e irritada. Se não fizesse algo, seu pai iria ficar mais irritado do que já é. E também, já não basta sua madrasta, Perséfone, e sua mãe, Deméter. Ambas são bem irritantes aqui.
– Cérbero, para! — Ela ordenou, com uma voz clara e firme. O cão parou e virou a cabeça, confuso. — Senta!
O cão nada fez.
– Senta! — Ela repetiu, com mais liderança na voz. Cérbero obedeceu, e se sentou, com as três cabeças a olhando, esperando uma nova ordem.
Mary olhou em volta, procurando Quione, e se assustou. A cor fugiu de vez de seu rosto, e seu corpo começou a formigar, inteirinho.
Cérbero rosnou.
– Quieto! — Ordenou ela, e conseguiu a atenção do intruso e de sua loba. — Cérbero, volte!
Meio choramingando, meio rosnando, o cão voltou para a entrada, olhando para trás melancolicamente. Mary sentiu uma pontada de culpa, e prometeu silenciosamente que iria brincar com ele depois. Mas, se esquecendo de tudo, correu até Quione, que estava brincando com um garoto vivo. Ela achou estranho, mas continuou avançando, com o coração na mão, um aperto horrível no peito.
Era um garoto com os cabelos castanhos escuros, com fios claros no meio. Estava com um casaco preto todo esfarrapado, e a camiseta azul-escura rasgada em três partes, como se fossem garras. Estava todo sujo de sangue e terra, com os joelhos da calça totalmente rasgados, com machucados na pele. Aliás, ele estava inteiro machucado, como se tivesse sido perseguido por Cérbero, o que Mary jurava que era verdade.
Ele estava com a cabeça e o corpo abaixados, passando a mão em Quione, deixando a pelagem da loba suja. Quando Mary se aproximou o suficiente para ele vê-la, levantou-se do chão e a encarou com aqueles olhos cor de âmbar, que estavam escurecidos. Ela percebeu que eles mudavam de acordo com seus sentimentos, igual a ela.
O garoto deixou de brincar com Quione e se aproximou de Mary, mancando da perna esquerda. Tinha um longo e fino corte na bochecha, e havia ligeiras olheiras marrons abaixo dos olhos. Ele lhe esticou uma mão, sem distanciar muito do corpo, mas perto o suficiente para que ela pudesse segurá-la.
– John... — sussurrou Mary, com a respiração ofegante e o olhar arregalado de alívio em seu rosto. Ela se sentiu feliz, mesmo sem saber direito o motivo. Estava feliz, aliviada.
John levantou levemente os cantos da boca, formando um sorriso. Ele fechou os olhos dourados, e, para acabar com os sentimentos de Mary, caiu para frente, como um boneco de palha.
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