As horas passaram, e o sol raiou... Todos foram logo levantando de suas camas e arrumando mochilas, lençóis e objetos fora do lugar em seus dormitórios, de onde saíam e se trombavam nos corredores. Agora, novamente, a casa tinha um ar menos arrepiante...

Anne estava ansiosa para mais um dia de aula. Sendo assim, desceu logo as escadas, nas quais a cada passo dado um novo rangido se formava do chão até os ouvidos de todos os moradores que por ali passavam, e foi tomar seu café com Carla e Carolina que desciam logo atrás; o café com toda certeza tinha sido feito por Cícero, pois até mesmo a mesa posta tinha certo ar macabro... Anne sentou-se à mesa com suas amigas e logo após saíram com seus cadernos nas mãos; dessa vez as meninas preferiram ir andando até a faculdade, já que o ônibus passava um pouco tarde em frente à república, porém os garotos não as acompanharam...

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Treze e quarenta e cinco horas.

As aulas de Anne tinham atrasado um pouco então quando chegou em sua nova casa todos já haviam almoçado e estavam descansando no momento... De certo modo a garota não estava com fome, principalmente por não ver mais ninguém à mesa com quem pudesse conversar e, para Anne, era horrível sentar-se sozinha para comer, sendo assim, foi para seu quarto.

Passando pelo corredor, Anne via seus amigos, cada um com uma maneira diferente de distração. Carla penteava seus cabelos finos e lisos, Leandro dormia com o boné sobre seu rosto, Ivan jogava videogame, Carolina falava ao telefone com uma colega de classe, e Natan parecia pensar, olhava para o chão de uma forma tão estranha como Anne nunca vira antes. Mas esse parecia ser o jeito dele. Quando Natan não estava impondo seus inteligentes argumentos sobre todos da casa de que a história da tal morte de Estér era bobagem, estava pensando quieto da mesma forma que naquele momento, porém não com o olhar tão penetrante e vazio... Mas Anne continuou andando, passou pelo quarto 07, na frente do qual sentiu um leve calafrio (nada que qualquer outro morador não sentisse quando estava perto do quarto).

Abrindo a porta, Anne encontrou seu dormitório da mesma maneira que deixara antes de sair. Agora o sol iluminava as paredes e batia fortemente em sua cama, “Isso era bom” pensou Anne, estava frio lá fora e o sol fez com que seu quarto ficasse tão diferente do que era a casa, quentinho e aconchegante. Ao fechar a porta, a menina se lembrou das cartas encontradas em seu armário; devagar, foi abrindo a gaveta na qual as havia deixado... Sentou-se na cama, abriu um dos vários envelopes maltratados pelo tempo, e mais uma vez leu cartas de pedidos fracassados implorando o amor de Estér...

Anne, ao terminar de ler, sentiu um grande aperto no coração, “Por que alguém trataria mal seus companheiros?”... “Por que alguém se mataria?”... E assim... Várias perguntas surgiram na cabeça confusa de Anne...

Porém...

Ela não sabia o que estaria por vir...

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Anoiteceu e mais uma vez todos foram para seus dormitórios, após um longo e cansativo dia, e novamente Cícero passou pelo longo corredor sem encontrar uma viva alma... É... Nenhuma VIVA alma...

Portas fechadas, porém, não trancadas... E sem que ninguém ouvisse, uma porta se abre e algo ou alguém passa pelos corredores e vai até o quarto de Carla... “Mas... para quê?”

“Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! SOCOR...”

...

“Ela não me quis, agora... Todos pagarão...”.

O grito foi tão alto que todos acordaram assustados e saíram de seus quartos à procura do possível lugar de onde viera som tão apavorante...

Ali estava... a porta do quarto de Carla totalmente aberta... E... Onde estava Carla? Não estava entre seus amigos...

Anne sem pensar duas vezes entrou o mais rápido possível dentro do quarto de Carla e ali a encontrou, enforcada, pescoço comprimido e roxo, pendurada por uma corda que estava amarrada na luminária do quarto, seu corpo balançava no sentido do vento que não vinha da janela, pois esta estava fechada... Desesperados, chamaram Cícero, que veio lentamente, e ao olhar para Carla somente pronunciou:

— Morreu da mesma forma que Estér... Uma pena!

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— Mas por que ela fez isso? – indagou Carolina sem entender, sentada com as mãos no rosto sobre a cama do quarto do caseiro, no qual todos estavam reunidos. – A Carla sempre me pareceu uma pessoa tão feliz, tão otimista, tão cheia de amor à vida...

— Algumas vezes as pessoas que julgamos mais normais são na realidade suicidas em potencial – comentou Leandro que, cabisbaixo, encontrava-se sentado sobre um velho baú.

— E se a morte da Carla tiver algo a ver com a maldição do quarto 07? – cogitou Ivan. – Como o próprio Cícero disse, ela morreu de forma semelhante a Estér Freitas, dentro de seu quarto!

— Poupem-me dessas lorotas! – protestou Natan, levantando-se nervoso da cadeira em que estava sentado. – A Carla se matou e ponto final! Não há nada de paranormal nisso! É melhor pararmos de falar besteiras e irmos dormir, já que amanhã todos nós temos de acordar cedo!

Entre resmungos, todos os moradores da república foram aos poucos deixando o quarto, exceto Anne, que continuou de pé pensativa num canto, do mesmo modo que se encontrava desde que entrara ali. Preocupado com a jovem, Leandro aproximou-se dela e inquiriu, arrancando-a do aparente transe:

— Tudo OK, Anne?

— Ah, sim! – respondeu ela num sorriso, levemente corada. – Eu apenas estou preocupada com uma pesquisa lá da faculdade, não se preocupe...

— Menos mal. Boa noite.

— Boa noite.

O rapaz abandonou o recinto, deixando Anne sozinha. Esta, após mais alguns instantes de reflexão e um bocejo, finalmente se dirigiu até a porta. Apagou a luz e se dirigiu ao corredor, onde deu de cara com o soturno Cícero. Ele, que seguia até o quarto para mais uma noite de sono, disse a Anne quase num murmúrio antes de entrar:

— Você devia contar a eles o que sabe...

A moça estremeceu. Como ele descobrira que ela havia encontrado as cartas? Nervosa, optou por ficar calada, rumando a passos rápidos até a escada, coração palpitando com intensidade em seu peito. Aquela casa tinha segredos que ela jamais seria capaz de compreender...

Por um vão da porta de seu quarto, o caseiro sorriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.