A Casa das Mariposas

2 O Colecionador de Mariposas


Enfim chegamos a um casarão de aspecto antigo e abandonado. Me pergunto se estamos no lugar certo.

O homem abre a porta e apaga a lamparina com um sopro.
“Entre”

Adentrei a casa, e o interior não era muito diferente. O chão, as paredes e os móveis estavam bastante empoeirados. O cheiro de mofo tomava conta do lugar. E centenas de mariposas brancas voavam pelo local.
Tossi um pouco por causa da poeira. O homem percebeu.
“Peço perdão pela bagunça. Já faz algum tempo que não recebo visitas”.

Agora, com uma iluminação adequada, pude perceber as feições de meu anfitrião. Seu rosto era fino, e pálido demais para ser saudável. Seus cabelos desciam até as costas, e eram de um loiro sujo, ficando mais claros, quase brancos nas pontas. Suas roupas pareciam ter saído do século XVIII, e um manto marrom cobria suas costas. Mas o que mais chamava a atenção eram seus olhos. Eram cor de âmbar. Quando os vi, tive certeza de que ele não era humano.

“Você trouxe?”
Ele perguntou, com os olhos fixos na caixa.

Mais que depressa, abro-a para revelar seu conteúdo. Uma pequena mariposa.

“É uma Ennomos fuscantaria” eu disse. A voz me falhando “Uma mariposa muito rara encontrada apenas em território Português”

Entreguei a caixa, com as mãos trêmulas. O homem a pegou e analisou a mariposa. Parecia satisfeito.
“Venha comigo”

Eu o segui até uma enorme porta. Assim que ele a abriu, pude vislumbrar o quarto. Era enorme. Suas paredes decoradas com milhares de caixas entomológicas contendo mariposas, de todas as espécies. Algumas eu reconheci. Outas eram tão exóticas e exuberantes que eu não fazia ideia de que existiam. Percebi que haviam inclusive espécies extintas a muito tempo. No chão, haviam mais caixas empilhadas

A maior coleção de mariposas do mundo. O sonho de qualquer entomólogo. E eu vivi para ver.

Tento balbuciar palavras de admiração, mas estou tão maravilhado que nenhum som sai de minha boca. Meu transe foi interrompido pelo homem, que me olhava com um rosto de decepção.

“É uma pena” ele disse, apontando para um espécime. Era uma Ennomos fuscantaria. “Mas parece que eu já possuo uma dessas em minha coleção”.

Gelei. Não podia ser. Aquela espécie era muito rara. Pouquíssimas coleções no mundo tinham um espécime...

Engoli em seco. Sei muito bem o que acontece com quem não consegue impressionar o Colecionador. A adrenalina toma conta de mim e tento correr. Mas as portas se fecham, impedindo minha fuga. Nesse momento escuto o bater de asas e me viro a tempo de ver o colecionador na minha frente. Seu manto se abre. Oh meu deus, não é um manto! São asas! Asas de mariposa!

De dentro do manto saem centenas das mariposas brancas. Elas voam em minha volta, cobrindo meus olhos, nariz e boca. Não consigo respirar!

O Colecionador sorri, e com um movimento de sua mão, os insetos se afastam do corpo que jazia sobre o chão frio.

Ele se ajoelha sobre o cadáver e segura as bochechas dele, fazendo-o abrir a boca.

Lá de dentro, emerge uma pequena mariposa branca. Mais uma para sua coleção...

Notas finais
Muito obrigado a todos vocês que leram até aqui! E mais uma vez obrigado a todos os que me ajudaram a escrever a história. Espero que seja o primeiro de muitos contos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!