LXXIX

Nico

Nico estava desconsolável.

Em seu ponto de vista, ele estava atrapalhando 90% da missão. Ele não é um dos semideuses da profecia, nem estava protegendo eles. Ainda não sabia o que estava fazendo no Argo II.

Mas, finalmente, ele tinha um motivo para sair. O filho de Hades sabia que o mínimo erro poderia matá-lo de cansaço. Viagens nas sombras deixavam-no exausto quando percorria longas distâncias, mesmo sozinho.

Assim que entrou no navio, depois do pequeno piquenique de Piper, Nico desabou na primeira cadeira que viu. Não havia nada para arrumar, não havia pertences. Só precisava juntar algumas cordas para prender a Atena Partenos.

Mesmo perdido em seus próprios pensamentos, Nico ouviu um som. O som de madeira rangendo, com se alguém estivesse tentando pisar cautelosamente para não ser percebido.

Depois de tanto tempo no mundo inferior e viajando sozinha, Nico já sabia diferenciar sons muito bem.

Por um momento, pensou que fosse o treinador Hedge subindo, mas logo descartou a ideia. O som que a madeira produzia quando seus cascos duros de sátiro batiam sobre ela era bem diferente.

Um arrepio subiu pela espinha de Nico.

Havia mais alguém no navio, e estava indo na sua direção.

Nico desembaiou sua espada de ferro estígio e segui em direção ao som. Ele deve ter feito algum barulho, pois de repente o som parou e fez-se silêncio, quebrado apenas pelo som de ondas batendo no cais e s pássaros próximos cantando.

O som de passos voltou, porém se afastando. Seu ritmo acelerou, provavelmente porque o visitante percebera a aproximação de Nico.

Ele correu pelo navio, percebendo que a pessoa também estava correndo e, estando em um navio, poderia pular no mar a qualquer momento.

Até pensou um chamar o treinador Hedge, mas ia se sentir um idiota, precisando de alguém para pegar um intruso. Sabia muito bem que poderia fazer isso sozinho.

Nico seguiu os passos até o segundo convés e, depois, a poupa.

Sabia que o havia cercado quando entrou nos estábulos. Ele não viu nada suspeito, nenhum movimento. Mas ele não deixaria seus olhos e ouvidos o enganassem tão facilmente.

Apertou ainda mais o cabo da espada e manteve-se alerta para qualquer ataque surpresa. Por fim, disse:

– Eu sei que você está aí. Apareça.

Nico ouviu o som de alguém arfando, como se estivesse surpreso.

– Nico? – perguntou uma voz feminina. Soou extremamente familiar.

Ele olhou para os dois lados rapidamente, pois não sabia de onde havia saído a voz. Antes que pudesse perceber, havia uma garota na sua frente.

12 anos aparentemente. A pele era doentiamente pálida. O cabelo escuro e comprido cobria parte do rosto. Ela usava um óculos roxo retangular e por trás deles, olhos de um castanho tão escuro que poderia ser facilmente confundido com preto. Quase todo seu olho direito estava coberto pela cortina de cabelos. As unhas estavam pintadas de preto.

A menina estava vestida com uma camiseta preta com estampa de caveiras, uma legging preta aparentemente um pouco maior que sua perna, tênis All Star preto de cano longo e um casaco também preto.

Depois de tanto tempo sem vê-la – fora os recentes acontecimentos – Nico quase não a reconheceu.

– Mariana? – ele perguntou tão baixo que quase chegou a ser um sussurro.

Ela abriu a boca como se quisesse falar algo, mas não encontrou sua voz. Ao invés disso, sem hesitar, deu dois passos e lançou seus braços ao redor do pescoço de Nico, apertando-o forte. Ele colocou as mãos em suas costas, ainda sem entender o que ela estava fazendo ali.

– Eu fiquei tão preocupada. – disse Mariana, soltando-o – Você está bem?

– Claro, mas... o que você está fazendo aqui? E como chegou aqui?

Mariana respirou fundo.

– Quando foi a última vez que nos vimos?

Nico tentou se lembrar das horas que havia passado com ela, semanas antes. Depois que Percy, Hazel e Frank haviam saído para sua missão no Alasca, Nico decidiu tentar procurar as Portas da Morte. A viagem nas sombras que ele havia feito tinha levado-o par o lugar errado: um cemitério em Nova York.

Mariana estava sentada em cima de um dos túmulos, falando algo em grego antigo. Nico se aproximou, já imaginado que era uma semideusa. Ao olhar para ele e sua espada em punho, ela levou um segundo para levantar e tirar da bainha uma faca de açougueiro feita de bronze celestial, com trinta centímetros de lâmina. Ela o fuzilou com os olhos.

– Mandaram você do acampamento para me buscar? – perguntou.

– O que? Claro que não. Eu só queria saber o que você estava fazendo e... – ele parou quando percebeu que ela o olhava de modo estranho.

Fez-se cinco segundos de silêncio.

– Uma espada de ferro estígio. – murmurou a garota – O filho de Hades. Nico di Angelo.

Eles se apresentaram e começaram a conversar. Ficaram em um beco, onde ninguém podia vê-los.

Mariana contou toda sua história para ele: ela sempre soube que era diferente, e seu pai prometeu-lhe que contaria tudo um dia. Porém, ele viajava muito, mas dedicava cada minuto disponível para ficar com sua filha. Como havia prometido, contou a ela que é uma semideusa, mas que tinha algo a mais, que nem mesmo seu pai sabia o que era. Ele lhe deu um papel com um endereço em Long Island, e disse para guardá-lo com toda a segurança possível. Fez isso um dia antes de embarcar em um vôo para o exterior, onde ele morreu em um acidente de carro.

Ela tinha uma madrasta e dois meios-irmãos. Os três a odiavam muito. Com a morte do pai, sua vida virou de cabeça para baixo. A madrasta cancelou sua matrícula nas aulas de arco e flecha, esgrima e judô, e trocou por teatro e dança.

Com a herança que recebeu do pai, Mariana se rematriculou nas outras aulas. Quando o ano-letivo estava quase acabando, e fez um mês da morte do pai, Mariana pegou sua mochila da escola, colocou todo o dinheiro da sua herança e o que mais coubesse lá dentro que fosse necessário – fora parte da herança da madrasta e a faca de açougueiro de bronze celestial dada pelo pai – e fugiu.

Em uma semana, ela foi da sua casa na Geórgia até a Pensilvânia, parando poucas vezes para descansar e comer.

Ela passou mais uma semana em um hotel na Pensilvânia, e lá descobriu porque ela é tão diferente: ela tinha a benção de Hades. Por isso que gostava tanto de usar preto e andar sozinha, todos tentavam manter distância dela – até mesmo os desconhecidos, para os quais ela constantemente pedia informação sobre o caminho – e ouvia vozes sussurrando em sua mente.

Da Pensilvânia, ela foi para Nova York, e no caminho foi atacada por uma Quimera. Ganhou apenas alguns arranhões no rosto. De lá, partiu para Long Island.

Mariana encontrou um sátiro no caminho que a ajudou a chegar no acampamento. Eles cruzaram as fronteiras mágicas de manhã.

Assim que chegou, o sátiro chamou Quíron. Mariana os escutou discutindo e Quíron parecia um pouco surpreso em vê-la.

Sem apresentações ou explicações, Quíron disse para ela esperar na Casa Grande. Ela cochilou lá por 5 minutos antes do centauro entrar lá com Annabeth, Jason, Leo e Piper. Todos sentaram ao redor da mesa de pingue-pongue.

Depois das rápidas apresentações, Quíron se dirigiu a ela:

– Poderia me dizer novamente quem você acha que é seu pai ou sua mãe olimpiana?

– Atena. – Mariana respondeu sem hesitar.

– Impossível. – interveio Annabeth – Pelo menos hoje em dia, todos os filhos de Atena são loiros com olhos acinzentados.

– Ótimo. – disse Mariana – Nem minha irmã por parte olimpiana quer me aceitar.

– Por que você nos chamou aqui? – indagou Leo – Preciso voltar a checar o Argo II. Vamos sair amanhã.

Mariana o examinou da cabeça aos pés.

– Vamos ver... fuligem, mãos grandes, quase implorando para implorando para voltar ao trabalho, um cinto de ferramentas... você é filho de Hefesto, não é?

Leo apontou para Mariana e se virou para Quíron.

– Ela está começando a me assustar.

Quíron o ignorou.

– Você tem alguma prova de que é filha de Atena? – perguntou.

– Meu pai me contou. Fora que eu sou a mais inteligente da minha turma. Ele disse que Atena foi até nossa casa uma vez e que ficou surpresa.

Pelo relato de Mariana a Nico, Annabeth estava se segurando para não dizer “Até dá para entender porquê”.

– Qualquer um pode ser o mais inteligente da turma. – protestou Leo – Principalmente se for uma turma que só tem idiotas.

– Quer dizer, pessoas como você? – perguntou Mariana.

Leo fez menção de se levantar, mas Quíron fez um sinal para que o garoto permanecesse onde estava.

– E se seu pai tivesse mentido para você? Ou se enganado? – sugeriu Piper.

– Não. Ele não faria uma coisa dessas.

– E se sua mãe tivesse mentido para ele? – perguntou Jason.

– Ela também não faria isso. E não acho que depois de três mil anos ela tenha tido a capacidade de errar o próprio nome.

– Nós temos alguma utilidade aqui? – perguntou Piper.

– Não, já que na verdade eu chamei Annabeth aqui. – respondeu Quíron – Pode voltar para o Argo II, Leo.

Leo saiu correndo como um louco e Jason e Piper o seguiram.

Quíron encarou a suposta fila de Atena.

– Quantos anos você tem?

– 12.

– Pode tirar os óculos?

Mesmo estranhando o pedido, Mariana tirou. Annabeth arregalou os olhos e ficou boquiaberta.

– Ela é igual a... – Annabeth não completou.

– Eu sei. E é isso o que me preocupa. – disse Quíron.

– Qual é o problema? – perguntou Mariana.

– Você é muito parecida com uma semideusa que conhecemos há alguns anos. Na verdade, você é idêntica a ela. – respondeu Quíron.

– Eu não a conheci muito bem. – acrescentou Annabeth.

– E qual e o problema?

– O problema, Mariana, é que ela era uma filha de Hades, e os filhos desse deus não podia mais existir na época. – esclareceu Quíron.

– Meu pai comentou sobre isso. Zeus, Poseidon e Hades fizeram um pacto de que não poderiam ter mais filhos... Opa, espera aí. Vocês acham que eu sou uma filha de Hades só porque eu sou parecida com essa garota?

– Não é só por isso. – disse Annabeth – Fisicamente, você é igual à Bianca. Mas você está vestida toda de preto e é muito fechada. Isso lembra o irmão dela, Nico.

– Eu sou filha de Atena, já disse. Eu só... – ela se conteve. Prometeu a si mesma que não contaria a ninguém sobre sua benção – sou diferente.

Houve uma longa pausa.

– Tudo bem, então. – disse Quíron – Annabeth, leve-a para o chalé 6 e apresente-a seus irmãos e irmãs. Depois volte para o Banker 9. Acho que Leo precisa de você lá.

Mariana percebeu logo de imediato que ninguém naquele lugar gostava dela. Naquele mesmo dia, enquanto treinava arco e flecha, esgrima e estava na parede de escalada, os outros semideuses do chalé de Atena remexeram em sua mochila.

Lá eles encontraram uma garrafa de água, um caderno cheio de anotações sobre deuses palavras e frases em grego antigo, pequenos livros de palavras cruzadas em diversas línguas, protetor solar, repelente, uma foto dela com o pai e uma boneca de pano que ele havia lhe dado quando lhe contou que era uma semideusa. O último presente de seu pai.

A boneca não era muito maior que sua mão. Estava toda vestida de preto, tinha pele pálida, cabelos escuros e um óculos roxo – exatamente igual à Mariana.

Eles encontraram tudo isso, fora os 20 mil dólares que ela ganhou de herança do pai.

Primeiramente, achavam que ela havia roubado um banco. Os filhos de Atena nem perceberam que ela estava na porta do chalé enquanto revistavam sua bolsa.

Ela os encarou, de braços cruzados, e disse:

– Se você tem algum problema comigo, venham falar comigo, ou com Quíron, ao invés de ficarem olhando minhas coisas. Pelo o que estou vendo, vocês são incapazes de aceitar uma irmã diferente. Então – ela andou até eles e arrancou de suas mãos a boneca, a foto e um bolo de dinheiro –, parem de mexer na minha mochila. O que tem aqui dentro não e da conta de vocês. – pegou suas coisas e saiu de lá sem encará-los novamente.

Mariana continuou a tarde inteira com a bolsa.

Perto da hora do jantar, Mariana encontrou Annabeth sentada na praia olhando tristemente para uma foto.

– Este é Percy Jackson? – perguntou.

– É o Argo II vai sair amanhã e... não sei quanto tempo vai levar para chegarmos onde ele está, mas sei que vamos encontrá-lo.

Depois de um momento de silêncio, Mariana disse:

– Por que você não me conta das suas aventuras com ele e eu conto sobre mim?

E assim, as duas ficaram conversando por muito tempo. Annabeth contou a Mariana tudo o que aconteceu no acampamento desde que Percy cruzou as fronteiras mágicas. E Mariana, tudo o que aconteceu desde a morte do pai. Falou até sobre a benção.

Depois de terem terminado suas histórias, elas ficaram mais um tempo em silêncio. Mariana foi novamente a primeira a falar.

– Você sabe que eu vou fugir, não sabe?

– Se você ficar, pode fazer com que as pessoas aceitem você. Pense melhor.

– Não. As pessoas aqui não gostam de mim e não quero pressioná-las.

Annabeth suspirou e se levantou.

– Bom, deu para notar que nada que eu diga vai fazer você mudar de ideia. O jantar é daqui a pouco, então vou andando. – ela olhou Mariana da cabeça aos pés – Estamos no verão e mesmo sendo noite, ainda está um pouco quente. Por que continua com esse casaco?

– Eu gosto dele. Não quero tirar. Você deveria descansar. Tem um dia cheio amanhã.

Annabeth deu de ombros, virou as costas e foi correndo até o pavilhão.

Na manhã seguinte, Annabeth, Leo, Piper, Jason e o treinador Hedge saíram com o Argo II.

Mariana conseguiu roubar alguns pacotes de salgadinho e garrafas de água do acampamento. À noite, ela fugiu.

Ela chegou à Nova York poucas horas depois. Annabeth contou que Nico invocou os mortos várias vezes. Mariana já tinha um texto em grego antigo preparado para invocá-los, só para pedir informações e não incomodar os mortais.

E foi assim que ela e Nico se conheceram.

Quando ela terminou, Nico também contou sua história a ela. Desse modo, os dois passaram um bom tempo conversando.

Depois de duas horas falando, eles pararam para comer.

– Mariana. – Nico chamou – O que você acha da ideia de ir para o mundo inferior comigo?

– O que? – ela ergueu os olhos.

– Eu estava indo procurar as Portas da Morte, e acho que um dos lados é no Mundo Inferior. Minha viagem nas sombras deu errado e eu parei em Nova York. Se quiser, podemos resolver o seu problema. Vamos falar com meu pai.

– Está falando sério? Faria isso por mim?

– Claro. Estou curioso.

– Mas você não disse que isso o deixar exausto mesmo sozinho? Uma viagem nas sombras até o outro lado do país... não acha que é perigoso?

– Não muito com você ajudando. Acho que essa benção de Hades serve para alguma coisa além de afastar as pessoas de você.

– E me deixar menos inteligente que os outros filhos de Atena. E não deixar minha aracnofobia tão intensa.

– Talvez você tenha os mesmo poderes que eu.

Mariana ficou um tempo calada, provavelmente examinando as opções.

– Eu topo. É melhor você dormir um pouco. Precisa descansar. Eu fico de vigia.

– Qual foi a última vez em que você dormiu?

– No acampamento.

– Então você descansa e eu fico de vigia.

– Nico, não precisa...

– Eu insisto.

A filha de Atena respirou fundo, sabendo que não ia chegar a lugar nenhum com aquela discussão. Ela pegou o seu facão, se deitou na grama, de bruços, tirou os óculos e manteve o facão ao seu lado. Em menos de cinco segundos, Mariana já estava roncando.

Nico ficou observando-a por mais alguns minutos. Claro, ele não podia deixar de notar as semelhanças entre ela e Bianca. Para ele, Mariana é uma representação de como Bianca teria ficado se estivesse viva.

Ele queria saber mais sobre essa garota. A história que ela havia lhe contado parecia... incompleta.

Mesmo sabendo que é errado que se Mariana descobrisse ele poderia se considerar morto, a curiosidade o venceu.

Nico puxou a mochila de Mariana e começou a revirar o que tinha lá dentro. Não deu a menor atenção aos bolos de dinheiro. Puxou o caderno e o folheou. Páginas e mais páginas cheias de anotações. Algumas até com desenhos. Mariana desenhava muito bem.

Havia um compartimento no caderno para colocar folhas soltas. Estava cheio de páginas de livros. Nico imaginou que ela arrancava dos livros das bibliotecas nos lugares em que passava.

Ele guardou o caderno. Em seguida, achou a foto de Mariana com o pai. Decidiu guardá-la imediatamente. Era um item particular.

Nico encontrou a boneca. Era feita de pano e não tinha dedos, exceto o dedão. Ela usava um vestido preto e tênis pretos. Os minúsculos óculos estavam presos ao cabelo solto dela. Nico observou mais atentamente e viu um corte na raiz dos cabelos dela, e percorria toda a nuca.

No momento em que Nico foi examinar o que era, ouviu o som de algo sendo arrastado sobre metal.

Nico virou-se rapidamente, uma das mãos no cabo da espada e a outra no grama, para se levantar. Mas ele preferiria enfrentar um monstro ao que ele viu: Mariana estava sentada, olhando fixamente para sua faca enquanto limpava-a com uma folha de grama.

Ela conseguiu ser tão silenciosa que Nico nem suspeitou estivesse acordada.

– Mariana. – automaticamente, Nico se sentiu culpado. A garota nem olhava para ele, o que fez ele se sentir pior ainda – Olha, eu... Desculpe, eu...

Ela parou de limpar a faca e olhou para frente. Respirou profundamente e disse, quase em um sussurro:

– Um motivo. Eu quero que você me de um motivo para eu não enfiar esta faca em você agora mesmo.

Nico não respondeu, incapaz de dizer uma única frase que não seja um pedido de desculpas.

Sem pensar, ele respondeu:

– Sou a única pessoa que te compreende. E que realmente te aceita. E você precisa de mim para chegar ao Mundo Inferior.

Mariana umedeceu os lábios e finalmente o encarou.

– Parabéns. Você acaba de ganhar o direito de não ser morto por mim.

Nico pegou a boneca caída na grama e a colocou delicadamente dentro da mochila.

– Mariana, me desculpe. Eu... eu só... fiquei curioso... e eu...

– Nico. – ela se aproximou dele – Eu não estou chateada com você.

– Não?

– Não. É claro que não. Nos conhecemos faz apenas algumas horas. É aceitável que você fique curioso. Você não me conhece, do mesmo modo que eu não te conheço.

– Bem, OK. Mas mesmo assim, desculpe.

– Não tem problema.

Nico pegou a boneca novamente.

– Você já viu isso aqui? – ele apontou pra o corte.

– Ah, isso. – Mariana pegou a boneca – É por isso que meu pai me deu essa boneca. – E tirou os óculos dela.

Levemente, ela foi puxando a nuca da boneca, que se soltou. Conseguiam ver vários fios amarelos saindo de baixo da peça da boneca. Mariana virou a peça de cabeça para baixo e esta se encaixou perfeitamente na cabeça. Mariana passou os dedos pelos fios para ajeitá-los.

Agora, a boneca não se parecia mais com Mariana, pois estava loira.

– “Como qualquer outra filha de Atena”, foi o que meu pai me disse. – Mariana admirou a boneca em suas mãos – Foi para eu me sentir melhor.

Ela colocou a boneca como estava antes e guardou-a.

– Bom, acho que é minha vez de ficar de vigia.

– Claro. – disse Nico, deitando-se na grama e adormecendo quase instantaneamente.

Nico acordou algum tempo depois, porém sozinho. A alguns metros a sua esquerda, Mariana estava sem o casaco e tentando tirar alguma coisa dele. Mesmo de longe, Nico distinguiu marcas profundas nos dois antebraços da amiga.

Ele se levantou calmamente e foi até ela. Mariana estava em frente a uma torneira limpando algumas partes sujas do seu casaco. Agora mais perto, Nico conseguia ver linhas vermelhas e finas cobrindo a maior parte do seu antebraço.

Nico colocou a mão em seu ombro e ela deu um salto.

– Minha vez de assustar você.

– Não faça isso de novo.

Provavelmente ela percebeu que Nico viu as marcas e começou a colocar o casaco desesperadamente. Tarde demais.

– O que é isso no seu braço?

– Nada. — ela tapou as linhas.

Nico puxou o braço esquerdo dela e o examinou.

– São ferimentos – observou – E profundos. O que aconteceu?

Mariana o fuzilava com os olhos.

– Meus tratos em casa.

– O que aconteceu? – repetiu Nico.

Ela fechou a torneira, pegou seu casaco e foi para onde eles estavam antes. Só então respondeu.

– Minha madrasta me odeia. Ela achava que tudo o que eu fazia estava errado. Com a morte do meu pai, as coisas pioraram. Ela sempre me dava ordens, mas eu nunca às seguia. Como punição, ela pegava uma faca na cozinha e fazia um corte profundo nos meus antebraços. Cada uma das linhas é uma ordem descumprida. Pelo menos as que ela percebia.

– Mas isso já faz quase dois meses, e ainda estão vermelhas como sangue. Por que isso ainda não sarou?

– Eu também não sei. Já procurei em livros e na internet e nada. E a última coisa que eu preciso é ter que ficar mais alguns dias no acampamento, enquanto os curandeiros de Apolo e quem mais estivesse na enfermaria tentassem tirar essas feridas.

– Talvez sejam as facas.

– Eu já olhei também. Nada.

– Por isso você não queria tirar o casaco no acampamento.

– Exato.

Mariana examinou tudo o que tinha na sua mochila e colocando o casaco, disse:

– Bem, se você acha que dá, podemos ir agora. Acho que já descansamos o suficiente.

– Pode ser.

Como estava de noite e eles estavam em um cemitério, foi fácil viajar pelas sombras. O problema foi a distância. Mariana teve que ajudar Nico com um pouco de força. Os dois pararam em um depósito em Los Angeles.

– Você está bem? – perguntou Mariana.

– Claro. E você?

– Estou bem.

O depósito era perto da entrada para o Mundo Inferior. Os dois entraram facilmente.

Pela expressão de Mariana, Nico percebeu que o lugar não parecia muito novo para ela. Ela olhou para Cérbero como se ele fosse um rato. Encarava as almas das pessoas mortas como se fossem pessoas na rua.

– O palácio do meu pai é bem ali. – Nico apontou — Vamos lá.

“Por que você se limita a isso, Filho de Hades”, perguntou uma voz. “Ajudando uma semideusa pelo simples prazer de ver o rosto de sua irmã novamente. Que idiotice!”

– Gaia. – disse Mariana – Não dê ouvido a ela. Vamos.

“Ah, Filha de Atena”, continuou a deusa. “A benção de Hades a assusta? Em todos os lugares que vai as pessoas não a aceitam, e sente-se na obrigação de se esconder.”

– Esconder? – Mariana balançou a cabeça – Ela está mexendo com nossas mentes. Vamos.

“O que você considera sua prioridade, Nico?”, perguntou Gaia. “Procurar as Portas da Morte ou ajudar a sua amiga?”

Ninguém se moveu.

“Você é o filho de Hades. Sabe muito bem onde ficam as Portas da Morte. Por que deixa a sua busca para depois?”

De repente, Nico ficou confuso e piscou.

– Eu... é que... bem...

“Vá para as Portas, Nico.” Ordenou Gaia.

Nico se viu andando em direção a entrada para o Tártaro. Mariana percebeu e tentou impedir.

– Nico pare! Acorda! – ela balançava-o pelos ombros.

– Me solte. – por que ele disse isso? A única coisa que queria no momento era que Mariana o tirasse do transe. Então ele ouviu sua voz falando: — Eu sou o filho de Hades. Posso andar em qualquer lugar do Mundo Inferior. Ninguém pode me ferir ou me controlar aqui.

Realmente era uma idiotice falar isso, já que estava sendo controlado por Gaia.

Mas Mariana não desistia. Continuava agarrando-o pelo braço e pedido que parasse.

Ele só parou quando estava a meio metro da borda. Deu as costas para o abismo e disse:

– Viu? Não aconteceu nada.

De repente, Mariana ficou mais pálida do que já era. Ela deu um passo para frente e gritou:

– Nico!

A última coisa que Nico se lembra era de estar sendo puxado para baixo, enquanto Mariana gritava seu nome e tentava pegar sua mão.

Todas essas lembranças se passaram na cabeça dele em questão de cinco segundos. Ele ainda estava no Argo II, e Mariana olhava em seus olhos com expectativa. Nico ainda não havia respondido sua pergunta.

– Quando eu caí no Tártaro.

Ela assentiu.

– E você quer saber o que aconteceu comigo depois disso.

– Exatamente.

Mariana suspirou.

– Então acho melhor nós nos sentarmos. Temos muito o que conversar.

Os dois se sentaram ali mesmo, no chão dos estábulos.

– O que aconteceu foi o seguinte: depois que você caiu, Gaia até tentou me fazer cair também, mas eu saí correndo. Fiz uma viagem nas sombras e saí do Mundo Inferior. Eu fui para aquele depósito que estávamos antes e tentei pensar. Comecei a pensar que a culpa foi minha.

– Como a culpa poderia ter sido sua? Você tentou me impedir. Argo II não foi mais rápido porque eu estava no Tártaro.

– Eu sei. Até pensei nisso, mas não foi por causa disso. É que parece que todas as pessoas que me aceitam sofrem tragédias. Meu pai morreu e você caiu no Tártaro.

– Mas agora você sabe que a culpa não é sua, né?

Ela não respondeu.

– Mariana, — Nico se aproximou dela – a culpa não foi sua, OK? Foi minha. Você impediu que eu ficasse no Tártaro por alguns segundos, e isso foi muito.

Ela suspirou.

– Então vou continuar: eu fiquei pensando por muito tempo até que me lembrei de Hazel. Eu precisava contar a ela, e talvez ela soubesse o que fazer. Eu não me lembro quanto tempo levou para eu chegar ao Acampamento Júpiter. Mas quando cheguei lá, os romanos estavam em guerra com os gregos.

– Foi quando Leo atirou a balista contra os romanos.

Mariana assentiu.

– Ninguém estava prestando atenção quando entrei no acampamento. Não me lembro como, mas consegui subir no navio e fiquei aqui nos estábulos. Ou na casa de máquinas, mas fiquei com medo de explodir o Argo II.

– Você falou com Hazel?

Ela balançou a cabeça.

– Eu ia, mas ela já sabia. Quando... Percy... disse que teve um sonho com você preso no jarro, achei que poderia estar vivo. Então eu fiquei. Queria muito falar com você, ver se estava bem.

– Você sabe que eu posso me cuidar muito bem sozinho.

Nico se arrependeu de ter dito isso. Parecia muito grosseiro. Mas Mariana apenas sorriu e afastou os cabelos dos olhos de Nico.

– Eu sei.

Ele nunca teria deixado alguém mexer em seus cabelos assim. A não ser Mariana. E Bianca.

– Alguém te viu aqui? – indagou Nico.

– Annabeth. Mas eu falei com ela e ela prometeu que só diria eu estou aqui no navio se fosse extremamente necessário.

Nico assentiu, compreendendo. Os dois ficaram um momento em silêncio, sem se encararem. Às vezes, era quase insuportável olhar nos olhos de Mariana. Como ela poderia ser tão parecida com Bianca?

Seguindo essa linha de pensamento, veio uma pergunta em sua cabeça.

– Você ficou esse tempo todo no Argo II, todas essas semanas, só para falar comigo?

Por um breve momento, ela ergueu os olhos, mas logo voltou a admirar o chão. Enfim, ergue definitivamente os olhos.

– Bem, foi. Eu não tinha mais o que fazer. Não iria voltar para o acampamento, muito menos para casa. Você... era tudo o que eu tinha.

Nico sentiu seu rosto corar. Tentou ignorar isso fazendo outras perguntas.

– Por que você só veio falar comigo agora?

– Eu não conseguia acha outro momento para isso. Você estava sempre ocupado, e eu precisava de você sozinho e com tempo.

– Por que você saiu correndo da proa quando percebeu que tinha alguém?

– Achei que era o treinador Hedge. Não ia ser um encontro amigável.

– Você saiu do navio alguma vez?

– Claro. Cheguei a comprar comida em alguns lugares. E... – ela parou.

– O que?

– Quando você saía do navio, eu também saía. Eu não queria perder você de vista, fora que eu ficava curiosa.

– Você me seguia para todo o lugar que eu ia?

– Pode parecer doentio, mas eu estava desesperada para falar com você.

Nico assentiu. Mariana desviou o olhar e começou a falar mais baixo.

– E tinha vezes que eu chegava antes de vocês ao seu destino. – murmurou.

A temperatura pareceu cair dez graus.

– O que você quer dizer com isso? – perguntou Nico.

– Eu tive bastante tempo para treinar viagens nas sombras. Ás vezes, eu chegava antes de vocês e ficava escondida. Eu queria ver se tinha alguma armadinha ou coisas do gênero.

– Teve alguma vez que você não foi?

Ela balançou a cabeça. Passou-se um minuto até que ele processasse o que ela queria dizer.

– Então você viu o que aconteceu na Croácia. – não era uma pergunta.

Mesmo assim, Mariana assentiu, fazendo com que fosse impossível Nico encará-la.

– Eu não vi você lá.

Mariana suspirou e disse:

– Cheguei antes e expliquei a situação a Favônio. Ele me mandou direto para onde estava Cupido, que me fez ficar invisível. Ele disse... que... que eu deveria saber a verdade.

A verdade. Era fato que Nico nunca soube o que Mariana sentia por ele. Para ele, Mariana era como uma irmã – uma substituta de Bianca. Mas o que Nico era para aquela filha de Atena? Amigo com certeza. Mas ele tinha a sensação de que Mariana queria ser mais do que uma amiga.

Mesmo sem saber que ela estava lá, parecia errado brincar com os sentimentos dela desse jeito. Ainda mais depois de tudo o que ela passou.

Desejando mudar de assunto, Nico fez outra pergunta.

– Como está o seu braço?

Levou um tempo para Mariana responder.

– Melhor. A velocidade de cura é mais ou menos três vezes mais lenta do que o normal.

– Posso ver? – Nico estendeu a mão.

Os dois se encararam por três segundos.

Mariana arregaçou as mangas do casaco e mostrou os cortes, agora mais esbranquiçados. Nico pôs as mãos em seus pulsos levemente e girou seus braços. Todas s marcas estava melhores.

Ele também percebeu que a pulsação dela estava muito agitada, então a soltou.

– Agora os riscos de você ter algum problema nos braços durante a luta com algum monstro foram reduzidos a quase zero.

Ela sorriu e puxou as mangas até os pulsos novamente.

– Sabe, eu prometi a Annabeth que depois que eu falasse com você, eu sairia do Argo II.

– Mas para onde você vai?

– Obviamente, eu vou voltar para os Estados Unidos. Mas depois disso eu não sei. Eu até pensei em ficar viajando pelo país, mas isso não ia dar certo.

Nico começou a pensar. A opção “voltar para casa” estava fora de cogitação. E ele não podia dizer a ela que a melhor escolha seria ela ficar andando a solta pelo país – pelo menos não sem um lugar fixo para descansar.

Só havia uma opção, que não só seria bom para ela como para outros semideuses também.

– Você deveria voltar para o acampamento.

Mariana sorriu levemente, como se fosse uma piada.

– Nico, eu não posso. As pessoas lá... me odeiam.

– Eu vou começar a minha viagem de volta ao acampamento hoje ao pôr-do-sol. Seria uma péssima ideia se você fosse comigo. É bem provável que Reyna te mataria. Eu posso ser melhor em viagens nas sombras, mas também tenho que transportar a Atena Partenos e duas pessoas. Isso equilibra nosso nível de experiência. Vamos chegar à Nova York praticamente ao mesmo tempo. Eu vou estar lá.

– Os outros semideuses simplesmente não me suportam. E Quíron vai me matar por eu ter fugido do acampamento. Ainda mais agora.

– Por favor. Talvez, se você explicar a eles sobre a benção de Hades, eles te aceitem melhor. Você se deu bem com Annabeth depois que contou a ela.

– Ela já passou por muita coisa. Meus outros irmãos, não.

– Mariana. – Nico se aproximou um pouco mais – Você tem que ir lá e dizer a eles quem você é. Que você é uma filha de Atena, que tem a benção de Hades e que é diferente. E isso não faz com que você seja alvo de risadas e olhares estranhos.

Ela ficou um bom tempo em silêncio e olhando para baixo. Até que desistiu de tentar pensar em uma resposta para isso.

– Nico... eu... eu não sei... eu...

O que aconteceu em seguida foi por puro impulso. Tudo o que Nico queria naquele momento era que Mariana calasse a boca e compreendesse o que ele dizia.

Então, Nico colocou as mãos no pescoço dela, e fechou os olhos enquanto pressionava seus lábios contra os dela.

Depois de alguns segundos, ele a soltou, e percebeu que ela estava branca como leite. Literalmente.

E ela também deve ter perdido a capacidade de falar.

Ele colocou a mão delicadamente nos ombros dela e disse, um sussurro:

– Volta para o acampamento. Eles precisam de alguém como você lá. Eu estou voltando. Você não estará sozinha.

Mariana assentiu. Ela se levantou e foi até um canto, onde estava sua mochila, agora mais suja e esfarrapada do que antes. Então, voltou para onde estava antes e colocou os joelhos no cão sentando-se.

– Então acho que está decidido. Eu vou voltar para o acampamento. Eu só... espero que essa não seja a última vez que estamos nos vendo.

– Não será. Prometo.

Depois de um sorriso, Mariana subiu na primeira janela que viu. Olhou para Nico uma última vez, murmurou “Boa sorte” e pulou no mar.

Assim que ela se foi, Nico percebeu que aquela seria provavelmente a única vez em que ele beijaria uma garota.

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