A Cartola - O Início
1 Capítulo 1
O final
Quem se pode chamar enquanto se está no bueiro da rua 19 amarrado. A rua escura, mesmo de dia, e onde se pode ouvir os barulhos dos encanamentos submersos.
Ariana nao queria desistir. Não enquanto o sr. Patimo levava seu irmão de volta para a Inglaterra, de onde nunca deveriam ter saído. Estar amarrada naquele bueiro da rua 19 a fez lembrar como uma cartola desencadeou vários acontecimentos que, além de trazer a morte dos seus pais, também trouxe inimigos para o que sobrou de todo um clã. O clã Marveell.
FRANÇA, 24 DE DEZEMBRO DE 1885.
A Floresta Sangrenta era um cenário um tanto diferente do que se imagina quando se fala o seu nome. A diversidade de fauna e flora ali presentes e a beleza das tais, faziam o nome da floresta ser uma afronta à sua imagem. Os dois lagos que a contornavam faziam-na parecer uma fortaleza natural do tamanho de uma cidade, fortaleza essa já ocupada por um clã de ciganos chamados Marveell. Os Marveell eram uma família antiga oriunda da Gália antiga, agora reduzidos apenas a 10 componentes. O avô Asdrubal, os seus filhos Dario e sua esposa Violeta, Ferdinand e sua esposa Rosa e sua filha mais nova Ana. A irmã de Asdrubal Erica e seu esposo Giusepe, um italiano irritado. E os filhos de Ferdinand, Anselmo e Ariana.
Todos estavam ao redor da fogueira esta noite, não para a comemoração do Natal, mas reunidos como em um dia normal, ouvindo as histórias de seus ancestrais contadas pelo vovô Dub.
'Claig era o simbolo do nosso clã. O Martelo e a Lança. O homem que se tornava um lobo para defender a sua família de todos os males. Aquele que estabelecia ordem entre os ciganos. Aquele a quem todos amavam e seguiam, por honra e respeito. Claig Marveell.'
Se Claig existiu ou não, não importava, mas honra é fundamental. Assim pensava Ariana, que assistia e ouvia as histórias de seu avô de cima de uma das charretes do bando. Ela era diferente de todos os componentes da família. Não pensava em ser uma cigana, morar na Floresta Sangrenta, envelhecer e contar as histórias que ouvia de seu avô aos seus netos. Queria ir além da Floresta. Além da França. Além da Vida, se fosse possível.
Passava noites imaginando como seria a vida vagando pelo mundo com suas próprias aventuras e histórias.
A noite estava clara e com a Minguante no céu. Dali a poucas horas ela completaria 15 anos e sua vida mudaria. Ela se tornaria uma mulher adulta e seria casada com algum rapaz de algum clã urbano em poucos dias.
Ariana não podia ser presa à um casamento. Era como um lobo, devia estar sempre livre. Ela se deitou de costas no teto da charrete e observou as constelações.
'Quer peixe?' a voz aguda de seu irmão lhe interrompeu o pensamento.
'Não, obrigado.' ela negou gentilmente, enquanto descia de cima da charrete se dirigia ao lago.
Seu irmão usava um casaco e uma cartola na cabeça. Seus cabelos castanhos, como os dela, caíam por sobre seu ombro. Apenas um fato lhe chamou à atenção.
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