Notas iniciais
MUITO obrigada à Tsuito Lena pela recomendação super lindinha!

Lawrence

Sentando na cadeira em meu camarim no Lyric Convent, abri no meu iPad o youtube e procurei por uma parte do musical da Pequena Sereia, da Broadway, em que o Sebastião cantava. Observei e escutei por alguns minutos e depois suspirei, olhando para minha imagem no espelho. Por Deus, aquele cantor era péssimo! Ruim a ponto de eu sentir ganas de atirar meu iPad na parede para calar aquele sotaque ridículo com o qual ele cantava.

“Farei muito melhor do que isso.” Murmurei deslizando meu dedo pela tela para tirar aquele vídeo horrível.

“Isso eu vou querer ver. Personagens infantis exigem mais carisma do que o que você tem.” Alguém falou e eu pulei na cadeira pelo susto. Olhei atrás de mim através do espelho e vi Tristan à porta do camarim, de braços cruzados e um sorriso torto no rosto.

Eu imediatamente me levantei e caminhei até ele.

“O que está fazendo aqui?!” Perguntei irritado. A simples presença dele me tirava do sério, principalmente depois da ameaça velada que havia me feito em relação à minha irmã. “Se veio aqui para alguma gracinha...” Apontei o dedo para o peito dele.

“Se bem que Sebastião é o cara certinho e chato que tenta impedir a pequena sereia de ir à superfície. Donatella até que acertou te dando esse papel.” Ele debochou, ainda sorrindo, e eu puxei o ar, olhando para cima enquanto implorava aos céus por um pouco de paciência.

“Fala logo o que quer, Tristan, ou vá pro inferno. Ou melhor, vá para o inferno de qualquer maneira.” Eu cruzei também os braços, encarando-o nos olhos. “E não tente dar uma de sabichão comigo.”

“Eu, sabichão?” Ele perguntou irônico. “Jamais.” Deu alguns passos para frente, me obrigando a recuar alguns para trás para evitá-lo de invadir meu espaço pessoal. “Eu vim aqui falar sobre você colocar uma pessoa a mais no meu quarto. Você pode até me odiar, mas foi golpe baixo alocar um terceiro morador ali junto com Julian.”

“Por mais que você acredite que o mundo gira em torno do seu umbigo, Tristan, não foi por sua causa que eu coloquei Colton lá. Por mais que me divirta imaginar você apertado naquele quarto com mais alguma pessoa, eu conheço a situação do Julian e levo isso em consideração.” Eu falei empinando o nariz e tentei passar por ele, pois aturar Tristan por mais do que alguns segundos era uma verdadeira provação para mim.

O abusado, no entanto, me segurou pelo braço.

“Como pode levar em consideração, se colocou mais alguém para bagunçar o quarto?” Ele manteve o aperto firme em meu braço e, quando eu virei o rosto, nossos narizes quase se tocaram. Como ele podia ser tão desagradável?

“Isso é assunto entre eu e o Julian.” Sibilei.

“Engraçado você se meter nos assuntos de todo mundo nas Belas Artes, mas se ofender por eu querer explicações sobre as suas decisões que também me afetam.” Ele pareceu perder um pouco da paciência. Nenhum de nós dois nos aturávamos e eu achava que não partíamos para agressão somente porque eu não tenho habilidade alguma em luta corporal, e Tristan tinha plena consciência que se daria muito mal caso me agredisse.

Mesmo com a vantagem que ele tinha agora sobre mim.

“Eu sou presidente do conselho estudantil das Belas Artes, idiota. É minha obrigação zelar pelos estudantes ligados às artes.” Eu puxei meu braço, livrando-me do contato.

“Zelar? O que você faz está mais para incomodar, isso sim.” Tristan rebateu com escárnio.

“Nem todos são irresponsáveis como você, Tristan, que não se mantém na linha e precisa de chantagens para não acabar expulso.” Alfinetei mordaz e caminhei para a porta.

“Nem todos têm a chance de saber algum segredo sórdido para te manter calado, Raskólnikov.” Ele usou o nome extremamente ofensivo pelo qual me chamava, em discussões.

A referência era ao personagem de Dostoiévski, do livro Crime e Castigo. E Tristan realmente me tirava do sério com isso! Ninguém mais, nas Belas Artes, tinha a coragem para me desafiar. Odiado ou não, eu tenho poder nessa esfera da universidade, e muitos me temiam. Mas Tristan sempre foi o rebelde inconsequente que adora me provocar. Eu me voltei para ele e agarrei-o pela gola da camisa.

“Você não ouse contar sobre isso para alguém.” Eu rosnei, mas ele me segurou pela cintura e girou, empurrando-me contra a parede para que eu não fugisse, ou o socasse. Suas mãos apertaram minha cintura com mais força enquanto nos encarávamos, desafiadores, nos olhos.

“Ou você o quê? Irá chorar para a Donatella? Mas ela odiaria saber que o melhor pupilo dela é irmão de uma prostituta... Talvez até você seja um e esconda isso. Será que se eu for até a Casa das Máscaras encontro você lá?” Perguntou, sorrindo.

O som do tapa que dei em seu rosto pareceu ecoar pelo camarim. Mas ele não me soltou e eu não me mexi, enquanto o lado direito do rosto dele adquiria um tom avermelhado pelo impacto. Nós continuamos nos encarando, muito próximos, mas seu hálito de hortelã revirava meu estômago, causando-me náuseas ao tocar em meus lábios, lembrando-me do beijo que ele havia me dado no outro dia – contra a minha vontade.

“Você é um completo otário.” Murmurei, cortando o silêncio e a tensão estranha que surgiu entre nós dois. “Em algum momento, também terei algum segredo seu para usar contra você.”

“Então é tão baixo quanto eu.”

“Nunca disse que sou perfeito.” Contrapus e o empurrei, saindo dali rapidamente, com o coração aos pulos. Minha raiva era tamanha, que eu poderia quebrar um vaso ou quadro antigo e não me importar nem um pouquinho com isso. De preferência, os quebraria na cabeça de Tristan.

Eu tinha muitas coisas para fazer, como começar a ligar para fornecedores em relação às fantasias, maquiagens e tudo que fosse necessário para o musical. Entrar em contato, também, com o pessoal da publicidade e propaganda para divulgar nossa peça. Organizar os ensaios e horários com os estudantes maquiadores, fotógrafos e responsáveis técnicos da iluminação. Entre outras tarefas, como preparar a pequena festa de boas vindas aos calouros, que sempre acontecia ao final do mês em nossa república.

Massageei minha cabeça, achando que poderia enlouquecer. Decidi caminhar um pouco mais antes de chegar à república e tomei um caminho um pouco mais longo até lá. Passando por uma área um pouco menos movimentada, principalmente em um sábado perto do horário de almoço, vi um rapaz e uma garota próximos de um menino gordinho e baixinho, que reconheci como um dos calouros das Belas Artes.

Aproximei-me sorrateiramente, estreitando os olhos para a cena. Os dois eram também das Belas Artes, Jena era do teatro, já Vaughn era relacionado à fotografia e ao desenho. Os dois eram primos de primeiro grau e viviam grudados. Já o calouro parecia intimidado e desconfortável, e foi isso que me fez parar para observar o que acontecia ali.

“Você deveria começar uma dieta se quer conseguir alguma coisa por aqui.” Disse Jena, rindo acompanhada por Vaughn. “Ou será que tentou o papel de baleia nesse musical da pequena sereia?”

“Isso se ele coubesse no palco. Até uma baleia é mais esbelta, Jena.” Vaughn replicou, e eu comecei a espumar pela boca enquanto o calouro mantinha a cabeça abaixada.

Aqueles dois estúpidos e arrogantes imbecis!

“Ouça, bolinha, nenhum cara feio, gordo e atrapalhado como você tem alguma chance na Ketteridge, ainda mais nas Belas Artes. Pelo amor de Deus, coloque-se no seu lugar e procure um curso que combine com você. Dica de veterana.” Jena falou, empurrando o garoto pelo ombro.

“Como nerd excluído de informática, virjão viciado em hentai, por exemplo.” Vaughn riu maldoso, mas se engasgou com a própria risada quando eu entrei em cena, parando ao lado do calouro.

“Sério mesmo, vocês dois? Será que são tão inseguros e pouco talentosos a ponto de precisarem diminuir um calouro para se sentirem melhores com vocês mesmos? Jena, você sequer conseguiu um papel no musical.” Voltei-me para a garota. “Mesmo que o papel de Úrsula fosse cair perfeitamente com seu veneno. E você-“ Olhei para Vaughn. “Está sempre perdendo para o Billie quando o assunto é fotografia.” Ambos pareceram como peixes fora d’água. “Vençam seus próprios defeitos, em vez de apontarem os dos outros.”

“Nós só estávamos batendo um papinho com o calouro, Lawrence. Por favor, olhe para ele. Estávamos ajudando-o. Ele irá quebrar a cara cedo ou tarde aqui dentro.” Jena falou.

“Eu sinto pena de você, Jena. Mas também sinto nojo, então cale logo a boca se não quiser que eu destrua com sua carreira nas Belas Artes antes que você e sua mediocridade dêem um jeito de acabar com ela. Eu estaria fazendo um favor também, não é?” Perguntei com ironia e, colocando uma mão nas costas do calouro, levei-o comigo para longe daqueles dois.

Seguimos o caminho para a república.

“Obrigado...” Disse o garoto.

“Está tudo bem. Aquele tipo de gente me enoja. Precisam diminuir os outros porque não são capazes de conquistar seus próprios objetivos.” Expliquei estafado, pensando que as pessoas das Belas Artes deveriam se apoiar e incentivar – como uma família –, não justamente o contrário. Já éramos suficientemente perseguidos e sofríamos preconceito o bastante do resto da sociedade para guerrearmos de maneira tão baixa entre nós mesmos.

Eu parei de caminhar ao escutar um princípio de choro da parte do garoto e o olhei, vendo-o de cabeça baixa fungando.

“Desculpe. É que... Estou pensando se eles não têm razão. Eu não sou como as outras pessoas aqui. Até meus pais diziam isso, por isso eu fui para a área de informática e me formei em ciência da computação. Só agora tive coragem de tentar perseguir meu sonho de virar compositor... Mas talvez seja apenas isso, um sonho.” Disse o rapaz.

Eu fiquei surpreso ao descobrir que ele já era formado, pois havia pensado que tinha no máximo uns 20 anos. Corajosas, ou inconsequentes, eram as pessoas que largavam uma estabilidade como a que ele tinha por um caminho de incertezas como o das belas artes, mas eu faço parte desse ramo e não o largaria por nada! Como poderia julgá-lo?

Suspirei.

“Não seja estúpido. Dará ouvidos para aqueles dois? É seu sonho, e você tem todo o direito de ir atrás dele. Não, você tem o dever de esforçar-se por isso, se é o que realmente quer. Aparência tem seu peso nesse mundo, eu não irei mentir, mas talento e esforço são muito mais importantes.” Discursei firme, tentando arrancar dele aquele ar derrotista. “Perdedor é aquele que sequer tentou antes de desistir, entendeu?” Ele me olhou impressionado, finalmente erguendo a cabeça. Tinha olhos incríveis por trás dos óculos, os mais bonitos que eu já havia visto. Eram azul-escuros no círculo externo, porém ao redor da pupila brilhavam em um ar esverdeado, como uma aurora boreal.

Ele então sorriu e assentiu, revigorado.

“Você está certo. Irei me esforçar.” Ele afiançou. “A propósito, meu nome é Hector.”

“Prazer, Hector. Sou Lawrence Guerra. Se precisar de alguma coisa, pode me procurar sem receios, ok?” Eu garanti, imaginando que ele ainda iria precisar, e muito, da minha ajuda.

E nós continuamos nosso caminho para a república, enquanto ele me contava um pouco mais sobre a vida dele.

XxxX

Encontrei Julian em sua poltrona favorita na república, desenhando em sua longa caderneta de desenhos com o mesmo ar absorto de sempre. Ele havia evoluído muito desde que entrara na faculdade, mesmo que sempre limpasse com um pano úmido a poltrona de couro preto antes de sentar-se nela.

Aproximei-me dele e puxei um banquinho para acomodar-me ao seu lado.

“Precisa saber onde alguém está?” Ele perguntou, erguendo o olhar para mim.

“Não, não. É sobre seu novo quarto. Agora com três no mesmo dormitório, consegui pressionar o cara responsável pela alocação dos quartos para conseguir um apenas para você. Aquele sótão lá em cima será reformado e limpo, e novos móveis serão comprados. Você não precisará dividir seu quarto com mais ninguém.” Contei-lhe com certo orgulho. Há dois anos eu tentava conseguir um quarto único para Julian devido ao seu problema psiquiátrico, mas era quase impossível conseguir tamanho privilégio, principalmente quando estávamos sempre com todas as vagas preenchidas na república e Julian recusava-se a entrar com um processo contra a universidade.

Mas ao colocá-lo com mais uma pessoa no quarto, as negociações foram facilitadas.

“Obrigado, Lawrence.” Ele agradeceu. “Sabe quanto tempo irá demorar?”

“Acho que uns três meses, mas pelo menos agora é uma certeza.” Eu afirmei, e ele assentiu, agradecendo novamente e voltando para seu desenho, algo similar a algum lugar parecido com o mundo de Alice no País das Maravilhas. Era um pouco perturbador, mas muito melhor do que no início, em que ele desenhava algumas pessoas aleatórias ou das Belas Artes em cenários sombrios e melancólicos.

Eu me levantei e teria chamado os gêmeos para irmos almoçar juntos, mas eles próprios me encontraram pelo caminho.

“Conseguimos a lista!” Lorenzo falou, entregando o papel em minhas mãos. “São cerca de 20 nesse início de semestre. Os preços estão exorbitantes!”

Eu olhei para a lista de nomes marcados com os preços e praticamente senti meus olhos pegarem fogo enquanto amassava o papel em minha mão. Era a lista do ‘Quadro de Conquistas’ da fraternidade Sigma. Havia alguns nomes de fora das Belas Artes, mas a maioria eram de garotas e alguns garotos nossos, pois éramos considerados ‘intocáveis’ na visão dos outros cursos.

“Aquele filho da puta do Lance...” Eu murmurei, sentindo todo o ódio que eu guardava dele aflorar em minha pele. “Marion está nessa lista! Se algum idiota começar a dar em cima dela justo agora, quando temos tão pouco tempo até o musical...! Ah, inferno!” Agarrei meus cabelos compridos e caminhei até nosso quadro de avisos, no salão da república, e fixei ali a lista. “Quero cópias disso espalhadas por todos os lugares frequentados pelos alunos das Belas Artes.”

“Por mais que eu ache isso um absurdo, ao menos fiquei sabendo que eles usam o dinheiro para boas causas, como doações a instituições carentes, eventos cunho literário, científico e vários outros, de inúmeras áreas.” Romero comentou, simplista. Ele sempre tentava ver o lado positivo das ações humanas, mas eu não concordava que boas ações justificavam brincar com os sentimentos das pessoas, ou incitá-las a quebrar regras.

“E gastam o dinheiro também com festas, ou com aquele encontro anual obsceno entre as fraternidades, seja lá como chamam! Aquilo é pura putaria, álcool e perda de tempo!” Eu exclamei, encolerizado. “Divulguem a lista. A partir de amanhã teremos uma conversa séria com cada uma das pessoas nela, para deixá-las preparadas para o que pode vir disso.” Falei, pegando uma cópia idêntica da lista das mãos de Romero e me afastando dos dois.

“Aonde está indo?!” Lorenzo gritou.

“Ter uma conversinha séria com certo crápula!” Gritei-lhe em retorno, enquanto as pessoas na república abriam espaço, quase pulando para fora de meu caminho. Todos reconheciam o problema de deixar um ruivo irritado, principalmente quando esse ruivo era eu.

XxxX

Bati várias vezes na porta do apartamento antes de ouvir barulhos de chave do outro lado. Lance não morava nos dormitórios. Ele havia alugado, ou comprado, eu não sabia, um apartamento num condomínio próximo de Ketteridge. Eram uns quinze minutos de caminhada, que eu deveria ter feito em cinco, tamanha era minha raiva. O lugar era chique, enorme e extremamente caro. Apenas os alunos milionários moravam ali, ainda que houvesse alguns ricos mais humildes vivendo nos dormitórios.

Eu sabia que Lance costumava almoçar em seu apartamento, pois ele adorava cozinhar e preparava sua própria comida praticamente todos os dias. Como eu sei disso, não me pergunte, são coisas das quais prefiro esquecer-me. Mas devido a isso, não foi surpresa quando a porta abriu e a primeira coisa que percebi foi o aroma de algum prato delicioso atingindo minhas narinas. A segunda foi ver Lance de avental e os cabelos lisos ainda mais rebeldes, por provavelmente não tê-los ajeitado ainda naquele dia.

“Lawrence.” Ele sorriu entre surpreso e curioso ao ver-me. “Não achei que te veria novamente à porta do meu apartamento, ao menos, não por vontade própria.”

Eu joguei a lista na cara dele.

“Isso tem de acabar, Lance!” Falei, nem um pouco simpático. Minha vontade era estapeá-lo, como eu havia feito com Tristan. “Como pode continuar permitindo uma coisa dessas? Nós tínhamos um trato! O nome de Christian, por três meses sem vocês da Sigma ferrando com gente das Belas Artes.” Eu o lembrei em acusação.

Lance pegou o papel e o avaliou por um momento.

“O trato era que eu não permitiria mais nenhuma reportagem, no Roy Byron, sobre vocês das Belas Artes. As apostas não estavam incluídas, mesmo porque... Eu posso ser o líder da Sigma, mas essa é uma tradição de dezenas de anos que eu não posso quebrar. Estudiosos, literários, filósofos, intelectuais... Todos se curvam e querem experimentar um amor com as artes.” Lance aproximou-se, mas diferentemente do que havia acontecido com Tristan mais cedo, eu não consegui me afastar.

Meu coração se agitou como um idiota.

“Vocês só querem apostar entre vocês. É uma coisa egoísta e insensível.” Eu retruquei, encarando-o.

“Você adora ignorar todos os casais que essa aposta já formou, não é? Temos Lucian e Patricia, Kyle e Bonnie, Barbra e Joshua...” Ele começou a enumerar.

“Você mesmo disse no outro dia que era tudo brincadeira, agora está falando como se fosse algo sério! Decida-se!” Exclamei, começando a hiperventilar de leve. “E não chegue tão perto.”

“Para alguns é coisa séria, para outros não, assim como tudo na vida. Onde conseguiu essa lista?” Ele perguntou, erguendo o papel.

“Isso não interessa.” Eu falei. “Você sabe que eu tenho meus métodos.”

“Eu sei, mas adoraria descobrir mais sobre eles.” Ele se afastou antes que levasse um chute entre as pernas. “No outro dia, você disse para eu avisá-lo se eu descobrisse algo sobre Andreas. Por que não entra? Eu tenho algumas novidades.” Ele deu espaço para que eu entrasse.

Hesitei, nervoso com a ideia de que ficaríamos juntos no apartamento dele, mas minha curiosidade acabou me vencendo. Precisava saber qual o poder de Andreas para cima do diretor e até mesmo com o jornal, visto que Lance não havia publicado o nome do loiro na notícia.

O apartamento dele tinha uma vista incrível da cidade e era todo decorado da maneira mais refinada possível, em tons claros na medida certa. Era lindo e aconchegante ali, luxuoso sem ser extravagante ou pedante, e certas memórias vieram à mente, tornando minhas pernas fracas e meus olhos úmidos ao ver e aspirar o aroma daquele ambiente.

[...]

Chovia de leve naquele domingo.

Era um dia aborrecido, com nuvens que serviam apenas para acinzentar o céu e um chuvisco que apenas atrapalhava umedecia as roupas para aqueles que saíam sem guarda-chuvas. Mesmo assim, a vista do apartamento de Lance era incrível e eu imaginei como seria em dias de tempestade, com raios explodindo entre as nuvens pretas.

“É lindo aqui.” Eu comentei, aproximando-me do parapeito da sacada coberta, onde havia uma sala de estar e, seguindo pela lateral, uma mesa em frente à entrada que levava à cozinha. Sobre o sofá, havia um livro aberto na metade, confirmando o que ele havia me dito sobre adorar ler em momentos de lazer e relaxamento.

Estremeci ao sentir Lance parar atrás de mim e colocar as mãos sobre as minhas, aspirando o perfume em meu pescoço.

“Você gosta? Pode vir aqui sempre que quiser...” Ele sussurrou. “Cozinharei para nós dois, e não apenas para mim mesmo.”

“Você cozinha? Pode me explicar como um milionário mimado como você aprendeu a cozinhar?” Eu perguntei, rindo e encolhendo o ombro, pois o nariz dele roçando ali me causou cócegas.

“Que preconceito com milionários mimados.” Ele soltou o riso pelo nariz, arrepiando-me ainda mais. “Eu costumava ser um garoto curioso e gostava de espiar a cozinheira lá de casa preparar a comida. Ela falava bastante e começou a me explicar algumas coisas... Quando completei dezoito anos, morei um ano sozinho na França, em um intercâmbio cultural. Lá aprendi a me virar e desenvolvi certa paixão pela culinária.” Ele explicou, abraçando-me e começando a distribuir beijos por meu pescoço de maneira lenta, sem pressa, como se saboreasse minha pele.

Eu suspirei, fechando os olhos. Nunca havia experimentado esse tipo de carinho antes em minha vida, mas nos braços de Lance eu me sentia, pela primeira vez, seguro. Não importava o que falavam sobre ele – que ele era manipulador e inescrupuloso. Havia esse lado nele que apenas eu conhecia, e por isso eu sabia que podia confiar nele, mesmo que nos conhecêssemos há apenas três meses.

“Vou adorar preparar algo que eu adoro para outra de minhas paixões.” Ele murmurou, e suas mãos começaram a acariciar meu corpo. Meu corpo esquentou com sua declaração boba, e eu suspirei, descansando a cabeça no ombro dele para dar mais liberdade os beijos mais ousados em meu pescoço. Seus dedos longos entraram por baixo de minhas roupas, acariciando meu abdômen.

Eu pude sentir sua ereção pressionada entre meus glúteos e estremeci, sentindo-me relutante e entregue ao mesmo tempo. Minha mente trabalhava como um turbilhão a vapor, pois eu lembrava de todo meu passado complicado e obscuro, e do quanto aquela entrega poderia desestabilizar o mundinho perfeito que eu havia criado em minha fuga.

“Eu não estou jogando aqui, mon petit.” Lance sussurrou charmoso, e girou-me dentro de seu abraço. Nossos lábios se encontraram, sedentos, antes que eu pudesse entender o que ele queria dizer com isso, e nossos corpos se chocaram de maneira prazerosa. Eu o abracei por cima dos ombros, afundando minhas mãos em seus cabelos macios, e ele me segurou com força, aprofundando o beijo, incitando minha língua de maneira sedutora e provocante.

De novo não tinha pressa, mas era suficientemente forte e quente e tentador... E eu puxei com mais vigor contra mim, ansiando por mais. Todo meu corpo queimava por ele, e pela primeira vez estávamos em um lugar em que tínhamos tanta liberdade e privacidade quanto ali, no apartamento dele. Lance intensificou a maneira como me tocava, marcando minha pele, e eu gemi, não conseguindo resistir quando ele deixou meus lábios e começou a beijar meu pescoço enquanto abria os botões de meu colete e camiseta...

[...]

“Lawrence?”

Eu coloquei minha mão no coração, puxando o ar. Havia me distraído com as lembranças, e isso era vergonhoso e humilhante. Balancei a cabeça e as empurrei para algum lugar mais profundo que o Tártaro, da mitologia grega, em minha mente e o olhei fingindo que nada me afetava. Os olhos de Lance também pareciam vívidos com recordações antigas.

“Diga-me logo o que descobriu sobre o garoto. Eu não tenho o dia todo para perder com alguém como você.” O estapeei com palavras, sentindo-me melhor comigo mesmo ao desprezá-lo dessa maneira.

“Quem sabe você almoça comigo, e eu poderei te contar as novidades.” Ele sugeriu, caminhando para a cozinha como se eu já houvesse aceitado seu convite. Eu apressei meu passo, seguindo-o, querendo dizer-lhe que não almoçaria com ele de jeito nenhum, mas o cheiro era ainda mais delicioso na cozinha. “Estou quase terminando. Questão de alguns minutos.” Ele disse. “É omelete recheado e alguns legumes... Você me pegou de surpresa, se não teria preparado algo mais elaborado.”

“Eu não quero nada elaborado vindo de você. Provavelmente seria venenoso.” Eu o cortei, torcendo os lábios, mas isso tirou dele uma risada breve, ainda que sua expressão parecesse ligeiramente chateada.

“Você pensa as piores coisas de mim, Lawrence. Não costumava ser assim.” Ele comentou deixando o comentário pesar na atmosfera da cozinha. Meu maxilar trincou e eu o olhei com raiva.

“Não ouse tocar nesse assunto. Foi você, Lance, quem estragou tudo. Foi você quem-“ Minha garganta fechou por completo e, com medo de as palavras tremerem se eu insistisse naquilo, saí da cozinha, indo para a sacada em busca de um pouco de ar.

Respirei fundo, olhando para a cidade, e consegui me acalmar. Acabei sentando-me à mesa, sem entender por que não ia embora, simplesmente. Nem mesmo informações sobre o loiro misterioso deveriam ser suficientes para me manter ali, naquele antro de recordações desagradáveis e dolorosas.

Lance serviu o almoço alguns minutos depois, e sentou-se à mesa junto comigo. Mesmo relutante, eu peguei os talheres e levei um pedaço da omelete à boca. Lembrei-me imediatamente do quão bem Lance cozinhava e suspirei de leve, fechando os olhos por um momento sem conseguir me segurar. Deus, eu adoro um prato de qualidade.

“Às vezes, quando como sozinho, sinto saudades dessas suas expressões ao saborear algo que eu preparei.” Lance comentou, olhando-me de uma maneira que me arrepiou, por parecer assustadoramente sincera e saudosa, como a de alguém que admira uma obra de arte. “Sinto falta de suas outras expressões também.”

“Não estou aqui para ouvir isso.” Me levantei, decidido a ir embora.

“Desculpe.” Ele falou rápido, segurando meu pulso. “Fique. Não falarei mais nada sobre isso.”

Eu não queria, mas acabei por sentar-me novamente, o que me fez perceber o quanto eu ainda era ridiculamente fraco aos pedidos dele. Só esperava que ele não percebesse, e que eu nunca mais agisse como estava agindo agora. Fraco. Eu odiava sentir-me fraco, principalmente depois de Lance destruir tudo que restava de romântico em mim.

“Fale-me sobre Andreas e por que não o colocou na reportagem.” Mandei seco.

“Ele é filho de uma família pobre, tem uma irmã doente, e um irmão drogado. O pai é paraplégico, e a mãe, ao que parece, tem algum quadro psiquiátrico mal-diagnosticado. Mas isso eu descobri depois... Sua irmã Jessica, curiosamente, pediu ao Chase para que não publicasse nada sobre ele, e Chase garantiu que me conseguiria outra reportagem importante para compensar. Eu dei uma pesquisada sobre Andreas e descobri isso que já lhe contei. Achei que seria bom poupar um garoto com um histórico familiar tão problemático.” Ele deu de ombros e bebeu um pouco do vinho que havia trazido, em duas taças. “Alguma ideia de por que Jessica pediria isso...?”

Eu pisquei, parando de cortar mais um pedaço de omelete. Sim, eu tinha muitas teorias, e Lance provavelmente também tinha suas próprias. Mas eu não pretendia compartilhá-las com ele. Certa culpa ruminava em mim ao entregar aqueles nomes, principalmente ao escutar a repercussão que isso havia causado ao japonês, e agora ao saber sobre a vida do outro garoto, mas eu havia feito o que achava que era certo para proteger, ao menos um pouco, as Belas Artes, e não conseguia me arrepender por completo. Faça o que tem de ser feito, a vida havia me ensinado isso, e não das maneiras mais fáceis.

“Não faço ideia. Eu e minha irmã temos uma relação... complicada.” Falei e continuei a comer calmamente.

“Você nunca me contou por quê. Nunca me contou nada sobre sua família, agora que paro para pensar.” Lance ponderou, olhando-me enigmaticamente.

“Porque não é da sua conta. Não foi antes, e não será agora que contarei. Muito menos agora.” Eu perdi completamente a fome de repente e me levantei, dessa vez realmente decidido a partir. Aquele lugar era sufocante demais, assim como a companhia de Lance. Eu não era hipócrita a ponto de continuar almoçando e trocando figurinhas com ele por muito tempo.

Cheguei até a porta de saída, mas quando eu estava pronto para abri-la Lance espalmou a mão na madeira com um baque seco. Ele estava parado às minhas costas, e eu congelei ao senti-lo próximo de mim, deixando-me fraco. Eu o odiava tanto por isso. Tudo que eu queria era mantê-lo longe. Longe de mim, dos meus pensamentos, do meu peito...

“Você nunca irá me perdoar, não é?” Ele perguntou baixinho.

“Você ganhou, Lance. Lembra-se? Você fez uma aposta, e você ganhou.” Eu me virei para ele, com fogo no olhar. “Ou não se sentiu satisfeito porque não conseguiu me levar para cama, naquele dia em que estive aqui? Foi isso? Não bastou para você, o prêmio veio incompleto!” Lágrimas quiseram transbordar de meus olhos, e eu me apavorei com isso. Havia prometido a mim mesmo que jamais choraria na frente dele novamente, ou na frente de ninguém. Dei-lhe as costas novamente e tentei abrir a porta, mas Lance me impediu e, quando dei conta de mim, estava prensado contra a porta e ele segurava meu rosto.

“Você não entende, não é? Começou como uma aposta, mas depois eu não estava mais jogando. Eu falei isso para você aquele dia.” Ele suspirou e apoiou a testa na minha. “Eu fiquei meses depois que você descobriu tentando te dizer...“

“E a sua palavra é mesmo muito confiável, Lance. Uau, como eu posso não ter acreditado em alguém que apostou me conquistar da maneira mais leviana possível?! Eu sou mesmo um carrasco insensível, como as pessoas dizem! Um bloco de pedra, um assexuado! Você tem noção do quanto essas brincadeirinhas de vocês são humilhantes? Vocês da Sigma me dão nojo por se acharem os maiorais, com algum direito de zombar dos sentimentos dos outros!” Gritei e o empurrei. “Se você quer demonstrar o mínimo de arrependimento... Rasgue aquela lista e acabe com essas apostas. Encontre uma maneira mais saudável de arrecadar fundos para as merdas das festas de vocês.”

“Lawrence...”

Eu não ouvi mais nada do que ele tinha a dizer. Saí daquela casa, batendo a porta, e não olhei para trás.

Notas finais
Nota da Revisora: Lawrence e Tristan nada! Quero Lance sofrendo para reconquistar o Law. :333 Shippo pra caralho! Digo somente uma coisa: Quero! Nota da autora: Obrigada a todos que comentaram! (tinha anotado os nomes antes mas a droga do Nyah comeu isso). Enfim, até mais ;*