A Casa Das Máscaras
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Christian
Assim que a aula terminou, eu peguei rapidamente meus materiais e tentei não parecer tão apressado para deixar o auditório. Subi as escadas praticamente aos pulos, o que não deve ter ajudado muito nisso, mas antes que eu alcançasse a porta alguém segurou meu braço e impediu-me de sair dali enquanto os vários alunos passavam à nossa frente, conversando alto e provavelmente seguindo para o refeitório.
Já era quase meio dia.
“Chris...” Eu olhei para cima mordendo o lábio e encontrei a expressão um pouco desconfortável e insegura de Andreas. “Será que hoje você não vai sair correndo e vai deixar eu me desculpar propriamente?” Ele me encarou com seus olhos azuis brilhando como os de um cachorrinho abandonado. Isso era golpe baixo!
“Eu não estava fugindo.” Murmurei, desviando o olhar e me concentrando no chão acarpetado. “As coisas apenas andam corridas.” Expliquei miseravelmente. Quem acreditaria nisso quando estávamos apenas na terceira semana de aula? Eu realmente gostaria de saber mentir um pouquinho melhor.
Andreas ergueu uma sobrancelha, mas não me contradisse. No lugar disso, ele me puxou para uma sala anexa vazia que havia perto da saída do auditório. Meu coração acelerou bruscamente enquanto, por um breve instante, eu achava que ele iria me agarrar inesperadamente como havia feito no Lyric Convent. Andreas notou meu nervosismo e suspirou, segurando meus ombros.
“Não vou te atacar.” Ele falou com confiança, mas não resistiu e abriu um sorrisinho no canto do lábio. “Só se se você pedir...”
“Eu vou embora.” Tentei me soltar e sair dali, mas Andreas se apressou em bloquear meu caminho.
“Hei! Hei! Me desculpa! Estava apenas brincando.” Ele suspirou cansado. “É mais forte do que eu... Eu sou um idiota, sabe.”
“Você não é um idiota.” Falei por reflexo, num murmúrio. Talvez naquele momento eu estivesse o achando sim um pouquinho idiota, mas eu não gostava de xingar as pessoas. Senti um dedo tocar meu queixo e erguer meu rosto, fazendo nossos olhares se encontrarem novamente.
“Eu sou sim. Me desculpe por ter feito aquilo com você em um lugar público. Foi inconsequente na minha parte. Você está sofrendo agora por minha causa. Droga! Sabe-se lá o que teria acontecido se o seu irmão não tivesse impedido aqueles covardes de chegar perto de você!” Andreas falou, franzindo a testa em consternação. “Eu estou muito arrependido. Sabe, eu sempre ferro com as minhas amizades por coisas assim...”
Eu puxei o ar e depois apertei os lábios. Andreas parecia verdadeiramente arrependido e seus olhos transmitiam isso. Seu rosto estava totalmente límpido, deixando suas emoções transbordarem através da expressão facial chateada que ele tinha.
Uma das coisas que eu mais havia gostado em Andreas eram seus sorrisos. Eram tão livres e espontâneos, cheios de vida! Eu gostaria de conseguir sorrir como ele, sem medo dos olhares que atrairia.
Era ruim não vê-lo sorrindo. Eu chegava a me sentir culpado por isso.
“Está tudo bem...” Falei incerto. Meu coração ainda estava machucado. Não só pela confusão, mas porque eu havia sido estúpido o suficiente para pedir Andreas em namoro quando nós nos conhecíamos há apenas uma semana! O quão carente eu posso ser? Isso é ridículo, certo? Eu gostava dele e o achava bonito, mas... Ah, era óbvio que o idiota ali era eu.
Abaixei o rosto novamente, achando difícil encará-lo.
“Não, não está. Eu te magoei, Chris... Mas olha, vou tentar de tudo para reparar isso e ganhar sua confiança de novo. Só queria dizer... Meu nome não apareceu no jornal porque uma amiga intercedeu por mim sem que eu nem ao menos soubesse. Eu preferia meu nome lá, em vez do seu.” Andreas falou resoluto. “Estou feliz que o Alan, o Derek e até o David” Ele torceu de leve o lábio ao falar esse nome, o que me deixou curioso “estão mantendo um olho em você.”
“Eu preferia que não estivessem.” Suspirei de leve, trocando o peso do corpo de um pé para o outro. “Acho que estou cansado de ser superprotegido.”
“Bem...” Andreas alisou o queixo, encarando-me atentamente. Fiquei com medo do que ele poderia estar pensando. Andreas era a pessoa mais imprevisível que eu já havia conhecido, apesar de eu não ter conhecido muita gente até hoje por conta da minha timidez. “É muito cedo para propor uma escapadinha hoje? Não temos aula à tarde porque o professor está doente. O que acha de fazermos algo diferente, sem a supervisão de ninguém?” Ele sorriu brilhantemente.
E eu me perguntei por que eu não conseguia negar nada que Andreas sugerisse.
XxxX
Minha respiração estava agitada e eu não conseguia parar de sorrir. Aceitei o sorvete que Andreas me ofereceu e ri sozinho, antes de dar uma lambida. Fazia muito tempo que eu não ia a um parque de diversões. Eu nem sabia que um dos grandes havia sido montado na cidade vizinha. Andreas e eu havíamos pegado o trem para chegar até ali — o que foi bem legal, já que eu nunca havia andado de trem.
Eu sabia que meu irmão iria ficar furioso por eu sumir e não avisar, mas Andreas havia dito para eu não falar nada e ainda desligar o celular. Se eu me perdesse, ninguém, além do Andreas, poderia ter alguma ideia do meu paradeiro. Nem meus pais, nem meu irmão... Era um pouco assustador para ser sincero, mas também era muito libertador.
“Nunca imaginei que você fosse o tipo que gostava dos brinquedos mais radicais.” Andreas comentou enquanto colocava algumas pipocas na boca. “Você parece um tipinho mais medroso.” Ele provocou num tom brincalhão, olhando-me de esguelha com um sorrisinho enviesado.
“Não sou medroso!” Retruquei, mas depois olhei para meu sorvete e lambi o lábio inferior. “Ok, talvez um pouquinho. Mas desde pequeno gostei de ir nesses brinquedos. Gosto da altura... E meu coração dispara tão forte! É uma sensação incrível!” Sorri para Andreas, depois notei que ele me sorria de volta e corei, desviando o olhar. Meu coração continuava agitado, e eu decidi me concentrar em meu sorvete.
“Você é muito fofinho.” Andreas riu. “Sabe, essa é a primeira vez que venho em um parque de diversões. Engraçado, não? Eu quase me borrei lá em cima, enquanto você parecia que poderia abrir os braços e sair voando de tão empolgado.”
Eu parei de caminhar e olhei para ele, arregalando os olhos.
“É sua primeira vez num parque de diversões?” Perguntei bobamente.
“É.” Andreas deu de ombro. “Nunca tive tempo quando mais novo, ou dinheiro para isso. Meus pais não são do tipo que levam os filhos para passear, entende? A ideia apenas me ocorreu hoje quando você disse que queria alguma liberdade. Ontem eu tinha escutado que esse parque recém tinha aberto e pareceu simplesmente certo vir aqui com você.”
“Por que pareceu certo?” Eu o olhei confuso, sentindo minhas bochechas pinicando.
“Porque eu queria me desculpar, e o que seria melhor do que barganhar com um parque de diversões?” Andreas riu gostosamente. Era bom vê-lo sorrindo. “E também porque eu achei que seria menos constrangedor parecer apavorado nesses brinquedos junto com você. Quero dizer... Eu jurava que você também ficaria assustado. Mas no fim, meu plano deu completamente errado.”
“Babaca.” Eu revirei os olhos, rindo em seguida. Era estranho o quanto eu me sentia confortável com Andreas. Ele apenas tinha esse carisma que conquistava facilmente. Não falava de mais, nem de menos, e não se importava de tirar com a minha cara como fazem os amigos. Era uma sensação boa, eu estava feliz.
Mesmo que ele não quisesse namorar. Bem, para falar a verdade, era estranho me imaginar namorando. Eu nem sentia exatamente vontade disso... Acho que, naquele momento, eu apenas queria manter o Andreas perto de mim, da forma que estávamos hoje. Mas se é possível ficar dessa maneira apenas como amigos, por que não?
“Quem sabe agora vamos no Túnel do Terror? Aposto que lá você vai se agarrar em mim e chorar de medo feito uma menininha.” Andreas provocou, atirando umas pipocas em minha direção. Uma delas atingiu meu nariz e saltou para o chão.
“Isso é besteira. Muitas garotas não sentem medo nenhum. Aliás, você pareceu mais assustado do que muitas menininhas lá em cima do Kamikaze.” Eu o lembrei, não o deixando ficar muito convencido. Andreas olhou impressionado para mim, e eu sorri abertamente. Até eu estava surpreso por conseguir responder a uma provocação.
Cheguei a estufar o peito.
“Certo.” Andreas riu. “Você me pegou nessa. Mas agora, terá de me provar que não vai sentir medo lá dentro.” Ele apontou com o polegar para a grande casa de sustos atrás dele.
“Não vou não!” Eu garanti.
Soltei uns cinco gritos assustados dentro do Túnel do Terror.
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Já era escuro quando eu e Andreas voltávamos para a Ketteridge. Depois do parque, ainda passamos num dos shoppings da cidade e assistimos a um filme. Eu nem lembro quando foi a última vez que eu fui ao cinema. Lá, descobri que Andreas tem uma tara por pipocas, porque, além dos três pacotes que ele comeu no parque, ele ainda pediu mais um balde para nós dois antes de entrarmos na sessão.
“Estou com medo de ligar o meu celular... Ou de encontrar meu irmão no dormitório.” Eu comentei baixinho, começando a finalmente experimentar o peso na consciência por ter saído sem permissão. Mesmo já estando na universidade, eu ainda era menor de idade e deveria ao menos ligar para algum dos meus pais para pedir permissão, ou falar com meu irmão. Se algo acontecesse comigo, quem levaria a culpa era o Oliver. “Eu não deveria ter saído assim!” Exclamei consternado, percebendo todo o meu egoísmo.
“Hei! Calma! Você está bem. Está com um maior de idade. Eu estava cuidando de você, não estava? E você aproveitou essa tarde, não é? Foi só uma vez.” Andreas falou rápido, um pouco nervoso ao perceber que eu começava a hiperventilar. Era como se só agora eu entendesse o quanto minha escapulida poderia ter causado problemas ao meu irmão, e muita preocupação aos meus pais.
Rapidamente peguei meu celular e tentei ligá-lo, mas alguém me impediu. Ergui o rosto para pedir ao Andreas que me deixasse ligar para meus pais, porém me deparei com um cara grande e moreno, que não tinha semelhança alguma com Andreas. Havia mais dois garotos bastante intimidantes ali, apesar de eu não conhecer nenhum.
Dei um passo para trás.
“O que vocês...?”
“Calma lá, calouro. Você e o loiro são novatos das Letras, não são? Eu e meus amigos aqui fazemos parte de um grupo secreto do pessoal da Humanas. Queremos que vocês nos acompanhem.” Ele sorriu de maneira amistosa, segurando minha mão e assim prendendo meu celular contra a dele.
Olhei para Andreas, esperando por alguma atitude dele, pois eu estava um tanto assustado demais para falar. Já havia tido uma má experiência com caras grandes e desconhecidos recentemente. Andreas parecia desconfiado também e trocou algumas palavras com um dos rapazes.
“Vai ficar tudo bem com vocês. Levaremos vocês para participar de algo a que todos os calouros participam quando entram na Ketteridge. Ao menos, os calouros dos cursos de Humanas.” Disse ele, sorrindo. “Meu nome é Kyle, a propósito. Este é Avery, e aquele é Frederic.” Os outros dois deram seus cumprimentos e então eles começaram a nos escoltar para um dos muitos prédios da universidade. Apesar de parecerem amistosos, não nos deram muita chance de declinar o convite.
“Acha que são da Sigma?” Eu sussurrei para Andreas. Havíamos conversado sobre isso e descoberto o que Lance havia conversado com cada um de nós. Chegamos juntos a apenas uma conclusão: Lance não era nada confiável; porém entrar na Sigma realmente seria uma grande oportunidade e eu já havia prometido aos meus pais que aceitaria o convite, por isso estávamos seguindo aqueles três, mesmo que com um pé atrás.
“Eu não sei. Lance falou que os testes de entrada estavam próximos, mas...” Andreas hesitou em falar e balançou a cabeça. Parecia ter medo de falar ou agir de alguma forma que me assustasse. “Ele tirou o seu celular, não é?” Sussurrou.
Eu concordei.
“Avery também tirou o meu, sem eu mal perceber. Mas não se preocupe, tenho outro celular... Para emergências. Veremos para onde eles nos levarão. Ou se quiser, podemos tentar fugir agora.” Andreas sorriu com certo escárnio, como se já soubesse que aquela era uma má ideia.
“Eu acho que-“ Fui interrompido quando outros três garotos apareceram. Ok, agora é que não tínhamos mais como fugir. “Para quem você vai ligar?”
“Bem, para a única pessoa que está cuidando de você e que eu tenho o número...” Andreas suspirou e, percebi, ele tinha uma das mãos no bolso. Talvez, até já houvesse discado.
Isso fez eu me sentir relativamente mais seguro. Eu estava torcendo para que aqueles caras fossem mesmo da Sigma.
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Chegamos a um dos prédios antigos e fomos escoltados para uma sala ampla no último andar. Andreas tagarelava alto com um dos rapazes e, pelo que percebi, ele ficava falando sobre o que estava vendo e onde estávamos. Só parou quando Avery mandou-o calar a boca, ou ao menos não falar assim tão alto.
Quando entramos na sala, vários outros estudantes estavam ali e, pelas expressões de ‘eu não faço ideia do que estou fazendo aqui’, entendi que muitos eram calouros também.
“O que vamos fazer?” Eu perguntei para Kyle. “Vocês são mesmo da Sigma?”
“Sigma?” Kyle me encarou com um sorriso e fez um sinal para que os outros fechassem e trancassem a porta. “Um calouro bobinho como você já sabe sobre a Sigma? Bem, alguém que aparece nos jornais na primeira semana por conspurcar o Lyric Convent não deve ser mesmo alguém muito inocente, não é? Ou talvez Lance já tenha falado com você pessoalmente? Ele se interessa bastante por pequenos gênios.”
Senti todo o meu corpo queimar de vergonha enquanto recebia os olhares curiosos das pessoas que ouviram o que ele havia falado. Enojado, afastei o rosto da mão de Kyle, que tentava acariciar minha bochecha.
“Nós não somos aqueles merdas da Sigma.” Kyle falou alto. “Eu sou Kyle, líder da irmandade Stigma! Não somos tão bem relacionados quanto os Magna e os Sigma. Na verdade, tudo começou quando eu fui expulso da irmandade Sigma e decidi criar minha própria irmandade. Magna e Sigma são nossos inimigos. E serão os inimigos de vocês também. Hoje, nós selaremos um pacto entre irmãos!” Os olhos negros de Kyle brilharam quase animalescamente.
Eu procurei os olhos de Andreas, que me encarou com preocupação.
“Eles pegam os garotos que a Sigma pretende selecionar. Nós seríamos selecionados e sabíamos disso... Porém os outros não sabem.” Andreas sussurrou rapidamente.
“Deas... Estou com medo.” Eu sussurrei para ele, sentindo minhas pernas ficarem bambas. Não sabia por que, mas estava com uma sensação muito ruim.
Andreas passou a mão por meus ombros.
“Você acaba de me chamar que nem minhas irmãzinhas.” Ele sorriu um pouco bobo e acariciou meus cabelos. “Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.” Ele garantiu enquanto Kyle continuava com seu discurso.
“Nós podemos ser chamados de renegados. Mas estamos crescendo mais do que os próprios elitistas da Sigma e da Magna. Eles se acham os melhores dessa universidade, mas eu lhes digo – eles estão errados. Hoje, nós selecionamos aqueles que têm ambição e vontade de vencer. Não sabe o que é a paz nem a estima, quem não viu antes o que é a guerra.” Kyle proferiu o que eu imaginei tratar-se do lema da irmandade.
Eu e Andreas fomos empurrados para junto dos outros calouros. Todo mundo parecia meio perdido e confuso, e ninguém exatamente satisfeito, apesar de também haver muita curiosidade e empolgação da parte de alguns.
“Agora, calouros... Façam um círculo. Hoje, passarão pelo teste que os colocará aqui dentro. Um de vocês falhará e não será aceito entre nós. Quem chegou aqui, não pode mais fugir. Se tentarem, haverá consequências. Um calouro obedece aos seus veteranos. Lembrem-se sempre disso.” Kyle falou de uma forma mais autoritária e, de repente, o clima pareceu tornar-se muito mais tenso.
“Fique do meu lado, Chris. Acho que sei o que irá acontecer.” Andreas falou um pouco ansioso e tenso. Não por ele, mas por mim. “Você precisa se segurar, ok? Aguente firme.”
“D-Do que você está falando?” Eu falei nervoso. Olhei em volta, reparando que havia apenas homens ali. Nenhuma garota. Era estranho. Essas irmandades eram mistas, não?
“O teste é simples, rapazes. Vocês devem abaixar as calças e as cuecas. O garoto à sua esquerda lhe fará um handjob, assim como você fará com o garoto à sua direita. Acho que todos entenderam o porquê do círculo... Aquele que gozar primeiro... É quem acabará no meio da roda e engolirá a ejaculação de todos os outros. O perdedor não entrará na irmandade, mas servirá como nosso empregado pelo próximo ano. Então, é melhor que ninguém se excite demais pelas mãos de outro homem.” Kyle sorriu torto e sinistro.
Como eu pude achá-lo minimamente simpático antes?
“Estou na sua esquerda. Irei com calma e tentarei não tocá-lo muito.” Andreas sussurrou para mim. Eu estava estático, com uma bola enorme na garganta. Que pesadelo era aquele? Por que ninguém agia contra aquilo? “Eles querem fazer parte de uma irmandade, e alguns estão com medo.” Andreas falou perto de meu ouvido, como se lesse meus pensamentos.
“Por favor, eu acho que eu não quero participar-“ Outro garoto começou a falar, ecoando o que eu queria dizer, mas foi interrompido por Kyle.
“Não quer participar?” Kyle perguntou, aproximando-se do garoto de cabelos ruivinhos. Kyle deveria ter a altura de Alan. Era forte e amedrontador. Foi como ver o ruivo diminuir de tamanho conforme Kyle se aproximava. “Você tem essa opção.” Kyle ponderou, alisando a barba do queixo. “Mas para sair daqui, terá de satisfazer algum dos seus veteranos, naquela antessala, da forma que ele preferir. Você pode até escolher. Quem sabe pega alguém bonzinho?”
O ruivo ficou completamente vermelho e retornou ao círculo.
“Não adianta ir contra eles. Esses caras querem humilhar alguns calouros, para que, ano que vem, os mesmos calouros queiram humilhar os novatos. É assim que as coisas funcionam. Essa é uma irmandade proscrita. Eles devem quebrar muitas regras, mas se protegem por trás da Stigma.” Andreas sussurrou, enquanto éramos ordenados a baixar as calças.
“O-Os três rapazes que me assediaram... Estou vendo eles nessa sala.” Eu falei trêmulo, apavorado. “Andreas... Não quero perder. Mas não quero que ninguém perca isso. Isso é terrível. É humilhante!”
“Sim. Mas eu darei um jeito.”
“Quer que eu abaixe as suas calças por vocês, calouros?” Avery perguntou a mim e Andreas, então nós dois não tivemos escolha a não ser obedecer, ou as coisas ficariam ainda piores. Eu abaixei meu rosto e ardi de vergonha ao ficar nu da cintura para baixo, assim como os outros garotos.
Apertando os olhos, toquei no pênis do garoto à minha direita, ao mesmo tempo em que sentia Andreas tocar no meu. Lágrimas começaram a brotar por trás das minhas pálpebras. Por que tudo estava sempre dando errado comigo? Já não bastava o que tinha acontecido? Por que eu e Andreas não fugimos quanto tivemos a chance? Por que saímos sem avisar ninguém, para início de conversa?
Chris, seu idiota!
“Desculpe.” Andreas falou ao começar a me tocar. Eu puxei o ar e me esforcei ao máximo para não gozar tão rápido quanto havia acontecido no Lyric Convent. Meu corpo reagiu ao toque de Andreas. Apesar de existir o problema de me excitar mais com ele do que com algum desconhecido, eu ainda preferia que fosse Andreas fazendo aquilo e não alguém com quem eu nunca havia trocado um oi.
“Vamos ver quem será o primeiro a perder as estribeiras, huh? O ruivinho aqui parece estar gostando bastante...” Um dos rapazes, acho que Frederic, falou enquanto os outros observavam. A sala parecia terrivelmente silenciosa, então a voz dele se sobressaiu enormemente. Gemidos contidos e respirações pesadas enchiam aquele círculo, também.
Quando olhei para o ruivinho, fiquei com pena. O garoto que o masturbava parecia tentar a todo custo fazer ser o primeiro a gozar, e Frederic estava atrás dele, segurando-o pela cintura e parecendo falar algumas obscenidades em seu ouvido, ou assim eu imaginei, considerando-se a forma como o ruivo parecia vermelho e desconfortável.
Não que eu estivesse confortável. Longe disso. Eu poderia morrer naquele momento, e ir para o além seria melhor do que continuar ali. Mas Andreas estava me tocando com bastante suavidade, sem tentar arrancar-me grandes reações, e eu também não estava sendo muito eficiente em relação ao garoto à minha direita. Talvez eu conseguisse aguentar por algum tempo.
Porém as coisas pioraram quando um veterano também parou às minhas costas.
E não era qualquer veterano — era Kyle.
“Está aguentando mais do que eu esperaria para alguém com carinha de inocente como você, Christian.” Ele murmurou no meu ouvido. “Talvez o seu amigo aqui do lado não esteja fazendo um bom trabalho, e esteja te poupando um pouco...? Mas isso seria injusto com os outros, não seria?” Kyle sugeriu num tom rouco e me abraçou por trás. Para meu horror, ele afastou a mão de Andreas e passou a ele próprio me masturbar. “Não está honrado? Recebendo uma handjob do líder da irmandade. Não são todos que ganham minha atenção dessa forma, mas você atiçou minha curiosidade com aquela notícia no jornal.”
“P-Pare...!” Eu pedi fracamente, tentando afastar sua mão. Ele ergueu meu queixo e olhou-me de cima, abrindo um largo sorriso.
“Adorarei ter você como meu servo nesse próximo ano. Nos divertiríamos muito juntos, não acha?”
Eu entreabri os lábios pelo terror da ideia de servir como brinquedo dele pelo resto do ano, mas um gemido alto chamou a atenção minha e de Kyle, poupando-me de ter de dar a ele alguma resposta.
Andreas acabara de gozar ao meu lado e, de cabeça baixa, ele caiu de joelhos como se estivesse exausto demais para continuar em pé. Os outros garotos pararam o que faziam e pareceram tremendamente aliviados por terem aguentado até ali. Eu, por outro lado, estava chocado e paralisado.
“Ora, ora!” Kyle falou e me soltou, concentrando toda sua atenção em Andreas. Eu subi minhas calças e arregalei os olhos ao ver Kyle parar na frente de Andreas e erguer-lhe o queixo com o dedo indicador. “Até que você não é nada mal.” Ele sorriu satisfeito. “E o que os outros estão fazendo recolocando as calças? O loiro aqui irá recolher os louros da derrota!” Kyle exclamou a ordem. “Você, agora, trate de engolir a porra de cada um deles. Nunca vi alguém perder esse jogo tão rápido. Que sem graça.”
Então minha ficha caiu.
Quando Andreas me agarrou no Lyric Convent, ele havia demonstrado total domínio da situação. Naquele dia, eu percebi que ele era um cara experiente, não era nenhum virgem, muito menos nenhum santo. Andreas nunca teria perdido o controle tão facilmente. A não ser que ele quisesse perder o controle primeiro.
Para evitar que eu o perdesse nas mãos de Kyle.
“Andreas...” Eu murmurei angustiado, sentindo um peso em meu peito dificultar a entrada de ar em meus pulmões. Em um acesso de raiva, eu gritei. “Não, você não pode obrigá-lo a isso! Pare com isso! Isso tudo é ridículo! Como todos vocês podem fazer isso com os calouros?! Vocês são nojentos! Um bando de escrotos. Quando o diretor ficar sabendo sobre isso, eu juro que...!”
Kyle me puxou contra o corpo dele e me segurou por trás, colocando-me de frente para Andreas.
“Você jura o quê?” Ele perguntou no meu ouvido. Eu engoli a saliva espessa que havia em minha boca. “Parece que a brincadeira aqui não agradou o japinha! Será ciúmes desse loiro? Acho que você quer ser o primeiro a ganhar uma oral do perdedor, que tal? Sim, sim... Vamos começar por você, então.” Kyle decidiu e, enquanto eu me sentia zonzo e furioso, além de extremamente frustrado, Andreas lançava um olhar cheio de escárnio para Kyle. “E se você contar algo para o reitor...” Ele começou a ameaçar, mas houve um estrondo na porta.
Todos olharam na direção do som e, para alívio de alguns e raiva de outros, a porta estava escancarada e por trás dela dez garotos apareceram: Oliver, David, Alan, Derek, Jeremy e Jensen foram os que eu reconheci entre eles. Mas quem entrou primeiro na sala foi Jensen, o melhor amigo de longa data do meu irmão. Ele parecia muito mais líder do que Kyle.
“Kyle... Quem odeia sua irmandade fajuta nessa universidade é o Lance. Mas agora, você conseguiu ganhar a inimizade da Magna também. Solte o Christian agora, assim como todos os calouros que não quiserem continuar aqui. Do contrário, as coisas vão começar a ficar feias para você e seus amiguinhos.”
Kyle me soltou e ergueu as mãos para o ar.
“Que isso, Jensen... Ninguém estava aqui contra a vontade. Assim como vocês chamam calouros para a Magna, nós temos o mesmo direito.”
“Mentiroso cagado de uma vaca.” Meu irmão avançou parecendo pronto para encher Kyle de porrada. “Vou ter que dar outra surra em você?! Já não bastou a que levou ano passado?”
Naquele momento, eu me senti um completo imbecil. Eu só sabia dar dor de cabeça para meu irmão...! Kyle provavelmente estava me usando para se vingar de Oliver. Lágrimas me vieram aos olhos e eu corri para meu irmão, abraçando-o quando o alcancei. Meu coração estava cheio de culpa. Oliver passou um braço por meus ombros, parando em meio ao seu avanço cheio de raiva.
“Me perdoa.” Pedi.
Oliver suspirou fundo, rápido e curto.
“Alan, leve ele daqui, por favor. Eu não quero meu irmão nem mais um segundo próximo dessa escória.” Oliver me empurrou para Alan, que me segurou pelos ombros.
“Mas, Oliver-!” Eu chamei.
“Alan, apenas o leve!” Oliver gritou.
Alan hesitou, mas passou um braço por minhas costas e me levou dali.
“Não! Meu irmão está machucado! Não quero que eles briguem!” Eu falei, angustiado. “Ele já apanhou uma vez por minha causa... Uma vez não... Várias...! Por favor, Alan!” Eu me debati, entre lágrimas.
Alan parou quando já havíamos descido um lance de escadas. Se ajoelhou em minha frente e me olhou fundo. Acariciou meu rosto e limpou uma lágrima.
“Vai ficar tudo bem. Eles não vão brigar. Jensen sabe manter a calma em momentos como esse e, principalmente, controlar o seu irmão. Acho que ele é o único a conseguir controlar o Oliver, na verdade. Mas eles precisam ter um acerto de contas.” Alan segurou meu rosto. Era estranho eu não precisar erguer a cabeça para ver-lhe a face. “Confia em mim?” Ele perguntou.
Eu hesitei por alguns segundos.
“C-Confio.” Murmurei. “E Andreas?”
“David está lá. Acredite, ninguém irá proteger Andreas melhor que ele. Andreas ligou para ele... Foi graças a isso que pudemos encontrá-los.”
Eu assenti lentamente, tentando me acalmar. Alan se levantou e me guiou de volta ao meu dormitório. Assim que chegamos, eu corri para o banheiro e fui direto para baixo da água. Me lavei repetitivamente, tentando tirar os toques de Kyle de meu corpo. Quando enfim saí do banheiro, me surpreendi por ainda encontrar Alan ali.
“Pensei que fosse voltar para lá.” Falei baixinho.
“Tive medo de te deixar sozinho. Sei que os outros estão bem. Jeremy está me deixando a par de tudo por celular. Ele tagarela até por mensagens de voz.” Alan sorriu de leve, mas eu não estava exatamente no humor para sorrisos. Caminhei para cama e me sentei nela, encolhendo minhas pernas contra meu corpo e apoiando minhas costas na parede. “Já estávamos procurando por você desde antes... Seu irmão ficou preocupado com seu sumiço. Tentava ligar, mas você não atendia.”
Eu abaixei o rosto, afundando-o entre meus braços.
“Eu e Andreas fomos a um parque de diversões. Depois passamos no cinema. Mas quando chegamos a Ketteridge... E-Eles nos abordaram... Num primeiro momento achamos que eles eram da Sigma, m-mas...” Eu solucei. Oh, Deus, por que eu parecia estar sempre chorando? Tentei engolir meus soluços e apenas respirei fundo.
Senti a cama afundar perto de mim e logo a mão de Alan acariciou meus cabelos.
“Não foi sua culpa.”
“Eu deveria ter deixado meu celular ligado, e avisado que iria sair. Eu sou um péssimo irmão! Oliver está sempre se machucando por minha causa!” Eu ergui meu olhar desesperado para Alan. Meu rosto já devia estar uma bagunça, ainda que eu recém houvesse saído do banho. “Ele deve me odiar...” Choraminguei.
“Oliver te ama, Chris. Ele não sabe demonstrar isso, mas ele se preocupa e te protege porque te ama. Você é o calcanhar de Aquiles dele. Uma das únicas fraquezas daquele irritadinho.” Alan se acomodou ao meu lado e passou um braço por meus ombros. Em outros momentos eu morreria de vergonha, mas agora eu só queria me sentir um pouco mais seguro e deitei minha cabeça no peito dele. “Ele fica frustrado quando não consegue te proteger.”
“Eu queria não precisar de tanta proteção. Queria ser forte e corajoso, como quando eu ando nos brinquedos dos parques de diversão.” Eu falei e só depois percebi o quanto aquilo devia ter soado estranho. Não me importei, apenas funguei e limpei meus olhos. “Estou cansado de ser um completo covarde...”
“Você pode ser corajoso e forte. Na verdade, você já é. Ouvimos do lado de fora você chamando Kyle e os outros de escrotos e os ameaçando para o reitor. Foi o único a erguer a voz, não foi? E você ainda se acha um completo covarde?” Alan perguntou retoricamente, fazendo-me erguer as sobrancelhas com certo pavor. Eu havia mesmo xingado aqueles grandalhões? “Talvez tudo já esteja dentro de você, não acha? Só basta você encontrar esse seu outro lado, como fez hoje.”
As palavras de Alan acabaram comigo. Quando, em mil anos, alguém havia me dito que eu poderia ser corajoso? Que eu poderia ser aquilo que eu gostaria de ser? Que eu não era um estorvo? Quem já havia me abraçado daquela forma enquanto eu chorava e molhava a camiseta alheia ao esconder meu rosto em seu peito? Ninguém.
Ninguém até aquele momento.
“Cara, quase saiu briga, mas no fim Jensen deu um jeito. Ele socou Kyle e o derrubou com um único golpe. Isso fez todos pararem. Até o Kyle se rendeu. Cara, foi épico! Foi pá-pum! Cena de filme mesmo. Aí os calouros saíram com a gente, e deixamos os fracassados para trás. Oliver está brigando com Jensen por ele não tê-lo deixado socar Kyle. Acho que vamos todos para a torre do relógio para discutir se levaremos isso ao reitor. Vai da decisão dos calouros, eu acho. Hei, o que você acha? Câmbio, desligo.”
Eu ri quando a mensagem de voz de Jeremy terminou.
“Como eu disse, um completo tagarela.” Alan reforçou. “E tudo acabou bem.”
Ficamos em um silêncio confortável por vários minutos e, depois de tudo aquilo e de um dia tão cheio, eu já estava quase pegando no sono. Se não fosse pela presença do Alan, provavelmente eu estaria tendo flashbacks do momento em que Kyle me tocou à força, então era bom tê-lo ali.
Por isso, quando senti Alan se remexer e tentar se afastar, eu abri os olhos e o encarei cheio de dúvidas.
“Acho que te deixarei dormir agora.” Ele explicou. “Oliver deve estar chegando daqui a pouco.”
“Alan!” Eu puxei a manga de sua camiseta comprida. Ele me olhou, aguardando. “E-Eu... M-Muito obrigado... Por ir me salvar e... Ficar aqui comigo...” Falei um pouco atrapalhado, tentando vencer minha timidez. “C-Como eu posso te agradecer? Eu estou te devendo uma...”
“Hmm...” Alan pensou por um momento. “Acho que um beijo de agradecimento já nos deixa quites.” Sorriu.
Eu abri e fechei a boca algumas vezes, sentindo meu rosto ficar vermelho. Ele estava mesmo me pedindo aquilo? Por que ele iria querer... Ah deus, mas eu não podia negar, podia? Ele havia feito tanto por mim naquela noite! Seria muito mal-agradecido da minha parte negar. E era só um beijo. Ok, só um beijo não era problema. Ou era? Não, não era. Ele só queria um agradecimento. Isso! Só um beijo de agradecimento, não era nada além disso.
Eu me aproximei dele e, com o coração retumbando, segurei seu rosto. Minhas mãos tremiam. Alan franziu de leve a testa, mas eu logo fechei os olhos, me inclinei e o beijei. Deu para sentir o gosto salgado dos meus lábios contra os deles, mesmo que não tivesse durado mais do que um segundo, já que eu logo me afastei, com meus olhos arregalados.
Eu havia mesmo o beijado?
“Olha... Eu estava esperando por um beijo na bochecha, mas esse também não foi nada mal.” Alan sorriu daquela maneira que era quente, mas tencionava não constranger ninguém. Porém, era esse o exato tipo de sorriso que poderia deixar uma pessoa extremamente acanhada, muito mais que o mais safado dos sorrisos.
“Oh, meu deus...!” Eu murmurei e levei minha mão à boca, tapando-a. “Ai, que vergonha! Ai...!” Eu definitivamente queria morrer agora. Muito mais do que quando estava naquela sala com aqueles veteranos pervertidos e malucos. Eu poderia sair correndo e me atirar da janela. Eu só precisava cometer suicídio o mais rápido possível! “Sai daqui, Alan!” Eu peguei o travesseiro e bati no rosto dele.
“Hei!”
“Sai! Sai! Sai! Sai daqui!” Continuei batendo nele com aquela arma que estava longe de ser letal e, quando ele se levantou rindo e correu para a porta, toquei o travesseiro em direção a ele. Infelizmente, o travesseiro bateu na porta já fechada.
Depois de respirar de alívio, eu pulei da cama, corri e peguei meu travesseiro de volta. Nesse momento, porém, a porta reabriu.
“Chris, você não precisa ficar envergonhado, eu-“
“Sai, Alan!” Eu bati a porta impedindo-o de continuar falando. Só não a chaveei porque meu irmão voltaria depois, e aí eu teria de encarar a raiva dele...
Morrendo de vergonha, eu corri para a cama e me deitei, abraçando o travesseiro.
“Chris, seu idiota, idiota, idiota...!”
Mais tarde, liguei para Andreas. Ele estava bem e pediu desculpas. Eu neguei com a cabeça para mim mesmo. Era eu quem estava em débito com ele. Ou talvez apenas estivéssemos quites, como ele próprio falou pelo celular.
Meu irmão não apareceu naquela noite, deixando-me preocupado, mas Jensen respondeu a uma mensagem minha afirmando que os dois estavam juntos e bem.
Então me restou trancar a porta e dormir, ainda sentindo os lábios formigarem por conta daquele selinho. Como eu posso ser tão idiota?!
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