A Caçada

14 Capítulo 14 - Terra e céu contra nós


Notas iniciais
Oi! Voltei! (Provavelmente falando sozinha, masok).
Finalmente (para a Nubia, acho que minha única leitora restante), eu terminei a minha fic. Sim, até o último ponto final.
Então, aqui estou para postar um capítulo, como prometido. Por enquanto, vou postar um por semana. Se eu ficar meio entediada, vou pensar em postar mais rápido.
Se tiver mais de uma pessoa lendo isso, então, espero que você goste. Esse foi um dos maiores capítulos que escrevi na fic, acho, então espero que compense depois de tanto tempo.
Narrado pela Kate.
PS.: Eu fiz uma pequena alteração em um dos últimos parágrafos do capítulo anterior.

— O que vamos fazer? — perguntei, mais para mim mesma. Não esperava resposta, enquanto olhava aqueles rostos. Lana deu de ombros. James pareceu pensar por um tempo. Phoebe , Mary e Oliver mais pareciam esperar uma resposta de mim.

Eu não os culpava. Quer dizer, afinal, era eu e Lana que tínhamos recebido a profecia. Isso significava que nós duas éramos as quais precisávamos descobrir o que fazer.

Sentei no chão, acabada. A verdade é que eu tinha planejado tudo se alguma coisa desse errado. Mas eu não tinha imaginado que iríamos perder o voo.

Minha vontade era de ligar para alguém do acampamento e pedir que viessem nos buscar. Mas isso seria covardia. De qualquer forma, não queria voltar ao aeroporto para ligar de um telefone público, nem estava com vontade de gastar um dracma à toa.

James começou a vasculhar a sua bolsa e eu achei que ele talvez estivesse procurando algo que no ajudasse a sair dali, mas tudo o que ele tirou de lá foi um kit de primeiros socorros. Provavelmente ele tinha conseguido nas aulas.

Procurei qualquer ferimento nele, mas James parecia bem. Sendo filho de Hermes, ele era bem ágil e, assim, tinha rapidez e equilíbrio em seus movimentos.

Incrivelmente, James veio em minha direção. Pensei que ele precisava de ajuda para cuidar de um ferimento. Mas James se sentou ao meu lado e estendeu a mão, como se pedisse algo.

Olhei para James, como se perguntasse o que ele queria. Mas ele só olhou para mim como se me achasse uma boba, com um sorriso. Então, disse:

— Seu braço.

Então me lembrei. Aquele ciclope tinha conseguido me machucar. Mas, puxa, ele era forte. O maldito ciclope conseguiu agarrar meu pulso e dobrar o meu braço, justo o que eu segurava minha adaga. E foi inevitável e não me acertar.

Estendi o braço a James, percebendo a dor. Observei enquanto ele limpava o ferimento. Depois ele enrolou uma faixa de gaze, apertando um pouco. Gemi. Pelo menos depois ele não fez mais nada. Não era algo grave, afinal.

Mas doía.

— É isso que dá — James disse — você fingir que está machucada só para me desesperar.

— Você sabe que não fiz por isso. — Sorri, até porque o tom dele era de brincadeira. — E eu não preciso de castigo, viu? Eu fiz isso para te ajudar, afinal.

— Eu não precisava de ajuda — James disse, todo “posso cuidar de tudo sozinho”.

Revirei os olhos.

— Mas mesmo assim me desesperou. — Ele ergueu a mão como se... Não sei. Como se fosse passá-la no meu rosto, me acariciando. Mas então desistiu.

Ficamos ambos em silêncio. Eu sabia que era bom o silêncio agora, para pensarmos com clareza. Mas o que na verdade estava na minha cabeça era o que James ia fazer.

Tirei isso do meu pensamento, me concentrando na missão. Tínhamos que ir para Wyoming por céu. Sem um avião. Ótimo! Era até fácil, né? Quer dizer, era só a gente voar.

O problema era: nós não éramos filhos de Zeus. E mesmo que fossemos, isso devia gastar muita energia, certo? E não tínhamos asas também. Nem naturais, nem aquelas iguais a de Dédalo.

Eu acho que não estava no meu melhor estado mental, pois comecei a imaginar que nós, semideuses, deveríamos nascer com asas, igual os pégasos.

É sério, eu realmente comecei a imaginar que seria ótimo se tivéssemos asas. Claro que precisaríamos de aula de voo, o que seria cansativo, mas mesmo assim ajudaria.

Ia ser difícil mesmo escondê-las, tipo o Anjo, de X-men, que conseguiu por um tempo esconder suas asas embaixo da roupa. Talvez nem conseguíssemos. Mas bem que elas poderiam ficar invisíveis quando nós não precisássemos delas. Não precisava ser iguais as dos pégasos, não é?

E eu percebi que aquele pensamento idiota era a melhor ideia do mundo. Os pégasos. É claro, os pégasos! Era tudo o que nós precisávamos naquela hora.

E, algumas semanas antes, eu tinha combinado com a Mel um tipo de assobio para quando eu precisasse dela. E agora eu precisava.

Me levantei, animada, todos olhando para mim com uma fagulha de esperança. Aquilo era impossível – como se Mel pudesse ouvir daquela distância. Mas era a única opção que eu tinha. Que nós tínhamos.

Mas podia dar certo. Vai ver meu assobio chegasse até ela, magicamente. Afinal, a Mel era uma criatura mágica mesmo. Vai ver ela ouvisse...

Ela precisava ouvir!

Eu sentia que todos esperavam uma explicação de mim, mas tudo o que eu fiz foi assobiar. Seis vezes. Esperei que Mel entendesse o recado, se ela tivesse ouvido.

Todos me encararam. Como se eu fosse uma louca. Bom, eu entendo. Quer dizer, estávamos perto de um aeroporto, esperando alguma salvação e quando parece que alguém teve uma brilhante ideia, finalmente, a pessoa assobia.

É isso aí. Está na hora de interná-la, não acha?

Mas eu não me importava, porque eu ia mostrar a eles que tive uma ideia genial que ia nos tirar dali e nos levar para Wyoming bem rápido, se possível.

Pelo menos era isso que eu achava.

Passaram-se alguns minutos, sem ninguém falar nada. Continuei de pé. Certo. Estava um pouco longe. Eles iam demorar um pouco, claro. Isso não significava que eles não ouviram.

Então daí contei 10 minutos de pé... E nada. Simplesmente nada. Não tinha funcionado. Tudo bem. Íamos achar um jeito de sair dali. Não.

Sentei, desapontada. Era óbvio que não íamos conseguir. E eu ainda tinha pensado que Mel poderia me ouvir a uma distância daquelas.

— O que diabos voc... — James começou, mas não chegou a terminar. Porque, do céu, ia descendo uma sombra, em nossa direção. Seis sombras, na verdade.

Nossa salvação!

Então, eu tinha conseguido. Os meus cinco companheiros não me olhavam mais como se eu fosse louca, mas olhavam para o céu, esperançosos, imaginando o que seria aquilo.

Só que eu, claro, sabia exatamente o que estava vindo. Uma das sombras eu reconheci, enquanto descia, pois puder ver sua cor. Era Mel com cinco pégasos.

Lana, James, Oliver, Mary e Phoebe começaram a entender que o que eu tinha feito era normal, devido às circunstâncias. Depois de reconhecer o que voava no céu, olharam todos para mim.

— Ah, Kate — James disse, parecendo meio agradecido. — Que inteligente!

Os outros concordaram com a cabeça, se levantando e colocando suas mochilas na costa. Enquanto os pégasos desciam, peguei minha mochila também e esperei um tempo.

Logo Mel estava do meu lado. Acariciei-a, vendo que ela estava totalmente recuperada e pronta para voar para onde eu quiser.

— E aí, garota? — falei com Mel. — Espero que esteja tudo bem, porque, hum, temos muito céu para percorrer.

Mel pareceu concordar, como se dissesse que estava tudo bem. Na verdade, ela parecia bem animada para isso. Claro, ela estava bastante tempo sem fazer nada, sem voar.

— Ótimo. É bom te ver — falei. E era mesmo bom ver ela. Se não fosse por ela, e seus amigos, nós estaríamos perdidos.

Vi que todo mundo já estava ajeitados em cima dos seus pégasos, então subi em Mel. Chutei-a de leve e ela começou a cavalgar. Logo, tomamos um impulso e estávamos no céu.

Eu nunca tinha voado antes. Tinha prometido que minha primeira vez em cima de um pégaso seria em cima de Mel. E, como ela ainda estava se recuperando, tive que esperar um tempo.

Tudo o que posso dizer é que valeu muito a pena. A sensação era... Bem, difícil de explicar. Mais ou menos igual o dia em que eu tinha “roubado” um carro, o vento batia contra o meu rosto. Mas era mais suave, já que a velocidade não era a mesma.

Era engraçado. Quer dizer, estar no céu. Nunca achei que isso era realmente possível. Só em um avião. Mas em um avião você com certeza não teriam sensações tão boas como as que eu tinha.

E, tudo bem, eu estava um pouco aflita. Quer dizer, e se eu caísse? Sabe, me desequilibrasse e... Por mais que eu achasse isso meio impossível.

O único problema era que eu não fazia ideia de para onde nós estávamos indo. Claro, tínhamos informado os pégasos que seguiríamos para Wyoming e apontamos a direção, mas não sabíamos se teríamos que fazer uma curva, mudar de direção ou uma coisa do tipo em uma hora.

Porém, só confiamos nos pégasos. Eu não podia interpretar a expressão deles para saber se ele tinha ideia ou não do caminho que seguiam. Só confiei.

Uma hora tínhamos que parar. “A terra terão que evitar, até que ela foi tudo o que lhes restar”. Pelo o que eu lembrava da profecia, uma hora voltaríamos ao chão.

— Além disso — James falou enquanto voávamos —, teremos que parar para comer e alimentar os pégasos e fazer necessidades uma hora, certo?

O que eu não tinha pensado, para falar a verdade. Pra variar, não tinha pensado em nenhum detalhe importante. E eu nem precisaria pensar em tanta coisa se eu estivesse em um avião.

Mas tudo bem. Esses probleminhas eram mínimos detalhes que talvez não fizessem diferença nenhum e fossem resolvidos facilmente.

Era isso o quê eu pensava até que avistamos algo por trás. Não parecia ser aviões e, se fosse, não seria um problema. Afinal, os humanos não viriam nada fora do comum por causa da névoa.

Passaram-se apenas alguns segundos quando começamos a ver melhor o que eram. No total, eram 15, hum, coisas. Não eram grandes, nem pequenas... Eram...

— Harpias! — Mary falou, ou melhor, gritou, com seu arco na mão. Phoebe já estava pronta para um ataque, mas Lana falou:

— Esperem! Existem harpias fora do acampamento? — O que era exatamente o que eu estava me perguntando. Dentro do acampamento, eu já tinha visto várias mulheres-galinhas que comem os campistas fora da cama de noite.

E era por causa das harpias que, eu tinha certeza, todos os campistas estavam em suas devidas caminhas quando era hora de dormir.

— Bom, está um pouco óbvio que existem, não acha? — Phoebe respondeu. — Nunca presenciei um ataque de harpias, mas tenho certeza que isso é o que está acontecendo agora.

— Como pode ter tanta certeza? — James perguntou.

— Olhem só para a cara delas. — Fui eu que respondi, rápido para que não perdêssemos mais tempo. — Não parecem estar muito amistosas.

Pude ver que os outros perceberam o que eu queria dizer. As harpias tinham um olhar de um caçador que finalmente encontrou comida. E isso não era nada legal.

Mary, Phoebe e Lana já estavam mirando para as harpias. Logo, três delas já estavam caindo por causa da inteligência e precisão das nossas três arqueiras que as acertaram na asa.

Percebi que naquela hora, eu não ia ser necessária, tendo em vista que eu não tinha arco e flecha e muito menos sabia utilizar um.

No meu lado, James já tinha pegado a sua adaga. Ele era habilidoso, então talvez tivesse mais facilidade com as adagas.

Já eu preferi minha espada. Toquei o meu colar e o puxei. Logo minha espada estava na minha mão. Eu achava que seria mais fácil acertar as asas das harpias sem me aproximar muito com minha espada, caso ela nos alcançasse.

Depois de algumas harpias se desviarem das flechas, e apenas duas serem acertadas, percebi que era inevitável: elas iam nos alcançar.

Os outros também perceberam isso. James ficou preparado. Já Oliver começou a vasculhar sua mochila. Não sei se ele tinha alguma arma ou coisa assim. Só se sua flauta se transformasse em algo.

Logo que as harpias se aproximaram, Oliver fez algo que me chocou: começou a jogar suas latinhas nelas, bem miradas nas asas. O que foi bom, já que distraiu boa parte dela.

Entendam, na minha estadia pelo acampamento eu aprendi que os sátiros gostam de latinhas. Parece que para eles o gosto é bom. Tanto que eles gostam muito.

Não sei porquê. Deve ser algo relacionado com a parte de bode deles.

Só sei que Oliver começou a atacar as harpias com latinha e, por incrível que pareça, foi bom para eu me preparar melhor para um ataque já que umas duas caíram (aparentemente Oliver estava jogando bem forte aquelas latinhas, já que machucava as asas delas) e outras se atrapalharam.

Sete já tinham ido embora. Ótimo. Agora faltavam apenas oito harpias, sendo que algumas estavam longe, facilitando o trabalho das Caçadoras e de Lana.

Vi que umas das oito já tinham ido em direção de James. E outra já estava se aproximando de mim.

Rapidamente, desferi uma estocada para a asa da galinha. Não funcionou muito, já que ela conseguiu se desviar.

Isso era tão injusto! Ela não podia voar! Galinhas não voavam e, como ela tinha asas de galinha, ela não podia voar.

Continuei tentando, desferindo um golpe aqui e ali. Vou te dizer, seria muito melhor se eu tivesse um escudo, porque aquelas asas dela eram realmente muito pesadas.

Eu estava ficando irritada. Já fazia minutos que eu estava com a mesma harpia. Ela tinha que morrer logo, ou pelo menos cair. Tentei outra estocada.

Má notícia: não acertei a asa. Boa notícia: acertei bem no peito dela, coisa que ela não gostou muito. Outra má notícia: ela ficou realmente bastante irritada com isso.

Sorte minha que a harpia não podia segurar uma arma, senão eu já estava morta mesmo. Mesmo assim, aquelas asas pesadas...

Então, totalmente sem paciência, fiz um movimento de cima para baixo com a lâmina tentando acertar a asa da maldita harpia, como se eu fosse cortá-la.

A asa não caiu. Mas fez um corte tão bom que agora a harpia só tinha uma asa para voar. Ou seja, aos poucos ela foi caindo.

Procurei pela próxima mulher galinha que eu iria destruir. Vi que ela estava um pouco longe ainda, então decidi fazer algo incrivelmente louco e que poderia causar a minha morte.

Como era difícil lutar sentada em um cavalo, eu dei uma volta com uma das pernas e fiquei sentada confortavelmente como se estivesse sentada em uma cadeira flutuante.

Bem a tempo de me virar, a segunda harpia me alcançou. Eu sabia que eu iria cair uma hora ou outra se essa fosse como a outra, mas eu ia conseguir um resultado melhor.

Dito e feito. Não demorou muito até que eu já tinha acertado a segunda harpia. Mas ela parecia ser mais resistente do que a outra.

De qualquer forma, estávamos no mesmo nível. Eu sabia me proteger bem, pelo menos. Isso era o que importava.

Mas teve uma hora em que eu percebi que eu já estava praticamente caindo. O que não era muito legal, por causa da distância em que eu estava do chão.

— Se eu for cair —murmurei para a harpia —, você vem junto.

Assim, desferi um golpe na harpia e logo após estava caindo junto com ela. Na mesma direção, na mesma velocidade. O que foi bom, porque no ar consegui acertá-la novamente.

E ela virou pó.

Só aí percebi onde eu estava, o que estava acontecendo. Em desespero, fiz um movimento com meus braços como se quisesse voar e acabei derrubando minha mochila.

Eu não conseguia pensar. Queria gritar, mas não achava ar para isso. Fechei os olhos. Vai ver doesse menos se não visse a queda.

E finalmente... Puf! Eu cai. Em um lugar macio e peludo como um ursinho de pelúcia. Era muito confortável, na verdade.

Percebi que aquilo não era o chão, mas era... Mel. Legal! Eu não estava morta, afinal.

— Obrigada, garota — falei, enquanto me ajeitava em cima de Mel. — Acho que isso doeu. Vou tentar compensar depois, prometo.

Mel apenas continuou subindo. Tivemos que desviar uma hora de outra mochila caindo. Olhei para cima. Lana estava tendo problema com a aproximação de duas harpias. Uma delas tinha derrubado a mochila de Lana.

Lana ficou tão brava, como sempre, que com um só movimento de uma espada conseguiu desintegrar uma das mulheres-galinhas.

Mary e Phoebe não precisavam de ajuda, já que detinham as harpias que tinham ficado para trás. Olhei James. Ele estava indo muito bem também. Mas Oliver...

Oliver precisava de ajuda. Ainda mais porque ele estava tentando dar conta de duas harpias e de trás estavam chegando mais cinco delas.

Ótimo. Estávamos mortos.

Cheguei de mansinho perto das harpias que estava em cima de Oliver. Uma delas foi arrastada para trás, bem para a adaga de James e acabou se desintegrando. A outra tinha sido pega de surpresa pela minha espada.

Olhei em volta. Lana tomava conta de uma harpia, sem muito sucesso com a espada, e as Caçadoras já tinham se virado para deter as harpias que vinham da outra direção. James ajudava as Caçadoras, já que algumas harpias já se aproximavam.

Eu estava meio desnorteada. Lana tinha acabado de “matar” uma harpia. E as Caçadoras e James já tinham dado um jeito em tudo.

Não em tudo, percebi. Uma harpia estava quase alcançando James, juntando toda sua força para derrubá-lo. E eu não ia deixar isso acontecer de jeito nenhum.

Não sei porquê. James ia conseguir acabar com aquela mulher galinha facilmente, mas eu fiquei tão brava que acabei indo em direção a ela.

Foi tão rápido que quase nem percebi. Mel foi voando na direção da harpia, que ficou desesperada quando viu eu me aproximando. Talvez eu estivesse com uma cara bem brava. Não sei. Tudo o que eu sabia era que a harpia devia estar muito fraca, pois no primeiro movimento que fiz com minha espada em seu peito já a desintegrou.

— Que raiva, hein, Kate? — Lana falou para mim, mais parecendo impressionada. Percebi que já não restara nenhuma harpia. Todos pareciam cansados, até os pégasos.

Não respondi nada. A raiva começava a se amenizar dentro de mim. Respirei fundo e percebi que, mesmo com o cansaço, tínhamos feito um bom trabalho.

Admiti para mim mesma, estava orgulhosa do nosso trabalho. Algumas horas fora do acampamento e estávamos vivos! Isso significava alguma coisa quando parecia que terra e céu estavam contra nós.

— Vamos descer — Lana disse e todos nós obedecemos. Voamos só um pouco, antes disso, para não ter chances de descermos pertos das harpias que apenas machucaram as asas.

Chegamos ao chão e eu ainda estava orgulhosa quando percebi uma coisa que quase me fez explodir.

— Onde estão as bolsas de vocês? — perguntei, desesperada. Até porque percebi que a minha não estava comigo também.

James foi o primeiro a responder:

— Mas... Estava aqui! — ele conferiu como se não acreditasse que a mochila não estava na costa. — Eu acho... Acho que uma das harpias conseguiu derrubá-la.

Ele parecia aborrecido. Phoebe teve a mesma reação que ele e falou o mesmo. Que talvez uma harpia conseguiu derrubar. Depois de um tempo foi lembrando quando tinha perdido a mochila.

— Ah, devo ter derrubado a minha quando uma harpia se aproximou de mim. Não tinha percebido a aproximação dela, então me assustei — Mary admitiu.

—Derrubei quando uma harpia chegou perto de mim — murmurou Oliver, parecendo meio envergonhado.

— Acabei derrubando. Me atrapalhei com a espada como não consigo manuseá-la muito bem. Então não consegui prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo. — Lana bufou. — Mas e a sua, Kate?

— Derrubei enquanto caía — respondi, amaldiçoando as harpias.

Todos nós ficamos em silêncio. Agora não sabíamos onde estávamos e não tínhamos suprimentos. Vai ver o objetivo das harpias não eram acabar conosco, mas sim, acabar com nossos suprimentos.

— Nunca pensei que profecias seriam tão exatas — Mary falou, descendo de seu pégaso e sentando no chão, cansada. — “A terra terão que evitar, até que ela foi tudo o que lhes restar”. A terra é mesmo tudo o que nos resta agora.

— Sem comida, sem água, sem dinheiro — Lana concordou.

— Não — James falou, enquanto tirava algo de baixo de sua camiseta, enroscado no bolso da frente de sua calça. — Temos também um cantil de néctar.

Bom, não era muita coisa. Mas algum dia resolveria algum problema.

— Temos os nossos pégasos também. Mas vamos ter que dispensá-los agora. — Mary disse.

Todos nós saímos de cima dos pégasos. Vi quatro sentando no chão, enquanto eu ficava de pé, acariciando Mel.

— Por quê? — perguntei. Não queria me separar de Mel. Afinal, só estávamos juntas fazia algumas horas.

— Não temos comida para eles. — Lana respondeu. —Vão precisar voltar ao acampamento para isso. É o único jeito. E está muito claro que agora é a nossa vez de andar.

Fiquei desanimada ao perceber que Lana estava certa. Ia ter que me separar de Mel logo. Voltei-me para ela e acariciei sua crina.

— Você fez um ótimo trabalho, garota — falei para ela. — Obrigada. Por vir, por trazer mais pégasos, por me ajudar, por tudo.

Eu estava exagerando um pouco, eu sei. Mas eu estava com medo. Talvez aquela fosse a última vez que eu a via. Nunca se sabe.

Já anoitecia. Eu estava faminta, mas não tinha nada para comer dinheiro para comprar. Na verdade, nem sabíamos onde estávamos. Poderíamos estar no meio do nada.

Decidimos ficar por lá naquela noite. “Lá” era grama, só grama. Ao longe, avistávamos algumas formas, mas, como saber o que eram?

Ficamos só sentados. Depois de conferir se a grama estava limpa, as Caçadoras, Lana, Oliver, James e os pégasos deitaram. Eu fiquei apenas sentada.

Com o tempo, todos dormiram. Suas respirações se acalmaram e os olhos se fecharam. Já eu decidi ficar de vigia, mesmo estando cansada.

Depois de um tempo, ouvi:

— Deita, Kate. — Era James. Ele não estava dormindo, como eu pensava.

— Mas estou vigi... — comecei.

— Pode deitar — James de interrompeu. — Sei que você está cansada. Eu fico de vigia. Mas por enquanto, só deita. Aqui do meu lado.

O obedeci. Não só porque estava cansada e a oferta era tentadora. Mas porque a voz de James era tão... Tão convincente.

Deparei-me com um céu estrelado. Não muito, mas comparado com o céu que eu via todo dia, era lindo.

Aquele era só o começo. Ia piorar, eu sabia disso. Ia ficar mais difícil, mas tínhamos que continuar.

— Vai ficar tudo bem, Kate. — James disse enquanto sentava na grama para ficar vigiando.

Eu queria acreditar nisso.

Notas finais
E aí? Bom?