Alan

Era sempre nostálgico ver os calouros reunidos naquela torre, fazia eu me lembrar da noite em que eu havia entrado ali pela primeira vez, com a mesma expressão de ansiedade, curiosidade e certo receio que todos tinham no rosto. Eu havia passado por isso há três anos atrás, é incrível como o tempo voa quando estamos na faculdade.

A brincadeira do triátlon podia gerar certos problemas para os que fossem flagrados por guardas, mas já era tradição há muitos anos na fraternidade e não mudaria tão cedo. No fundo, eu duvidava que o diretor expulsasse alguém por isso, já que ele também havia participado da fraternidade Sigma em sua época de faculdade, segundo diziam, e iria entender a existência dessas tradições.

“Bastante gente foi chamada esse ano.” Eu comentei para Oliver, ao meu lado. Ele parecia bastante cansado e particularmente calado naquela noite. Ele me contou que acabou com uma costela fraturada e que deveria estar descansando, mas nós dois sabíamos que ele era teimoso demais para ficar deitado numa cama da enfermaria por muito tempo.

“É.” Ele respondeu encarando o pessoal novo sem grandes espectativas.

“E seu irmão, como está?”

Oliver suspirou, possivelmente irritado por eu ter tocado no assunto. Eu encolhi os ombros e coloquei minhas mãos dentro dos bolsos da calça jeans. Eu havia gostado de Christian, minha pergunta não era leviana. Estava preocupado com o pequeno.

“Passou o domingo no quarto, lendo e estudando. Não conversamos muito. Mas é bom que ele não saia muito mesmo.” Oliver pegou um chiclete de menta do bolso, abriu-o e o jogou na boca, mascando com uma carranca antes de me lançar um olhar de esguelha. “Você me ajudará a manter um olho nele?”

“Claro, eu faço questão.” Me prontifiquei. “Mas você parece ainda preocupado.” Tentei instigá-lo a continuar o assunto enquanto a confusão de calouros não passava. Alguns ainda subiam, outros tentavam encontrar lugares para sentar no chão em frente para o pequeno palco – que geralmente servia para jogarmos nossas mochilas e apetrechos – onde Jenson aguardava junto com Derek e Freddie.

Oliver mascou o chiclete por alguns segundos, fazendo uma bola com ele e deixando-a explodir antes que ficasse grande demais. Relutava em contar, mas acabou dando-se por vencido junto com um suspiro estressado. Oliver era naturalmente estressado, porém isso não fazia dele uma má pessoa.

“Eu conversei com Tristan... Eu e ele somos... conhecidos. Como você sabe, o filho da puta é bastante amigo do outro filho da puta chamado Lance. Pode parecer estranho, mas... Eu acho que o Christian será chamado para a Casa Sigma.” Oliver coçou o braço e se remexeu com momentânea inquietação, o que lhe trouxe uma careta de dor ao seu rosto, provavelmente pela costela em recuperação.

“O quê...?” Eu pisquei meio incrédulo. “Mas não foi justamente o Lance que-“

“Sim, aí que está. Christian receberia proteção daqueles que ferraram com ele. Ou daquele. Hilário, não? Mas efetivo. Entrando numa fraternidade ele teria a proteção que isso oferece, e sabemos que as fraternidades são como famílias. Nós não nos damos bem com os Sigma, mas eles se protegem assim como nós nos protegemos. E Christian é horrivelmente inteligente e genial. Conviva com ele por alguns dias e o deixe falar sobre... Eu sei lá, a porra da física quântica. Até isso ele sabe. Ele é perfeito pros Sigma e, sendo parte deles, não receberá mais bullying de ninguém.” Oliver explicou tudo num tom entediado, como se não se importasse. Porém, após alguns segundos em que fiquei pensando naquilo, entendi, pela expressão evasiva e dúbia dele, que havia sido ele quem provavelmente convencera Tristan a falar com Lance e garantir uma vaga para Christian na Sigma.

“Tem certeza de que é uma boa ideia?” Eu tive de perguntar, porque eu certamente não estava inteiramente convencido. Meu instinto de proteção ativou-se e fiquei com medo de que aquilo apenas piorasse a situação já complicada de Christian.

“Ele parece que seria chamado de qualquer maneira. Ele entrou na Ketteridge com 15 anos, é claro que a Sigma botaria um olho gordo nele. Lance adora isso – ferrar com alguém para depois tê-lo em suas mãos, não é? O desgraçado... Aposto que ele pode até ter pensado em tudo isso antes de colocar o Christian no jornal: estragar a vida social do meu irmão, para depois ter certeza de que ele aceitaria entrar na Sigma. Conhecendo meu irmão, Chris jamais se uniria a uma fraternidade sem ótimos motivos para isso.” Oliver balançou a cabeça, irritado. “Assim que eu me recuperar, eu juro que ainda dou uma boa surra naquele riquinho metido que se acha dono do mundo.”

Eu entendia muito bem a vontade do Oliver de bater no líder da Sigma, mas isso geraria ainda mais atritos entre as fraternidades. Lance era líder, e Oliver tinha boas influências na Magna. Podíamos acabar em guerra por isso, e eu não estava a fim de tantos problemas. Havia relatos de guerras históricas entre as fraternidades. Uns querendo ferrar com os outros, várias disputas em todas as áreas... A rivalidade atual era saudável, porém não podíamos voltar a transformar a universidade em um campo de batalha. Não seria um legado do qual eu e, acredito, Jenson e Freddie nos orgulharíamos.

Por mais que Lance merecesse mesmo uma surra.

“Você deve saber melhor que eu o que é melhor para o seu irmão, mas eu ainda acho a ideia bastante estranha.” Discorri enquanto lembrava-me dos momentos que havia passado com Christian no parque. Ele era bastante tímido, ficou calado a maior parte do tempo, mas riu mais leve com algumas tentativas bobas da minha parte para alegrá-lo, como acertar um alvo numa barraquinha e dar-lhe um urso de pelúcia. Ele estava cansado, abalado e chateado naquele dia, mas em nenhum momento falou ou reclamou do que aconteceu e, sempre quando eu achava que ele iria chorar após um momento mais longo de silêncio, ele desviava o olhar e fungava discretamente, tentando não chamar minha atenção ou a dos outros.

Isso foi algo que me intrigou.

Eu não me importaria de ter escutado algum desabafo, eu estava ali para isso, afinal de contas.

Oliver não falou mais nada, e logo Jenson deu um jeito de calar a todos novamente, fazendo-se ouvir. Eu ignorei o que ele falava, era todo um discurso sobre a conquista dos que estavam ali e sobre o próximo mês que eles enfrentariam. Meu olhar viajou sobre os calouros e eu identifiquei David sentado entre eles, atento ao que Jenson falava. David facilmente chamava atenção, destacando-se entre os demais – bonito, alto, de ombros largos. Não parecia ter apenas 18 anos.

Era seu temperamento impulsivo e explosivo que denunciava a idade que tinha.

“Entenderam, calouros? Cada um de vocês terá um veterano ao qual irão servir nesse mês. Terão de fazer tudo que ele mandar e também conseguir demonstrar suas habilidades para ele durante os trinta dias. Seu veterano é quem decidirá se você irá mesmo entrar na fraternidade, baseado nas suas habilidades e nas atividades e desafios que conseguir completar, além de companheirismo e amizade.” Jenson avisou o que era de praxe e aceitou uma pequena bacia de vidro repleta de pedacinhos dobrados de papel. “Quando seu nome for chamado, levante-se e venha até aqui na frente, onde irá pegar um dos papeis. Nele estará o nome do veterano responsável por você durante os próximos trinta dias.”

Os nomes começaram a ser chamados e veteranos sorteados, enquanto uma música tocava ao fundo com um dos hits do momento. Meu nome estava naquele meio, mas eu preferia que ninguém me tirasse. Meu tempo andava tão curto, entre faculdade e treinos de tênis para o campeonato que se aproximava que eu mal teria tempo para testar ninguém. Eu até mesmo vinha pensando em largar a natação, pois não estava dando conta de tudo e o cansaço vinha cobrando um preço bastante salgado.

“Hei, Alan!” Eu olhei para o lado e vi Bobby se aproximando.

“Finalmente.” Eu falei e lhe dei dois tapas nas costas quando ele me alcançou. “Se livrou do plantão?”

“Plantão das sete da noite às sete da manhã num domingo é uma droga, mas como estava tudo tranquilo pedi pra minha dupla segurar as pontas. Queria ao menos ver o rosto dos calouros.” Bobby sorriu contente, mas seu olhar então caiu em Oliver. Ele passou por mim. “Você deveria estar deitado numa cama descansando. Fiquei sabendo sobre sua costela, isso sem contar-“

“Porra, Robert!” Oliver não olhou para o loiro ao xingá-lo. Sempre o chamava pelo nome completo quando perdia a paciência. “Não venha me dar sermão na frente de calouros. Não me dê sermões nunca, melhor dizendo! Eu não virei um incapacitado.”

“Estou apenas preocupado com você-”

“Vá se preocupar com os doentes que você cuida naquele hospital.” Oliver falou rude, mas ergueu uma sobrancelha ao escutar seu nome. Uma garota o havia sorteado e, após Derek apontar quem era Oliver Okubo, ela se aproximou um tanto acanhada.

“Olá... Eu sou Tamires Cuervo. Prazer.” Ela estendeu a mão para cumprimentar Oliver, que aceitou o aperto e, milagrosamente, sorriu simpático para a garota.

“Bem-vinda. Fique à vontade por hoje, beba e se divirta. Amanhã nós conversamos melhor sobre como será esse próximo mês.” Ainda que simpático, ele estava claramente a dispensando, e eu me compadeci levemente pela decepção no rosto dela, que ficou sem saber para onde ir ou o que fazer.

“Vem comigo.” Eu falei, querendo tirá-la daquela situação intimidante de se mover sozinha por um salão repleto de pessoas estranhas e caras seminus ou com roupas de dormir. “Vamos pegar uma bebida.”

Tamires sorriu animada e me acompanhou. Nós fomos até a pequena cozinha da torre. Antigamente ali em cima morava um velho funcionário da universidade, mas quando ele morreu a torre ficou vazia e foi transformada num QG. Isso há muitos anos atrás. Agora a fraternidade tinha uma sala grande, com televisão e sofás, uma mesa de ping-pong e uma de sinuca, além de uma pequena cozinha com geladeira, fogão e micro-ondas. Quem era da Magna podia aparecer ali sempre que quisesse para passar o tempo. No sótão acima, ficava uma sala de reuniões onde o grupo mais ligado às organizações gerais da fraternidade passava o tempo discutindo, arrumando a papelada e planejando eventos.

“É tão legal aqui. Eu nunca imaginei que seria chamada para uma fraternidade!” Tamires comentou, sorrindo sonhadora. Eu a olhei mais detidamente. Era uma garota simples, mas muito bonita. A pele era mulata, mas eu desconfiava que fosse um bronzeado que esmoreceria dali a algumas semanas. Tinha olhos azuis e um ar de moleca que imediatamente fez com que eu simpatizasse com seu sorriso.

Sorri e lhe ofereci um copo com vodka com energético e bastante gelo, algo fácil de preparar.

“Somos uma família aqui. Mas se está aqui, é porque tem méritos. Você joga o quê?”

“Handball! Jogo desde pequena, já participei de muitos campeonatos.” Ela contou, e a partir daí a conversa fluiu fácil. Apesar de geralmente mais calado, nunca tive dificuldades para conversar, mesmo com estranhos. Eu gosto de conhecer pessoas novas e a noite dos calouros era sempre uma boa oportunidade, já que todos estão dispostos a confraternizar.

“Hei.” Alguém entrou na cozinha nos interrompendo e novamente meu olhar direcionou-se com facilidade para David. “Oi, moça.” Ele foi educado e deu um beijo na bochecha dela, deixando a menina desnorteada por um segundo. “E aí cara...” Ele me cumprimentou. Nós batemos uma mão e ele segurou meu ombro. Depois da longa conversa que havíamos tido sobre nossa amizade, era um alívio ver que ele estava agindo normal. Isso era algo bom sobre David, ele não guardava rancores ou desconfianças, não dos amigos. “Sabe quem é um tal de...” David olhou para o papel. “Laurent Somniare?”

“Você pegou o Laurent...?” Eu revirei os olhos. “Ele não veio hoje, acho que é um resfriado. Laurent pratica remo. E se prepare... Ele costuma ser bastante insuportável e exigente com os calouros.”

“Porra, eu não tenho sorte mesmo!” David bufou e tentou guardar o papel no bolso, mas novamente soltou o ar em exaspero. Ele estava somente de cuecas, e eu estava me concentrando ferrenhamente, desde que ele entrou na cozinha, para não acabar duramente excitado. Nesses momentos ser homem e gay podia ser uma dor de cabeça das grandes. “Seria ótimo poder colocar umas roupas.”

“Derek deveria ter te avisado para dormir com algo mais... confortável.” Eu decidi preparar uma bebida para mim, me esquecendo de apresentar direito a Tamires, que acabou deslocada com a chegada do David. “Mas pense que não foi o único.”

“Sério, agora que já tirei o nome do cara que vou obedecer ou sei lá o quê nesse próximo mês, eu posso ir embora? Me sinto estranho de cuecas num lugar cheio de gente, ainda mais com garotas.” David acenou brincalhão para Tamires que soltou uma risadinha. Ela usava uma calça e uma camiseta que pareciam roupas velhas de domingo, mas era melhor do que apenas um sutiã e calcinha.

“Eu acho que sim. Agora pelo resto da noite é basicamente apenas bebida, música e conversas.” Eu expliquei, dando de ombros. “Você pode ir se quiser, mas acabaria perdendo uma noite legal.”

“Não me diga que você está indo!” Outra pessoa entrou na cozinha. Era um garoto de estatura mediana, branquelo, mas com o nariz cheio de sardas. “Achei que teríamos algum tempo para conversar. Eu estou perdidáço com isso tudo, e você não deveria ter me dado esse colar! O tal Jenson me explicou para o que ele serve. Eu tirei um tal de Alan e ele falou que eu fui duplamente sortudo, peguei o cara mais legal e ainda tenho esse tal colar protetor de todos os males. Você que o achou, deveria ficar com você, mas agora ele já marcou meu nome como um dos ‘imunes’. Só me pergunto imune a que e... Ah! Oi! Me chamo Jeremy.” O garoto rapidamente se apresentou para Tamires ao percebê-la ao seu lado. “Eu jogo handball, você também não é? Eu vi você treinando na quadra essa semana. Você joga muito bem, parabéns!”

“Obrigada! Eu me chamo Tamires.” Os dois se cumprimentaram efusivamente. Jeremy, que eu descobria inusitadamente ser o meu calouro, já aparentemente esquecido da questão do colar.

“Eu estou podre, Jeremy. Passei o dia inteiro treinando e esse triátlon terminou de acabar comigo. Além disso, estou de cuecas. Então boa sorte, aquele ali atrás é o Alan, é meu amigo, você está em boas mãos.” David seguiu para fora, apontando o polegar para mim por cima do ombro ao passar por Jeremy. “Até outra hora!”

“Você é o Alan?! Que sorte a minha! Prazer, sou Jeremy.” Ele me cumprimentou empolgado, sacudindo minha mão cheio de energia. “Então, o que você joga? Espera.” Ele parou arregalando os olhos e me encarando mais detidamente. “Você é Alan Garbet? O jogador de tênis considerado o melhor do mundo na temporada passada?!?”

“Jeremy, me desculpa, podemos falar amanhã? Eu preciso fazer uma coisa.” Entreguei meu copo para Jeremy e avancei na direção que David havia seguido, depois de também me desculpar com Tamires. Me senti um pouco culpado por deixar Jeremy para trás, considerando toda a animação dele, mas eu ainda era fraco em relação ao David.

Fui encontrar David já a alguns metros da torre.

“David!” Chamei num sussurro alto, e ele se virou parecendo ter levado um susto. “Desculpe.”

“Caramba... quer me matar?” Ele sussurrou de volta. “O que houve? Você deixou o Jeremy sozinho lá na festa?”

“Queria te acompanhar até o dormitório e dali também vou para o meu... Estou exausto também.” Eu falei e não era nenhuma mentira. Meu corpo clamava por descanso, não por álcool e mais horas perdidas de sono. Amanhã cedo eu tinha de estar de pé para treinar tênis, já que tinha um campeonato chegando.

“Você anda se esforçando demais.” David comentou um pouco repreensivo. “Dois esportes, mais a faculdade... Você não é dois, cara.”

“Eu sei.” Nós começamos a caminhar lado a lado, nos afastando da luz que vinha da torre e seguindo apenas através dos caminhos iluminados pelos postes. “Talvez eu esteja exagerando.”

“Talvez?” David falou sarcástico.

“Mas eu não queria facilitar tanto pra você, saindo na natação tão cedo.”

David forçou uma risada.

“Muito esperto. Eu não quero mesmo que saia, ainda vou te vencer numa disputa direta.” Falou com certa soberba jocosa. “Só me dê algumas semanas.”

“Nunca tinha visto você dispensar álcool, música e festa. Está tudo bem?” Eu perguntei, vendo-me obrigado a ser direto, ou não chegaríamos ao assunto que eu desejava. “Só a questão das cuecas não te impediria. Teve aquela festa aniversário na casa do Derek que você, bêbado, passou de cuecas a noite inteira, entrando e saindo da piscina...”

“Aquela noite foi louca.” Ele sorriu com a lembrança. “Mas você me pegou.” Suspirou. “Não estou mesmo com cabeça para festas.”

Houve silêncio por uns momentos.

“Algo a ver com Andreas?”

“Quer mesmo entrar nesse assunto? Porra, já brigamos antes por isso e por... Você sabe.” David coçou a nuca, desconfortável. Era estranho ele saber que eu era a fim dele. Foi algo que guardei por tantos anos que me esquecia de minuto em minuto de que não era mais nenhum segredo.

“Não quero brigar. Ainda somos amigos e podemos conversar, se você quiser.” É idiota eu falar que não estava sondando, mas eu também estava preocupado. David nunca havia rejeitado uma festa antes, era algo a ser considerado com gravidade. Eu era protetor com amigos e isso nunca mudaria, eu gostando deles de uma forma diferente ou não.

“Eu mudei de quarto. Derek vai ficar no meu lugar do dormitório.” David falou secamente. “Eu decidi que será melhor para mim se eu ficar longe do Andreas. Melhor para ele também. Não pretendo voltar à Casa das Máscaras tão cedo, se isso te anima.” Foi irônico.

Tentei considerar se aquilo me animava realmente, mas a melancolia de David ao dizer aquilo falou mais alto. David sempre foi bastante intenso e exagerado, oito ou oitenta, quando vivia algo caía de cabeça, não ficava nos meio termos ou meias medidas. Sempre foi algo que gostei nele, então era compreensível a forma que se deixou envolver por Andreas. Até eu já considerava Andreas um amigo, sendo que mal havíamos nos falado mais do que poucas vezes. O loiro era envolvente, e David um tolo.

“Eu acho que será o melhor para você sim. E não porque tenho um interesse em você, e sim porque acredito mesmo nisso. Andreas tem os motivos dele para se vender, David, e você não conseguiria lidar com a ideia de ter de dividi-lo, sejamos francos aqui.” Falei, sincero, com apenas nossos passos acompanhando minhas palavras. “Você terá oportunidade de conhecer muita gente nova agora na Casa Magna.”

“Está querendo que eu conheça gente nova? E eu achando que você era apaixonado por mim!” David falou meio brincalhão debochado, meio sério. Eu sorri de leve, minhas mãos novamente nos bolsos da jeans.

“Desculpe por aquelas coisas.”

“Você já se desculpou. Minha raiva também já passou. Eu acho que se gostasse de você de outra forma também tentaria te agarrar numa situação daquelas, então de boas.” Ele me olhou com um sorriso torto no rosto, e eu o empurrei de leve com o ombro. “Mas sabe, acho que foi bom. Você está até mais conversador após admitir seus sentimentos. Se eu fosse o Derek, diria que sei que sou irresistível, mas não quero admitir que ando convivendo demais com ele.”

“Você sempre conviveu demais com ele. E, é, acho que agora que você sabe disso eu não tenho mais nada a esconder.” Eu ponderei a hipótese, achando a ideia engraçada. “Minha vida é novamente um livro aberto.”

“Eu me sinto... meio mal, meio culpado também. Gostar de alguém e não ser correspondido é uma droga.” David murmurou, podendo estar se referindo tanto a ele em relação a Andreas, quanto a mim em relação a ele. Provavelmente ambas as coisas.

“Não se preocupe. Eu já gostei mais de você... Antes de entrar na universidade, era bastante. Mas agora é mais como uma lembrança que se ativa quando te olho só de cuecas.” Eu rolei os olhos, e David gargalhou, empurrando-me forte o suficiente para que eu cambaleasse para o lado.

“Veja nós dois, ambos derrotados, mas ao menos você está de roupas.” Ele dramatizou de leve.

“Eu me envolvi com alguém aqui na universidade. Mas recebi um fora faz poucos dias.” Eu contei num de meus poucos jorros inconsequentes. Mas não revelaria que estava me referindo ao nosso treinador de natação. “De certa forma, essa pessoa me ajudou a desencanar de você. Mas eu tive que... Tentar ao menos uma vez contigo, depois de descobrir que você também curte garotos.”

David parou e me olhou, na pouca luz.

“Sinto muito. De verdade. Sabe, somos amigos há tanto tempo e às vezes me acho um idiota por não perceber quando você está em um mau estado. Desde novo eu pensava: ‘por que ele é tão fechado?’. Derek sempre foi fácil, ele sim é um livro aberto.” David passou a mão pelos cabelos, num gesto mortificado. “Se eu não te visse como um irmão, eu até ficava contigo. Você não é nada mal.” Ele sorriu malandro, tentando amenizar o clima.

“Obrigado. Minha autoestima agradece.” Sorri de lado, não o levando a sério, mesmo quando ele ficou sério e nós caminhamos vários metros em silêncio, alcançando pouco tempo depois os dormitórios.

XxxX

Bati na porta do dormitório que não era o meu e, apenas após vários minutos e uma nova batida de minha parte, finalmente alguém abriu a porta. Já era metade da semana e, nas quartas, eu felizmente tinha as manhãs livres. Geralmente as usava para treinar também, com mais calma e afinco, ou tênis ou mesmo musculação. Mas hoje seria um bom dia para conhecer Jeremy melhor.

“Quem estamos visitando?” Jeremy perguntou ao meu lado. Era cedo pela manhã e eu jamais imaginava que ele já estaria grudado em mim, mas, ao que parecia, ele tinha o primeiro período livre.

“Não estamos visitando ninguém, só vamos escoltar.” Assim que eu expliquei, a porta abriu e eu vi o pequeno japonês me olhar e, lentamente, arregalar os olhos. Por um motivo que não entendi muito bem, ele pareceu bastante constrangido. Talvez por estar sem camisa e com cara de quem havia caído da cama.

Como eu suspeitava, Oliver não estava no quarto, não era à toa que ele havia me mandado uma mensagem por celular pedindo para que eu levasse Christian até a primeira aula. Vendo o estado pseudo-adormecido do pequeno, percebi que eu havia chegado um tanto cedo demais.

“Olá!” Jeremy prontamente cumprimentou. “Sou Jeremy.” Ele pegou a mão de Christian e a sacudiu, fazendo o garoto piscar aturdido e ainda confuso com a situação.

“O-Oliver não está aqui.” Ele falou enfim. “Ele saiu cedo e não disse para onde ia.”

“Não viemos pelo Oliver. Você ainda lembra de mim, certo? Alan... Te acompanhei aquele dia no parque.” Eu falei apenas para me certificar, já que Christian parecia evitar me olhar diretamente.

“É claro que eu lembro!” Ele exclamou, mas logo pareceu se arrepender de falar tão alto e rápido. Olhando para baixo, ele lembrou que estava sem camisa e correu para dentro do quarto, voltando pouco depois com uma camiseta de gola. Eu sorri com isso, ele tinha o corpinho bonito, apesar de pequeno.

“Eu e Jeremy viemos te escoltar.” Eu expliquei. “Não tem aula agora pela manhã?”

Christian abriu e fechou a boca. Pelo que Oliver me falou, ele havia grudado em Christian nos dois dias anteriores, não deixando o garoto um segundo sozinho pelas ruelas da universidade. Mas isso deveria cansar e tomar tempo, e eu não me importava de ajudar a manter Christian longe de novos problemas.

“T-Tenho, mas é só daqui meia hora e-“

“Então vem tomar café da manhã com a gente! Ainda não comemos, e eu estou morto de fome. Sempre tive problema com isso, se não como de manhã passo o resto do dia meio enjoado, é como se meu corpo não se ativasse direito e depois entrasse em birra e recusasse almoço e janta. E você, magrinho desse jeito, bem que merece comer para não passar mal ou desmaiar depois. Eu tinha uma amiga que-“

“Jeremy.” Eu o interrompi. Mesmo conhecendo-o há pouco, eu estava descobrindo o quanto Jeremy era tagarela, além de gesticular bastante enquanto falava. Não que eu me importasse, eu gostava de pessoas assim, principalmente já que eu não sou dos mais faladores, mas Christian ainda parecia confuso e eu duvidava que ele quisesse saber sobre as amigas do Jeremy.

“Desculpe.” Jeremy sorriu e coçou a parte de trás da cabeça.

“Mas é uma boa ideia. Arrume-se e venha tomar café com a gente. Depois te largamos na sua aula.” Eu falei ameno, transmitindo confiança. Christian, mesmo sendo meigo, parecia que tinha alguns traços ariscos como o irmão. Era o que eu estava achando pela expressão dele de quem estava louco para fechar a porta na nossa cara e não sair nunca mais dali.

“E-Eu posso ir sozinho para minhas aulas.” Ele garantiu, dando um passo para trás. “Mas agradeço a oferta. Tchau!” A porta foi fechada na nossa cara.

Olhei para Jeremy e o vi boquiaberto.

“Poxa, ele recusou a nossa companhia.” Jeremy se lamentou, deixando os ombros caírem.

“Oliver pediu para eu cuidar dele. Não vou desistir tão fácil.” Eu pisquei para Jeremy, que arregalou os olhos e me seguiu obediente quando fiz sinal para ele me acompanhar. Esperamos pacientes, por uns dez minutos ou menos, na minúscula cozinha que toda a sala comum dos dormitórios tinha. Nós dois ficávamos apertados ali dentro, mas Jeremy pareceu não se importar com isso.

Logo ouvimos o som da porta abrir e Christian passar, distraído mas apressado, em direção ao corredor. Eu saí do ‘esconderijo’ e, sem avisos, o segurei por trás e o joguei num dos meus ombros. Ele era tão pequeno e leve que coube perfeitamente ali. O grito de susto que ele soltou me cobrou uma pequena risada. Tentei fazer com que tudo parecesse com uma brincadeira, para não irritá-lo ou assustá-lo.

“Confortável aí? Não se preocupe, quando chegarmos ao refeitório e você se convencer a tomar café com a gente, eu te largo.” Garanti.

“Cara, aí está uma vantagem de ser pequeno. Andar no ombro de alguém, parece confortável.” Jeremy disse e, de uma maneira meio cômica, parecia falar a verdade. Eu ri, enquanto aguardava alguma reação – positiva, eu esperava – de Christian.

Ouvi uma lamúria baixa.

“Isso é constrangedor.” Ele tapou o rosto com as mãos, e eu aproveitei e peguei sua bolsa masculina, colocando-a em meu ombro livre. “As pessoas estão olhando.”

“Deixe que olhem. Saberão que terão problemas se se meterem com você.” Falei tranquilo.

“É isso aí! Estão ouvindo!? Christian está com a gente agora!” Jeremy gritou para todos, atraindo a atenção de pessoas aleatórias. Esse garoto não batia bem e, com aquela declaração, pude sentir Christian encolher-se um pouco em meus ombros.

Perto do refeitório, ele murmurou:

“Por favor, me coloca no chão. Eu tomo café da manhã com vocês.” Parecia derrotado.

Eu o coloquei cuidadosamente no chão, achando graça em vê-lo completamente vermelho. Coloquei minha mão sobre a cabeça dele, bagunçando de leve seus cabelos em um gesto que julguei meio fraternal. Nossa diferença de altura era gritante, uns trinta centímetros, e era impossível que eu não me sentisse como um irmão mais velho, isso sem contar que ele era seis anos mais novo do que eu.

“Espero que não se irrite comigo, mas não vou largar do seu pé, mesmo se pedir.” Eu garanti numa brincadeira que também não era nenhuma mentira.

“Impossível me irritar com você.” Chris murmurou, mas, novamente, ao perceber o que havia dito, avermelhou um pouco mais e me deu as costas, entrando no refeitório. Fiz sinal para Jeremy e nós entramos também, seguindo-o.

“Ele me lembra personagens de anime. Sabe, aqueles fofinhos.” Jeremy comentou alegremente. “Teve um anime que eu vi uma vez que tinha um personagem assim. Já faz tempo, eu tinha uns quinze anos. Espera, agora eu tenho dezoito. Ok, não faz tanto tempo. Mas nesse anime-“

Eu sorri discretamente, sabendo que aquele papo ia longe. Meu olhar, no entanto, não se desviou de Christian durante todo o tempo em que nos servíamos e procurávamos uma mesa para sentar.

Notas finais
Muito obrigada aos amores que comentaram cap. passado: Tsukasa, Hinamori, Ruth Echelon, Jurubeba, Andressa, Doce Amarga, Naiara Azevedo, Heloisa unleashed, Vivi Costa e um agradecimento especial à Bárbara Carvalho MelissadeCarv por comentar em todos os capítulos enquanto lia