Notas iniciais
Obrigada a meu grande amigo Tsukasa, que vem me ajudando muito com todas as minhas fics, em geral, e deixou uma recomendação para esta daqui!

David

Eu cheguei ao meu quarto na universidade e me joguei na cama, soltando um grunhido e, por um momento, agarrando meus cabelos que já estavam um pouco mais compridos do que eu gostaria. Estava puto com o Andreas, indignado porque ele realmente me via como algum cachorro sarnento que ficava correndo atrás dele e enchendo o saco, um babaca qualquer que ia até a Casa das Máscaras por sua fama lá dentro e nem se importava com nada além do prazer que ele podia dar.

Ok, eu admito que me interesso – e muito – pelo prazer que sempre sinto quando eu o toco, ou ele me toca, mas... Eu não queria que fosse apenas isso. Fazia eu me sentir um canalha e talvez por isso eu estivesse tão irritado e chateado. Porque no fundo eu sabia que ele tinha um pouco – ou na verdade muita – razão para pensar isso de mim.

Na real eu também estava com ciúmes e, em parte, irritado com o que havia acontecido com o garoto Christian, apesar de o asiático ser o culpado do meu ciúme. Ainda que eu tivesse noção de que o garoto era provavelmente o mais inocente nessa história toda. O demônio loiro estava enfiado no rolo, afinal, e o japinha bem que era bonitinho.

Deixem-me explicar o que aconteceu na tarde de hoje.

Mais cedo, Oliver nos procurou e, em realidade, por nós, entenda que procurou o Alan. Ele precisava da ajuda de alguém para distrair o irmão mais novo, que havia aparecido no jornal acusado de profanar um tal teatro metido a besta das Belas Artes. Como Alan havia me procurado para conversarmos e resolvermos o impasse a que havíamos chegado – tipo aquele em que ele me agarrou à força enquanto lutávamos boxe –, eu estava junto com ele, e Derek surgiu do além, em algum momento quando Oliver já havia nos encontrado.

Nós três resolvemos ir para a exposição de animais que já tínhamos planos de ir, caso Andreas não houvesse desistido, mas Oliver decidiu mandar o mundo à merda e sumir antes de sairmos da universidade. No fim, acabamos nós três na exposição. Derek acabou indo encontrar a atual garota dele, Alan distraía Chris, e eu acabei encontrando Andreas. Depois daquilo, eu voltei para meu dormitório e cá continuo.

“Porra, não faz sentido eu sentir tudo isso em tão pouco tempo...” Pensei alto, perdido, a imagem de Andreas e alguns de nossos momentos juntos me vindo à mente. Um dos meus favoritos era de quando saímos para comer aquele hambúrguer horrível e passamos horas conversando e implicando um com o outro.

Seria bom ter mais momentos como esse, mas eu não era tão teimoso a ponto de continuar insistindo após um fora daqueles. Quando cansei de ficar parado xingando a vida, eu me levantei. Com uma decisão súbita, peguei no armário as malas, agora vazias, que havia usado para trazer meus pertences para a universidade. Arrumei tudo dentro delas, sem muito cuidado. Mais tarde, acreditando que não iria atrapalhar nada entre Derek e sua atual ficante, liguei para meu amigo. Ele demorou três chamadas para me atender.

Yo.” Saudou. “Resolveu ser sociável?” Perguntou numa alusão irônica ao fato de que havia deixado o parque com alguns palavrões após o fora que eu levei de Andreas.

Eu grunhi ao celular. Qualquer pessoa que se diga amiga de alguém está sujeita a eventuais grosserias. Derek estava acostumado às minhas, e eu às dele.

“Hum, parece que não.” Ele falou bem humorado, o que me levou a crer que havia se dado bem naquele dia.

Ao menos um de nós.

“Olha quem falando. Depois que você terminou o namoro, andava o tempo todo reclamando pelos cantos. Só hoje parece ter melhorado de humor.” Resmunguei desdenhoso.

“Parece que fazemos um belo time.” Ele suspirou exageradamente. “Mas ao menos eu tinha um motivo. Qual a sua desculpa para o humor do capeta? Já sei!” Eu quase podia vê-lo sorrindo debochado. “Falta de sexo.”

“Vá pro inferno.” Retruquei. Isso estava na lista, mas eu não estava muito a fim de contar, pelo menos não naquele momento, sobre a briga com Andreas. Meu orgulho estava bastante ferido e o que eu menos precisava era das piadinhas infames e insensíveis de Derek.

“E sexo com aquele loiro, não? Pelo jeito que você pareceu depois de falar com ele, imagino que a conversa entre vocês não tenha sido muito boa.”

Eu ainda não havia contado ao Derek que Andreas era o garoto da Casa das Máscaras. Apenas Alan sabia também, pois havia deduzido por ele próprio. Seria bom desabafar com Derek, mas ao mesmo tempo seria injusto compartilhar um segredo que não era meu. Eu confiava em Derek, mas ele era um tremendo boca grande quando ficava bêbado. E ficar bêbado era frequente quando se trata dele.

“Foi tão boa que estou te ligando para pedir que troque de dormitório comigo.” Eu informei a decisão que havia tomado a recém.

Derek ficou vários segundos em silêncio perplexo antes de responder.

“Está falando sério?”

“Estou.” Disse em definitivo, e não há no mundo pessoa mais teimosa do que eu. Tenho consciência disso, Derek também, então ele apenas suspirou, sem perder tempo tentando entender ou me fazer mudar de ideia. Ele sabia que eu muito provavelmente acabaria contando-lhe tudo mais tarde, mesmo que eu não quisesse.

O desgraçado sempre conseguia arrancar tudo o que queria saber em momentos oportunos.

“Você é mesmo um retardado.” Ele disse, mas eu ignorei o xingamento.

Às vezes eu achava estranho que fôssemos melhores amigos, considerando todo esse carinho que nutríamos um pelo outro. Coisas de amigos de longa data. Alguns dizem que palavrões e xingamentos são marcadores de amizades que podem vir a durar toda uma vida. Eu conseguia imaginar-nos velhinhos jogando xingamentos um para o outro. Essa visão me assombra. Aguentar Derek por tanto tempo era passaporte garantido para o céu.

“Está bem. Você sabe onde é o dormitório do segundo ano e o número do meu quarto. Vá para lá e fale com o Bobby. É meu colega de quarto, você o conhece, ele também pratica natação.”

“Sei quem é.” Puxei pela memória. Estranhei porque, se fosse quem eu estava pensando, ele estaria no quarto ano da faculdade de medicina, não no segundo.

“Beleza. Daqui a pouco estou me liberando, aí passo por lá e pego minhas coisas.” Derek desligou.

Quando eu coloquei o celular no bolso da calça, a porta do quarto abriu.

Andreas havia chegado.

Sei que sou estúpido, mas meu coração acelerou ao vê-lo. A despeito disso, percebi que ele parecia bastante cansado. Provavelmente estava até agora pouco fazendo alguns servicinhos. Ignorando-o, e com uma frustração renovada, eu me virei para pegar minhas malas e sair do quarto. Nesse intervalo de segundo, ele se apoiou ao batente da porta, cruzando os braços com uma óbvia expressão de curiosidade no rosto.

“Você está se mudando?”

Por um momento pensei em não responder, porém era impossível ignorá-lo. Eu jamais conseguiria ter sucesso numa tentativa dessas; a presença dele sempre tragaria toda a minha atenção e cobiça. Sua imagem era e sempre seria fascinante para meus olhos. Eu sou tão idiota por me encantar por ele tão rapidamente? É óbvio, eu havia chegado a essa conclusão antes de decidir sair daquele dormitório. Eu até havia lhe dito que estava apaixonado! E eu estava? Eu nem sei direito, apenas admiti no calor do momento. Minhas emoções perto de Andreas explodiam de formas incontroláveis.

Mas sou leigo nesses assuntos de sentimentos.

“Vou trocar com Derek.” Mantive-me parado, encarando-o.

“Aquele seu amigo gostoso?” Ele sorriu torto, com certeza me provocando. Eu trinquei a mandíbula, e ele riu, notando o efeito de seu comentário em mim. Andreas é cheio dessa malícia cruel e, contraditoriamente, isso é uma das coisas que mais me atrai nele. “Sabe, eu estava puto da cara com você. Mesmo. Você consegue ser um chato intrometido dos bons quando quer, sabe? Mas no que dependesse de mim, não precisaria mudar de quarto.”

“É, mas não depende de você.” Falei, como um tapa. Meu coração bateu mais forte, tão idiota quanto eu, mas meu tom foi grosseiro de qualquer maneira e, tentando evitar fraquejar, avancei para a porta, dando a entender que queria que ele abrisse passagem.

Andreas, no entanto, manteve-se parado no mesmo lugar, apenas erguendo o queixo para me encarar de volta. Então ele desviou brevemente o olhar, suspirando, antes de me olhar novamente. Sua expressão parecia muito mais suave do que todas que eu já vira. Não pude impedir o pensamento que adorava descobrir alguma expressão nova dele, e me xinguei mentalmente novamente. Dava para ser mais imbecil que isso?

“Eu só vou fazer isso uma vez.” Andreas falou, desencostando-se da porta e endireitando o corpo. “Eu estava com um humor ruim, me sentindo culpado pelo que aconteceu com o Christian, e descontei em você. O que eu falei foi tudo verdade, aquilo é o que eu acho e não negarei para te agradar, mas também acho que não precisa de todo esse drama.”

“Uou, você é mesmo bom em pedir desculpas.” Eu revirei os olhos.

“Não estou pedindo desculpas.” Ele torceu o lábio superior em escárnio. “Mas é mais cômodo ter você aqui. Já sabe sobre mim e, acredite ou não, confio em você para manter segredo... Também podemos transar vez ou outra quando ambos quisermos. Derek, pelo que sei, é heterossexual.” Ele deu de ombros.

Eu voltei a me corroer de raiva. Larguei as malas, o puxei para dentro do quarto e bati a porta. No instante seguinte, eu o encurralava contra a escrivaninha. Olhei bem fundo dentro de seus olhos azul-escuros, que pareciam ligeiramente surpresos, ainda que nada assustados, como se ele estivesse acostumado com esse tipo de atitude, ou algo assim. Aquela proximidade mexia com todos os meus sentidos, mas ignorei com alguma força tirada do além os instintos do meu corpo que me diziam para beijá-lo.

“Você é sempre tão egoísta?” Perguntei retoricamente, não esperando por uma resposta. “Já sabe que não quero apenas sexo. Também não estou falando de namoro, mas de ficar, sair, bater papo. Mas se você quer só sexo, então conviver com você e continuar me envolvendo só vai piorar o que eu sinto. Apesar disso, ainda pede para que eu fique aqui?”

Andreas me encarou por um momento. Achei que demonstraria algum arrependido, mas ele apenas riu anasalado, seu olhar escapando do meu pela tangente.

“Por favor.” Riu mais um pouco. “Você só está com sintomas que tantos outros já tiveram – de uma paixonite ingênua pelo cara que levou pra cama pela primeira vez. Isso logo irá passar.”

“Eu não sou como tantos outros!” Exclamei sem hesitar.

Ele riu ainda mais zombeteiro, voltando a me encarar com legítima diversão.

“Ah não?” Perguntou sorrindo e erguendo uma sobrancelha. Ele colocou a mão de dedos pequenos na minha nuca e aproximou os lábios do meu pescoço. Beijou e lambeu provocantemente ali, deixando todo o meu corpo eriçado e excitado com esse simples contato. “Não é isso que você quer de mim?” Ele sussurrou perto do meu ouvido. “Me colocar de quatro como das outras vezes e me foder até desmaiar de cansaço?”

Eu tentei articular alguma palavra, mas tudo que saiu foi algo como um gemido ou um grunhido – não sei se de excitação ou surpresa. Talvez ambos. Eu estava perplexo demais com a mudança bizarra de atitude dele em relação à que teve no parque, onde praticamente me escorraçou e devastou com palavras violentas. Andreas era, realmente, inexplicável para mim. Uma incógnita.

“Eu deixo você fazer o que quiser comigo agora. Afinal, sou um prostitutozinho promíscuo, certo?”

Ele arranhou minha nuca e roçou o corpo contra o meu, ficando na ponta dos pés e deixando sua boca rente aos meus lábios, entreaberta, pronta para ser tomada. A referência ao que eu havia lhe chamado mais cedo fez meu estômago revirar com a culpa.

“Vamos, David. Eu já estou duro aqui.” Ele levou minha mão para sua ereção.

Mesmo culpado, aquela provocação era demais para mim. Eu não deveria ser tão fraco, mas, que surpresa! É exatamente o que eu sou. Eu segurei seus cabelos platinados de um modo não muito gentil e o beijei com gosto. Minhas mãos automaticamente desceram para seus glúteos e eu o ergui do chão, colocando-o sentado na escrivaninha. Eu o toquei com tanta ânsia que, em certo momento, o abracei tão forte que Andreas pareceu afastar os lábios apenas para puxar um pouco de ar para os pulmões.

Suas mãos estavam na minha bunda, e eu encaixado entre suas pernas. Mas algo naquilo estava bom demais para ser verdade. Para ser sincero, eu senti um desconforto que não vinha de nenhum lugar particularmente físico do meu corpo. Não parecia certo. Não sei explicar, mas essa sensação me fez parar para fitá-lo, usando um lampejo de sanidade e autocontrole para tamanho feito, e eu sabia que uma parte – uma grande parte – de mim se arrependeria disso mais tarde.

“Por que a mudança de atitude?” Perguntei.

O rosto dele estava tentadoramente corado. Ofegante, com os cabelos desalinhados, e ainda assim o retrato da perfeição. Parecia tão diferente do seu jeito intocável e distante do dia-a-dia que eu sentia ainda mais vontade de beijá-lo e gritar ao mundo que, naquele momento, ele também me queria. Mas quando ele não me respondeu, lentamente estabilizando sua respiração, eu entendi.

Afastei-me com a expressão entre transtornada e irritada.

“Estava querendo provar que sou como todos os outros? Que querem apenas meter em você sem nunca terem ao menos visto o seu rosto?” Perguntei apertando os pulsos ao lado do corpo.

Andreas me encarou e, apesar de ainda um pouco ruborizado pela excitação prévia, sua expressão ficou séria, tão legível quanto uma folha em branco.

“Eu não sou como os outros.” Falei sério, sincero. “Não quero isso.”

“E o que você quer, David? O que você possivelmente pode querer de mim além disso?” Ele se pôs de pé com um pulo gracioso para o chão, seu tom quase como numa acusação. “Eu já disse, não sou material para relacionamentos que passem minimamente do simples e prático envolvimento físico.” Revirou os olhos, deixando claro seu tédio.

“Eu não sei o que eu quero.” Admiti, sentindo-me um panaca por não ter uma resposta melhor do que essa, mas eu nunca havia sido bom em sair explicando assim sem mais nem menos o que eu sentia. Eu só sabia que, sim, eu sentia um puta tesão pelo Andreas, mas minha vontade não era apenas ir lá e fodê-lo e fim da história. Se assim fosse, eu não ficaria atrás dele do jeito que ficava. Porra, eu ainda tenho meu orgulho.

Tudo que eu sabia era que queria saber mais sobre ele, queria entender porque ele agia como agia, porque fazia o que fazia. Queria ajudá-lo, mesmo que eu não soubesse com o que exatamente. Imaginava que pudesse ter algo haver com a família, pelo pouco que eu havia escutado de sua conversa no celular com a irmã e a posterior crise de choro que seguiu à ligação. Eu via como ele era sozinho, apesar de sociável, e queria poder ser alguém que estaria ali por ele, quando ele precisasse.

Mas eu não sabia como explicar nada disso.

“Eu só sei que não é o que você pensa.” Completei e então, sem mais palavras, peguei minhas malas em movimentos ainda irritados – porque porra! Eu estava com uma ereção dolorosa entre as pernas e isso somado a toda situação não ajudava em nada – e saí do quarto.

Estava na hora da eu me desintoxicar de Andreas Deres.

XxxX

Bobby não estava no dormitório quando eu entrei, felizmente encontrando-o aberto. Larguei minhas malas no chão, próximo da cama que, considerando a bagunça, eu soube que era do Derek. Eu não imaginava um cara que faz medicina numa das universidades mais fodas do país sendo desleixado e, claro, eu já conheço o Derek há muito tempo. Tempo até demais.

Acabei cochilando naquela cama que não era minha e parecia feder a cheetos.

Fui acordado de uma maneira muito gentil: alguém despejou um copo de água na minha cara. Eu acordei com um pulo, puxando o ar errado porque havia entrado um pouco pelo meu nariz.

“Seu filho da puta!” Eu tentei socar Derek na boca do estômago, mas ele curvou o corpo, escapando e rindo.

“Amigo, você mereceu essa por estar deitado de boca aberta roncando no meu quarto!” Ele gargalhou. E era uma merda que sua risada era sempre contagiante. Eu acabei rindo junto.

“Vai se foder.” Passei a mão pelo rosto, tirando a água do caminho.

Derek sentou-se na cama ao lado após parar de rir e ficou um pouco mais sério. Geralmente eu me esquecia de que ele era capaz disso.

“Então, está tudo bem?” Perguntou levemente preocupado.

“Sim... Eu só não queria conviver mais com ele. Sabe, acho que eu estava me deixando levar muito rápido.”

“Ele é o garoto da Casa das Máscaras, né? Eu me toquei disso bem rápido, apesar de você não me dizer com todas as palavras. Não sou um idiota desligado como você e o Alan pensam.” Ele revirou os olhos. “Claro que o fato de você falar sem parar sobre ele depois da primeira noite na CDM” Derek usou o apelido da Casa das Máscaras “e do nada botar o olho em outro loiro aqui da universidade e querer correr pra CDM assim que ela reabriu foi uma grande dica.”

“Certo, então você é apenas 70% um idiota desligado, e não os 100% que eu imaginava.” Eu concedi. Foi a minha vez de receber um travesseiro nas fuças e um amável ‘vai se foder, viado’. Ele já me chamava de viado mesmo antes de eu transar com o Andreas, então eu não me importei com isso.

Derek suspirou.

“Quer saber? Acho que você faz bem em se afastar dele. Cara, nada contra e nenhum preconceito, mas se envolver com prostitutos é sempre complicado.” Derek se levantou e foi até o armário. Tirou dali uma mala. “Claro que se você decidisse investir eu não teria nada contra, nem meteria o nariz. Mas também não vou falar nada a favor.”

“Como sempre em cima do muro.” Eu sorri torto, observando-o jogar a mala sobre a cama de Bobby.

“O que posso dizer?” Derek ergueu as mãos com um ar de desculpas. “Eu sou da paz.”

“Me admira não te encontrar fumando maconha em cada esquina dessa universidade.” Eu me joguei contra os travesseiros enquanto ele jogava algumas roupas, já amassadas dentro do armário, na cama de Bobby, amontoando-as sobre a mala.

“Me admira você não ter dado o cu ainda, mas não julgo.”

Bem que seria uma boa tentar bater nele de novo, mas eu estava com preguiça de me levantar, então só lhe mostrei amigavelmente o dedo do meio. Depois disso, começamos a conversar sobre outros assuntos, antes que ele fosse para o outro dormitório.

“Podíamos ir no Arcade hoje, o que acha?” Eu sugeri com a intenção de distrair a mente. O Arcade, por ser um sábado, provavelmente estaria lotado, mas aí que era bom, para conhecer gente nova e socializar. Era o barzinho mais frequentado pelos estudantes da Ketteridge, pois se situava no movimentado bairro das repúblicas – casas de estudantes para aqueles que não desejavam morar nos dormitórios. Era bem próximo da universidade, os estudantes geralmente iam e voltavam a pé de lá.

“Encher a cara seria bom.” Derek ponderou, mas depois riu e balançou a cabeça. “Mas já tenho outros planos. Se você sair mesmo, só cuidado para não ficar tão bêbado.”

Eu o olhei com uma sobrancelha erguida, mas, quando abri a boca para perguntar por que não deveria beber tanto – tipo, era um sábado e eu estava na fossa! Ou algo assim – Bobby finalmente deu as caras. Ele era um cara grande, tanto quanto o Alan, e isso não é pouca coisa. Era loiro e tinha um rosto meio infantil, parecia fazer o estilo certinho mesmo.

“Ah, oi.” Ele cumprimentou, entrando e largando a mochila na cama dele. Ele e Derek se cumprimentaram como velhos amigos. Bem, eles deviam dividir o dormitório há algum tempo já.

“Este é David. É seu novo colega de quarto, pelo menos por enquanto. Ele não estava se dando muito bem com o colega de quarto dele, e pediu para trocar comigo.” Derek deu o resumo da ópera, ocultando os detalhes sórdidos. Tipo aquele em que meu colega de quarto é um prostituto, e eu um louco tarado de coração partido. Ok, não é pra tanto.

Não estou de coração partido. Digo, também não sou um louco tarado – eu espero.

“Desculpe por isso, se bem que eu acho que ficar longe do Derek será uma benção pra você.” Eu debochei e recebi outro pedido educado para que eu fosse me foder. Não do Bobby, que apenas riu.

“Claro, não se preocupe, não tem problema nenhum.” Bobby garantiu, simpático. Eu tive a impressão de que seria fácil conviver com ele.

“Hei, como assim? Irá aceitar ficar longe de mim assim tão fácil? Eu não significo nada para você?!” Derek dramatizou, verdadeiramente falso. Ele deveria estar cursando artes cênicas e não perdendo tempo em administração. Não que eu pudesse falar muito, estava em Educação Física por pura falta de saber o que fazer da vida.

“Oh, não fique assim.” Bobby o abraçou, entrando na brincadeira. Deu alguns tapinhas na cabeça cheia de cachos de Derek. “Você ainda encontrará alguém que irá te amar. Alguém com muita, muita paciência.”

“Ah, o que seria da vida sem os amigos? Vocês sempre fazendo eu me sentir tão bem!” Derek ironizou com uma careta ao se afastar de Bobby. Pegou suas mochilas, que havia arrumado enquanto conversávamos, e dirigiu-se à porta. “Só tenho um aviso para você Bobby: David é muito pior do que eu.” Ele correu para fora quando, com uma exclamação de indignação, eu dei indícios de que correria atrás dele.

Bobby ria novamente.

“Nossa, que figura aquele dali.” Ele balançou a cabeça. “Bem, nós já nos conhecíamos pela natação, certo? Seja bem vindo. Eu me vou para um banho. Estou podre.” Bobby pegou uma toalha e se trancou no banheiro. Ele parecia mesmo um trapo, e eu suspeitava que o curso dele tinha grande culpa nisso.

Eu decidi arrumar minhas coisas no armário.

“Ah!” Bobby abriu a porta de repente, me fazendo pular de susto. “Se você for sair hoje ou amanhã... É bom que não beba muito. E evite usar... roupas de baixo constrangedoras quando dormir nas próximas noites.” Ele fechou novamente a porta.

“Mas o que diabos...?” Achei ter entendido por que ele e Derek pareciam dar-se bem.

XxxX

Minha explicação veio apenas no meio da noite de domingo, ou melhor, na madrugada de segunda-feira, depois de um domingo em que ocupei minha cabeça apenas com o vôlei e, no resto do tempo, malhei e depois descansei, principalmente por começar a chover no final da tarde.

Eu acordei com um balde de água na cara – que me fez abrir os olhos já me engasgando e tossindo como um fumante tuberculoso. Isso estava virando rotina, aparentemente. Tomei um verdadeiro cagaço ao perceber que havia várias pessoas no quarto, próximas da minha cama. Duas deles me agarraram pelos braços e me ergueram do colchão, sem nenhuma explicação coerente.

Cara, eu estava só de cuecas.

“Você vem com a gente, calouro.” Disse um deles. “Tem o direito de permanecer calado e obediente. Tudo que disser ou fizer pode ser usado contra você no futuro, e hoje à noite... Você decidirá todos os próximos dias de sua vida!”

“Isso é uma seita?” Eu perguntei aturdido, ainda com o cérebro lento. Me senti um idiota ao perceber que era Derek quem falava, com uma voz forçosamente grossa e rouca, enquanto outros me arrastavam. “Derek! Seu filho da puta!”

“Respeite seus superiores, calouro!” Derek exclamou talvez um pouco alto demais. Saíamos para os corredores vazios, escuros e silenciosos do dormitório, àquela hora da madrugada.

Levei um tapa atrás da cabeça de um dos que me arrastavam. Eu tenho duas pernas, se é que eles não haviam entendido. Mas eu tinha de admitir, estava curioso com aquilo. Derek havia sido um filho da puta por não me contar nada. Eu estava boiando mais que merda de cachorro em piscina de quintal sobre aquilo. Até tentei falar mais alguma coisa, porém eles me mandaram ficar quieto.

“Não podemos ser descobertos.” Derek sussurrou, e aí começamos a andar mais rápido. Eu notei que estava quase correndo, acompanhando-os como um fugitivo, e meu coração começou a acelerar pelo nervosismo e esforço físico. “O resto de nós está recolhendo novos calouros, iremos nos reunir próximo do complexo esportivo!”

Nós avançamos como bandidos pelos caminhos escuros do campus da Ketteridge à noite. Quase topamos com um guarda pelo caminho, mas desviamos da luz da lanterna dele e corremos por outro caminho. Eu estava de pés descalços e de cuecas, perdi a conta de quantas vezes pisei em pedrinhas e quase caí pela dor, ou escorreguei por tudo ainda estar úmido da chuva prévia.

Se eu fosse pego nesse estado, estaria ferrado. Muito ferrado.

“Afinal, o que significa tudo isso?” Tentei perguntar, ofegante.

“Significa que você foi escolhido. Um, dentre tantos! Sinta-se orgulhoso!” Derek exclamou estufando o peito, justamente quando, enfim, chegávamos ao complexo esportivo na zona sul do campus. O campus era dividido em quatro zonas cardeais, cada uma com um conjunto coeso e específico de setores. Na sul, ficava o setor esportivo.

Ali, um amontoado de pessoas já nos aguardava. Havia outros caras e também garotas com uma aparência nada digna, de quem caiu da cama, a maioria com os cabelos molhados. Uma das garotas estava com uma camisola curta e, pelos seios soltos, sem sutiã. Parecia bem desconfortável, mas eu não diria que tampouco eu estava exatamente confortável com minha cueca branca.

Pelo que contei, havia mais uns vinte e poucos além de mim ali.

Fui empurrado para frente, até acabar em meio ao grupo de calouros próximos a um pequeno palanque que era usado para a abertura e premiação de alguns jogos nos campeonatos da Ketteridge. Continuava escuro ali, éramos iluminados por algumas lanternas dos veteranos, e eu ainda me perguntava o que diabos estava acontecendo. Só me sentia calmo porque Derek estava envolvido, então eu esperava que aquilo não colocasse nossas vidas em perigo.

Ou eu talvez devesse estar pensando justamente o contrário.

“Boa noite, calouros.” O cara em cima do palanque falou. Era um negro alto e musculoso, com os cabelos compridos rastafári.

“Boa noite o cacete! Porra, eu estou de camisola!” A garota que eu havia notado, mulata de lábios carnudos e cabelos negros, gritou irritadiça.

O cara sorriu, parecendo achar aquilo engraçado, mas continuou, ignorando a indignação da morena. Todos os outros, diferentemente de mim e dela, pareciam felizes, emocionados e empolgados. Eu continuava me sentindo numa seita, só esperava que não estivéssemos ali para os sacrifícios.

“Hoje, vocês foram pré-selecionados para fazer parte de um grupo tradicional e respeitado dessa universidade. Somos uma família, todos os nossos membros são considerados irmãos. Nós nos apoiamos e ajudamos em tudo, e nossa força é reconhecida. Entrar neste grupo é uma grande honra e uma grande oportunidade.” Ele falou tudo em ar sério e solene. “Alguns de vocês já devem nos conhecer, para os que não nos conhecem, bem-vindos à Casa Magna, a fraternidade em que apenas os melhores esportistas ganham uma chance de entrar.”

“Porém!” Ele engatou, antes de permitir qualquer pergunta. “Eu, Jenson Fontaine, como líder da Casa Magna, preparei para vocês um pequeno teste de iniciação. Se conseguirem passar por ele, sem ultrapassar o tempo limite de uma hora, serão aceitos e passarão por um mês de experiência, em que terão de acatar algumas ordens e realizar algumas tarefas. Se falharem hoje, ou nesse próximo mês, perderão uma chance única na vida. Então, esforcem-se!” Jenson gritou em um ar empolgado, como se fosse o capitão de um time antes do jogo da final.

A motivação é uma decisão.” Os estudantes que já eram membros da Casa Magna murmuram, em coro. Definitivamente pareciam uma seita, como diabos Derek nunca havia me contado sobre isso? Não... Espera, eu acho que ele chegou a me falar sobre algo, mas ou eu estava muito bêbado para lembrar, ou ele estava bêbado demais para informar direito daquela história. Provavelmente ambos.

“Ouviram, calouros? Esse é nosso lema. Lembrem-se dele a partir de agora.” Jenson reafirmou, um pouco mais sério. Nesse momento lembrei dele, era o capitão do time de basquete do qual Derek fazia parte. “Hoje à noite, vocês participarão de um triátlon pela universidade. Ele começa aqui, onde estamos, e termina na antiga torre de observação. Há indicações do caminho por toda a universidade, só cuidado com as falsas pistas. Boa sorte, vocês têm...” Jenson olhou para seu relógio de punho. “55 minutos, e contando.”

Ele saiu do palanque e, rapidamente, todos os alunos da fraternidade haviam sumido, deixando nós calouros bastante perdidos. Eu olhei pros lados, notando que as pessoas faziam o mesmo. Ninguém parecia saber exatamente o que fazer agora. Eu, no entanto, acabei captando Derek no meu campo de visão, me chamando para trás de uma árvore. Fui até ele, ignorando o que os calouros falavam. Alguns xingavam, outros começavam a correr, procurando o caminho.

“Você podia ter me avisado.” Eu falei assim que estava suficientemente perto dele.

“Mas aí qual seria a graça? Eu perderia essa linda chance de ver você apenas de cuecas pelo campus.” Ele riu divertido, e fingiu me olhar com interesse. “Nossa, que delícia de homem.”

Eu revirei os olhos.

“Sério, o que eu faço agora?”

“A cor da Casa Magna é o vermelho, quase todos sabem disso. Já a Casa Sigma tem a cor branca como símbolo. Não siga nenhuma flecha branca e evite as pessoas de camiseta branca, elas estarão pelo campus para atrasar quem encontrarem. As de vermelho foram feitas para ajudar.” Derek apontou para si mesmo com o polegar, ele vestia uma camisa vermelha. “Todo mundo tem de levar algum objeto escondido pelo campus até o ponto de chegada, as pistas estão pelo caminho também. Se chegar de mãos vazias, terá um mês mais difícil pela frente.”

“Correr de pés descalços no escuro é uma merda.”

“Foda-se. Apenas corra. Vai logo, ou não vai conseguir chegar a tempo!” Derek me empurrou para os ginásios. “O primeiro ponto é a piscina!”

Além de praticamente pelado, eu ainda seria um pelado ensopado. Porém eu queria entrar para a fraternidade, sempre se ouve boas coisas sobre essas organizações, como a oportunidade de fazer amigos para toda uma vida, e meu melhor amigo também estava dentro. E se Derek havia sido capaz de entrar, qualquer um também era. Ao menos, os mais atléticos, como parecia ser o caso de quase todos ali.

Corri para o ginásio das piscinas, notando que alguns me seguiram. Retiro o que disse sobre todos serem atléticos, ali entre nós havia um garoto de estatura mediana, rosto sardento e um corpo magrelo de quem pegou peso uma única vez na vida, o que dirá praticar algum esporte. Talvez ele participasse justamente de triátlons, eu tinha de admitir, ele corria bastante.

As portas do ginásio estavam abertas e o lugar ligeiramente escurecido, porém as luzes das piscinas estavam ligadas. Havia veteranos ali, observando tudo. Eu arregalei os olhos quando uns três caras de camisa branca começaram a se aproximar. Pulei na água o mais rápido possível, fugindo deles e me pondo a nadar, chegando a outra margem ofegante pelo esforço. Olhei para trás e vi que os de branco seguravam uma garota e um garoto, impedindo-os de cair na água. Parecia que teriam de pagar alguma prenda antes de serem liberados.

Decidi não esperar para ver o que era. Saí da piscina e corri para fora. Agora minha cueca branca estava quase transparente, que ótimo! E o vento da noite arrepiou toda minha pele. Eu não lembrava de estar tão frio antes.

“E agora?” Quase pulei quando alguém parou do meu lado e perguntou. “Para onde vamos?”

“Quem é você?” Perguntei. Era o garoto franzino e sardento que, diferente de mim, usava um pijama molhado no momento.

“Me chamo Jeremy Flowers!” Ele estendeu a mão para um cumprimento, mas eu não me sentia lá muito à vontade para sair cumprimentando desconhecidos enquanto eu estava apenas de cuecas molhadas, se é que me entende.

“David Young.” Falei apenas e, apertando os olhos, vi um ponto vermelho luminoso à distância. “Apenas me siga.” Eu voltei a correr, seguindo o ponto. Acabei num caminho da universidade que eu nunca tinha usado. Aquele campus era gigantesco, talvez do tamanho de uma cidade de porte médio. E correr sem tênis era mesmo uma péssima ideia, meus calcanhares doíam e pisei em pedrinhas umas cinco vezes em menos de dez minutos. Xinguei três vezes, na quarta a peguei e toquei longe, na quinta foi uma pedra maior que esmagou justo o meio do meu pé.

Eu tropecei grunhindo de dor, cambaleando.

Jeremy me segurou, ainda que eu fosse muito maior do que ele.

“Você está bem?” Ele perguntou. O pequeno miserável não havia pisado em nenhuma pedra até agora! Eu sou mesmo um filho da puta azarado.

Eu notei mais dois caras de branco se aproximando de nós, em passos rápidos. Mais adiante, apenas pra ferrar ainda mais, havia um dos guardas do campus perambulando tranquilamente. Ignorei a dor e segurei o braço de Jeremy.

“Vamos rápido!” Sussurrei e voltei a correr, virando numa espécie de beco entre dois prédios de dormitórios.

Empurrei Jeremy contra a parede e tapei a boca dele com minha mão, pedindo por silêncio. Ele arregalou os olhos, olhando nervoso para mim, mas obedeceu. Pude ouvir meu coração batendo rápido enquanto os caras passavam reto pelo beco e também fugiam do caminho do guarda. A adrenalina deixava aquilo tudo bastante divertido, pra ser sincero.

“Quanto tempo ainda temos?” Eu perguntei para ele.

Jeremy usava um relógio de pulso, provavelmente a prova d’água.

“40 minutos.” Ele disse. “Tempo de sobra!”

“Nem tanto, não sabemos quanto ainda precisamos percorrer.” Eu saí do beco e olhei para os lados. Vi alguns calouros pintados, parecendo infelizes com a vida. Quando eles passaram por nós, fediam a água de peixe.

“Credo.” Jeremy resmungou do meu lado, e eu gargalhei.

“Vamos.” Nós voltamos a correr feito dois fugitivos. A cada esquina parávamos e sondávamos o caminho com atenção. Lembrei que não podíamos chegar de mãos vazias ao ponto de chegada quando alcançamos uma das áreas principais da Ketteridge, em frente ao prédio administrativo de arquitetura antiga e respeitável, como quase todos os outros.

“Há uma faixa vermelha na estátua de leão, na entrada do prédio. Talvez lá nós encontremos algo para levar...” Eu olhei para outro extremo da praça central, onde o chafariz com a estátua do primeiro diretor jorrava água calmamente. Havia guardas por ali, dois deles conversando. Caramba, de onde brotavam tantos guardas? Suspeitei que o diretor soubesse que hoje era a seleção da fraternidade e houvesse aumentado a segurança.

“Faixa vermelha...?” Jeremy espiou sobre meu ombro. “O que isso quer dizer?”

“Pensei que fosse senso comum e só eu fosse o perdido. Essa é a cor da fraternidade.” Expliquei.

“Ah sim! Poxa, nem tinha me tocado!” Jeremy bateu contra a própria testa. “Ok! Então, eu distraio os guardas!”

Minhas sobrancelhas subiram quando eu o vi correr. Esse garoto era meio pirado, quero dizer, não é todo dia que você vê alguém subir na frente de uma fonte, chamar os guardas, dar as costas a eles e mostrar a bunda. Pirado, estou dizendo. Claro que a sorte dele era que ele corria até mais do que eu e ainda tinha a habilidade, ou sorte, de escapar das pedrinhas no chão.

“Que maluco de pedra.” Eu murmurei admirado com um sorrisinho no canto dos lábios e pus-me a correr também, aproveitando que os guardas haviam disparado atrás de Jeremy. Eu só esperava que ele não fosse pego, seria uma pena se não conseguisse entrar na fraternidade e ainda fosse expulso, eu tinha ido com a cara dele.

É claro que as portas principais do prédio estavam trancadas, eu era idiota por imaginar o contrário. Zanzei ao redor, mas sem encontrei nada. Era estranho... Aquela faixa vermelha no leão indicava o lugar. Eu voltei até a estátua de rei da selva, analisando-o de cima abaixo. Quando olhei por baixo dele, para sua barriga de bronze, eu vi um colar preso ali com uma fita adesiva. Havia um papelzinho também. Ele dizia: “Parabéns! Você encontrou um dos colares. Use-o e ganhe regalias ao longo do próximo mês. Você é um dos dez a encontrá-lo!” Eu fiquei animado, depois pensei que Jeremy poderia ter-se ferrado, e eu quem estava colhendo o prêmio.

Mas como eu ia encontrá-lo?

Sentei-me um pouco pensando em que caminho seguir agora. Eu tinha a leve impressão de que havíamos saído da rota e eu também não queria deixar Jeremy para trás. ‘Tá que eu nem o conhecia e havíamos feito uma dupla do nada, por nenhuma razão em especial, mas seria meio filha da putagem deixá-lo para trás. Eu espiei para além da estátua de leão, bem ao lado do lance de escadas do prédio. Uma bicicleta estava parada ali, quase escondida.

“Bem, todo triátlon tem a parte das bicicletas...” Murmurei compreendendo. Pulei para o chão e peguei a bicicleta, subindo nela com um sorriso empolgado. Eu podia tentar encontrar Jeremy se seguisse pelo mesmo caminho que ele e, se algum guarda aparecesse, eu teria vantagem sobre ele. Nenhuma corrida a pé vence de uma bicicleta, até onde eu sei.

Não precisei avançar muito. Jeremy apareceu correndo pouco depois.

“Acho que sei o caminho!” Ele parou colocando as mãos no joelho. “Droga, eu não tenho uma bicicleta!” Falou ao olhar para mim.

“Vamos, sobe.” Eu disse, virando e indicando para que ele se empoleirasse atrás de mim. Jeremy não precisou de novos incentivos, ele pulou na bicicleta, ficando de pé atrás de mim, e colocou as mãos nos meus ombros.

“É melhor você começar a pedalar, aqueles guardas estão voltando.” Jeremy alertou, rindo.

A bicicleta era boa e grande. Nós avançamos, ainda pegamos um caminho errado por seguir um símbolo de Sigma vermelho desenhado no chão numa encruzilhada. Eu esqueci completamente que a outra fraternidade era chamada de Sigma. Nós acabamos para os lados da biblioteca central, enorme e silenciosa àquela hora.

“Na biblioteca, no sótão dela, fica o QG da fraternidade Sigma.” Jeremy falou perto do meu ouvido. “A torre de observação fica mais adiante!”

“Quantos minutos temos?”

“12 minutos.”

“Segure-se firme!” Eu pedalei o mais rápido que pude. Alguns veteranos de branco nos perseguiram saídos de trás de algumas árvores próximas da biblioteca. Cheguei a pensar que nos espancariam se nos alcançasse e pedalei como louco. Porém, mais adiante, havia um veterano de vermelho.

“É por ali!” Ele exclamou. “No final desse caminho estão todas as bicicletas. Além dali segue o caminho para a torre! Rápido, calouros!”

Eu gravei o rosto dele, teria de agradecer depois. Desviei o caminho e pedalei rápido. Mais adiante estavam outros calouros pegando bicicletas e avançando. Havia cinco bicicletas ainda, eu tinha a minha, mas o problema eram alguns guardas que se aproximavam, de lanternas erguidas e gritando para que parássemos. “Pare!” Jeremy exclamou e, mesmo antes de eu parar, já pulou da bicicleta e pegou uma para ele próprio.

“Hei, vocês! Parados!” O guarda gritou, mas nós avançamos.

“Tente me pegar então!” Jeremy gritou e depois urrou o típico “Iaaahuuuuul!” que lembrava o berro de um cowboy com um parafuso a menos montando um touro. “David, só mais quatro minutos!”

“Caralho...!” Eu sussurrei, botando mais força em minhas pernas. Pude ver a torre, ela ficava num dos extremos do campus, parecendo isolada e imponente. A cada segundo ficava mais nítida e pudemos ver os calouros que já haviam chegado e os veteranos que esperavam por lá.

Nós chegamos faltando trinta segundos. Não éramos os últimos, havia quatro atrás de nós que não conseguiram. Eu freei e pulei da bicicleta, mas Jeremy se atrapalhou com a parada súbita e acabou quase atropelando um veterano. Para evitar isso, ele desviou e perdeu o rumo da bicicleta, esparramando-se no chão, empolado nos pneus.

Houve uma gargalhada geral enquanto Jeremy sorria sem jeito e coçava a cabeça, ainda no chão.

“A prova termina agora!” Jenson exclamou, finalizando oficialmente o triátlon. “Aos que chegaram sãos e salvos, sigam-me. Daremos as instruções e informações gerais lá em cima, na torre, onde fica um dos nossos QG’s.” Ele avançou para dentro e os calouros começaram a segui-lo, junto com os veteranos.

Eu me aproximei de Jeremy e lhe estiquei a mão.

“Tudo bem aí?”

“Sim, tudo certo.” Ele riu novamente e aceitou a ajuda. “Só acho que torci o tornozelo...”

“Tome, fique com isso.” Eu coloquei o colar ao redor do pescoço dele.

“O que é isso?” Ele pegou o pingente do colar e o olhou. Havia um símbolo ali, que eu imaginava ser da Casa Magna.

“Vai te ajudar nesses próximos trinta dias. Desastrado e maluco como é, acho que vai precisar disso mais do que eu.” Eu sorri debochado, mas ele apenas coçou a cabeça. Eu imaginava, pelo jeito simples e avoado dele, que não era do tipo orgulhoso que recusaria uma ajuda ou um favor. E acertei, pois ele apenas deu de ombros, sem tentar devolver o colar.

“Obrigado.”

Nós entramos na torre depois disso.

E eu continuava apenas de cuecas.

Perfeito.

Notas finais
Eu sei, eu sei... Tenho reviews atrasados! Isso 'tá virando rotina UIAHSIUSAHIA mas ainda hei de responder, não se preocupem! Já respondi todos os do capítulo retrasado! Essa semana respondo os do capítulo passado, terei umas tardes livres pra isso! Obrigada a quem continua lendo apesar das minhas demoras absurdas IJASOIAJSOIA Espero que tenham gostado! Próximo capítulo será narrado pelo Alan! Beijos!