A Casa Dos Sonhos
6 Capítulo 6 - A Bruxa
Notas iniciais
Depois de longas instruções, Ellen saiu do cômodo devagar atrás de Ana, que ficou impedindo a passagem dos homens morcegos. Subindo os últimos lances da escada, chegou a uma porta dupla de madeira maciça que era o dobro da altura dela. Jogando um pouco de água da fonte, a fechadura derreteu como se ela tivesse jogado ácido. Ellen ficou pensando se a bruxa derreteria assim também, igual a bruxa malvada do leste, ou era do oeste?
Colocando o terço no pescoço, Ellen recitou o feitiço que Ana havia ensinado para ela ficar invisível, e então entrou no quarto. O quarto da feiticeira era maior que toda a casa, e muito mais assustador. Era escuro e vazio, e as paredes não podiam ser vistas na escuridão. O carpete puído poderia ser de qualquer cor, mas estava tão desbotado e úmido que era impossível definir. Conforme ela se movia pelo que restara do carpete, traças e outros insetos se moviam rapidamente para outro esconderijo.
A bruxa estava dormindo em uma cama de troncos rústica, onde caberiam no mínimo três pessoas, e Ellen se espantou com a beleza dela. Se a Branca de Neve fosse real, seria com certeza aquela mulher, exceto pelos cabelos loiros cacheados até os joelhos da mulher. Era uma pena que não fosse o príncipe encantado, mas alguém que ia literalmente acordar ela com água ao invés de um beijo. Ellen então atirou sem dó toda a garrafa de água da fonte no rosto da mulher. Ela gritou, e seu rosto começou a se desmanchar, como acontecera com a fechadura, revelando sua face verdadeira.
A pele dela era de um tom esverdeado zumbi, seus olhos esbugalhados e negros, e os lábios eram roxos como os de um morto. O cabelo loiro se tornou apenas alguns tufos ressecados, grudados aleatoriamente na pele enrugada e manchada do topo da cabeça. A bruxa, acordada bruscamente e cheia de ódio tentou agarrar Ellen, que por instinto deu com a lanterna com toda a força na cabeça dela. Ela correu para o mais longe possível da horrenda mulher, pensando em como sairia de tal situação. A feiticeira centenária a alcançou em poucos segundos, agarrando seu pulso e deixando uma marca enegrecida de sua mão de dedos extremamente longos e finos. A marca doía até os ossos de Ellen, e isso realmente a assustou. Nesse momento, ela percebeu o quão afiados eram os dentes podres da velha, que estava prestes a mordê-la. Apavorada, ela tateou os bolsos e encontrou o canivete suíço que ganhara do tio Cláudio, e instintivamente passou a lâmina afiada através da garganta da velha. Um sangue negro e viscoso, com algo purulento saiu do corte, deixando a garota enojada. A bruxa caiu morta no carpete carcomido, que se desfez com o sangue naquele ponto, fazendo o corpo da bruxa cair num lago de fogo logo abaixo do piso.
Ellen então caiu sentada de alívio no chão(e imediatamente se lembrou dos insetos e se levantou), quando viu uma segunda porta naquele quarto, na parede oposta de onde ela tinha vindo, por onde entrava pelas frestas o que parecia luz do sol. Ela empurrou a porta e estava do lado de fora do que agora era uma casinha simples e antiga, de cor amarelinha, com um gramado mal cuidado, mas pelo menos o sol brilhava majestoso e o céu ainda estava sem nuvens.
Ana passou correndo por ela segurando a mão do seu namorado, dizendo um obrigado com os olhos e fugindo antes que ela pudesse ser ligada ao incidente. Alguém chamou a polícia, e todos os entregadores desaparecidos foram encontrados. Um deles precisou de atendimento médico, pois estava com o olho perfurado. Ellen jurou que não sabia como ele havia sido ferido, e enfim pode voltar para casa.
– Filha, demorou na sua caminhada. Já é hora do almoço.
– Eu estava vendo uma casa que estava à venda, mãe. Era como uma casa dos sonhos. Bem, em partes.
– E você pretende comprá-la?
– Não. Sonhos algumas vezes se tornam pesadelos. Decidi que vou morar um bom tempo com você ainda.
E riu como nunca antes na vida.
Fale com o autor