A Casa Ao Lado
2 Vizinhança (revisado)
Notas iniciais
Enxuguei o suor de minha testa com as costas das mãos. Agora que eu havia aberto todas caixas, um cheiro de mofo característico impregnava todo o oxigênio presente em meu quarto.
Empurrei uma pilha de livros para um lado e me deitei no chão.
A frieza do assoalho fez com que um calafrio revigorante corresse por minha espinha. Fechei os olhos e deixei um sorriso de satisfação escapar-me pelos lábios.
Trabalho melhor com metas, — além de ser uma curiosa incorrigível, é claro — portanto hoje de manhã eu disse para mim mesma que eu só me permitiria ir dar uma espiadinha na casa ao lado quando terminasse pelo menos de desempacotar todos os livros. E você não tem ideia do quanto eu queria ver de perto aquela casa.
A penumbra acabara de começar a recair sobre minha silenciosa vizinhança e lá estava eu, com meus pertences todos espalhados em pilhas organizadas pelo piso de meu quarto, uma diferença considerável de todos os membros de minha família que tinham optado por sair para conhecer a cidade ao invés de desfazer as malas.
Levantei-me e calcei meus tênis azuis. Olhei para o espelho, coloquei meus cabelos para trás das orelhas e passei um batom clarinho nos lábios, mas não parecia o suficiente.
Não sei porque eu estava tão preocupada com a aparência. Segundo mamãe nós nem temos vizinhos, certo? Certo. Ainda antes de ie procuro uma lanterna. Acabo achando uma em uma gaveta no quarto dos meus pais.
Desci as escadas apressada e destranquei a porta. Uma brisa cálida típica do anoitecer primaveril arrebatou toda e qualquer insegurança que antes atormentavam minha mente. Senti-me mais leve. Não tenho o que temer.
A tênue luz que irradiava dos postes de iluminação distribuídos pela extensão de meu jardim me deixou ainda mais segura, mas conforme eu adentrava o pequeno bosque de transição entre a minha casa e a casa vizinha, os postes de nada adiantavam.
Saquei minha lanterna para iluminar o resto da trilha. Árvores e mais árvores ladeavam a passagem e a medida que avançava, agradeci silenciosamente a Zoey do passado por ter procurado instintivamente a lanterna
Depois dos cinco minutos mais longos de minha vida, eu e a luzinha de curta distância encontramos a saída do bosque, que terminava em um muro baixo de tijolos com um portão enferrujado. De perto do muro, avistei a casa vizinha: uma gigantesca construção com o mesmo estilo de minha casa, mas ao contrário da que agora vivo, a casa estava em ruínas. Trepadeiras cobriam as laterais da casa e se embrenhavam em cada rachadura visível, os vidros cheios de fuligem apresentavam desde pequenas fissuras até pedaços do tamanho de minha mão faltando, a cobertura de tinta verde estava descascada e os degraus que levavam ao solário da porta só são um monte de entulho do que antes era uma elegante escadaria de pedras. A visão da casa fez voltar aos meus pensamentos a sensação ruim que me acometera ontem ainda no carro, antes de chegar.
A luz fraca da lanterna pisca me avisando que resta pouca carga na pilha. Guardo–a no bolso.
O muro batia na altura de minha cintura, portanto concluí que era mais um mero enfeite do que uma proteção contra andarilhos noturnos curiosos como eu. Hesitei antes de pular o muro. Aquilo era considerado crime? Mas a casa estava abandonada mesmo e eu não tinha nenhuma intenção de praticar vandalismo...
Eu estava dividida. Ao mesmo tempo que sabia que era errado, uma curiosidade agoniante parecia consumir toda a sanidade que um dia me pertenceu. Quando meu medo considerou a hipótese de simplesmente ir embora, me dei conta de que eu precisava fazer aquilo. Todas as extremidades de meu corpo formigavam e eu nunca senti tanta ânsia em fazer algo na vida. Agarrei meus dedos famintos na superfície áspera de tijolos e pulei o muro, completamente dominada pela curiosidade desesperadora que queimava minha garganta.
Controlei-me para não correr em direção a porta e respirei fundo diversas vezes com o intuito de me acalmar. O que estava acontecendo comigo?
Toquei a campainha, praticamente lutando contra meus impulsos de chutar a porta. Eu precisava me certificar de que a casa estava vazia — mesmo com toda a ansiedade inexplicável, ainda conseguia ter meu imprescindível bom senso como companhia.
Como previsto, ninguém atendeu, então me senti segura para testar a maçaneta mesmo sem muita fé de que aquilo funcionaria. Para a minha surpresa, funcionou. A porta se abriu soltando rangidos de arrepiar os pelos da nuca.
Toda a sede insuportável de entrar na casa de antes se dissipou assim que a porta se abriu, como se eu acabasse de acordar de um transe.
Minhas pernas fraquejaram e minhas mãos começaram a tremer. A sensação de que eu não deveria estar ali se intensificou, mas isso não me impediu de dar o primeiro passo para dentro da casa. Fechei a porta atrás de mim.
Quando procurei minha lanterna dentro do bolso de minha calça, percebi que este já havia se desligado por falta de bateria. Retirei todos os meus agradecimentos para a Zoey do passado.
Tateei as paredes no escuro, tentando achar o interruptor, mas este não se encontrava em lugar nenhum. O completo breu que reinava no cômodo parecia quase tangível. O ar era quente, pesado, úmido e cheirava a naftalina. Era difícil de respirar.
Quando ter entrado na casa começou a parecer uma ideia estúpida, resolvi voltar, tateando pelas mesmas paredes, que pareciam se estender conforme eu andava. Já tinham se passado mais de dez minutos que eu estava tateando em busca da porta e nada de eu encontra-la. Eu já deveria tê-la encontrado faz tempo. O medo se apossou-se de meu âmago. O suor encharcou minhas vestes e foi inevitável que as lágrimas me viessem aos olhos.
Estava tão quente que eu estava ficando tonta. Senti que ia desmaiar quando ouvi a aguda melodia de um violino solitário. A música era lenta a princípio, mas intensificou-se.
As luzes se acenderam subitamente. Virei para trás, quase como num reflexo, e me deparei com uma garota de expressão desafiadora sentada numa poltrona vermelha de veludo.
Ela era deveras bonita, eu tinha que admitir. Aparentava ter mais ou menos uns quinze anos, seus cabelos ondulados cor de canela escorriam até o busto, a pele era pálida, o nariz alongado e sobrancelhas espessas cobriam seus olhos castanho-esverdeados. Seu sorriso largo que não demonstrava empatia alguma e suas sobrancelhas arqueadas a deixavam com uma aura desafiadora e sinistra.
Suas vestes eram no mínimo peculiares: um vestido preto de botões com mangas compridas e uma gola branca e meias 3/4 igualmente pretas. Eu chutaria que ela era uma cosplayer da Wednesday Addams, não fossem os sapatos graciosos de fivela vermelhos.
O som de violino já havia cessado quando percebi que este vinha de um vinil ao lado da garota.
— Olá — cumprimentou ela quebrando o silêncio. Mal me toquei que estava encarando-a tempo suficiente para ficar desconfortável para ambas.
Abri a boca, mas não consegui emitir nenhum som. Ela soltou uma gargalhada baixinha e debochada, como se soubesse exatamente que eu faria aquilo.
Ao invés de tentar continuar a conversa com minha mais nova vizinha, preferi virar-me de costas e continuar procurando a porta, que estava só a alguns passos de distância de mim. Abri-a e saí o mais rápido possível de lá, correndo o máximo que meus pés permitiam, sem nem ao menos olhar para trás.
Pulei o muro e continuei correndo aos tropeços pela trilha até chegar em casa, torcendo para que a sósia da Wednesday não tivesse me seguido. Não tinha.
Eu estava ofegante e aliviada por estar na segurança de minha casa. Assim que tranquei a porta atrás de mim, desabei no chão e fechei os olhos. Eu estava exausta.
— Zoey? — a voz confusa de minha mãe chama e eu abro os olhos. Papai, Liz e mamãe me encaram desconcertados — O que aconteceu, querida? — ela pergunta com um quê de preocupação na voz.
— Ah, você sabe mãe... — comecei a enrolar — E-essas corridas noturnas — gaguejo.
— Corridas noturnas? — ela não me parece convencida.
— Sim, sim — confirmei — Precisamos manter a forma, certo? — perguntei começando a me levantar — Se me dão licença, vou tomar um banho. Essas corridas acabam com a gente.
Não esperei sua resposta e corri escada acima.
Arranquei minhas roupas, deitei sobre a banheira e liguei a torneira de água morna. Uma tênue dor latejava em minhas têmporas. Nunca acontecera algo tão... bizarro comigo.
Senti a determinação ferver em mim novamente. Eu precisava voltar lá e descobrir tudo de misterioso sobre aquela casa e sobre aquela garota. Será que ela era uma invasora assim como eu? Ou... ou será que ela realmente morava lá? E se morava, ela morava sozinha ou o resto da família Addams só não estava lá?
E eu descobriria isso. Com certeza descobriria.
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