A Casa Das Máscaras
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Oliver
Era linda e relaxante a visão do céu azul-avermelhado que o telhado do dormitório do terceiro ano proporcionava. Desde meu primeiro ano eu costumava subir em busca de paz e solidão, após ter encontrado por acaso a escada estreita que levava até ali. Eu vinha apenas quando precisava de um tempo de tudo e todos, e observava do alto praticamente toda a enorme extensão da universidade, tão grande e individualizada do resto da cidade, que parecia uma cidade com seus próprios costumes e leis.
Como o Vaticano dentro de Roma. Sorri torto com o pensamento, tocando meu braço dolorido enquanto me encolhia um pouco. Umedeci meu lábio inferior e experimentei o gosto férreo do sangue ressecado sobre ele, enquanto fechava os olhos, entorpecido pelo cansaço.
Geralmente subia à noite, para apreciar o céu. Já houve momento em que desejei estudar astrologia, mas desisti de ideia tão logo a cogitei. Conhecia bem meus pais para saber que isso os decepcionaria e, hoje em dia, eu estava satisfeito com o curso de arquitetura e com o estágio que fazia na empresa de meu pai.
Com a mente limpa, respirei o ar puro ali do alto, sentindo o frio espalhar-se por meus pulmões parecendo reanimá-los. Felizmente os socos que levei nas costelas pareciam não ter quebrado nada, mas a região latejava e doía conforme eu expandia o tórax a cada inspiração. Eu não deixei a enfermeira me examinar quando entreguei Christian aos cuidados dela. Eu tenho aversão a qualquer coisa minimamente ligada à área da saúde.
Naquele fim de tarde, eu precisava acalmar-me justamente por culpa do meu irmão.
Eu havia pedido para Alan o levar para a exposição de animais, e distraí-lo do que acontecera mais cedo, já que ele havia comentado comigo que iria, de qualquer forma. Eu não era bom consolando, não era um bom ombro amigo, e muito menos fraternal. Alan saberia como animá-lo, eu contava com isso. Se eu continuasse perto do Chris, iria xingá-lo de novo. De estúpido, burro, inconsequente, ingênuo, imbecil... A lista era grande. Alan, e dois amigos dele, Derek – que eu já conhecia –, e David, haviam me prometido que também manteriam um olho em Chris daqui para frente.
“Aquele moleque...” Resmunguei contrariado, sentando-me com dificuldade e acendendo um cigarro. Costumava fumar uns dois cigarros por dia, às vezes um, outras nenhum. Mas sempre fumava quando subia no telhado. Sabia que todos me encheriam o saco com isso, com aqueles papos de que faz mal a saúde e que eu, como um atleta, deveria evitar essa porcaria. Eu já sei dos efeitos de merda de um cigarro, não preciso de um bando de intrometidos repetindo-os na minha orelha.
Não me movi um milímetro quando escutei o barulho de alguém também subindo no telhado. Só havia uma pessoa que sabia onde eu estava, quando não me encontrava em lugar algum. E ele não sabia disso porque eu falei. Eu na verdade nem lembro como ele descobriu.
Eu até preferia que não soubesse.
“Oliver!” Bobby me chamou com sua típica preocupação no tom de voz, mas eu apenas me deitei novamente, com a ideia de me fingir de morto. Era uma das coisas que mais me irritava sobre ele – sua constante preocupação com qualquer pessoa, ou animal, ou planta do universo. Não era por nada que ele cursava medicina.
Ele logo estava sentado ao meu lado.
“O que foi?” Perguntei indiferente, tragando de olhos fechados. Ele demorou alguns segundos para responder, o que eu estranhei. Abri minhas pálpebras e encontrei seus olhos mirando meu rosto, sua boca entreaberta. “O que foi?” Repeti, mas agora havia certa zanga em meu tom.
“Não deveria se meter em brigas assim. Ainda mais sozinho contra três caras!” Ele disse ofegante e, para meu desarme, tocou-me o rosto. Seu polegar parou em meu lábio e roçou no machucado no canto esquerdo. Seus olhos azuis brilharam em consternação, mas o que ele fez foi arrancar o cigarro da minha boca, o filho da mãe. “Isso parece bem feio.”
“O idiota tinha um anel com alguma coisa pontiaguda.” Resmunguei contrariado, nem me dando ao trabalho de conseguir meu cigarro de volta, pois sabia que era inútil. Só de me lembrar da briga, queria encher novamente o filho da puta de murros. Apertei meus punhos inconscientemente, todo meu corpo se enchendo de tensão e gerando dor em minhas costelas. “Eu deveria ter batido mais.”
“Você deveria ter denunciado eles para a diretoria, não se metido em brigas.” Bobby recomendou e se aproximou um pouco mais. Sua mão segurou meu braço e ele fez uma leve pressão. “Senta, por favor. Eu trouxe algumas coisas pra tratar dos seus machucados.” Ele disse, e notei a mochila em suas costas.
Eu não queria obedecer, mas sabia que ele continuaria ali me recriminando se eu não o deixasse me tratar. Com um suspiro impaciente, tentei me sentar, mas numa ironia da vida muito malfeita, eu me desequilibrei pela dor, surpreendendo a mim mesmo por estar tão fraco. Bobby rapidamente me amparou e, assim que ergui o rosto para ele, notei suas bochechas vermelhas por estar me abraçando daquela forma.
Não fique corando por nada, idiota, pensei irritado.
Bobby era loiro, de fios curtos, e sua pele era tão clara que qualquer coisa o deixava avermelhado. Um beliscão fraco poderia deixá-lo com um eritema por horas, e às vezes suas bochechas estavam afogueadas simplesmente porque era branco demais e qualquer hemácia circulando nos vasos sob a pele se tornava um farol. Às vezes algumas espinhas surgiam em seu rosto, e não poderiam existir pontos mais vermelhos no universo.
O momento estranho passou, e eu me soltei dele assim que recuperei alguma força em meus músculos. Quando me acomodei melhor sobre as telhas, um pouco de pó subiu para o ar. Bobby espirrou, e seu nariz se tornou uma pequena pimenta. Eu ri disso, perguntando-me como um cara do tamanho dele poderia ter um rosto tão infantil em certos momentos. Eu próprio tinha rinite alérgica, mas ela era pior com pelo de animais.
“Sei que você quis proteger o seu irmão, mas-“
“Não fale nada, por favor. Eu já estou suficientemente ferrado e dolorido, não preciso de sermões.” Reclamei, sentando-me de lado, agora de frente para ele.
“Não estou dando sermões. Mas você não vai poder participar da seleção para o campeonato de primavera agora. Não pensou nisso antes de ir tentar resolver tudo sozinho?” Bobby repreendeu num tom de médico de família, e retirou a mochila das costas.
“Até amanhã vou estar melhor. Vou conseguir nadar.” Falei dando de ombros e desviando o olhar. Eu não queria pensar que havia colocado os últimos meses de treino no lixo. Estava com tanta raiva que poderia chorar. Queria encontrar meu irmão e dar-lhe uns tapas por ser tão estúpido. Ir se pegar com outro garoto justamente no Lyric Convent? E ainda ser flagrado e deixar que a fofoca caísse nas mãos do crápula do Lance e se espalhasse por toda a universidade?!
Eu não estava irritado por ele ser gay, não sou hipócrita, e eu também já desconfiava disso há muitos anos. Estava brabo porque ele parecia gostar de receber bullying, de ser humilhado por esses babacas populares que gostam de implicar com garotos pequenos e inocentes como ele. Eu sinceramente não sei de quem sinto mais raiva, se desses imbecis, ou se do imbecil do meu irmão. Se tem algo que me tira do sério, é ver algum idiota maltratando meu irmão, e por isso desde o colégio eu me ferro em brigas por causa dele. Havia treinado Taekwondo pra poder me virar com esses grandões. Com 15 anos, eu já me virava muito melhor que ele, e nunca levei desaforo para casa. Nunca tive medo de bater e apanhar. Mas Chris era mais delicado e frágil que muita menina por aí, para minha completa frustração.
Entrar na faculdade me dera um pouco de paz, já que eu não precisava tentar defendê-lo a cada cinco minutos – apenas quando ficava sabendo de alguma história e ia até o colégio dele só para ameaçar ou dar uns socos em alguém. Achei que seria diferente para ele na universidade, mas por via das dúvidas havia dado um jeito de dividirmos o mesmo quarto nos dormitórios – apesar de sermos de anos diferentes e eu gostar de dividir o quarto com Jenson, meu amigo de longa data; mas foi eu descuidar o olho dele uma única vez, e era isso que acontecia.
Na porra da primeira semana de aula.
O mais frustrante era pensar que eu estava transando com o Tristan, outro babaca, pouco depois de isso acontecer. E pior, eu também havia sido flagrado. Pelo mesmo cara. Eu começava a entender o ódio do Tristan pelo Lawrence. Ele não era parte da milícia da Ketteridge, mas certamente fazia um bom trabalho nas Belas Artes. E, o pior do pior, era ser agora tratado e repreendido pelo cara culpado por eu ter a genial ideia de tentar transar com outro homem para ver se gostava mesmo, ou se aquela estúpida atração era apenas efeito de alguma carência, ou curiosidade.
Empurrei a mão do Bobby pra longe quando ele tentou passar soro no meu lábio, para limpar o sangue seco. Eu queria que ele fosse embora dali, pois as lágrimas que eu estava segurando durante as mais de duas horas em que estava no telhado estavam ameaçando escorrer pelo canto de meus olhos. E a culpa era dele.
“Eu não preciso de cuidados, vá embora, por favor.” Falei baixo, evitando olhá-lo. Bobby segurou minha mão, não deixando que eu o rechaçasse. O olhei deixando claro não entender por que, no fim das contas, ele estava ali. Ele não tinha nada a ver com o assunto, éramos apenas colegas de natação.
“Não.” Ele sussurrou, abaixando o olhar com certa timidez. “Vim aqui para cuidar de você, e é isso que vou fazer. Quem sabe assim tem mesmo uma chance de participar da seleção amanhã.” Falou e, decidido, pressionou a gaze embebida com soro em meu lábio. Gemi de dor, desejando afastar o rosto, mas não conseguindo. O encarei enquanto limpava, e me perguntei se seus outros pacientes se perderiam como eu na concentração de seu olhar azul-chumbo.
Provavelmente sim. Era uma tarefa difícil não se afogar na cor profunda deles.
“Você sabe se o Chris já voltou da exposição?”
“Não sei, mas acho que não.” Bobby balançou a cabeça, não parecendo satisfeito. “Esse corte está fundo demais. Devia vir comigo para a enfermaria, eu posso fazer uma sutura rápida. Quanto tempo faz desde a briga?” Pegou outra gaze com a mão protegida por uma luva e derramou outro líquido, dessa vez roxo, nela.
“Não sei. Tem umas três horas agora, eu acho.” Falei distraído, mas, quando ele passou a gaze pelo meu lábio, ardeu como fogo. “Porra, o que é isso?!” Dessa vez tentei mesmo afastar o rosto, porém ele segurou meu queixo. Apesar da expressão hesitante, sua mão era firme e determinada. “Bobby, isso dói!”
“Vai impedir de infeccionar. Aguente só um pouquinho, por favor.” Ele disse pacientemente. Acho que médicos precisam ter paciência com as pessoas; eu no lugar dele teria me mandado calar a boca.
“Não quero nenhuma sutura.” Deixei evidente minha contrariedade.
“Mas precisa, ou vai acabar com uma cicatriz bem feia aqui.”
Eu não queria uma cicatriz bem feia, então calei a boca mesmo que ele não houvesse pedido. Ele parou de passar aquele produto infernal no corte, e habilidosamente tapou-o com um curativo simples. Olhei para meu cigarro apagado na telha, desejando voltar a fumar, ou simplesmente dormir. Meu corpo e mente estavam cedendo, e eram apenas 18h10min. Eu odiava como escurecia cedo, pelas 18h30min, no nosso Estado. Em alguns lugares do mundo os dias duravam muito mais, e eu invejava isso.
“Vamos, porque depois de seis horas, não se pode mais suturar.” Ele avisou, como se eu me importasse. Levantei-me e segui para onde estava a escada pequena, quase mordendo minha língua para não reclamar da dor. Parecia que o tempo piorara, em vez de melhorar meu estado, estava me sentindo até meio tonto.
“Você está bem...?” Bobby perguntou quando ambos descemos.
“Eu recebi vários socos nas costelas, no estômago e no rosto. Sim, estou ótimo.” Ironizei já cansado daquela preocupação. “Eu só quero dormir. Obrigado pelo curativo, mas não vou ir à droga da enfermaria.” Abanei uma vez a mão, dispensando-o enquanto lhe dava as costas. Eu precisava sair logo dali, antes que começasse a chorar na frente dele. E eu não queria, de jeito algum, que ele me visse dessa forma.
“Mas...!”
“Tchau, Bobby.” Segui para meu quarto, respirando mal. Talvez ele tivesse razão, encarar três babacas sozinho foi idiotice da minha parte, porém eu não me arrependia.
Olhei rapidamente para trás antes de virar o corredor, e vi Bobby com as mãos no bolso, olhando desanimado para o chão. Ele não conseguia ter pulso firme para me arrastar com ele para a enfermaria e me obrigar a deixá-lo me suturar. Ele era bonzinho demais para isso, e esse era um dos motivos que me tiravam do sério sobre ele. Besta, o xinguei entrando no meu quarto e finalmente caindo na cama.
Pensei em ligar para o Alan, para perguntar do meu irmão, mas acabei apagando antes que conseguisse colocar a ideia em prática.
XxxX
Quando abri os olhos, Christian estava adormecido na cama próxima à minha. Notei que ainda estava escuro na rua e olhei para o relógio, por um momento me surpreendendo por ser tão cedo – 4h07min da madrugada –, até lembrar que havia adormecido bem cedo. Levantei da cama gemendo fraco de dor e xingando baixinho, e fui direto para o banheiro tomar um banho.
Chris continuava dormindo profundamente quando me sentei na beira de sua cama e passei a mão por seus cabelos, verificando rapidamente se estava tudo bem com ele, mas torcendo para que não acordasse, ou eu acabaria repreendendo-o novamente. Ajeitando minha mochila nas costas, logo saí do quarto, pensando que a seleção era dali a algumas horas, e eu continuava me encolhendo a cada passo por conta dos pontos doloridos em meu corpo.
Não importa, disse a mim mesmo, atravessando o campus deserto para chegar ao ginásio.
Jenson provavelmente estava lá. Ele não fazia parte do time de natação, mas gostava de nadar nas horas vagas. E suas únicas horas vagas eram no final da madrugada, momento em que ele sofria de insônia. Algumas vezes eu já havia acordado com ele saindo do quarto às 4 horas da manhã para ir nadar, quando ainda dividíamos o dormitório, até uma semana atrás.
Acertando minhas previsões, o encontrei nadando na piscina olímpica do ginásio, apenas as luzes acesas da piscina iluminando o lugar, deixando o ambiente perfeito para uma cena de filme de terror. Eu tirei meus tênis e meias, ergui minhas calças, e me sentei, colocando meus pés na água, enquanto o observava. Ele nadava bem, porém sem a touca nos cabelos, o que era contra as regras. Se eu fosse um dedo-duro idiota, poderia denunciá-lo, mas eu também não estava me importando muito.
Demorou alguns segundos até que ele notasse minha presença e parasse de nadar, para então caminhar pela água até onde eu estava sentado. Jenson era negro e tinha longos cabelos rastafári, da mesma cor preta de seus olhos. Seu peito e braço direito eram cheios de tatuagens, assim como parte do braço direito e costas, as quais ele parecia fazer questão de exibir em jogos de basquete, já que adorava tirar a camisa no meio da partida. Ele é o líder da Casa Magna, a fraternidade voltada aos esportes, da qual eu também faço parte, e o capitão do time de basquete da Ketteridge, o melhor time universitário do país, com vários títulos.
“Fiquei sabendo que andou brigando de novo. Tentei te achar ontem, mas você sumiu, e depois fiquei com pena de te acordar. Como se sente?” Ele perguntou ao parar ao meu lado, colocando os braços cruzados na borda da piscina como forma de apoio. Pingos de água escorriam do cavanhaque e bigodinho fino que ele usava, duas coisas que eu considerava ridículas, mas que caíam bem nele.
“Dolorido. Mas aqueles retardados mereceram, estavam maltratando meu irmão quando os encontrei.” Apertei meus punhos, rangendo os dentes, mas devido à tensão dos meus músculos ao falar disso, me encolhi pela dor, apertando minhas costelas. Jenson aproximou-se e, sem pedir, ergueu minha camiseta.
“Isso está horrível.” Ele falou ao ver o roxo extenso, inchado e desagradável que cobria boa parte de meu torso. Quando tocou sobre a região com a ponta dos dedos molhados, eu estremeci pelo frio e abaixei minha camisa, empurrando-o de volta para a água. “Você vai conseguir nadar hoje?”
“É claro que vou.”
“Mas não deveria.” Ele me olhou por um segundo antes de agarrar meus tornozelos e me puxar para a água. Eu caí com um grito de indignação, e emergi tossindo por ter engolido água. A cada tossida, minhas costelas gritavam em protesto. Pau no cu, era tudo que conseguia pensar enquanto me engasgava. “Tente nadar agora. Eu duvido que consiga. Se não conseguir, te proíbo de nadar pelo resto do dia.”
“Maldito...” Tossi um pouco mais. Jenson era bem mais alto que eu – como jogador de basquete, era esperado que fosse. Diferíamos em uns 25 cm, a água batia facilmente abaixo de seus mamilos, enquanto eu ficava na ponta dos pés. “Você não pode me proibir nada.”
“Eu posso sim, como líder da Casa Magna, eu tenho direito sobre suas decisões esportivas. E eu digo que você não vai nadar se não conseguir me provar que pode, sem acabar se machucando ainda mais.” Ele se aproximou, tentando me intimidar com sua altura. Como se eu não estivesse acostumado.
“Vai se foder.” Tossi, mas me afastei e me preparei para começar a nadar, retirando com dificuldade a camisa e as calças. A dor era horrível com o esforço, e quando iniciei, foi pior ainda, aumentando exponencialmente. Achei que uma faca estava cravando meu fígado ou rim, e respirar se tornou uma tormenta. Era uma verdadeira merda ter permitido que aqueles otários houvessem me deixado naquele estado, e minha raiva apenas aumentou.
Quando alcancei a borda da piscina, tive de me segurar a ela, suprimindo as lágrimas pela dor excruciante. Estava travado, sem conseguir me mexer e segurando protetoramente minhas costelas, quando senti que Jenson parara atrás de mim. Ele segurou minha cintura e tocou-me onde mais doía, afastando minha mão.
“Você é um babaca teimoso, Oliver. Deveria ter avaliado isso ontem.” Ele massageou minhas costelas, e eu gemi baixo pela dor, apoiando minha testa em meu antebraço. Jenson suspirou. “Acho que está com alguma costela quebrada, ou fraturada.”
“E você é a porra de um médico para saber disso?” Perguntei num rosnado. “Bobby já me avaliou, está tudo bem comigo.” Menti.
“Então ele lhe avaliou mal pra cacete. Você vai comigo para a enfermaria, e fim de papo.” Decidiu por ele mesmo, metido a líder como era. Saiu da piscina e depois me puxou pelos braços para fora, fazendo parecer que eu pesava menos que um travesseiro. Diferentemente do que acontecia com Bobby, meu olhar furioso não o intimidou.
“Quando eu me recuperar, pode apostar que vou te encher de porrada.” Grunhi quando ele passou meu braço por seus ombros. “E eu estou só de cueca, otário. Devolva minhas roupas.” Vi que elas estavam sobre o ombro dele.
“Não. Se sair com isso, vai se resfriar. Te empresto umas minhas depois que nos secarmos.”
Ele me levou para os vestiários. Lá me jogou uma toalha na cara e mandou eu me secar. Eu estava ficando preocupado com a piora da minha dor, então acabei aceitando aquela porcaria toda. Talvez se eu fizesse um raio-x e não tivesse nenhuma fratura, Jenson me deixaria participar da seleção ainda naquele dia.
“Vamos?” Ele perguntou, estendendo-me a mão assim que terminei de me vestir com roupas que eram muito maiores do que eu.
“Eu sei caminhar sozinho.” Murmurei irritado, mas pisei em falso quando tentei me erguer. Talvez eu devesse ter comido alguma coisa quando acordei. Não havia comido nada desde o almoço do dia anterior, e minha visão nublou.
Jenson me segurou, voltando a passar meu braço por seus ombros.
“Só não te pego no colo, porque sei que iria se debater feito louco e piorar sua dor.” Ele comentou naturalmente, e era bom mesmo que soubesse disso. “Às vezes eu acho que você poderia ser um pouquinho mais dócil.”
“Às vezes eu acho que você poderia calar a maldita boca.” Grunhi entredentes e, naquele clima maravilhoso, fui levado para a enfermaria.
Lá, a porra do médico, com a porra de um raio-x, confirmou que eu estava com duas costelas fraturadas, uma de leve, já a outra era um caso mais sério, e eu precisaria de repouso por algumas semanas.
“Vou falar com o Bobby. Ele vai me ajudar a manter um olho em você, para que fique comportado. É bom que Tristan também não te toque durante esse tempo.” Jenson falou quando estávamos apenas nós dois ali; eu deitado num leito comendo um sanduíche, e ele em pé me olhando de braços cruzados.
Meu rosto ardeu quando o olhei com os olhos arregalados.
“O-O quê...?”
Ele sorriu de canto.
“Achava que eu não sabia? Oliver, não sou otário. Dividíamos o quarto até uma semana atrás. Eu já vi você e o Tristan se comendo ali, apenas não interrompi.” Meu coração havia parado no peito. “Nunca imaginei que você dava a bunda.”
“S-Seu voyer pervertido!” Exclamei, me sentindo tão envergonhado quanto alguém completamente nu em meio a uma multidão. Jenson riu sarcástico, seus lábios grossos abrindo um sorriso filho da puta.
“Não sou voyer, foi apenas por um segundo, da vez que voltei mais cedo da viagem que fiz com o time, há uns dois meses. Você deveria lembrar que tenho a chave do quarto...” Ele se sentou na beira da cama e segurou meu queixo, olhando-me de perto. “Quem diria que você geme tão bem?” Sorriu escarnecido.
Eu o soquei na mandíbula.
“Porra, Oliver!” Ele se levantou segurando o queixo. “Por que fez isso? Eu estava apenas brincando!”
“S-Saia daqui!” Sussurrei, espantado.
Éramos amigos há muitos anos, mas minha educação rígida sempre me impediu de ter uma relação aberta e muito próxima com qualquer um, até mesmo com ele. Raramente falávamos de sexo, nosso foco eram os esportes, filmes, livros, qualquer outra coisa. Ele não tinha liberdade para falar assim comigo, muito menos para me ver transando com Tristan – a pessoa com quem eu tinha uma relação casual da qual eu morria de vergonha.
Virei o rosto, não querendo olhá-lo.
“Saia...” Murmurei.
“Olha, Oliver, eu fiquei surpreso que você é gay, ou bi, não sei, mas somos amigos. Não estou te julgando, você transa com quem quiser.” Ele saiu depois disso.
XxxX
Era um aborrecimento, mas o médico havia dito que, por aquele dia, eu ficaria na enfermaria descansando, e receberia um atestado médico por perder as aulas. Por causa da minha má fama, eu não tinha créditos ali. Várias vezes o Dr. Brown e a Enf.ª Julliet haviam tratado de alguns ferimentos que consegui durante aqueles três anos de faculdade. E isso que a maioria eu cuidava por mim mesmo.
“Eu trouxe o que você pediu.” Tristan me jogou o livro que eu estava lendo, que na verdade eu havia pegado do meu irmão.
Como eu não queria ver Jenson de novo, e Chris deveria estar em aula, restou-me mandar uma mensagem ao Tristan pedindo para que ele buscasse o livro, já que era o único que também tinha a chave do meu quarto e havia me mandado uma mensagem perguntando-me onde eu estava, ou seja, viria me ver de qualquer forma, mesmo que eu pedisse para que não viesse. E, antes que me pergunte por que ele tinha a chave do meu quarto, deixe-me explicar que o desgraçado a roubou de mim e nunca mais me devolveu.
“Obrigado.” Peguei o livro e o abri na página em que havia parado, ignorando-o. Quem sabe assim caísse fora. Porém Tristan nunca entendia o recado, e fechou as cortinas ao redor da cama, sentando-se ao meu lado em seguida.
“Vai me ignorar? Só porque está de castigo por ter aprontado?” Ele sussurrou na minha orelha, tirando o livro de minhas mãos e o colocando sobre a cômoda ao lado da cama.
“Vai se ferrar.” Me afastei, mas conseguir algum espaço era impossível.
“Como você está?” Ele me analisou de cima abaixo, tentando erguer minhas roupas para ver outros estragos, mas não o deixei se aventurar muito. “A história se espalhou como fogo em palheiro pela universidade...”
“Isso não é novidade, com o amigo fofoqueiro que você tem...” Bufei e cruzei os braços sobre minha barriga. Talvez fosse Lance quem eu devesse surrar.
“Lance oferece o que o público quer. Quem faz as notícias é quem as lê.”
“Isso, defenda-o... Até ele ferrar com a sua vida também. Aí quero ver você usar uma desculpinha dessas.” Contrapus, apesar de entender que o que falava era em parte verdade. A maioria dos alunos da Ketteridge eram uns belos de uns idiotas mexeriqueiros. “Agora você pode voltar a ir lamber as botas do seu amiguinho, eu estou bem aqui.”
“Ciúmes?” Ele perguntou sorrindo como um crápula, mas eu evitei contato visual enquanto resmungava um ‘até parece’. Tristan aproximou-se ainda mais, o que não significava muito, pois já estávamos bem próximos. “Por que você é sempre tão frio, Oliver...?” Sussurrou em meio ouvido, e, com um arrepio, eu me virei parcialmente para ele.
“Eu não sou frio.” Coloquei uma mão sobre seu peito. “O que você quer?”
“Você.” Falou, idiota como era. “O que mais seria?”
“Eu estou com as costelas fraturadas, e você quer sexo? Vai se ferrar.” Tentei empurrá-lo, mas ele me segurou o pulso.
Seus olhos eram de cores diferentes, um amarelo âmbar, e o outro azul-safira, e sempre me lembravam os de algum gato caçador, parecendo arder em calor e fogo. Ele me puxou e aproximou-nos a ponto de eu conseguir distinguir apenas as tonalidades distintas de suas íris.
“Não, Oliver, você não entendeu. Eu não quero apenas sexo...” Avançou, desviando de meus lábios, começando a beijar meu pescoço.
E, inferno, como eu odiava seus lábios.
Odiava a forma como me tocavam, odiava a respiração quente que roçava em minha pele, odiava a maneira como tudo aquilo me arrepiava. Odiava como ele me dobrava facilmente e sempre me convencia a fazer o que ele queria, como transar numa sala vazia de um dos prédios das Belas Artes, quando tudo que eu queria era ter terminado aquela sandice.
“Para, Tristan.” Murmurei, fechando os olhos. Eu nem mesmo estava tentando afastá-lo, não de verdade. Eu sentia raiva de mim mesmo, fracote, fácil, puta. Uma puta fácil, foi como me senti, principalmente quando Jenson falou que já havia flagrado nós dois. “Para!”
“Você sabe que não vou parar.” Ele sussurrou, e mordeu minha orelha quando sua mão desceu por meu abdômen e me tocou entre as pernas. “Foi você que me procurou, lembra?”
“Era pra ser só uma vez...” Ofeguei, segurando seu antebraço, mas eu me sentia fraco, não conseguia afastá-lo; minha cabeça pendeu para trás contra o encosto da cama quando ele apertou meu membro com mais força.
“Mas já foram várias. Por que não mais uma?” Ele riu contra minha orelha, causando-me um arrepio tão forte, que era quase dolorido senti-lo. “Só quero fazer você se sentir melhor, relaxe...”
“Não...! Estamos numa enfermaria, imbecil!” Exclamei num sussurro, olhando para baixo e arregalando os olhos ao ver sua mão escapulir para dentro de minhas calças. Suspirei com o toque íntimo, e ele aproveitou o momento para beijar o outro lado do meu pescoço. “Maldito seja...” Agarrei seus cabelos cheios de dreds, mais grossos e macios que o cabelo rastafári de Jenson, e dobrei minhas pernas, fechando os olhos enquanto sentia seus dedos massageando meus testículos. “Ah, f-filho da mãe.”
“Oliver... Esqueça aquele Bobby.” Tristan pediu, mas não me deu tempo para responder. Eu provavelmente nem saberia o que dizer; era a segunda vez que ele falava do Bobby, após eu tentar terminar nossa pseudoamizade de benefícios no dia anterior, acabando por desabafar sobre meus sentimentos mais íntimos – algo estúpido da minha parte.
Mas ele me poupou de qualquer palavra ao me beijar em seguida.
Seu beijo era ainda pior que seus lábios, talvez porque fossem os lábios que criavam o beijo. Só de pensar que qualquer um poderia abrir a porra da cortina e me flagrar totalmente entregue à vontade dele, era degradante, mas no lugar de reclamar, eu gemi, erguendo o quadril quando ele apertou meu membro com mais força.
Eu o odiava, odiava, odiava.
“Chega!” O empurrei e tentei tirar a mão dele de minhas calças, mas o movimento súbito fez com que minha dor retornasse, e me inclinei para frente, apertando minhas costelas. Tristan sentou-se atrás de mim, abraçando-me por trás e, com um cuidado quase carinhoso, beijou-me o ombro e continuou o que havia começado.
Olhei para cima, para o céu, como se implorasse a Deus por alguma força, mesmo que naquele momento eu estivesse vendendo minha alma ao diabo. Diabo que se chamava Tristan, e era insuportavelmente egoísta, insistente e... Impossível de resistir.
Eu deveria estar com merda na cabeça quando o procurei em busca de uma experiência com um garoto.
Nós mal nos conhecíamos, mas ele tinha sua fama, por ser um bissexual assumido que, no entanto, impunha respeito, talvez por ser afiliado à Casa Sigma e viver de conquistas difíceis. Talvez porque se desse bem com o cara mais temido da universidade, Lance Harris, que controlava a opinião pública daquele cosmos.
Há uns seis meses eu fui até um dos prédios das Belas Artes, onde encontrei Tristan em uma sala de música, sozinho, tocando uma flauta transversal, tipicamente usada em orquestras. Ele assoprava no bocal, deslizando facilmente os dedos nas chaves para abrir e fechar as sapatilhas. O som era envolvente e belo – e era incrível que alguém de aparência tão desleixada quanto à dele fosse capaz de criar um som tão perfeito.
Quando ele notou minha presença na porta da sala, cravou os olhos em mim, mas continuou tocando. Por alguma razão, aquilo me arrepiou, e eu fechei a porta às minhas costas. Era uma loucura procurá-lo absolutamente no nada. Eu poderia iniciar aquilo em uma das muitas festas da faculdade, porém eu não queria que ninguém soubesse sobre nós, e as fofocas das festas sempre acabavam no Roy Byron, por mais cuidadoso que se fosse. Era impossível saber quem trabalhava como informante para Lance e sua corja. Na época eu não sabia que Tristan e Lance davam-se bem; e eu não estava pensando coerentemente quando cometi a burrice de procurá-lo, de qualquer forma.
Eu precisei esperar até que ele terminasse a música, e só então me aproximei alguns passos. Tristan retirou uma flanela e uma espécie de vareta do estojo da flauta, para então desencaixar algumas partes da flauta e começar a limpá-la internamente. Mordi os lábios, perguntando-me como iria começar aquilo. Já estava quase desistindo quando...
“Gosta de música?” Ele me perguntou, assustando-me.
“S-Sim... Você toca muito bem.”
“Cada um com seus talentos, não é mesmo? Eu sempre vejo você nadar. Gosto do modo como faz isso, parece diferente dos outros. Muito mais... bonito e apaixonado.” Ele falava sem me olhar, ainda limpando a flauta com esmero. Quando terminou, guardou tudo dentro do estojo, e só então se levantou, caminhando até mim. Ainda lembro-me do baque da porta em minhas costas, quando retornei alguns passos para trás, acuado com seu olhar. “Eu poderia te admirar nadando por horas, e provavelmente não iria cansar.”
“O-O que você está dizendo...?” Eu não estava esperando por nada daquilo. Ele era idiota, estranho, ou o quê? Desviei o olhar, envergonhado demais para encará-lo. Ele, no entanto, segurou meu rosto e me fez encará-lo. Havia algo sobre sua aparência que o tornava incrivelmente atraente, talvez a covinha do queixo, a pinta sob o olho esquerdo, ou a confiança dos olhos felinos.
“Você veio até mim atrás de sexo, não veio?” Ele foi objetivo. Eu viria a descobrir que ele era uma das pessoas mais objetivas do universo quando o assunto era sexo, e mesmo assim conseguia flertar e envolver, e fazer alguém queimar por dentro. Somente naquele momento eu percebi o quanto o que eu estava fazendo era fodido, e tudo que eu desejei era sair imediatamente daquela sala.
Tristan sorriu percebendo minha completa mortificação.
“Vai me surrar como já faz com os outros, se eu te beijar?” Ele perguntou, avançando um passo e me aprisionando contra a porta. Não havia mais escapatória. Após isso, ele me beijou vorazmente, e eu tive minha primeira experiência com um homem. Num sofá, de uma sala qualquer das Belas Artes, com alguém que eu conhecia apenas de vista e de nome.
Ao menos ao final daquilo ele tinha um cigarro para me oferecer, e eu aproveitei meus minutos pós-orgasmo ouvindo-o tocar, dessa vez, um violino. O filho da mãe tocava como um Deus, e eu observava o teto e fumava, recriminando-me por ter achado tão bom e acabar, distraidamente, por imaginar Bobby me deitando numa cama e me fodendo daquela forma todas as vezes que minhas pálpebras vacilavam e fechavam.
Eu tinha certeza de que Tristan não gostaria de meus pensamentos, caso pudesse lê-los, então o deixei tocando o violino, enquanto pensava no meu colega de natação loiro, hétero, interiorano, que namorava a mesma garota há oito anos e planejava se casar com ela quando terminasse a faculdade de medicina. Eu era mesmo um idiota, Bobby era ainda mais idiota, e Tristan o pior dos idiotas.
“AH!” Exclamei quando enfim gozei, acordando das minhas memórias, ainda incapaz de escapar de Tristan e seus braços, suas malditas mãos, tanto quanto três meses atrás. Ele me beijou atrás da orelha quando meu corpo relaxou contra seu peito e minha dor cedeu pelo prazer do orgasmo. “Tristan...”
“Shhhh. Estamos num lugar público.” Ele sussurrou contra minha orelha, tentando, mas falhando em esconder o sarcasmo e a satisfação em sua voz. Eu poderia socá-lo, como havia feito com Jenson, se restassem forças em mim.
“Você é um filho da puta, alguém já te disse isso?” Perguntei, virando o rosto para olhá-lo. Meus olhos estavam cheios de lágrimas. As lágrimas que eu estava segurando desde o momento em que Bobby me repreendeu, avisando que eu iria perder a chance de participar do campeonato. Eu não tinha mais forças para guardá-las.
As eliminatórias deveriam estar acontecendo naquele exato momento.
Tristan olhou-me chateado e acariciou minha bochecha, mas eu virei o rosto, abaixando-o e tapando-o com as mãos para abafar meu choro. O que havia de errado comigo? Briguei com meu irmão, mas eu cometia as mesmas burrices.
Ele me abraçou mais forte, beijando-me a nuca.
“Você já disse, várias vezes.” Falou, num murmúrio que mal escutei.
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