A Casa da Árvore
1 Capítulo Único: You are my home
Notas iniciais
You are my home (Você é meu lar)
Era um dia como qualquer outro em Berk. Um frio congelante nos assombrava e os dragões sobrevoavam a vila, soltando fogo e, nem mesmo assim, esquentando o clima da ilha.
Era engraçado, porque eu comecei aquele dia correndo, literalmente, o que era uma ótima maneira de se esquentar. Começar o meu dia seguindo Soluço em meio a Floresta de Berk não estava em meus planos, é claro, mas foi útil no fim de tudo.
Namorar com Soluço Haddock era sempre uma grande aventura. Eu nunca entendi muito bem o que tinha na mente daquele Haddock, mas acho que isso formava parte de quem ele era. Eu não conseguia parar de sorrir enquanto o seguia e comecei a pensar que, talvez, aquele fosse um feitiço dele que nunca iria quebrar.
Avistei ao longe o que seria o objetivo dele, uma construção de madeira em meio a floresta. Meu coração de repente acelerou ao reconhecê-la.
Aquela era a nossa casa da árvore. Fazia anos que não íamos para lá, e eu achava que ele nem se lembrava dela mais. Mas ao vê-la ali, tão perfeita, constatei que nenhum de nós nunca iria a esquecer completamente.
Havia tantas lembranças trancadas ali que não pude deixar de sorrir. Nós chegamos em frente à escada e eu retornei ao tempo presente. Encarei o topo da árvore e as folhas balançando.
— Venha — Soluço me chama, começando a me ajudar a subir.
Eu ainda estava completamente confusa, mas coloquei o pé na escada de madeira.
— Por que nós estamos aqui, Soluço? — eu perguntei, parando de subir por um instante.
— Sem perguntas, Astrid. Apenas continue subindo — ele disse com a voz divertida.
Nós terminamos finalmente de subir e nos sentamos em silêncio no chão da varanda. Nossos pés encontravam-se perigosamente pendurados em direção ao chão.
Havia tanta calma e paz em nosso silêncio, naquele simples lugar. Eu podia avistar o Oceano Interno perfeitamente e tudo fazia com que o meu coração se sentisse mais leve.
— Como um lugar pode ser tão bom assim? — eu perguntei espontaneamente, deixando a minha pergunta se perder em voz alta.
— Costumo pensar que somos nós que o fazemos assim — Soluço disse. — Somos nós que tornamos um lugar único.
Encarei os seus olhos sorrindo. Nunca vi ninguém tão bom com as palavras no mundo quanto ele era. Ele sabia exatamente o que dizer em cada momento.
— Vamos entrar? Quero verificar como está tudo por aqui — ele me questionou.
Assenti com a cabeça e ele entrou primeiro, seguido de perto por mim. Havia um cheiro de livros velhos ali dentro que se assemelhava ao cheiro de segurança. Quando passei a mão pelas paredes de madeira, eu me senti ainda mais leve, como se aquelas paredes pudessem sugar todas as tristezas.
Restou-me apenas absorver mais uma vez as lembranças que aquele lugar refletia em mim e tudo o que o meu coração sentia ali. Era incrível como algo poderia permanecer por tanto tempo marcado em nossos corações.
Soluço sentou-se no chão do único cômodo da casa. Ele também aparentava estar leve ao respirar o ar daquele lugar, mas parecia refletir por um instante. Encarei seus olhos e foi se como tivéssemos retornado alguns anos. As lembranças pareciam nítidas em nossas mentes. Dois jovens sentados ali, naquele mesmo lugar, fazendo planos para as suas vidas, para o seu futuro.
Ele esticou a sua mão e fui até ele. Repetiríamos o que sempre fazíamos quando estávamos ali. Nos sentaríamos juntos. Lado a lado. Ou quase isso daquela vez, já que me desiquilibrei e fui obrigada a me sentar em seu colo — não que isso significasse um grande sacrifício para mim.
É claro que não foi de propósito, não me considere uma mulher semelhante a essa que está pensando agora. Eu apenas me desiquilibrei e o espaço ali, naquele cômodo, era pequeno. Acabei caindo em seu colo e nós rimos bastante disso. Não era de ser muito desastrada, mas parecia que, conforme convivíamos mais, acabávamos absorvendo as características do outro.
Assumi um pouco da falta de coordenação de Soluço, aparentemente. E ele um pouquinho mais de coragem, já que possuía muita em seu coração. Só precisava se permitir compartilhá-la.
Ficamos em silêncio ali, em nosso lugar de refúgio. Onde podíamos rir à vontade e falar sobre tudo. Onde podíamos ser quem nós verdadeiramente éramos, sermos felizes.
Soluço pousou suas mãos em minha cintura e encarei os seus olhos. A luz fraca da única lamparina dali, que ele havia acendido quando entrou, fazia com que os seus olhos ocupassem os meus pensamentos. Seu olhar era como um farol na escuridão, que puxava todas as atenções.
— Lembra-se? Desse lugar? — ele perguntou, mesmo que a resposta fosse óbvia.
Mas, por mais que fosse uma resposta fácil, o meu cérebro pareceu ponderar por um longo tempo a sua pergunta, tentando entendê-la. Esse era o efeito de Soluço sobre mim, me desconcertar, quebrar minha concentração, me perder nele.
Quando enfim achei a minha voz novamente, respondi.
— Eu me lembro, é claro que me lembro. Você me trouxe aqui cinco anos atrás mais ou menos. Eu lembro de ter me impressionado, porque não sabia que tinha habilidades com madeira também. Sempre achei que você era mais voltado para ferraria, mas descobri que você tinha tido ajuda para construí-la, já que estávamos no Domínio — comentei com um sorriso.
— Sim, eu me lembro. Foi um pequeno desafio, mas precisava construí-la, Bocão me ajudou muito. Eu percebi que precisava de um refúgio e, por muito tempo, achei que ele fosse físico. Aos poucos fui entendendo que você era quem era o meu refúgio. Por isso te trouxe aqui, pois queria lhe mostrar isso naquele dia, queria que soubesse o que significava para mim. O que você ainda significa para mim, o meu eterno refúgio — eu sorri.
Meu coração se acelerou ao escutar aquelas palavras. Era tão lindo ver a facilidade com que ele conseguia falar dos sentimentos e eu sempre quis ter a sua habilidade para falar daquela forma também. Mas sabia que era aquilo que o tornava único.
— Nunca poderia esquecer desse dia, você disse naquele dia que eu merecia um pedido de namoro, não uma imposição de Stoico ou da vila.
— O que não deixa de ser verdade. Você merecia e merece o mundo, senhorita — ele disse, provocando o meu sorriso.
Seus olhos se ascenderam ao lembrar de seu pai, sabia da falta que ele fazia em sua vida. Mas aquela era uma lembrança feliz dele, que acalentava nosso coração. Eu me lembrava perfeitamente das risadas de Stoico, de seu abraço apertado, feliz por nossa união.
Havíamos planejado uma visita até Berk naquela ocasião, justamente para falar sobre o nosso relacionamento com os nossos pais. Ainda não tínhamos rótulos e, de certa forma, sabíamos que o noivado seria inevitável. Mas Soluço era um viking surpreendente, e sempre quis fazer as coisas o mais devagar que poderia, resolvendo me pedir em casamento em uma construção que ele planejou durante muito tempo e que Bocão o ajudou a pôr em prática.
— Aquele foi simplesmente o momento mais feliz da minha vida. Embora todos os momentos que sejam felizes em minha vida envolvam você — ele sorriu lindamente e eu lhe acompanhei.
Apoiei minhas mãos em seus ombros, brincando com os fechos de sua armadura. Ele pareceu distante por um minuto, embora o seu rosto estivesse tão próximo do meu e nossas respirações se entrelaçassem, denunciando a nossa palpável proximidade.
— Significa o mesmo para você? — ele perguntou de repente, quebrando os meus pensamentos conflituosos.
Subi o meu olhar e encarei os seus olhos novamente.
— O que exatamente você quer saber, Soluço? — eu perguntei.
— Esse lugar significa o mesmo para você?
— Não sei o que ele significa para você — organizei meus pensamentos por um minuto para lhe responder da melhor forma possível. — É como eu disse, nunca pensei que um lugar me trouxesse lembranças tão fortes como essas que tenho em minha mente agora. Sinto que conheço cada pedaço dessa casa. Eu sinto que parte da minha vida começou aqui e, de fato, acho que foi isso o que aconteceu.
Eu brinquei com os seus cabelos por um tempo, tentando terminar o meu raciocínio. Ele pareceu absorver as minhas palavras enquanto eu mesmo tentava absorvê-las também.
— Acho que esse lugar significa eu e você, Soluço, de uma forma um tanto diferente. Ela significa simplesmente amor. O meu por você. O seu por mim.
Levou apenas alguns instantes para que Soluço processasse minha fala. Foi tão rápido, que eu não fui capaz de acompanhar os seus movimentos, apenas pude sentir os seus lábios contra os meus.
Uma sensação de alívio percorreu o meu corpo ao sentir minha boca e a sua, finalmente, unidas. Eu não sabia quanto tempo aguentaria sem o seu beijo, com ele tão próximo a mim. Eu o amava muito mais do que eu poderia suportar dentro do meu ser.
Senti seus lábios se irem. Permaneci com os olhos fechados, aproveitando a sensação de seu beijo em meu corpo. Suas mãos puxaram-me para que eu apoiasse o meu corpo no seu, enquanto ele acariciava as minhas costas.
— É exatamente o que significa para mim. Tranquilidade, paz, capacidade de sonhar. Significa que eu amo você — ele disse.
— Tudo que você diz parece ser um plano para que eu me apaixone mais por você, estou começando a perceber isso, sabia? — ele riu em meu ouvido.
— Astrid Hofferson. Uma menina romântica, quem diria.
— Você está pedindo para que eu te mande calar a boca e acabar com o romantismo — nós rimos.
— Eu amo o seu sorriso sabia? — ele disse.
Encarei os seus olhos, sem saber se sorria por sua frase ter sido meio boba ou por eu mesma ser uma boba, completamente apaixonada.
— Depois eu que sou romântica senhor, Soluço Haddock.
Escutei um barulho de chuva exterior a casa e senti cheiro de terra molhada percorrer minhas sensações. Olhei para a única fonte de luz dali — no caso a porta aberta — e vi que a chuva caía torrencialmente.
— Banguela só virá amanhã — ele me disse. — Ele costuma ser um dragão obediente.
Só então reparei que, no canto do cômodo, havia alguns cobertores, indicando seus planos.
— Depois você diz que isso tudo não foi um plano — eu saí de seu colo e sentei-me ao seu lado. — Mas confesso que amo seus planos.
— A chuva não estava nos meus planos, eu confesso — ele disse descontraído. — Mas sou um viking de 21 anos. Acho que posso ser responsável por essa bela viking de 21 anos também — eu ri.
— Eu gosto de chuva. Gosto de estar com você. E gosto desse seu jeito de ser.
Encostei o meu corpo no seu e ele me envolveu em um meio abraço. Senti-me tão bem ali, em seus braços, que sorri. Eu me senti tão vulnerável que nem ao menos conseguia me lembrar de quando exatamente começado a chorar.
Francamente Astrid Hofferson. Francamente.
Astrid Hofferson não chorava. Não demonstrava emoções. O que pelo nome de Thor estava acontecendo com ela?
Ah. Ela se apaixonara.
Não. Astrid Hofferson era humana. Uma guerreira viking, mas humana e completamente apaixonada.
Eu senti o aperto de Soluço afrouxar, mas não ousei olhar em seus olhos. Não sabia dizer o que poderia acontecer, arrisco dizer que eu poderia desabar. Soluço me puxou de volta para o seu colo e me abraçou.
Me abraçou forte e só. Era o que bastava para mim naquele momento.
Senti suas mãos acariciarem os meus cabelos por um tempo e tentei me acalmar. Ponderei meus sentimentos e também os motivos do meu choro, fazendo com que alguns pensamentos percorressem a minha mente e um arrepio percorresse meu corpo.
— Diga-me por quê — ele pediu calmamente.
— Eu estou com medo — ele encarou os meus olhos. — Estamos tão bem aqui, há tanta paz. Eu estou com medo da possibilidade de não ter mais você comigo, pensando em tudo que já passamos. Nós quase morremos tantas vezes nos anos que estivemos no Domínio, é tão difícil. Eu apenas fico imaginando algo acontecendo e eu não vendo mais você, não sentindo mais você aqui. Eu não sei, é algo que não consigo controlar e nem explicar.
— O que te leva a pensar nisso? Estamos bem agora, já derrotamos tantas coisas. Drago se foi, estamos bem agora, vamos ficar bem. O que está passando nessa sua cabecinha?
— É que em qualquer momento de felicidade na minha vida, eu só consigo pensar que é algo que nunca mais irá acontecer. Eu tenho tanto medo de perder você, de me perder para sempre sem você.
Ele me abraçou novamente e eu apoiei meu queixo em seu ombro com os olhos fechados. Senti a sua respiração em meu ouvido e um arrepio percorreu meu corpo ao ter a sensação de seu beijo em minha bochecha e em meu pescoço, delicadamente. Ele roçou seus lábios nos meus e encarou os meus olhos.
— Na vida não podemos controlar a morte, Astrid. Não pude evitar que meu pai se fosse, nem que perdêssemos outros que amamos ao longo da vida, como o seu tio — ele disse próximo a minha boca. — Mas considerando o fato que tenho 21 anos e sou um viking, e um dos mais teimosos, posso tentar sim definir isso — eu sorri com a sua brincadeira e ele enxugou minhas lágrimas. — Você não irá me perder nunca, não importa como, sempre iremos nos achar de alguma forma. Se eu pensar em algo do tipo em relação a você não imagino como haveria possibilidade de vida para mim. A minha vida é você.
— Eu só não quero pensar isso de novo — eu disse, sentindo suas mãos pousarem em minha cintura.
— Astrid, você quer casar comigo?
Olhei espantada para ele. Havia tanta seriedade em seu olhar que eu me esqueci de como era respirar. Como era falar. O que era ser uma pessoa normal. Tentei respirar novamente.
— Que eu saiba, já somos noivos — eu disse, tentando impedir minhas lágrimas de rolarem.
— Estou falando de casamento, não de noivado — ele disse com um sorriso despretensioso. — Você aceita se casar comigo?
Tentei pensar naquela situação. Havíamos passado bons 3 anos noivos, adiando o casamento. Não nos considerávamos prontos, não achávamos que seríamos capazes de cuidar de uma vila e de nossa relação. Aos poucos, fomos nos convencendo que unir nossas forças seria muito melhor do que tentar sozinho.
— Você está falando sério? Acha que estamos prontos? — eu perguntei, tentando me recuperar e sentindo os meus olhos queimarem pelas lágrimas que teimavam em aparecer.
— É óbvio que sim, Astrid Hofferson, estamos mais do que prontos. Você não precisa mais pensar em me perder, já somos um do outro há muito tempo. Eu estou mais do que disposto a viver a vida inteira com você e por você. Amaria o teu sorriso mais do que eu já amo. Acordaria todos os dias ao seu lado. Eu seria feliz por tê-la ao meu lado. E, talvez assim, os seus medos e os meus medos se fossem, porque eu te provaria todos os dias o quanto eu te amo. Simples assim. Então eu vou perguntar de novo: quer se casar comigo?
Permiti que as minhas lágrimas, que queriam há muito tempo deixar meus olhos, finalmente fazerem essa ação. Não chorei de tristeza, não havia nenhum resquício de dor em mim. Eu apenas sorria, porque a felicidade se apoderava do meu ser.
— Será que eu posso pensar em uma resposta melhor do que um simples “sim”? — eu disse, enxugando as minhas lágrimas, escutando a sua risada.
— Para mim basta uma palavra, e você já aceitou noivar comigo, eu tenho vantagem aqui — eu ri.
Ele pôs uma mecha de minha franja atrás de minha orelha, sorrindo ao encarar meus olhos. Eu o olhei intrigada.
— Eu gosto de ver seus olhos sem nada para me atrapalhar — ele explicou. — Eles me lembram do mar. E isso sempre me acalma.
— Mas você está nervoso agora? Não foi você mesmo quem disse que já éramos noivos? — eu perguntei de forma divertida.
— É claro que estou nervoso, estou com um medo gigantesco da sua resposta. Vai que você decide que é muito melhor casar com o Melequento?
— Nós sabemos que ele está interessado em sua mãe — eu comentei com uma risada. — Com certeza você não tem que se preocupar com o Melequento, sinceramente, eu nunca me casaria com um Jorgenson.
— Certo, mas você sabe que a minha autoconfiança é tão grande quanto um Terror Terrível é ao lado de uma Besta Implacável.
Eu ri mais uma voz. Ele era tão lindo às vezes, e sua voz trazia uma calma tão grande, mesmo que dentro dele estivesse um caos. Ele sempre acharia um motivo para fazer uma brincadeira e me fazer sorrir.
Eu o amava tanto por isso. Amava cada segundo com ele, e poderia amá-lo pela eternidade. Viver com ele para sempre não seria nenhum sacrifício. Nunca me cansaria de me sentir única ao seu lado.
Encaixei a minha mão na sua e encarei profundamente os seus olhos verdes brilhantes. Aqueles olhos também me acalmavam.
— Viver a vida inteira com você seria como viver em um sonho todo dia, é um prognóstico maravilhoso. Eu não sou tão boa com as palavras como você, e sabe disso. Mas eu estou tentando ser melhor para poder expressar o quanto você é parte importante da minha vida. Eu amo cada momento simples contigo, como estar aqui ao seu lado agora. Penso em tudo que você já me ensinou e em todas as vezes que já me salvou. Isso só me leva a pensar que amo você cada dia mais e que estamos mais do que prontos. Soluço, você não precisaria perguntar, porque eu te amo. E a minha resposta é sim.
Ele me beijou rindo e eu acabei rindo também. Pensando bem, foi um beijo bem divertido, diante da nossa perspectiva de futuro. Amava pensar em tê-lo em minha vida para sempre.
Quando nos separamos, olhei em seus olhos mais séria. Percebi o mundo parar por um tempo indeterminado enquanto ele observava o meu rosto. Pensei que iria corar com o seu olhar, porém não sentia vergonha com isso.
Eu amava sentir que era o mundo inteiro para ele naquele instante, assim como ele era o meu. Eu observava o seu rosto, os seus cabelos ruivos, os seus olhos verdes. Encarava suas sardas, seus traços firmes, seus traços inseguros. Amava cada pedacinho de seu corpo.
Soluço passou uma de suas mãos pelo o meu rosto suavemente e eu fechei meus olhos com o seu toque macio e tão carinhoso. Quando os abri novamente, vi que ele estava com o seu rosto ainda mais próximo do meu.
Olhei para a sua boca, sentindo a sua respiração acelerada em meu rosto, e a busquei de uma maneira desesperada. Senti seus lábios contra os meus e o beijo apoderou-se de mim. Sentia a sua mão em minha cintura, me aproximando de seu corpo, e nenhum lugar do mundo mais parecia existir.
Soluço e eu nos separamos e começamos a rir. Iríamos mesmo casar, não dava para acreditar nisso. A vila enlouqueceria de felicidade.
— Vem — ele disse, de repente.
No seu olhar havia algo de criança levada que me fazia gargalhei. Eu apenas me levantei, vendo-o levantar também, e ele me leva para fora do cômodo único. Chovia muito, mas vi Soluço começar a descer a escada com confiança. Eu o segui sem questionamentos.
Havia um desejo infantil em nós e ele se renovava a cada degrau que descíamos.
E sabe, aquele foi sim o melhor dia da minha vida. Eu ia me casar com a pessoa que eu mais amava no mundo inteiro. E eu estava tomando um banho de chuva como se tivéssemos cinco anos de novo, completamente livre.
Soluço me beijou na chuva, me tornando ainda mais refém de seu coração. Eu amava demais aquele menino dos dragões. E sabe qual era o sinal disso? A Casa da Árvore inteira em nossa frente.
Intacta, sólida e simples. Aconchegante e repleta de boas lembranças. A nossa primeira casa. Que representava, para cada um de nós dois, amor.
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