A Caçada
1 Pilot
Notas iniciais
Para que assim te tornes minha horcrux.
Para que eu reine eterno, e ressurja como uma fênix.
Oh, cabelos de luz,
Escute meu apelo,
Que cumpras a profecia, sem medo e sem receios,
Que meu veneno corra pelas suas veias
E traga de volta à vida o verdadeiro governante das trevas.
Londres, 31 de outubro de 1997
Era uma típica manhã chuvosa na cidade de Londres. Eram meados de Outubro, e a chuva castigava o bairro de Kensington onde, em uma das luxuosas casas do lugar, uma pequena menina ruiva de olhos verde-mar observava as gotas caindo no chão.
“Ele os pegou.”
Não havia ninguém na rua ainda e o ruído das gotas caindo impedia o silêncio de ser total. De onde estava, em seu quarto no segundo andar, encolhida na cama ao lado da janela, tinha vista privilegiada da rua em frente à casa. Mas só havia o cinza do concreto para se ver.
“Ele os matou.”
Um homem aparece andando apressado e o coração da menina dá um salto. Seria possível..? Ele vestia um sobretudo marrom e chapéu da mesma cor e, com a chuva, a menina não conseguia distinguir seus traços. Levantou-se da cama e espremeu o nariz no vidro da janela na esperança de poder reconhecer o sujeito.
“Eles estão vivos!!”
Mas o homem, ao chegar em uma área coberta, tirou o chapéu, revelando cabelos grisalhos e um bigode enorme e preto. A menina sentiu vontade de chorar, mas segurou-se.
“Lágrimas são para os fracos.”
A porta do quarto abriu-se lentamente.
— Bom dia, querida!!
A menina se virou. Era sua tia, Selena Chapman. Também chamada de Tia Se. Selena era morena de pele clara, tinha uns quilinhos a mais, mas seu rosto era tão angelical e reconfortante como o de uma mãe.
— Bom dia, tia. – respondeu a menina melancolicamente.
— Sabe que dia é hoje? – sorriu a tia.
A menina deu um suspiro triste. Sim, ela sabia muito bem que dia era.
— Eles estão mortos? – perguntou ela de repente.
— O quê..? – espantou-se a tia. – Claro que não, que ideia! São DELES que estamos falando.
— Tia, hoje é meu aniversário de sete anos. Eles sempre aparecem no meu aniversário, não importa o que aconteça. Se não estão mortos, onde estão?
Selena não sabia como responder. Era verdade que não davam notícias fazia dois meses, mas ela aprendeu que o trabalho que Thomas e Annie não era o mais fácil do mundo. Nem o mais seguro. Muito menos concordava que a menina deveria saber a verdade. Ela era uma criança!
— Talvez estejam tendo probleminhas do ofício. Com certeza aparecerão mais tarde. – disse a tia por fim.
— Por que não mandaram cartas ou deram telefonemas até agora? Por que faz dois meses que nem parecem que existem? – a menina parecia que ia se derramar em prantos a qualquer momento.
— Talvez segurança. Você sabe que o que fazem é perigoso. Precisam te proteger.
A resposta da tia pareceu satisfazer a menina.
— Agora venha. Justin está quase tendo um treco lá embaixo, ele quer entregar seu presente para que possam brincar logo. – Selena estendeu a mão para a menina.
Instintivamente a menina sorriu um pouco. Ah, seu primo Justin. Parecia a Branca de Neve com sua pele clara, seus cabelos negros e olhos azuis como os céus. Sempre a fazia rir nos seus piores momentos e tinha uma personalidade única de brincalhão e irmão. E ela o amava profundamente, apesar da pouca idade. Amava-o como um irmão que nunca teve.
Elas desceram a escada foram para a sala de estar, que estava ricamente decorada para a ocasião.
— Está lindo, tia, obrigada. – sorriu a menina.
— PRIMA!! – gritou o menino que estava – Olhe este morcego de chocolate que eu fiz, que demais!!
— Justin!! – repreendeu Selena.
— O quê? Nos Estados Unidos hoje é Halloween. – questionou Justin confuso.
— Justin, é o aniversário da sua prima! Sabe que ela odeia monstros!
— Ora, por quê? Monstros não existem mesmo. – Justin deu de ombros e voltou sua atenção para o doce. A menina e sua tia trocaram um olhar.
— E o presente que você estava tão ansioso, não vai dar? – Selena interrompeu o silêncio unindo as mãos.
— AH, É!! – gritou Justin num súbito momento de lembrança.
Ele correu até a pilha de presentes e pegou um embrulho laranja decorado com morcegos pretos. Com um sorriso de orelha a orelha, ele o entregou à menina, que o abriu hesitante, como se o embrulho fosse um prelúdio do tema do presente. Mas sorriu ao ver o que era.
Era um delicado colar de prata com traços circulares rodeando-o no formato de uma gota e no centro superior, um pequeno rubi no formato de um círculo. A corrente também era de prata e envolveu perfeitamente o pescoço da menina quando seu primo envolveu seu pescoço com a joia..
— É lindo, Justin, obrigada. – agradeceu a menina.
— Que bonito, Justin... Onde conseguiu? – perguntou Selena.
— Comprei numa loja de coisas velhas que eu esqueci o nome. Mas são coisas velhas legais... Sabe? Só esqueci como chamam as coisas velhas legais... – ele fez uma careta ao forçar o cérebro.
— Loja de antiguidades? – sugeriu a menina.
— Isso! Comprei numa loja de antiguidades. Achei bonito e quis que fosse seu.
Almoçaram bolo com docinhos e salgadinhos junto dos criados, que eram parte da família. Mas isso não foi o bastante para tirar da mente da menina suas preocupações.
De novo se encontrava encolhida na cama, agora rodeada de presentes caros. Bonecas, roupas, uma gueixa de porcelana importada. Porém nada daquilo lhe chamara atenção, e ela se esforçou para parecer feliz com os presentes e não magoar ninguém. Olhava para a janela quase sem piscar, como se, caso piscasse, perdesse alguma coisa importante.
“Onde estão... Já é tardinha, onde estão?”
— Senhorita, hora de lavar-se. – a cozinheira apareceu na porta.
— Já vou, Angel. – respondeu a menina.
Depois do banho, voltou ao quarto, ficando lá por horas e horas seguidas sem descanso até que já fosse noite alta. A cada pessoa que passava seu coração se agitava, só para depois perceber que eram os moradores ou amigos dos mesmos passando. A chuva já tinha parado, mas as nuvens diziam que ainda não tinha terminado. Parecia que choravam as lágrimas que a menina tentava prender. Os sentimentos que a dominavam eram óbvios: ansiedade, medo e saudade.
“Estão mortos. É a única explicação lógica. NUNCA perderam meu aniversário. Ele os pegou. Ele os pegou e os matou, aquele desgraçado os tirou de mim...”
Então ela viu algo incomum. Um homem grande, não gordo, grande, de peito largo e braços que se assemelhavam a troncos. Dava para perceber que ele tentou passar despercebido, pois vestia-se com peças pretas. Ele carregava um saco nas costas e andava apressado, como o velho daquela manhã. Ele deixou o saco na porta da casa dela e depois saiu andando. A menina teve a impressão de vê-lo sorrindo. Saiu correndo do quarto e contou o acontecido à tia.
— Quem pode ser? – perguntou Selena confusa.
Juntas, Selena e a sobrinha foram à porta ver o conteúdo do saco que o estranho homem grande deixara na porta da casa delas. Lentamente, Selena abriu o saco, incrivelmente mal-cheiroso. Era meia-noite em ponto.
Dentro havia duas cabeças.
As cabeças de Annie e Thomas.
Os pais da menina.
E, pendurado no saco, um bilhete escrito a mão dizia:
“מייבש של אש, הבת של שנאה יהיה מוקש אויב על המדורה של העיניים שלהם יהיה מאבדון ומתאי שלי. עם זאת שוברת את חותם סופי, את המכשול האחרון יהיה הרס.”
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