A Casa Das Máscaras
10 Capítulo 10
Colton
Acordei numa das várias camas da mansão da Casa das Máscaras. Espreguicei-me longamente, preguiçoso. Olhei para o relógio e vi que era dez e pouco da manhã de sábado. Minha noite havia sido agitada. Quando nem o Andreas, nem o Fabian, o francesinho metido, estavam trabalhando, minha vida complicava, pois eu era a segunda opção de alguns clientes deles, e ainda havia os meus próprios clientes. Não que houvesse algo fixo na Casa das Máscaras, mas alguns clientes tinham seus prediletos, e não queriam nenhum outro quando visitavam.
Na noite passada em especial, eu e Jessica dançamos sensualmente para uma pequena plateia, e eu a fodi da maneira mais erótica possível, na frente dos expectadores, realizando um desejo antigo. Ela tinha cabelos vermelhos levemente encaracolados, e eu simplesmente não conseguia resistir à cor do fogo, que me trazia tantas lembranças. Mas infelizmente não durou muito, pois logo fomos separados, cada um de nós arrastado para um quarto por um homem diferente.
Levantei-me e fui para o banheiro, tomar um banho demorado na banheira de hidromassagem. Eu gostava dessa vida, em parte, pelo luxo e pelo dinheiro. Também era bom me sentir desejado. Em outra parte, me sentia meio sujo, invejando aqueles que haviam nascido com dinheiro e nunca tiveram a necessidade de trabalhar desde cedo. Eu comecei com dez anos, na oficina do meu pai, mas odiava acabar sempre todo sujo de graxa, e machucado nas mãos.
Hoje em dia, mandava dinheiro para meus pais darem uma educação boa aos meus irmãos.
Desmond falava que eu deveria entrar na universidade, pois não poderia ser prostituto pelo resto da minha vida, mas eu não dava atenção para os conselhos dele. Ele vendia meu corpo, atirava-me ordens e ainda queria controlar o resto da minha vida. Que fosse para o inferno, eu nem sabia o que faria na porra de uma universidade. Eu não tinha futuro, e daria a bunda e comeria bocetas e cus enquanto isso não mudasse.
Eu moro sozinho há cinco anos, desde que virei maior de idade e pude sair de casa. Eu me dou bem com meus pais, mas morar numa casa pequena com eles e mais cinco irmãos, todos mais novos, era estressante demais. Quando saí de casa, comecei a trabalhar num restaurante chique como garçom. O fato de eu ser bonito me ajudava a ter vários casos com as mulheres que frequentavam o lugar. Mesmo as casadas me passavam seus números através de bilhetes discretos.
Nem lembro em que momento uma delas me pagou depois do sexo, não sei se pela transa ou se pelo meu silêncio, mesmo que eu não houvesse cobrado nada. A partir daí, fluiu naturalmente e em pouco tempo eu era um prostituto conhecido, as mulheres me contratavam pela internet, ou mesmo no restaurante, vindo indicadas por outras que já haviam experimentado dos meus serviços.
Até o dia em que Desmond apareceu no restaurante e propôs que eu trabalhasse na glorificada Casa das Máscaras. No começo, eu atendia apenas mulheres, porém nos últimos meses decidi expandir meus horizontes. Ou melhor, fui forçado a isso.
Meu celular apitou quando eu estava ainda na banheira, e o peguei na borda de mármore branco. Era uma mensagem do Desmond, lembrando-me de um compromisso que teria naquele dia. Suspirei largando o celular e apoiei minha cabeça no mármore, ficando assim por mais uma meia hora. Meu corpo dolorido necessitava de um tempo na água quente. Era como uma forma de me purificar de todos os toques de desconhecidos, mascarados ou não.
Quando estava saindo do banho, recebi outra. Comporte-se, e não se atrase. Fiz uma careta, menosprezando a ordem. Sabia que era perigoso deixar o Desmond irritado, mas eu não iria sair correndo para o compromisso como um cãozinho assustado, ainda tinha algum tempo. Por mais que já tivesse sido fodido das mais variadas maneiras, eu ainda tinha minha dignidade, e nunca me conformei com a maneira com que Desmond me obrigara a abrir as pernas para homens.
Foi há cinco meses...
Eu também havia dormido na Casa das Máscaras. Sou o que tem mais costume de fazer isso, talvez porque minha vida lá fora seja uma porcaria, e eu não tenha nenhum grande amigo para reencontrar, para sair ou fazer loucuras, apenas conhecidos e antigos amigos que seguiram a vida de maneiras completamente opostas. Naquela manhã de uma quarta-feira, há cinco meses, acordei de bom humor e saí da cama pensando em como a mulher com quem havia me deitado era espetacularmente linda, apesar de ter a pior chupada que eu já havia recebido. De qualquer forma, não era o meu prazer que importava.
Depois de um banho, eu fui para a cozinha da mansão. A Casa, que funciona há três ou quatro gerações da família Chevalier, tinha a mesma cozinheira chefe há uns vinte anos. A mulher agora tem cinquenta anos, é baixinha e gorducha, mas não obesa, seus cabelos são aloirados e curtinhos, repicados, e as bochechas estão sempre avermelhadas, pois ela não para quieta e adora agradar a nós, os acompanhantes da Casa, ou os clientes que ficam para o café da manhã em outra área da mansão, reservada para eles, ou nos quartos; de maneira que eu pude ir à cozinha sem minha máscara negra.
Encontrei a Sra. Stella conversando com outros quatro acompanhantes: Jett Mason, Aidan Melville, Jasmine Flowers e Jessica Guerra. Jett tinha a pele bronzeada, lábios grossos e cabelo negro channel, seus olhos eram os mais safados que eu já vira, pareciam te olhar e falar milhares de perversões, ou te fazer imaginar milhares no fundo daqueles orbes verdes, sempre te convidando a ir realizar essas fantasias. Aidan me parecia um tipinho comum, mas bonito, alto de cabelos castanhos também channel, e lábios chamativos. Jasmine era loira, de cabelos cacheados e corpinho miúdo, seios pequenos e pontudos. Já Jessica era a ruiva mais linda e gostosa que eu já havia visto – porém não a mais linda –, eu era louco para trepar com ela e sabia que mais adiante teria uma chance, como de fato tive. Ela era famosa por saber praticar o pompoarismo, e levar muitos homens à loucura com suas técnicas.
De nós cinco, somente eu não me deitava com ambos os sexos; eles quatro trabalhavam com o que aparecia. Eu ganhava menos do que eles por causa disso, também trabalhava menos, e alguns acompanhantes fofocavam que eu acabaria demitido se continuasse com essa política. Os cumprimentei e também me sentei à mesa, pegando algumas torradinhas e manteiga fresca, me servindo também de suco de laranja. Sra. Stella veio me dar um beijo na testa.
“Mais alguma coisa que queira comer, criança?” Ela perguntou. Tinha a terrível mania de nos chamar de crianças. Se fôssemos crianças, aquele lugar seria frequentado por um bando de pedófilos. E ser chamado assim, depois de trepar e realizar fantasias sexuais de tudo quanto é forma quase todos os dias, não era lá muito interessante, mas não reclamávamos, pois a senhora era sempre gentil e amável.
“Não, Sra. Stella, está tudo perfeito, obrigado.” Garanti, olhando para a mesa farta, cheia de pães de diferentes tipos, manteiga, geleias, frios, frutas, bolinhos, panquecas, cereais, leite, café, suco de laranja e iogurte. O que mais alguém poderia pedir? Se alguém viesse exigir mais alguma coisa, eu daria um soco no desgraçado mimado.
Peguei uma panqueca, uns morangos e uma banana e continuei comendo primeiro o pão, entreouvindo a conversa dos outros.
“.... Então eu tive de ligar aqui pra cozinha e pedir algumas tortas e coisas assim para a Sra. Stella. Quando eles levaram para o quarto, o homem exigiu que eu me lambuzasse nas tortas, e ele começou a fazer o mesmo. Acho que ele transou mais com aquele monte de glacê do que comigo, e ele ainda quis um anal no chão sujo de comida. Ralei meus joelhos por causa disso. Sinceramente, se eles querem anal, bem que poderiam pegar um de vocês garotos.” Jessica falou irritada. Pelo que eu sabia, ela odiava ser prostituta, mas era para pagar a faculdade dela e do irmão, na Ketteridge. Ao que eu lembrava, ela estudava jornalismo.
“Realmente, o cu de uma mulher não se compara ao cu de um homem. Se um homem já gosta de cu e experimentar o de um homem, não vai querer outra coisa.” Jett falou malicioso, descascando uma maçã de uma maneira lenta e delicada, as mãos esguias e longas parecendo acariciar a fruta enquanto a despia. Até descascar uma maçã parecia erótico e pervertido com ele. “Mas não me agradam esses que tem fetiche com comida.”
Sra. Stella soltava risadinhas constrangidas com as histórias, mas continuava ali para escutar.
“Eu acho engraçado.” Aidan comentou afastando uma mexa de cabelo do olho. “Uma vez um cliente também pediu uma torta, mas apenas uma, bem grande. Lembra, Sra. Stella? Acho que foi há um mês, ele queria que lembrasse uma torta de casamento. Mandou eu foder o casamento dele, enquanto ele me fodia, e gritava: continue fodendo a torta! Foda bem esse casamento! Foda-se a noiva! E coisas assim. Era um rapazote que estava sendo obrigado pelo pai a se casar. Acho que meu pau nunca saiu tão doce depois de um trepada.” Todos nós acabamos rindo do comentário.
“Pelo menos vocês não pegaram nenhum que gostasse de urolagnia. Foi o dia mais nojento da minha vida...” Jasmine murmurou descontente, de olhar baixo. Todos nós soltamos expressões de nojo, enquanto ela tapava os olhos. “Felizmente parece que o homem morreu num acidente de carro, e agora é o filho que comanda os negócios e frequenta a Casa.”
“Mas foram quantas vezes?” Jett soltou uma risadinha.
“Ah, umas cinco vezes.” Jasmine soou extremamente infeliz.
Sra. Stella não sabia o que era urolagnia e teve o desprazer de perguntar o que aquilo significava.
“É quem obtém prazer sexual com uso de xixi no sexo, Sra. Stella.” Jessica falou estafada, com uma careta de nojo. Sra. Stella tapou a mão com a boca, enojada, e soltou alguma exclamação em italiano que eu não compreendi. “Ainda bem que nunca peguei dessas, mas já peguei um aracnofílico. Ele trouxe uma aranha grande e peluda da maldita casa dele e exigiu que eu abrisse as pernas e deixasse a princesa passear pela minha boceta, e vou contar pra vocês, eu odeio aranhas.” Bufou. Sra. Stella disse que ia preparar mais uns bolinhos, e Jasmine soltou uma exclamaçãozinha de nojo.
“Sério, será que não temos nada mais agradável pro café da manhã?” Eu quis saber. Ouvir aqueles relatos me dava arrepios. Até aquele momento, eu nunca tive de fazer nada muito bizarro. Algumas mulheres gostavam de apanhar um pouco, outras de dominar, outras de serem dominadas, algumas queriam que eu as penetrasse com a mão, punho e parte do braço – o famoso fist-fucking –, outras queriam ser amarradas, ou me amarrar, usar fantasias, fingir que eu era um bandido, coisas assim. Nada nojento, ou bizarro. O mais estranho foi quando uma mandou eu fingir que era um bebê.
“É sempre bom compartilhar histórias, para sabermos com o que poderemos lidar no futuro.” Jett explicou, enfim dando uma mordida na maçã, novamente de uma maneira que deixou o ato pornográfico, e isso que ele nem se esforçava. “Se sente tanto nojinho dessas coisas e não aguenta ouvir, deveria parar de trabalhar. As pessoas têm fetiches e fantasias vergonhosos, nojentos, condenáveis, e resta a nós, mascarados como eles, realizá-los, pois em nenhum outro lugar eles encontrarão alívio para esses desejos ocultos. É uma das funções da Casa, uma das nossas funções.”
“Ele nem ao menos joga pros dois lados.” Jessica sorriu maldosa, olhando-me como se isso fosse motivo para desprezo. As regras realmente eram completamente opostas ao do mundo lá fora, ali na Casa das Máscaras. “Se não é nem capaz de ficar de quatro para um homem, o que dirá do resto?”
“Desmond vai acabar te demitindo, Colton, se continuar assim cheio de dedos e restrições. Fiquei sabendo que ontem à noite você recusou um cliente importante. Qual era mesmo o nome dele? Leonard Faramyn, não é isso? Ele está em alta conta para o Desmond, e queria você, mas você recusou. Que feio. Desmond não deve estar nada satisfeito.” Jett implicou, lambendo um dedo para recolher o sumo da maçã. A maneira como tudo nele era malicioso e erótico já começava a me incomodar. “Eu tive de cuidar do cliente. Ótimo na cama, por sinal, nenhum fetiche estranho, e um pau grande. Você perdeu uma boa oportunidade, Colton.” Ele sorriu, e todos me olhavam.
“Como se eu gostasse de um pau grand-“ Fui interrompido pelo secretário do Desmond, que apareceu na sala de jantar, ao lado da cozinha.
“Sr. Hartel, o Sr. Desmond lhe chama no escritório dele.”
Parecia sacanagem do destino eu ser chamado bem quando eles me acusavam e diziam que eu seria demitido.
O silêncio reinou na mesa, enquanto eu me levantava após dar um último gole no meu suco de laranja. Acompanhei o secretário. Não lembrava o nome dele, mas achava que era algo bem comum, como Igor, ou John. Era impossível manter uma conversa com ele; ele ou não respondia, ou era monossilábico, então nem tentei perguntar o que Desmond queria. Ele provavelmente não sabia, de qualquer forma.
Tivemos de atravessar vários corredores até chegar à área central da Casa, onde ficava o escritório grande e elegante do Desmond. Eu só havia entrado ali uma vez, para fechar os negócios com ele. Inclusive, fazia bastante tempo que eu não via meu chefe. Era um homem atarefado, e suas ordens geralmente vinham através de subordinados. Pelo que eu sabia, ele tinha uma ligação mais próxima apenas com um dos garotos da casa – Andreas Deres, o Adônis. Eu gostava do Andreas, nos dávamos bem, e ele era um dos poucos que não perdia tempo com intriguinhas, ou em se meter em fodas alheias, apesar de também gostar de compartilhar experiências.
Senti um arrepio antes mesmo de entrar no escritório. Era um lugar grande, refinado e elegante, com móveis escuros e poltronas confortáveis, quadros impressionistas caros, e uma estante de livros de capa dura, todos de aspecto indecifrável, como se repletos de segredos. Desmond estava sentado à sua escrivaninha, concentrado em algo no notebook sobre a mesa. Não ergueu o olhar quando eu entrei, apenas fez um gesto para que o secretário nos deixasse.
E as portas se fecharam às minhas costas.
Fiquei em silêncio esperando por alguns minutos enquanto ele terminava o que fazia, digitando com suavidade em alguns momentos, de modo que nem era possível ouvir o barulho do teclado. Eu soltei um suspiro involuntário de impaciência após um tempo, e só então Desmond dignou-se a falar, no tom frio e impassível que parecia sempre carregar, tanto na voz, quanto nas feições nobres.
“Incomodado com a espera, Colton?” Os olhos dele continuavam sobre a tela do notebook, mas então ele pegou alguns papéis sobre a mesa, analisando-os por um instante. “Eu também. Leonard Faramyn disse-me que iria pensar quanto a um assunto que não lhe diz respeito, e agora devo ser paciente. Eu também não gosto de esperar, Colton, alguém nesta casa cheia de fofocas e intrigas já deve ter-lhe dito isso.”
Eu engoli em seco. A voz dele, ainda baixa e fria, era como a carícia de uma adaga de gelo em minha garganta. Eu sabia muito bem que ele odiava esperar, e que seu humor não ficava nada bom quando algum de seus negócios não funcionava como ele gostaria. Desmond ergueu o olhar para mim, e seus olhos eram piores do que a voz – azul-claros, desprovidos de calor humano. Um arrepio me percorreu, enquanto um filete de suor escorria por minhas costas. Lembrei-me por que não gostava daquele escritório. Não era pelo cômodo, mas por seu dono.
Desmond S. Chevalier me causava sensações desagradáveis desde a primeira vez que eu o vira.
“E-Eu não sabia que ele era importante.” Falei rapidamente, uma mentira. Nós sempre sabíamos, pois, como ele havia dito, a Casa era como uma rede de fofocas e intrigas, especialmente à noite, quando a sedução e a libertinagem estavam em alta, e nós precisávamos escolher bem nossos alvos, deixando-os pensar que eram eles que nos escolhiam. Eu conhecia as regras do jogo, e por isso Desmond ergueu quase imperceptivelmente suas sobrancelhas ruivas e finas, elegantemente desenhadas assim como o corte de seus cabelos longos, de um tom vinho-natural.
Enquanto eu suava, Desmond levantou-se e caminhou até uma mesinha com bebidas em garrafas bonitas de vidro, uísque, talvez. Eu odiava uísque, mas beberia o que ele me oferecesse.
“Sempre prezei por contratar apenas jovens inteligentes.” Ele comentou enquanto servia a bebida em um dos copos pequenos. “Inteligentes, bonitos e talentosos, talentos dos mais diversos. Gosto da variedade, da exuberância de alguns, da simplicidade de outros, e de como são capazes de usar seus atributos a meu favor.” Ele sorriu um sorriso frio. “Essa Casa foi aberta a primeira vez em 1907, por meu bisavô. Viveu na clandestinidade por vários anos, afinal, a prostituição era um crime e, mesmo quando se tornou legal, a cafetinagem ainda o era. Contratar jovens burros não era uma opção, veja, eles poderiam deixar escapar segredos indesejados. Pelo contrário, desde sempre a função de um acompanhante não é apenas dar prazer, mas recolher segredos, promessas, mistérios, e toda sorte de informação valiosa. Aqui, homens e mulheres sentem-se seguros por usarem máscaras, mas esquecem quem é aquele que lhes fornece a máscara.” Desmond se aproximou de mim, entregando-me um copo, sua expressão dura ao longo do relato. Por algum motivo, eu não conseguia desviar minha atenção de seu rosto, da forma como seus lábios finos se moviam enquanto falava com uma calma charmosa e falsa. “Desse modo, por tantos anos, meu bisavô, meu avô e meu pai, antes de mim, puderam controlar e manipular tantas pessoas importantes, e manter-se longe das leis e das normas da nossa adorável e hipócrita sociedade. E agora, mais fácil do que nunca, mantenho a tradição desta Casa, e outros negócios que me foram deixados. Não posso me dar ao luxo de manter acompanhantes que não joguem conforme as regras, apesar de conhecê-las, e que sejam meros peões; peões perdedores, Colton. Entende o que digo?”
“S-Sim...” Eu sussurrei, odiando meu tom incerto, minha confiança de sempre completamente ausente. Desmond não era muito mais alto que eu, com meus 1,80m, porém eu me sentia minúsculo perto dele, uma formiga que poderia ser pisada a qualquer momento, e por isso bebi o que ele me ofereceu num único gole, sentindo o líquido descer quente e ardido por minha garganta, rasgando meu peito até o estômago, que revirava.
“Fico feliz que entenda.” Ele falou, porém feliz seria o último adjetivo que alguém daria ao Desmond. Tirano frio e calculista seria muito mais adequado. Bebeu também de seu uísque caro e afastou-se para colocar o copo sobre a mesinha. “Você tem um encontro marcado com Leonard amanhã, às 19h, no hotel Hudson Towers. Jantará com ele, e depois o servirá como ele desejar. Mas devo avisar, ele está bastante descontente com a forma como você o tratou ontem.”
Eu omiti parte dos fatos. Não apenas dispensei Leonard, mas o empurrei e o xinguei de um nome desagradável quando ele se aproximou e me agarrou, apertando meu pênis na mão grande. Leonard ficou furioso, e apenas Jett, aquele puto desgraçado que era erótico até respirando, pôde acalmá-lo. Um erro imperdoável, eu não imaginava que teria uma segunda chance, havia vindo até aqui para ser demitido, ainda que uma parte de mim se recusasse a pensar nisso. Eu deveria me ajoelhar e beijar os pés de Desmond por me manter na Casa; porém a ideia de ter de ir encontrar aquele homem e me humilhar, deixá-lo me pisar e usar de maneira vingativa pelo que eu havia feito não me agradava em nada.
“Eu não deito com homens.” Eu falei desaforado como jamais deveria ser, quando Desmond já me dava as costas, dispensando-me e dando o assunto por encerrado. Quando ele se virou novamente para mim, sua expressão era impassível, uma estátua bela de gelo atemporal, e por isso muito mais assustador do que se ele demonstrasse raiva, irritação, descontentamento, ou qualquer emoção que o deixasse minimamente humano. Eu odiava aquele rosto sem face. E ele me olhou de um modo que me fez queimar, e meu coração bombear de uma maneira que me assustou, pois fiquei ofegante apenas por isso.
“Nunca disse para apenas se deitar com um homem, Colton. Disse para abrir as pernas e deixar que te fodam como bem entenderem. Disse para que os chupe se pedirem, e gema como uma puta se eles quiserem. Disse para sentar no pau deles, cavalgá-los e dizer que os ama se achar que isso pode agradá-los. Comê-los, se eles preferirem. Comê-los até que sangrem, se eles gostarem. Deixar que eles coloquem o que eles quiserem dentro do teu ânus, e goze com isso, peça por mais aos gritos se for do interesse deles. E, quando não for apenas um homem, que fique de quatro e deixe que entrem em ti ao mesmo tempo se assim ordenarem. É isso que estou dizendo que você faça, meu adorável peão. Do contrário, está na hora do cheque-mate.” Desmond se apoiava à mesa de mogno escuro, seus braços cruzados enquanto me observava sem nenhuma mudança de expressão, sem vacilar nenhuma vez, apesar da quantidade de perversões que havia dito. Meu rosto queimava de vergonha, e a humilhação devorava-me por dentro.
Eu me virei para sair dali.
“Me encontrarei com Leonard amanhã.” Foi tudo que disse, tentando alcançar a porta dupla de madeira do escritório, que parecia tão intransponível quanto pedra.
Mas meu braço foi segurado em um aperto férreo, e fui puxado, virando o corpo de volta.
Um beijo súbito.
Lábios tão gelados e duros quanto o próprio homem, cujo único calor era o vermelho de seus cabelos, mas meus lábios pareceram pegar fogo. Puxei o ar assustado e dei um passo para trás, surpreso, mas Desmond agarrou minha nuca, puxando meus cabelos junto, e me impeliu de novo para ele. Virou-me e me empurrou contra a escrivaninha, até que minha lombar batesse na madeira e eu apoiasse uma mão sobre ela, tentando me equilibrar enquanto ainda tinha os lábios devorados, minha boca invadida com uma grosseria irresistível. Gemi baixo, sentindo o corpo dele pressionar-se ao meu. Não havia reparado através das vestes bem cortadas, mas Desmond tinha um corpo forte e rígido, elegantemente musculoso.
Não havia palavras em minha garganta quando ele se afastou brevemente, me encarando com aqueles olhos azul-claros pintalgados de pontos mais escuros, eu podia ver agora de perto. Não consegui desviar o olhar, mas meu rosto denunciava minha perplexidade e medo.
“Achou mesmo que deixaria que fosse agradar um cliente importante sem nenhum treino prévio?” Ele perguntou com uma diversão sádica que brilhou mais em seus olhos, do que se manifestou em seu timbre. Agarrou meu pulso e puxou-o para o lado oposto sobre a mesa, tirando-me o apoio e fazendo-me cair para trás com o ombro dolorido, imóvel. Com a outra mão, tocou-me entre as pernas, encontrando meu membro duro como pedra, mais duro que suas palavras. Eu não havia percebido isso, e gemi contrafeito, deixando minha cabeça bater contra a madeira.
Por quê?
Por que me sentia tão excitado? Minhas entranhas queimavam e eu gemi como a puta que ele mencionara, quando ele apertou meu pênis sobre as roupas. Senti-me ainda mais indefeso e pequeno, uma criatura inútil e sem vontade, frente a ele. Uma síndrome de Estocolmo que me aprisionava rápido demais. Desejei que ele me beijasse de novo, mas ele apenas me observava com aquele irritante e letal rosto despido de emoções.
Então me largou de repente, me deixando novamente ofegante e confuso, excitado sobre aquela mesa larga. O acompanhei com o olhar, vendo-o caminhar até a estante de livros onde moveu um deles. Uma parte da estante se moveu lateralmente, revelando uma entrada escondida para um cômodo que não pude ver o que era. Ele me olhou novamente, lembrando-me um vampiro prestes a sumir por uma passagem secreta.
“Tire as roupas e venha.” Falou, seco e autoritário. “Mas lembre-se de que não gosto de esperar.” E passou através da abertura, com alguns fios vermelhos ondulando às suas costas, presos em um rabo de cavalo baixo. Eu me ergui da mesa e passei a mão por meu rosto, meus pensamentos lentos e embaralhados, e empurrei meus cabelos para trás. Eu tinha duas opções: ir embora e ser demitido, ou tirar as roupas e segui-lo. Que adorável da parte dele me deixar escolher.
Com um palavrão, me coloquei de pé e comecei a tirar minhas roupas – uma camisa social aberta, com outra mais colada ao corpo por baixo, e uma jeans preta. Chutei meus tênis para longe, arranquei a camiseta e abaixei minhas calças, e pensei em ficar com a cueca, mas imaginei que ele não gostaria disso, e justamente por isso a mantive. Então segui pela abertura na prateleira que ocupava toda a parede ao fundo.
Era um quarto, e supus que era o quarto onde Desmond dormia quando passava a noite na Casa das Máscaras. Perguntei-me se mais alguém teria conhecimento daquele quarto escondido, talvez o secretário, Igor. A janela mostrava o longo e exuberante jardim dos fundos da mansão, e a luz da manhã banhava a cama de dossel onde dez pessoas poderiam dormir confortavelmente.
“Achei ter mandado que tirasse suas roupas.” Minha atenção desviou-se para origem daquela voz que me gelava os ossos e, paradoxalmente, espalhava um calor na minha ereção, ainda desperta. Ele ainda estava vestido, o que era injusto.
“Eu tirei.” Contrapus com um sorriso irônico, sem humor. Surpreendi-me quando uma passageira demonstração de quem gostara do que ouvira tomou-lhe o rosto, deixando-o atraente. Ou mais atraente do que era. Acho que eu gostava do fato de um homem como ele me querer – um homem poderoso, influente, inteligente e intransponível. Mesmo que isso me fizesse sentir uma vadia interesseira.
“Venha aqui.” Ele ordenou, e eu, a contragosto, obedeci, mas ele me parou no primeiro passo. “Primeiro tire a cueca.”
Franzindo os lábios, novamente o obedeci. Meu corpo tinha uma boa estrutura, eu malhava para me manter em forma, e minha pele era morena, alguns poderiam chamar-me de mulato, apesar de mulato em um tom levemente mais claro que o tom da minha mãe. Eu tinha uma tatuagem tribal no braço que formava um círculo ao redor do meu bíceps direito, e outra de escorpião, meu signo, próxima da minha virilha esquerda. Caminhei nu até ele, fingindo não estar nervoso, tentando controlar minhas mãos, que tremiam.
Assim que alcancei a poltrona onde ele estava sentado, Desmond agarrou meu pulso contrário à mão dele, e me levou até ele, virando-me. Caí sentado em seu colo, com as costas contra seu tórax. Ele envolveu minha cintura com um braço, para manter-me quieto, e usou seus joelhos para afastar minhas pernas. Sua outra mão envolveu minha ereção, e eu suspirei exalando o ar. Seus dedos finos e longos, como os de um pianista, alcançaram as mais eróticas notas no meu pênis, e eu joguei a cabeça para trás, apertando os dentes para não gemer. Desmond roçou os lábios na minha orelha.
“O que vai fazer para agradar seu cliente, Colton?” Perguntou num sussurro aveludado, mas perigoso como o ronronar de um leopardo. Eu não sabia o que fazer, não quando o desgraçado estava com a mão no meu pau, apertando-o, e sua outra mão acariciava meu corpo, gerando arrepios, contraindo os músculos por onde passava. “Apenas empinar a bunda e gemer?”
“Se ele desejar.” Murmurei entredentes.
“Está aprendendo.” Desmond me ergueu com ele e inverteu as posições, me colocando contra o sofá. Apoiei meus braços no encosto, e um joelho no assento, e estava virado para ele, minhas costas e nádegas expostas. “Então empine a bunda.” Ele ordenou, e eu rangi os dentes, começando a me sentir irritado, e a me perguntar por que não havia escolhido minha primeira opção. Empinei a bunda, e ouvi o lacre de uma camisinha ser rasgado.
Tremi imaginando que ele me foderia sem mais delongas, mas foram dois de seus dedos, envolvidos por uma camisinha, que me penetraram, causando-me uma dor inferior a que eu teria sentido caso fosse um pênis inteiro. Ele segurou meu quadril, e me moveu contra seus dedos, circulando-os dentro de mim, até pressionarem minha próstata e me arrancarem um grito, pois não estava esperando pelo prazer súbito que abafou todo o desconforto.
“Então você não deita com homens, mas parece gostar bastante quando um explora essa região.” Desmond comentou com uma satisfação que eu não sabia se era real. Talvez certo sadismo, por ver-me fraquejar daquela forma. “Veremos o que achará quando tiver um pau aqui dentro.” Ele empurrou mais os dedos, apertando com mais força, e contraí a mandíbula, respirando mal.
“Não me sinto atraído por homens.” Objetei desconfortável, apesar do prazer.
“Não precisa sentir-se atraído para se deitar com eles. Fingimento é parte desse mundo.” Desmond tirou os dedos e voltou a me puxar, virando-me de novo e me pondo de pé, contra seu corpo. Eu comecei a me sentir como uma boneca de fios controlada por suas mãos perigosas. Ele sorriu, daquela forma que não transmitia humor, e sua mão desceu pelas minhas costas, arrepiando-me, até cobrir um dos meus glúteos. “Porém não precisará fingir comigo.”
Estremeci de leve. Eu me considerava alguém confiante, mas Desmond ultrapassava os limites da arrogância.
“Prove.” Exigi, erguendo o queixo. Eu deveria estar louco, mas já me considerava fodido – em breve literalmente – então estava pouco me importando. Sempre fui um tanto inconsequente.
Desmond me jogou na cama, e eu caí como um saco inerte quicando no colchão confortável.
“Eu não preciso provar nada, Colton. Você já sabe disso.” Ele afirmou, e no fundo eu sabia, mas não iria concordar. Aquelas cabelos vermelhos eram minha perdição. Apenas esperei enquanto ele começava a retirar as roupas, sem pressa, em movimentos elegantes.
A pele dele era branca, lisa, com alguns poucos pelos avermelhados cobrindo o peito e descendo pelo abdômen até o pênis. Desmond havia soltado os cabelos, e os fios compridos cobriam a brancura da pele. Ele poderia ser tanto um anjo branco, quanto um demônio vermelho. Seu corpo era musculoso, mas esbelto, lembrando-me uma estátua renascentista de algum deus grego ou romano. Meu pênis pulsou com a visão, mas eu me afastei conforme ele se aproximava da cama, completamente nu.
Não conseguia desviar o olhar de seus orbes azul-gelo, congelados, belos. Meu corpo se arrepiava a cada passo. Não entendia aquelas sensações, me perguntei se ele teria colocado algo na bebida que me oferecera, pois não estava me sentindo em um dia normal.
“Está com medo?” Ele perguntou, e agora a diversão sadista em seu tom era inegável. Agarrou meu tornozelo e o puxou, impaciente com a minha fuga. “Não pode fugir do seu cliente.”
“Não é meu cliente, é meu chefe.” Contrariei.
“Mais razão para não fugir.”
Ele estava ajoelhado no colchão, e eu deitado à sua frente, com minhas pernas abertas. Suas mãos subiram por minhas coxas, como najas geladas prontas para o bote. Eu ofeguei baixo, novamente meu pênis pulsava em expectativa. Ele se inclinou sobre mim, tocando-me a lateral do corpo, ao apoiar uma mão no colchão ao lado de meu rosto. Eu o encarei não me deixando intimidar dessa vez, mas vacilei quando a mão dele tocou-me a bochecha, com uma suavidade arrepiante.
“Desde o começo soube que teria de te disciplinar.” Ele comentou em um murmúrio que alcançava todos os cantos do cômodo. “Assim que pus os olhos em você naquele restaurante, soube que apenas palavras não seriam o suficiente. Admito que estava até um tanto ansioso para esse momento.” Ouvir aquilo me surpreendeu, me senti como uma criança que acha que suas travessuras nunca serão descobertas, quando desde o início há um adulto de olho em tudo.
Franzi os lábios, o ar escapando entre os dentes em um som de desprezo, e o beijei. Ergui-me pelos cotovelos e deixei nossos lábios se encostarem, enquanto os cabelos de Desmond caíam ao meu redor como uma cortina de sangue. Mordi-lhe o lábio inferior em provocação, deixando-o escorregar por entre meus dentes. Quando me afastei minimamente e abri os olhos, Desmond me encarava, seus olhos pareciam ter enfim alguma vida, diferente de sua pele branca como a de um morto.
Ele segurou meu queixo com uma força que me desorientou, e uma careta de dor tomou meu rosto. Beijou meus lábios com posse, e deitou-se sobre mim, cobrindo-me inteiro. Nossas ereções roçaram, e a eletricidade erótica do prazer me percorreu como uma onda. Minhas pernas contornaram a cintura dele, e o abracei, desejando-o. Gemi, contrariado com a forma como ele dominava meu corpo. Suas mãos eram como carcereiros impiedosos, e eu fraco para lutar contra as correntes.
Não resisti e tapei-lhe os glúteos firmes, puxando-o mais para mim. Aquele homem poderoso e implacável era meu naquele momento, e nenhuma disciplina me faria mudar de ideia quanto a isso. Mas Desmond se afastou, pegando meus pulsos e prendendo minhas mãos acima de minha cabeça. Ele desenhou com a ponta dos dedos o contorno do meu rosto, e depois tocou meus lábios inchados. A forma como me olhou me constrangeu.
“O que foi? Vai ficar apenas olhando?” Perguntei, virando o rosto.
“Pelo contrário.” Desmond se levantou, e eu achei que ele havia desistido porque eu não era bom o bastante, não merecia sua atenção. Sentei-me rapidamente, com o coração batendo veloz em insatisfação, desejando impedi-lo de se afastar. Mas ele apenas se sentou no sofá do quarto, estendendo os braços sobre o encosto. Ainda me olhava, nu, imponente, cabelos vermelhos caindo pelos ombros manchando-lhe o peito.
“Há camisinhas no criado-mudo. Pegue uma e venha até aqui colocar em mim. Depois, quero que sente em meu colo e se deixe penetrar. Não irei ajudar.” Ordenou, talvez uma reprimenda por minha ousadia, ou talvez porque houvesse gostado da ideia de ver-me agindo por conta própria. Levantei-me e peguei a camisinha no criado-mudo, mirando-o de esguelha pelo canto dos olhos. Rasguei a embalagem com os dentes e cuspi o plástico, reprimindo meu nervosismo, ou os arrepios em meu corpo apenas pelo olhar dele.
Caminhei até ele e me ajoelhei à sua frente. Desmond segurou minha mão quando tentei segurar seu membro para colocar a camisinha.
“Me deixe com vontade primeiro.” Demandou, e o xinguei de filho da puta mentalmente. Pela maneira como estava duro, obviamente já estava com vontade, e eu só precisaria sentar-me ali e acabar com aquela enrolação dos infernos que já me deixava prestes a explodir, almejando meu próprio alívio. Mas provavelmente ele queria que eu treinasse um pouco antes do encontro com Leonard.
Segurei-lhe o pênis, sentindo o calor inexistente em outras partes de seu corpo. Era grande, mas o tamanho não me surpreendia, pois o meu próprio não era pequeno. Lambi a glande, experimentando o gosto novo, e o coloquei na boca. Senti-me enjoado assim que tentei acomodá-lo mais fundo na garganta, uma ânsia de vômito obrigando-me a me afastar. De uma maneira geral, achei aquilo estranho, excitante, e nojento, tudo misturado. Desmond ergueu uma sobrancelha, talvez esperasse mais.
“Não consigo fazer isso.” Disse, ainda enojado pela sensação.
Desmond segurou meus cabelos e fui forçado novamente contra seu pênis. O engoli de uma única vez, e voltei a engasgar, com falta de ar, mas ele me puxou de volta e voltou a me empurrar, obrigando-me a isso por vários minutos. Agarrei suas coxas e apertei com força, afundando meus dedos em seus músculos. Demorou para que sensação ruim passasse, e eu começasse a chupá-lo com o mínimo de destreza. Tirei a mão dele da minha cabeça, mesmo que isso talvez o irritasse, e comecei a chupá-lo com mais vontade, querendo arrancar-lhe algum gemido, qualquer coisa que o desestabilizasse a amenizasse a humilhação a que ele me forçara.
Ele me afastou antes de gozar, isso se é que estava perto disso. Seu olhar era frio novamente, e me olhou com um desagrado cortante. Era incrível e curioso como em um momento eu o desejava com uma fome inexplicável, e no momento seguinte, desejasse matá-lo.
“Foi terrível. Espero que o resto seja melhor.” Avisou, seco.
Tive de me segurar para não socá-lo. Coloquei com raiva a camisinha em seu pênis e subi em seu colo. A raiva me deixou burro, e sentei de uma vez em seu membro túrgido, num único movimento rasgante. Gritei de dor pelo preenchimento súbito e inconsequente. Jamais imaginei que doeria tanto, e lágrimas escorreram de meus olhos enquanto eu me inclinava para trás, apertando novamente as coxas de Desmond de uma forma que o deixaria com dois vergões arroxeados, todo meu rosto contraído em dor.
“Tolo.” Ele murmurou e me abraçou gentilmente, trazendo-me para perto dele, para beijar-me o pescoço. Sua mão desceu para meu pênis, que começou a masturbar para aliviar minha dor excruciante. Abracei-me a ele, trêmulo, sentindo seus beijos lentos em meu pescoço e ombros contraídos como remédios relaxantes, e sua mão possuía uma habilidade assustadora que logo fez o pré-gozo escorrer por meu pênis. Ele capturou um mamilo com a língua, e eu gemi, fraco.
“Você... É um filho da puta.” O xinguei, pela simples necessidade de xingá-lo. Mais lágrimas caíram de meus olhos, e continuava difícil respirar. A mão de Desmond segurava minha lombar, e ele ergueu o rosto para mim. Expressões frias, ele nunca mudaria?
“Sou. Mas você é o culpado de sua própria dor.” Ele murmurou e me empurrou para frente, pela lombar. E soltou. E empurrou de novo, e soltou, e empurrou de novo, e então eu estava cavalgando em seu colo, sobre seu falo, gemendo baixo pela dor e pelo prazer, meu rosto contraído, e as lágrimas ainda rolando. Tais palavras pareciam afundar-se em mim, em busca de dores muito mais profundas do que minha dor imediata.
Afundei minhas mãos nos cabelos dele, sentindo-os queimarem em minhas mãos feito fogo, mas era todo meu corpo que queimava. Ergui o rosto dele e o beijei, mexendo-me por mim mesmo, deixando seu pênis afundar-se em mim o máximo possível. Queria senti-lo por inteiro, queria que esmagasse minha próstata até me fazer gritar de novo, queria xingá-lo, e queria gozar e terminar aquilo tudo de uma vez, ou fazer durar até o anoitecer. Queria ser fodido até desmaiar. Não importava.
Desmond leu meus pensamentos – sempre suspeitei que ele fosse capaz de invadir as mentes que desejasse – e passou os braços por baixo das minhas coxas. Eu tive de parar o beijo e gemer e gritar quando ele começou a investir contra mim, rápido e forte, de uma forma que parecia lançar explosões elétricas escaldantes em meu cérebro. Olhei para cima com os lábios entreabertos, um grito entalado na garganta, minha respiração suspensa, pensando que poderia desmaiar se continuasse sem respirar, e não dando a mínima para isso. Detalhes. Minhas mãos continuavam segurando com força aqueles cabelos rubros.
Ofeguei quando ele se ergueu, levando-me junto com uma facilidade que me abismou, pois eu não era leve. Fui levado até a cama e jogado ali novamente, mas mal pousei nela, e ele me virou, colocando-me de quatro. Seu braço rodeou minha cintura e ele me arrastou de joelhos para ele, afastando um glúteo e me penetrando novamente. O espasmo de prazer percorreu toda minha espinha, e meus braços tremeram, instáveis. Desmond cobriu-me como um garanhão faria com sua égua, mordeu minha nuca, e eu arfei sentindo o suor empapando nossos corpos, o contato pele a pele salgado.
Olhei para aqueles cabelos vermelhos caindo por meus ombros, e os toquei, murmurando um nome. O nome mais importante. Um nome que eu não conseguia esquecer, e que já havia irritado algumas clientes por eu murmurá-lo durante o sexo. Sequer pensei que Desmond pudesse escutar, mas ele me tocou com ainda mais fúria, beirando um prazer doloroso em mim, e temi não aguentar por muito tempo, minha garganta livre gerando sons eróticos que causariam inveja em Jett Mason.
Eu estava prestes a gozar, imerso em algum paraíso infernal, já que Deus provavelmente não aceitaria tal ato em seu paraíso cheio de regras, quando Desmond despedaçou todo o momento com uma única frase.
“É melhor você começar a se esforçar para esquecer Emmanuelle.” Um murmúrio em minha orelha, junto a uma estocada forte, que sacudiu meu corpo inteiro. Eu arregalei os olhos, perplexo com o que acabara de escutar, e me perguntei, por um segundo, se havia imaginado. Tentei escapar do contato, de repente sentindo-me gelado e engasgado, mas Desmond manteve-me firme no lugar, e eu não tive força para soltar-me. Não força física, eu não era fraco, mas toda minha força parecia ter sido roubada por algum espírito esfomeado.
“Como você...?” Tentei perguntar, mas fui interrompido por um gemido. Desmond, com uma última investida potente, saiu de mim e me empurrou contra o colchão, e eu caí de costas, aturdido. Ele segurou meus pulsos, ficando sobre mim, porém suas mãos frias em meus pulsos era nosso único contato.
“Pare de se afundar em luto. Está ficando ridículo. Você sequer a conhecia.” Ele falou, cruel como uma geleira sem vida. Meus lábios tremeram. O que ele estava dizendo? Claro que eu a conhecia, bastardo filho da puta, fora minha melhor amiga por seis anos! Alguém por quem eu fora apaixonado por tanto tempo, mas a quem nunca havia encontrado coragem para expor meus sentimentos. Tentei acertá-lo, um soco lhe faria bem, para tirar aquela expressão de quem está no topo do mundo de suas feições elegantes.
“Não ouse falar sobre isso! Você nem deveria saber sobre ela! Quem te falou sobre isso? Me larga!” Me debati, tentando acertá-lo de todas as formas, mas Desmond parecia conhecer bastante bem alguma arte marcial, ou autodefesa, e soube me imobilizar na cama, ileso.
“Ela me falou.” Desmond objetou, seco. “O nome dela era Erika Chevalier. Emmanuelle era seu nome artístico.” Ele me largou, caindo meio sentado, meio deitado sobre os travesseiros largos e confortáveis da cama. “Ela era minha filha.” Ele fez menção de se levantar, mas minha mão agarrou-lhe o braço, antes mesmo que eu pudesse processar aquilo com clareza.
“Como...?” Eu não consegui encontrar as palavras, as lágrimas brotaram tímidas em meus olhos. Eu nunca fora de chorar, mas Emmanuelle era meu ponto de pressão. “Você...?”
Desmond me atacou. Quando percebi, eu estava novamente deitado na cama, e ele sobre mim. Voltou a me penetrar duramente, e eu me abracei a ele como se um abismo se abrisse faminto às minhas costas. Agarrei seus cabelos vermelhos, meus olhos arregalados. Aqueles cabelos... Agora eu percebia, porque os notava tanto, porque a necessidade de tocá-los. Os de Emmanuelle eram iguais, rubros, longos, lisos. Mal consegui perceber o prazer que distorcia minha visão, em inúmeros tons de vermelho, enquanto Desmond me possuía quase animalesco, perdendo em parte toda a graciosidade natural e masculina, e transformando-se apenas em um animal insaciável, devorando-me. Era a primeira vez que eu via tão vulnerável, mesmo que sua vulnerabilidade fosse um jorro descontrolado de testosterona e masculinidade.
Entretanto gozei com um grito perdido, ainda me sentindo ausente, como se eu fosse um voyerista, observando tudo de longe. Desmond gozou também, e pude sentir sua respiração ofegante em meu pescoço. Não tardou para que ele se afastasse, e me deixasse ali, estirado, com mil pensamentos desconexos, em fios vermelhos, emaranhados, um Akai Ito sem sentido.
“Não se esqueça de seu compromisso amanhã.” Ele alertou, antes de desaparecer por completo, como o vampiro que era.
Cinco meses depois, aqui estou eu, ainda completamente sem respostas, deixando que me fodessem, fodendo e sendo ignorado por Desmond toda a vez em que tentava conversar com ele sobre Emmanuelle. Ele nunca me dava ouvidos, e tudo que me dissera, foi que Emmanuelle pedira-lhe que olhasse por mim antes de morrer. E que bela maneira ele escolhera para olhar por mim. Transformando-me em um prostituto de luxo, e me comendo todas as vezes que sentia vontade; porém sem nunca me falar mais do que o necessário. Pelo que eu conseguira arrancar do Igor, ou John, o secretário, eu era o único acompanhante da casa com quem ele já havia se relacionado fisicamente, e não entendia isso.
Nada daquilo fazia sentido.
Nada.
Eu havia conhecido Emmanuelle em um grupo amador de teatro, quando achei que poderia ter algum talento para tal. Viramos amigos, e nos víamos com frequência. A Emmanuelle que eu conhecia era uma garota simples, mas talentosa, com pouco dinheiro, que morava em um flat e vivia a vida ingenuamente; sempre justa, odiava qualquer espécie de discriminação e abominava os poderosos que criavam suas próprias regras na sociedade. Eu sempre soube que ela, cinco anos mais velha que eu, me escondia alguns segredos, mas não questionava, ela era como uma deusa da juventude e beleza para mim.
Só agora eu entendia que ela discriminava o próprio pai.
Mas Emmanuelle agora estava morta, e eu tinha um compromisso em menos de uma hora, como Desmond fizera o favor de me lembrar.
Terminei de me arrumar, e fui encontrar o homem que havia me comprado por algumas horas.
Fale com o autor