Christian

Assim que encontrei uma mesa vazia e não muito grande no refeitório, me sentei, satisfeito pela localização mais discreta. Essa preferência era o resultado de toda uma vida tentando não chamar atenção. Seria pedir demais? Tudo que eu queria era ficar quieto no meu canto, sem atrapalhar ninguém, porém de alguma forma eu sempre terminava metido em algum problema. Dessa última vez, não foi relacionado a valentões. Foi algo muito pior que, no fim, atraiu os valentões.

Eu deveria saber que não teria sossego por muito tempo. A quem eu estava tentando iludir? E o pior era saber que meu irmão havia perdido a chance de participar da seleção para o campeonato de natação por minha culpa, após se machucar na briga... Eu sentia tanta raiva de mim mesmo por me meter em encrencas que, tudo que eu queria, era que ele não gastasse o tempo dele comigo, ou pedisse para outros gastarem.

Alan e o garoto Jeremy estavam ali por que ele havia pedido, eu sabia muito bem disso, e era uma sensação horrível ocupar o tempo das outras pessoas dessa maneira. Tudo que eu queria é que me deixassem sozinho. Eu estava acostumado com isso, saberia me virar. Eu fui pego desprevenido naquele sábado, perto da biblioteca, mas a partir de agora eu ficaria atento. Em breve, aprenderia os melhores lugares da universidade para me esconder, como havia aprendido os da escola. Grande como a Ketteridge é, eu tenho certeza de que existem vários esconderijos ótimos.

Toquei meu pingente enquanto observava com certa ansiedade Alan e Jeremy se aproximarem com suas bandejas. Alan pegara dois sanduíches naturais e um café forte, já Jeremy enchera o prato de frutas e uns pãezinhos pequenos, além de um suco. Eu havia pegado um sanduíche natural e meu café com leite com três gotas de adoçante. Jeremy falava animadamente com Alan, que o escutava com um ar pacato.

Alan era bom naquilo – ele conseguiria deixar qualquer pessoa à beira de um ataque de nervos novamente tranquila e confiante. Eu não sei como ele fazia isso, mas ele simplesmente fazia. Eu tinha certeza de que havia sido por isso que meu irmão praticamente me obrigara a ir com ele ao parque, no sábado. Alan havia sido tão atencioso naquele dia que não importava o que ele fizesse dali em diante, eu provavelmente não conseguiria ficar chateado com ele.

Eu odeio chamar atenção, então obviamente não gostei de ser carregado no ombro por todo o trajeto do dormitório até o refeitório. Não é como se, enorme como Alan era, ele já não chamasse suficientemente a atenção sem algum japa dependurado em um de seus ombros. Mas eu não estava irritado. Eu só queria mostrar a língua para ele e chamá-lo de chato, mas acho que isso não causaria grande impacto, então apenas assoprei meu café com leite e sorvi um pequeno gole enquanto eles se sentavam.

“E aí eu estava dizendo pro meu amigo que anime bom de verdade é Sword Art Online, ou Full Metal Alchemist, mas ele me vinha com aqueles animes como Code Geass e Death Note! Não que eu não goste, mas nesses têm de pensar demais!” Jeremy explicava cheio de trejeitos e vitalidade. Ele olhou para mim. “Você não acha? Você é japa, deve saber tudo de animes.”

“Eu...” Eu realmente me sentia desconfortável com os estereótipos, mas dessa vez eu bem que gostaria que fosse verdade. “Nunca assisti animes. Minha mãe não permitia, dizia que era infantil e bobo demais, e que os personagens eram escandalosos e estúpidos.” Eu murmurei um pouco desanimado, bebendo um pouco mais para ocupar minha boca. O calor do café desceu espalhando-se por todo meu peito, numa sensação reconfortante.

Jeremy me encarou boquiaberto por alguns segundos, até Alan o cutucar de leve.

“CARA!” Ele exclamou e eu jurei que falaria que eu era estranho, filhinho de mamãe, ou que meus pais eram idiotas, mas ele pareceu empolgado. “Vai ser demais te mostrar todos os animes que eu gosto! Vou ensinar um japa sobre animes, e não o contrário!” Ele soltou uma risada alta e meio exagerada. “Isso é demais!” Ele suspirou como se houvesse acabado de comer o melhor doce do mundo, mas então pareceu confuso. “Espera, isso só se você quiser, sabe... Mesmo com sua mãe proibindo e tudo.”

“N-Não...!” Minha voz tremulou apenas um segundo de surpresa. “Você está falando sério?”

“Sim! Meu colega de dormitório odeia animes, e isso certamente quer dizer alguma coisa sobre o caráter dele, sabe. Seria legal ter alguém com quem assistir.” Jeremy inclinou-se sobre a mesa, quase esmagando os pães sobre a bandeja dele. Pisquei achando estar sonhando e depois acabei sentindo meus lábios involuntariamente crescerem em um sorriso largo.

“Seria muito legal!” Eu exclamei, esquecendo de controlar meu tom de voz.

“Demais, toca aí!” Jeremy ergueu a mão sobre a mesa e eu demorei um pouco até entender que ele queria que eu retribuísse o gesto. Sentindo-me lento por demorar tanto, retribuí sem jeito ao cumprimento entusiasmado dele. Eu olhei melhor para Jeremy. Ele não era tão alto e forte, o que definitivamente fazia dele alguém mais confiável. Tinha sardas pelo nariz e bochechas, apesar de ter os cabelos pretos e não ruivos. Mas era branquelo como qualquer ruivo seria.

Não que eu pudesse falar muito.

“Se eu soubesse que te convidar para ver anime era o necessário para conquistar um sorriso seu, teria te levado para uma sessão de anime e não para o parque, no sábado.” Alan comentou calmamente, quase me levando a pular da cadeira ao dar-me conta que ele continuava ali. É claro que ele continua aqui, para onde mais ele teria ido? Pensei abaixando o rosto e ‘descascando’ do plástico meu sanduíche.

“E-Eu sempre quis assistir...” Admiti baixinho. “Mas minha mãe preferia que eu assistisse a programas educativos.”

“Nossa...” Jeremy sussurrou. “E são legais? Eu nunca assisti.” Ele continuou sussurrando, abaixando um pouco a cabeça, mas ainda me olhando. Eu o encarei como se ele fosse louco – talvez ter aceitado assistir animes com ele não tivesse sido uma boa ideia, afinal.

“Por que está sussurrando?” Eu sussurrei também, franzindo a testa.

“Não sei. Foi você quem começou.” Jeremy continuou sussurrando e piscou os olhos cheios de inocência algumas vezes.

Alan explodiu em risadas e novamente eu tomei um susto. Eu não o havia escutado rir daquela forma antes. Ele, no entanto, se recuperou rapidamente.

“Vocês são ótimos.” Ele falou e depois olhou para Jeremy. “Tenho uma tarefa para você, como seu veterano, Jeremy.”

Jeremy ergueu-se numa velocidade inacreditável da cadeira, imediatamente adquirindo uma posição de sentido assim que de pé. “Sim, senhor, senhor!” Ele exclamou e bateu continência. Foi minha deixa para morrer de vergonha alheia e afundar-me no ato de comer meu sanduíche, enquanto tentava disfarçadamente esconder meu rosto atrás do meu copo grande de café com leite.

“Está vendo aquele cara lá atrás de boina e camisa branca? O nome dele é Billie. É o melhor estudante fotógrafo da Ketteridge, cobre todos os eventos mais importantes, mas pertence à casa Sigma e por causa da rivalidade ele se recusa a cobrir muitos eventos esportivos. Nós da Magna queremos que ele cubra o próximo campeonato de luta grego-romana. Já fomos a melhor universidade nessa modalidade de luta, mas agora estamos perdendo espaço. Temos de nos esforçar para divulgar e atrair novos talentos. Acha que consegue persuadi-lo a nos ajudar?” Alan perguntou, meio didático.

“Sem dúvidas!” Um sorriso se alastrou pelo rosto de Jeremy e, após dar uma lambida na mão e passar pelos cabelos, o que eu achei particularmente nojento, ele caminhou confiante até o outro lado do salão. Meu coração começou a bater mais forte como se fosse eu a estar caminhando em direção a uma mesa de desconhecidos, para falar com um completo estranho e ainda tentar convencê-lo de algo que ele certamente não queria fazer.

De novo eu estava morrendo de vergonha alheia. Já não bastava eu me colocar no lugar de personagens em filmes, agora também de alguém na vida real? Minha própria timidez já é suficiente! Era o que eu tinha vontade de dizer para meu ego, superego e id, porque eu sou tão tímido que os três deveriam ser culpados por isso, não apenas um deles.

Balancei a cabeça em descrença.

“Como ele consegue?” Perguntei ao ver Jeremy esbarrar em alguém e quase derrubar o copo de uma mesa próxima, mas mesmo assim apenas se desculpar e nem se importar com aquilo, continuando seu trajeto enquanto algumas pessoas começavam a focar a atenção nele. Eu invejei Jeremy naquele momento, por ser capaz de chamar atenção para ele daquele jeito e não sair correndo dali ao primeiro olhar. “Ele é tão... Extrovertido!” Foi a melhor palavra que encontrei.

“Algumas pessoas são assim. Mas isso não quer dizer que sejam melhores do que os menos extrovertidos.” Alan, que estava sentado de lado na cadeira para olhar para Jeremy, com um braço dobrado sobre o apoio de costas, falou. “Pessoas acanhadas geralmente são observadoras, boas ouvintes e bastante sensíveis. Não é algo ruim, pelo contrário.” Ele olhou para mim, sorriu e eu corei miseravelmente. “Na há nada mais legal e recompensador do que conquistar a amizade e um sorriso de um japonês tímido.”

“Você quer dizer de uma ‘pessoa tímida’.” Eu falei embaraçado, com meu coração estourando meus ouvidos pelas batidas tão altas.

Alan ergueu as sobrancelhas, fingindo não entender.

“E não foi isso que eu disse?” Ele piscou e voltou a olhar na direção de Jeremy.

Eu toque meu pingente novamente, abaixando o rosto para meu sanduíche pela metade. Minhas bochechas se contraíram lentamente até um sorriso. Ele deveria parar de fazer isso, deveria mesmo. Eu não estou acostumado a pessoas sendo legais comigo, não sabia se deveria falar alguma coisa, ou apenas continuar quieto comendo enquanto Jeremy parecia falar com Billie sem mal permitir que o fotógrafo falasse alguma coisa.

Eu só sabia de uma coisa: Alan era ótimo em me deixar constrangido. E eu nem conseguia ficar irritado com isso, mesmo ele sendo tão grande e forte, como todos os valentões que já haviam me ridicularizado e machucado na vida. E eu não conseguia entender isso, porque tenho bastante noção de que não sou a melhor companhia do mundo, já que não falo muito e demoro a começar a agir normalmente.

“Vamos.” Alan falou levantando-se quando tanto eu, quanto ele terminamos de comer. “Jeremy fala tanto que ele provavelmente ainda irá segurar Billie por um bom tempo, e sua primeira aula começa em alguns minutos, não?”

Eu olhei para o relógio do meu celular e arregalei os olhos ao notar que faltavam cinco minutos para minha aula. Deus, eu tinha pavor de chegar atrasado. Todos aqueles olhares fixando-se em você quando você entra na sala de aula após a aula começar, a expressão de desagrado do professor por ter interrompido suas palavras, mesmo que por apenas alguns segundos... Eu me levantei tão rápido quanto Jeremy ao saber que Alan tinha uma tarefa para ele e, sem pensar, saí correndo, esquecendo-me do meu guardião.

“Para um baixinho, você corre bastante!” Eu ouvi, mas não foi Alan quem gritou, como imaginei por um décimo de segundo. Quando dei por mim, alguém que estava no meu caminho enlaçou-me pela cintura, impedindo-me de continuar. Soltei uma exclamação de susto ao ser agarrado daquela maneira súbita e, erguendo o olhar, deparei-me com Derek.

“Eu não sou baixinho!” Me revoltei, mas logo abaixei a cabeça, olhando para o braço dele e sentindo o calor subir pelas minhas bochechas por toda a proximidade.

“Olha aqui, amostra-grátis, Oliver deixou bem claro que se eu, Alan ou David te víssemos passeando sozinho por aí, deveríamos manter um olho em você. Onde está Alan? Ele está na escala hoje.” Derek olhou para os lados. Não demorou e Alan dobrou no corredor, correndo para me alcançar. “Ah, ali está ele, o irresponsável.” Derek falou em falsa indignação, enquanto Alan aproximava-se, já cessando a corrida ao nos ver.

Eu não podia acreditar que Oliver havia pedido a tantas pessoas para manterem um olho em mim, e o pior, Derek estava incluso, e pior ainda, eles haviam feito uma escala para cuidar de mim? Isso significava que eu teria de aguentar um deles todos os dias? Ai, Deus, já não me bastava ter meu irmão gastando tempo comigo... Mas eu não gostava de Derek! Sobre David, eu não tinha uma opinião formada. Ok, eu não tinha opinião muito formada sobre nenhum deles, mas eu definitivamente não curtia a ideia de meu novo apelido ser ‘amostra-grátis’.

“Alan, eu esperava mais de você. Tsc, tsc.” Derek balançou a cabeça, apertando-me mais contra ele, o que quase me deixou sem respirar. Não pelo aperto, mas pelo nervosismo. “Deixar um garotinho inocente e frágil perdido pela faculdade, correndo por aí com uma expressão de pavor. Espera... Tinha alguém te perseguindo? Ou era do Alan que você estava com medo?” Derek perguntou, olhando para mim. “Dele não precisa ter medo, esse aí não bateria nem numa mosca irritante.”

“Você está bem, Chris?” Alan ignorou as bobagens de Derek.

Nisso, eu lembrei que estava atrasado e ter Derek me segurando daquela forma não ajudava muito.

“Minha aula!” Eu olhei novamente para meu celular. “Já deve ter começado...” Lamentei.

“Ah, então por isso estava correndo?” Derek perguntou, soltando uma risada meio constrangida, o que não combinava muito com ele. “Foi mal.”

“Eu não gosto de chegar atrasado, eu-“

“Vamos correr então! Eu te ajudo!” Derek decidiu por ele mesmo e, novamente naquele mesmo dia, fui agarrado e tirado do chão, mas dessa vez não fui jogado sobre o ombro de alguém. Derek me segurou como uma bagagem ou pasta sob seu braço e disparou, veloz como uma pantera.

“N-Não, espera...!” Tentei gritar, mas em vão. “Alan, socorro!” Gritei baixinho.

“Onde é sua aula?” Alan perguntou, acompanhando na corrida. “Não se preocupe, vai dar tudo certo.”

Eu duvidava muito. Estávamos de novo chamando atenção de todo mundo por quem passávamos. Mas eu suspirei derrotado. Não era como se eu achasse que eles iriam seguir algum pedido meu, como o de me deixarem usar minhas próprias pernas, para variar.

“No prédio da reitoria, primeiro andar. Salão nobre.” Eu informei, minha voz sacolejando tanto quanto meu corpo.

“Ah, já comi uma garota lá!” Derek exclamou contente, eu não sei por se saber o caminho, ou se pela lembrança. Eu o olhei abismado, corando quando minha mente estúpida me traiu e o imaginou transando com uma guria no lugar onde eu teria uma aula! Droga, droga, droga... Pense em outra coisa, Chris. Pedi à minha mente, e rezei internamente para não sentar em alguma cadeira que eles pudessem ter utilizado.

Dois minutos depois, parávamos em frente ao salão nobre. Derek me soltou e eu cambaleei o primeiro passo, meio tonto, apertando minha bolsa em meus braços. Coloquei uma mão em meus olhos fechados, esperando minha visão entrar em foco.

“Entregue, são e salvo. Não se preocupe, você está apenas 7 minutos atrasado, amostra-grátis.” Derek informou, satisfeito com sua própria eficiência.

“Desculpe por isso.” Alan falou e bagunçou novamente meus cabelos, fazendo eu me sentir um garotinho de oito anos. “Boa aula.”

“Boa aula, nos mande uma mensagem quando terminar. Deixa eu te dar meu número e do Alan.” Derek, de alguma forma, caçou meu celular em meu bolso e digitou rapidamente nele, devolvendo-me em seguida. “Pode ligar também, quando precisar de qualquer ajuda.” Ele sorriu e passou a mão pelos cabelos, afastando um maço de cachos castanhos dos olhos.

Eu peguei meu celular e, lançando um olhar meio desconfiado e aturdido para ambos, porque era exatamente assim que eu me sentia, eu adentrei na aula, tão atrapalhado que mal consegui me importar com todos os olhares e cochichos, tanto pelo atraso, quanto por ser reconhecido como o garoto que profanou o Lyric Convent. Sentei numa mesa vazia ao fundo, de cabeça baixa.

“Chris...!” Alguém sussurrou, chamando-me atenção, fazendo minhas orelhas parecerem se erguer como as de um cachorro, apesar de que isso seja impossível para humanos. Olhei em direção ao chamado, já nervoso, achando que poderia ser alguém querendo me provocar, ou fazer alguma chacota.

Mas era o Andreas.

“Eu queria conversar com você, qualquer hora. Quando você estiver disposto...” Ele sussurrou com uma expressão arrependida, ansiosa e amiga. Mas eu ainda estava magoado, atormentado e sensível com tudo que havia acontecido, então apenas, com um suspiro, desviei o olhar e abri minha bolsa, pegando meu caderno e meu iPad para começar a prestar atenção na aula.

Pela minha visão periférica, vi Andreas suspirar e deixar os ombros caírem, também voltando sua atenção à aula.

XxxX

Assim que todas as aulas da manhã terminaram, encontrei meu irmão esperando-me na saída do prédio da reitoria. Eu gostaria de saber como ele havia encontrado minha grade de horários e locais de aulas. Certamente havia remexido em minhas coisas sem minha permissão, o que não me deixava lá muito satisfeito. Ajeitando a bolsa em meu ombro, caminhei até ele.

“Você realmente não precisa me escoltar para lá e para cá... Muito menos pedir para seus amigos cuidarem de mim. Eu sei me cuidar.” Tentei falar a ele ao notar o quão carrancudo parecia. Achei que fosse justamente por ter de ficar de babá.

Mas a expressão dele apenas piorou.

“Você sabe se cuidar?” Perguntou, retórico. “Ah, você sabe se cuidar! É claro! Tanto sabe se cuidar, que conseguiu aparecer no Roy Byron e depois ser atacado por três idiotas. Claro, como eu não percebi antes sua incrível capacidade de se cuidar? Nem dá pra acreditar que todas as vezes que precisei te proteger até hoje foram à toa!”

“Não precisa de sarcasmo...” Murmurei. “Apenas não quero mais te atrapalhar.”

“Você me atrapalha desde que nasceu, Christian. Não é como se eu já não estivesse conformado.” Ele falou com aqueles grandes e frios olhos azuis presos em mim. Suas palavras foram como navalhas. “Vamos, nossos pais estão nos esperando num restaurante perto daqui. Eles ficaram sabendo sobre suas estripulias.”

Sabe quando você está caminhando sobre um lago congelado? Você chega ao centro dele, mas então começa a notar que há rachaduras no gelo, elas pioram a cada passo e a margem onde encontrará segurança está longe demais, e você sabe que cairá na água congelante, tanto se ficar parado, quanto se avançar mais um passo. Foi exatamente assim que me senti ao escutar o que Oliver falou.

“N-Não...!” Dei um passo para trás. “Não, Oliver... Por favor, eu não quero vê-los.” Supliquei.

“Não é como se eu decidisse isso, não é? Acha que quero vê-los também? Nossa querida mãe está bastante insatisfeita que você foi à exposição de animais e não foi capaz de contar nada a ela.” Oliver torceu o lábio e me pegou por um braço, começando a me arrastar com ele. “Eles conversaram com o diretor, então você não tem nada o que negar. Apenas conte a verdade e chore, faça-se de vítima. No fim, eles morrerão de dó do filhinho gênio e inocente e tudo ficará bem.”

“Você sabe que não é assim!” Eu exclamei chateado, mas talvez fosse realmente assim. Nossos pais sempre eram menos duros comigo, em comparação a como agiam com meu irmão.

Oliver não retrucou e tudo que pude fazer foi acompanhá-lo, em passos apressados. Saímos dos domínios da Ketteridge, chegando após uns minutos de caminhada a uma avenida movimentada, onde havia restaurantes e lojas. Fomos a um restaurante relativamente famosinho entre os estudantes, o Nightingale. Muitos vinham ali para almoçar ou jantar, quando achavam que a comida oferecida pelo refeitório não era satisfatória.

“Oliver...” Chamei antes de entrarmos, e ele se virou para mim com a expressão ainda rígida. “Me perdoa... Por você ter perdido a seleção pro campeonato. E-Eu-“ Me atrapalhei com as palavras, e Oliver suspirou irritado.

“Foda-se. Suas desculpas não vão mudar nada. O que aconteceu, aconteceu.” Ele disse fatalista e entrou no restaurante. Mesmo relutando e sentindo-me bastante culpado, eu o segui de cabeça baixa.

Nossos pais nos esperavam numa das mesas mais ao fundo do restaurante de porte médio, ar caseiro e confortável. Para minha surpresa, havia outra pessoa sentada à mesa com eles: um rapaz que aparentava uns vinte e poucos anos, com um ar formal e elegante. Enruguei a testa tentando lembrar se era algum primo, ou parente distante, mas ele não tinha nenhum traço oriental. Pelo contrário, parecia o perfeito ocidental riquinho e engomado.

Não que eu esteja julgando.

Ok, talvez eu esteja um pouquinho.

“O que ele está fazendo aqui?!” Oliver rosnou e sua expressão tornou-se macabra, fazendo eu me assustar pela intensidade da raiva que exalou de seus poros. Apertando os punhos, ele caminhou rapidamente até a mesa e, segurando o rapaz pela gola da camiseta social, Oliver arrancou-o da cadeira, obrigando-o a se levantar.

E o desconhecido teria levado um soco, se nosso pai não houvesse se levantado igualmente rápido e segurado o pulso de Oliver. Eu então corri até a mesa, já sentindo o peso de alguns olhares curiosos pelo restaurante. Que dia era esse em tudo parece conspirar para que eu, e as pessoas próximas a mim, estivéssemos na linha de fogo da atenção alheia?

Eu não deveria ter saído da cama hoje... Ou talvez eu ainda estivesse dormindo e tendo pesadelos!

“Oliver, que atitudes são essas?” Nosso pai, Takeshi, perguntou incrédulo.

“Foi ele! Ele é o titular do jornal da faculdade! Ele quem publicou aquelas notícias sobre o Christian. Como podem estar aqui sentados com esse crápula?” Oliver perguntou num ar de quem não podia acreditar no que via e desejava resolver a questão com muita porrada. Eu olhei para o rapaz, abrindo os lábios em choque e não acreditando que o responsável por aquilo tudo estava ali à minha frente, conversando civilizadamente com meus pais.

Meus pais.

Era mesmo um pesadelo!

“Oliver, acalme-se! Estamos em público.” Nossa mãe, Lauren, sussurrou em um tom autoritário e irritado, cheia de um descontentamento dissimulado. “Sente-se agora e vamos resolver isso como pessoas civilizadas. Eu e seu pai estamos cansados desse seu comportamento agressivo e desnecessário.” Ela disse contundente, e Oliver, ainda olhando com uma raiva latente para seu terrível arquiinimigo – sim, eu sei que estou exagerando –, largou-o contrafeito.

O rapaz ajeitou então o colarinho da camiseta, cheio de pompa.

“Christian, sente-se também.” Lauren ordenou, um pouco mais branca. “Nós temos muito que conversar. Após a incapacidade do seu irmão em cuidar de você por ao menos uma semana, parece que encontramos uma boa solução para todo esse impasse. Lance tem uma proposta bastante interessante para você.”

“Uma proposta?” Oliver cuspiu.

“Oliver, por favor. Nós sabemos o que é melhor para vocês dois.” Takashi falou grave e, juntamente com nossa mãe, ele se sentou. Lance, o cara do jornal, imitou-os, sentando-se calmamente à mesa.

Oliver e eu não tivemos escolha senão seguir o exemplo, mas notei que meu irmão estava ainda mais furioso.

“Deixe eu me apresentar, Christian.” Lance tomou a palavra, tentando amenizar o clima pesado que se instaurou na mesa. “Sou Lance Harris, responsável pelo jornal da faculdade. Eu fui chamado pelo diretor hoje pela manhã, a pedido dos seus pais. Nós tivemos a chance de conversar e eu percebi o erro que foi publicar aquela reportagem. Eu queria me desculpar, principalmente com você.” Ele falou, convincente e... charmoso. “Eu me arrependo de ter permitido a divulgação daquele... incidente.” Ele usou de eufemismos.

Morrendo de vergonha simplesmente por pensar que ele era charmoso, minhas bochechas esquentaram e eu abaixei a cabeça, não querendo encará-lo nos olhos profundos e misteriosos. Ele não parecia exatamente confiável, ainda que eu não soubesse dizer exatamente por quê. Seu jeito de falar era bem convincente.

“Você só pode estar brincando! Ferra com meu irmão, e agora acha que pode simplesmente-“

“Oliver!” Lauren o interrompeu, irritada. “Pare de agir como um rebelde! Onde está a sua educação?”

“Onde está a educação dele? Chris podia ter sido machucado de verdade por aqueles idiotas se-“

“Nós falaremos sobre isso depois. Os idiotas que você diz prestaram reclamações ao diretor sobre você. Tivemos de ouvir muito sobre seu mau comportamento na faculdade. Mas você não é a prioridade aqui.” Lauren o calou com aquelas palavras. “Lance, por favor, explique ao Christian o que veio falar conosco.”

Lance pigarreou, afastando a expressão levemente desconcertada que o atingiu após o discurso intransigente de Lauren.

“Após a reunião com o diretor, resolvi acompanhar seus pais para explicar a eles sobre a fraternidade da qual eu sou líder. É uma fraternidade para grandes talentos, nas mais variadas áreas do conhecimento. Frente ao seu histórico, percebi que você é candidato perfeito para unir-se a nós. Além disso, fazer parte de uma fraternidade lhe proporcionará proteção e ajuda sempre que precisar. Seria uma forma de redimir o problema que lhe causei.” Lance colocou os antebraços sobre a mesa, cruzando as mãos. “Também será algo que lhe abrirá muitas portas e o ajudará a desenvolver suas habilidades. Seus pais me falaram que seu QI é de 160, isso é incrível.”

Eu olhei para meus pais, não acreditando que eles ficavam espalhando isso para os outros!

“E-Eu... Eu não sei se me daria bem numa fraternidade.” Falei, criando coragem. Só a ideia de precisar conviver com tantas pessoas me dava arrepios. “Eu preferiria não me envolver com esse tipo de coisa. Pelo que eu li-“

“Isso não é uma escolha, Christian.” Lauren falou, suspirando. “Você fez algo que decepcionou seu pai e eu. Jamais esperávamos que fosse gay, consegue imaginar como nos sentimos?” Ela perguntou, e eu senti meu mundo se abrir aos meus pés. Não achava que eles estavam sabendo desse detalhe, mas agora percebia que era algo óbvio e que eu deveria estar esperando por isso. De que adiantava um QI de 160, se eu não era capaz de predizer uma situação como essa?

“Mãe...” As palavras trancaram em minha garganta e eu pude sentir os olhos ardendo.

“Sem mãe nesse momento. Seu pai e eu vamos refletir ainda sobre isso, principalmente o fato de que escondeu de nós sua orientação sexual. Eu gostaria de dizer que sinto orgulho, mas não sinto. Nunca é fácil aceitar um filho diferente. Mas poderemos relevar essa questão se juntar-se a essa fraternidade. Pelo que Lance nos informou, ela é um plus para a carreira de qualquer pessoa. Um diferencial e um ótimo meio de criar laços e contatos para o futuro profissional.” Ela disse, cruzando as mãos sobre a mesa com um ar de negócios.

“Eu e sua mãe ficaríamos muito satisfeitos, Christian.” Takashi assegurou, um pouco mais suave. “Estamos apenas zelando pelo seu bem.”

“Dizendo que não se orgulham dele?” Oliver meteu-se. “Vocês têm quase um filho perfeito, e acham ruim ele gostar de garotos? Em que século vocês vivem?!”

“Oliver! Já chega! Por que sempre tem de agir dessa maneira?” Lauren perguntou, mas Oliver levantou-se com um tapa na mesa.

“Estou cansado disso. Estou cansado de vocês, de todos vocês. E você-“ Oliver apontou para Lance, que permaneceu impassível. “Eu sei que planejou isso desde o início.”

“Isso não te impediu de usar Tristan para tentar me manipular, não é?” Lance perguntou sem alterar o tom de voz, controlando-se enquanto seus olhos castanho-claros ganhavam um brilho astucioso, como os de um gato.

Oliver teria avançado para cima de Lance, mas eu me ergui e o impedi, colocando minhas mãos sobre o abdômen esguio e firme de meu irmão. Balancei a cabeça com um suspiro baixo. Não importava quais as razões, motivações e nuances daquela história toda. Eu não podia decepcionar ainda mais aos meus pais, não após eles descobrirem tão abruptamente sobre minha orientação sexual. Eles eram conservadores e eu sabia que os havia decepcionado, muito mais do que quando decidi com certa rebeldia que cursaria Letras e não alguma engenharia, como eles esperavam.

“Eu entrarei na fraternidade.” Falei. “A mãe e o pai têm razão. Será uma grande oportunidade.”

“Uma oportunidade de reavaliar suas decisões e perceber o quanto está desperdiçando suas capacidades, filho.” Takashi levantou-se e colocou uma mão em meu ombro. “Oliver, eu espero melhores atitudes de você no futuro. Não te educamos para se tornar alguém irresponsável e sem limites.”

Oliver abriu e fechou a boca, mas, sem encontrar o que falar, ele apenas deu as costas a todos nós e partiu para fora do restaurante. Eu queria ir atrás dele, sentindo-me mal por toda aquela injustiça e principalmente por não conseguir defendê-lo perante meus pais. Eu... não tinha coragem! E isso era uma droga. Minha garganta havia recebido um nó apertado e doloroso.

“Eu fico satisfeito em saber que aceita participar da fraternidade, Christian. Será um prazer para nós, e não permitiremos que ninguém mais tente algo de ruim contra você. Você será minha prioridade a partir de agora.” Lance declarou, atraindo meu olhar. Eu senti um arrepio me percorrer quando ele sorriu, não sabendo se ser a prioridade de Lance Harris era algo bom, ou ruim. “Sr. e Sra. Okubo, foi um prazer conversar com vocês. Agradeço toda a compreensão e paciência. Eu vou indo agora, deixarei vocês e seu filho conversarem e colocarem o assunto em dia.”

Lance apertou a mão de cada um deles, assim como a minha. Inerte, eu o vi se afastar, seguindo o mesmo caminho de Oliver. Tudo que eu queria era também poder sair dali, sem precisar encarar meus pais por mais nenhum minuto sequer. Mas eu nunca teria coragem para deixá-los sem a permissão estrita deles.

“Filho.” Meu pai chamou. “Sente-se. Iremos pedir pelo almoço, agora.”

Nós três nos sentamos.

“Eu não posso acreditar na educação daquele garoto, ele vale ouro. Quem dera Oliver fosse ao menos um pouquinho parecido! Oliver tinha tanto potencial, mas o gasta em natação, numa fraternidade de esportes! Que futuro isso lhe garantirá? Sinceramente, Takashi, às vezes me pergunto se ele estará apto para seguir com sua empresa.” Lauren comentava, enquanto esperávamos o garçom.

“Ele ainda pode amadurecer, Lauren.” Papai tentou defender, mas havia dúvida em seu tom.

“Ah, se ao menos você, Christian, tivesse entrado no curso que desejávamos, nós teríamos alguma esperança para ao menos algum de nossos filhos. Espero que essa fraternidade lhe abra os olhos. Realmente espero.” Lauren comentou. “Já não basta o fato de que não nos dará nenhum neto. Uma desgraça, meus filhos todos parecem estar querendo me deixar com os cabelos brancos antes do tempo.” Suspirou. Ela tinha 45 anos e ainda era uma mulher linda, com poucas rugas de expressão e nenhum cabelo branco.

Eu peguei o cardápio, mordendo o lábio.

Nada daquilo era justo, ou certo. Eu sentia vontade de gritar, mas não conseguia.

XxxX

Havia um pequeno cachorro de rua na frente do restaurante, quando saímos. Lauren imediatamente adiantou-se e chamou o filhote maltratado, pegando-o no colo sem se importar de sujar suas roupas finas. Ela sempre havia sido louca por animais, era mais carinhosa com eles do que com pessoas, e não à toa tinha uma ONG de proteção de animais, realizando eventos de adoção.

“Vou ligar para a Mary, para vir buscá-lo. Ela mora aqui perto e pode largá-lo na clínica da ONG.” Lauren falou, tirando o celular da bolsa enquanto o cachorrinho latia e tentava lamber o pescoço dela. Eu teria me aproximado para fazer algum carinho no bichinho, pois também amo cachorros, mas meu pai virou-se para mim e colocou as mãos sobre meus ombros.

“Deixando tudo que aconteceu de lado, filho, como estão as coisas? Fez novos amigos? Você e seu irmão estão convivendo sem tantas brigas? Está de olho em alguma gar... Digo, algum garoto?” Ele pareceu levemente desconfortável ao mudar o gênero, mas tentou disfarçar. Estava agindo como um pai interessado. Apesar de tudo, ele sempre havia me dado atenção.

Entre Takashi e Lauren, ele era o mais atencioso e paciente, aquele que entrava no quarto para ajeitar as cobertas quando achava que eu já havia pegado no sono, ou media religiosamente minha temperatura quando eu ficava doente e febril. Ele era rígido, mas era um pai, o meu pai, e nunca havia me faltado com nada.

“Está tudo bem, pai... E-Eu acho que fiz novos amigos.” Falei com certa dúvida. Eu e Andreas não havíamos nos falado e eu ainda não estava pronto para isso, mas havia Jeremy e Alan, talvez até Derek. “Eu e Oliver estamos bem. Oliver me protege, ele-“

“Certo. Deixemos Oliver fora do assunto. Eu quero o seu bem, filho. Me ligue se precisar de alguma coisa.” Ele beijou minha testa. “Eu e sua mãe te largaremos na universidade.”

“Pai, sobre... S-Sobre eu ser g-g-ay...” Tentei iniciar o assunto, mas gaguejei mais do que o normal em comparação a outros momentos em que eu ficava nervoso, e meu pai aproveitou para me interromper.

“Falaremos sobre isso outro dia, filho. É muito recente. Deixe eu e sua mãe digerirmos isso melhor.” Ele decidiu. Não tive mais chances de falar e logo uma amiga de minha mãe aparecia para levar o cachorrinho.

Nós três entramos no carro em um silêncio complicado.

Notas finais
Muito obrigada à Jeeh, Tsukasa, Tsuito Lena, KassiaKarolayne, MilaScorpions, Anne Marie, Naiara Azevedo, Bárbara Carvalho, Vivi Costa, Ruth Echelon e C B Eter pelos reviews! Até a próxima, amores!