A Casa Dos Sonhos
1 Capítulo 1 - A Casa
Ellen estava voltando para casa depois de caminhar pelo bairro numa manhã de sábado ensolarada. Era um dia muito bonito e o sol refletia em seus longos cabelos castanhos e lisos, e o vento suave o bagunçava. Estava um final de manhã perfeito, um céu sem nuvens e temperatura agradável, nem quente e nem fria, o suficiente pra deixar até o ser humano mais ranzinza alegre. Ela andava com passos leves e sem pressa, olhando com uma certa satisfação seu bairro tranqüilo numa cidade não tão pequena assim, mas com uma população bastante idosa, pois os jovens preferiam as universidades da capital. Ela suspirou com os pensamentos, parou de andar e se espreguiçou, rindo quando sua coluna fez aquele crec confortável. Foi quando ela viu a placa anunciando:
À VENDA.
Ellen ficou intrigada, pois ela nunca tinha reparado naquela casa antes, apesar de ser apenas há alguns quarteirões de onde ela morava. Há algum tempo ela procurava uma casa para morar sozinha, já que agora tinha terminado a faculdade de letras e tinha um bom emprego como professora de alemão em uma faculdade particular.
Seu novo salário não era extravagante, mas permitia que ela pagasse um carro quase novo e financiasse uma casa confortável. Apesar dos atritos com os pais, ela não pretendia se afastar muito deles se pudesse. Afinal, eles já estavam envelhecendo, e precisavam dela para algumas coisas.
O portão da casa era de barras de ferro em formas desenhadas, daqueles que se vê nos filmes antigos de terror sobre casas mal assombradas. O portão estava aberto, então Ellen não se incomodou em entrar, vendo uma mulher de mais ou menos 40 anos estendendo vários lençóis brancos em varais no quintal gramado.
O gramado estava verde e bem aparado, e tinha um cheiro agradável de terra úmida, provavelmente porque alguém tinha molhado o quintal antes do sol a pino do meio dia.
Ela devia ter estranhado, mas não se importou quando a mulher a ignorou completamente, absorta nos seus lençóis impecavelmente brancos. Provavelmente era uma empregada e não queria conversar com as visitas dos patrões. Sem cerimônia, ela entrou pela porta da cozinha, procurando por algum outro sinal de vida pela casa.
Claro que normalmente as pessoas não vão simplesmente entrando na casa dos outros assim, mas como a casa estava totalmente aberta, Ellen achou que estava assim por estar livre à visitações dos interessados em comprá-la.
Além disso, a casa causava nela certa fascinação, como se fosse impossível para Ellen não simplesmente entrar e observar cada canto desse memorial aos tempos dos seus bisavós.
Era uma casa grande, e apesar de ser antiga e ter aqueles pisos e azulejos pequenos e beges, estava bem conservada e a pintura era praticamente nova. A cozinha era espaçosa e tinha janelas grandes, por onde entrava muita luz natural. Na mesa, sobre uma toalha xadrez amarela e rosa bebê, ainda tinha uma garrafa de café e farelos de pão, como se uma família há pouco tivesse tomado seu café da manhã tardio. Os pássaros piavam do lado de fora, e Ellen podia vê-los voando rasante pela janela, procurando por insetos no gramado.
Ellen achou a casa muito confortável e aconchegante, ou pelo menos a cozinha era. No final dela, ela avistou um corredor que levava aos outros aposentos da casa, e que parecia interminável. Estranho, ela pensou, pois a casa não parecia tão grande assim pelo lado de fora.
E apesar de toda a luz da cozinha, o corredor e o resto da casa estavam na penumbra. Parecia até que a luz não conseguia chegar até lá, não importando quão brilhante estava o sol. Até mesmo o ar que chegava do corredor estava bem mais frio.
Fale com o autor