“O mais estranho é que ela morreu ali... no próprio quarto...

Como? Enforcada...

Por que uma moça tão jovem e tão bela seria capaz de um ato deste tipo?”

Em São Lúcifer, às exatas 15h30min, aproxima-se da rodoviária o ônibus dos novos alunos que ingressarão na Universidade de Salem...

Anne é uma das pessoas que acabam de chegar, e, como as outras, quer logo saber onde é a república que conseguiu de última hora, e também por um preço mais acessível. Assim, ao descer do ônibus, vai até a central de informação do local para descobrir onde fica a tal “Casa do Rouxinol”...

— Boa tarde! Em que posso ajudá-la? – pergunta uma mulher morena, com um rosto bem-humorado dentro da pequena e quente cabine.

— Boa tarde... Éhh... Gostaria de saber onde fica a república Casa do Rouxinol, por favor – responde Anne com um pouco de timidez.

A mulher, inesperadamente horrorizada, olha bem para Anne e diz:

— Tem certeza de que você vai morar naquela república?

Anne, sem muito entender, confirma e vai logo se informando sobre o local...

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Cansada depois de tanto andar, encontrou, no alto da colina, uma casa enorme, com várias janelas, uma grande árvore ao lado, um campo lindo, e claro, um grande portão enferrujado.

Lá estava ela, finalmente fora de casa, na universidade, sem ninguém para dizer o que ela devia ou não fazer, que horas estudar, que horas ir dormir, aonde ir, com quem sair... Agora ela seria responsável por tudo!

Sem mais pensar, abriu o grande portão que fez um leve barulho; e ao chegar na porta da casa encontrou mais duas pessoas sentadas conversando: um menino alto, loiro, magricelo, olhar curioso e atento, (demonstrava um pouco de medo, mas quem nessa etapa da vida não teria?), e ao seu lado uma moça até que bonita, rosto fino, olhos puxados, parecia ser legal...

Sem demora Anne foi logo se apresentando e perguntou por que não estavam dentro da casa. A resposta foi imediata: “Porque não temos a chave, alguém ainda vai trazê-la”...

— Sendo assim... Eu sou Anne, vim de uma cidade do interior... e vocês? – disse a novata logo querendo “se enturmar”.

— Eu sou Carolina e ele é o Leandro, também viemos do interior! – respondeu a menina dos olhos puxados já apresentando o novo amigo...

Ao se conhecerem logo perceberam que mais pessoas estavam chegando, e mais uma vez se apresentaram aos novos companheiros: Carla, menina magra e pequena que aparentava ser uma criança e não uma adolescente; Rodrigo, um menino simpático, bonito, com um belo sorriso e parecia praticar muitos esportes; e Natan, o qual aparentava ser muito inteligente...

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Alguns minutos depois...

— Desculpem o atraso, meu ônibus quebrou na estrada e não consegui chegar no horário certo... Sou Ivan, este é o meu primeiro ano aqui e também vou estudar na Universidade de Salem, a chave está comigo.

Ao abrir a porta encontraram móveis antigos, com pouca iluminação. Havia uma grande escadaria que levava até os quartos; mais à frente a cozinha, de onde se via os fundos da casa... Todos se acomodaram e Ivan foi procurar o caseiro para que este pudesse dar algumas informações importantes sobre a residência – e talvez, algumas regras...

Lá estava ele, arrumando o jardim dos fundos da residência, Ivan então logo se apresentou e pediu que ele o acompanhasse para conhecer os novos moradores da Casa do Rouxinol...

O caseiro era sem dúvida alguma um homem sinistro, que parecia ter saído diretamente de um filme de terror: os contornos de sua face eram disformes e sombrios, sendo que seu sorriso exibia uma série de dentes tortos e cariados. O corpo se mostrava seco e raquítico, lembrando um espantalho – semelhança reforçada por suas roupas sujas, velhas e rasgadas.

— Sejam bem-vindos – disse ele como se fosse o próprio porteiro do inferno. – Meu nome é Cícero. Espero que apreciem a estada nesta república, e que respeitem as regras nela vigentes!

— Que regras? – perguntou Rodrigo, aparentando não dar muita importância a elas e nem ao caseiro.

— Bem, primeiramente, deixe que eu lhes fale um pouco sobre esta casa. Ela foi erguida nos anos 40, por um antigo professor da Universidade de Salem. Sempre esteve lotada de estudantes e era dada como a melhor república daqui, até sua fama ser abalada pelo infeliz incidente de 1966...

— Que incidente? – quis saber Leandro, intrigado e ao mesmo tempo tomado por súbita preocupação.

— Oh sim, foi algo lamentável... Na época vivia aqui uma aluna chamada Estér Freitas, filha de pais influentes, membros da nata da sociedade de São Lúcifer... Uma digna “patricinha”, como diriam hoje – ao dizer isso, Cícero sorriu de forma um tanto macabra. – Ela era conhecida por destratar todos os seus colegas da república e se achar superior a todos... Até que numa noite chuvosa, o cadáver da pobre Estér foi encontrado frio e pálido sobre o assoalho do quarto 07, sem uma única gota de sangue no corpo!

Estupefação geral. Todos estremeceram, principalmente Anne, que tinha pavor daquele tipo de coisa. Encolhendo-se na poltrona em que estava sentada, a jovem começou a se arrepender de ter escolhido a Casa do Rouxinol como moradia. Mas agora já estava ali, e teria de encarar aquele caseiro soturno e suas histórias ainda mais apavorantes. De repente, Carolina rompeu o silêncio provocado pela narrativa, inquirindo:

— Nunca encontraram o assassino?

— Nunca, minha cara – respondeu Cícero. – Alguns dizem que ele ainda vaga por esta propriedade, oculto nas sombras, esperando o momento para atacar novamente... Outros afirmam que se trata de um espírito maligno capaz de se apoderar dos corpos dos moradores e que, quando isso acontecer, mais mortes terão palco no interior desta república...

— Besteira! – exclamou Natan. – Esse negócio de fantasmas e espíritos malignos não existe! Foi algum maluco que entrou aqui dentro e matou essa tal Estér, não há motivo para temer essa história sem pé nem cabeça!

— Você pode achar o que quiser rapaz, mas mesmo assim a entrada no quarto 07 é estritamente proibida, sendo essa uma das regras principais desta república – explicou o caseiro. – Além disso, há um horário-limite para que todos estejam em seus quartos: onze da noite. A partir de então, aquele que estiver nos corredores ou pior ainda, fora desta casa, terá de arcar com as penalidades. Também há revezamento de tarefas entre os residentes e...

Todos passaram a ouvir de Cícero as normas da república, enquanto a mente de Anne se alternava entre as palavras sinistras do caseiro e as palavras céticas de Natan. Em quais deveria confiar? Naquele momento, ao menos, era difícil responder...

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As aulas na Universidade de Salem começaram no dia seguinte, e Anne estava razoavelmente satisfeita com a república e com a instituição de ensino na qual cursaria Psicologia. Era certo que a faculdade, a Casa do Rouxinol e aquela cidade em si tinham um ar fantasmagórico, porém a moça estava convencida de que dentro de pouco tempo se acostumaria com tudo aquilo. Afinal, todo calouro devia passar por isso...

Na tarde daquele dia, Anne voltou à república e encontrou-a calma e vazia. Era um bom lugar para se morar afinal, principalmente pelo fato de ela apreciar o estudo em silêncio. Subindo as escadas, foi percorrendo os corredores sorrindo, a luz do sol penetrando pelas janelas e iluminando o caminho. Com certeza a casa ganhava uma aparência bem mais acolhedora enquanto não caía a noite, já que a partir de então a república realmente se parecia com o cenário de um romance de terror.

Até que ela passou diante de uma porta fechada na qual havia dois números de ferro presos à madeira, e eles fizeram com que seu corpo gelasse da cabeça aos pés: “07”. Anne parou e, com o coração acelerado, ficou observando a entrada do “quarto amaldiçoado” por alguns instantes, até resolver continuar seguindo o trajeto até seu cômodo, passos agora mais rápidos.

Seria mesmo verdade? Ou a história sobre o misterioso assassinato de Estér Freitas era apenas invenção?

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Anne passou a tarde estudando em seu quarto sem praticamente nenhuma distração, a não ser quando Leandro passou pelo corredor. A jovem o achava muito bonito e cativante, e tinha certa esperança de conseguir ficar com ele...

Enfim, após revisar a matéria dada aquele dia, a moça apanhou seus livros e cadernos para guardá-los no armário. Ela levantou da cama carregando-os até o móvel, cuja porta abriu apoiando o peso sobre uma das coxas. Porém, assim que colocou tudo dentro dele, um inesperado barulho quase a fez gritar...

BLAM!!!!

Assustada, Anne constatou o que havia acontecido: o fundo do armário sucumbira com o peso do material de faculdade, e este acabara caindo dentro de uma espécie de compartimento secreto, no qual já existia algo...

— Mas o quê? – estranhou a estudante, abaixando-se para ver melhor.

Retirando os livros do buraco todo empoeirado e repleto de teias de aranha, Anne encontrou algumas cartas rasgadas e extremamente emboloradas, escritas, porém, com uma caligrafia impecável, que acabava contrastando com o estado do papel. Curiosa, ela leu uma delas:

Minha amada Estér,

Quando estou perto de ti, sinto-me o homem mais feliz do mundo. Entretanto, insiste em me rejeitar. Não posso continuar vivendo assim, minha doce flor, vendo-a linda e sorridente todas as manhãs sem, no entanto, poder tê-la para mim. Se ao menos pudesse enxergar além de sua altivez, encontraria um jovem perdidamente apaixonado e capaz de fazer tudo por você... Inclusive uma loucura movida por esse ao mesmo tempo nobre e vil sentimento chamado amor.

Anne ficou espantada. Estér? Seria a mesma moça que fora encontrada morta misteriosamente no quarto 07 décadas antes? Intrigada com tudo aquilo, a moradora da república pegou as cartas com cuidado e resolveu guardá-las num local em que não pudessem ser encontradas, ao menos até que pudesse ler todas com atenção.

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Vinte e três horas.

A noite caíra e a Casa do Rouxinol voltara a se assemelhar à residência da Família Addams. Vagando pelos corredores vazios e pouco iluminados, Cícero verificava se todos os moradores haviam obedecido ao toque de recolher. Logo concluiu que os jovens haviam entendido o aviso, pois não havia viva alma fora dos quartos a não ser a sua. Satisfeito, o caseiro esboçou seu conhecido sorriso defeituoso e desceu as escadas...

O que ele não sabia era que um vulto, cuja penumbra não permitia identificar ser homem ou mulher, conseguira escapar à sua ronda e agora se esgueirava silenciosamente pelos corredores com um destino definido: o quarto 07. Ao ficar de frente para a porta do cômodo proibido, o misterioso transgressor parou e ficou fitando os números de ferro colados à madeira por uns bons segundos. Depois estendeu lentamente sua mão direita em direção à maçaneta, e para sua surpresa viu que ela não estava trancada.

A madeira da porta rangeu levemente assim que foi aberta. O personagem em questão adentrou o quarto a passos receosos, porém logo tomou coragem e cruzou totalmente a entrada. Acendeu então uma lanterna, visualizando o interior do local. Atrás de si, a porta se fechou sozinha sem que percebesse.

— Então é isto que há aqui? – perguntou-se em voz baixa. – Grande coisa!

Mas assim que pronunciou a última palavra, seus olhos se arregalaram, e sentiu seu corpo ser tragado pela própria escuridão, soltando um berro desesperado que ninguém na república pôde ouvir...