A Carta do Rei

1 Capítulo 1 - A Carta


Sete meses haviam se passado desde que Sarah visitara o Labirinto, o lugar que era o domínio do Rei dos Duendes. Desde o seu retorno, sua vida sofrera uma modificação drástica. Todos os seus brinquedos, seus livros e os seus desejos de aventura foram removidos de uma vez por toda de sua lista de prioridade. Sarah agora estava focada nos estudos e até mesmo a sua madrasta aprovara o seu novo eu, que passava mais tempo cuidando do irmão caçula e realizando as suas atividades domésticas.

Ainda assim, em algumas noites, ela era visitada em seus sonhos por Jareth que continuava a oferecer para ela tudo o que desejasse. Sarah sempre negava, mesmo que em seu âmago ela tivesse forte intenção de aceitar. O Rei dos Duendes não era tão mal quanto ela primeiro idealizara. Fora tudo culpa dela. Ela quem oferecera Toby para os duendes porque ele não parava de chorar. Aquilo não era certo, pelo o que o seu pai contou, ela foi uma criança ainda pior do que o irmão e ninguém mandou ela para outra dimensão.

Eu venci Jareth e ele nunca mais irá retornar... Ela sabia disso. A coruja branca que sempre a seguia no parque sumira. Nem mesmo na janela de seu quarto ela ia mais. A coruja branca era a forma animaga do Rei dos Duendes e ter certeza que ele desistira dela lhe dava mais tristeza do que satisfação. Inconscientemente, Sarah desenvolveu sentimentos por aquele homem que ela jamais sentira por ninguém.

Sem poder contar com nenhuma de suas fantasias por ter aceitado as responsabilidades da vida adulta, ir para casa depois da aula agora lhe representava um retorno a prisão. Então é assim que os adultos se sentem, constatou, deve ser por isso que eles passam mais tempo fora do que dentro de casa. Ela teria agradecido se tivesse um lugar pra ir e alguém com quem sair, porém ela não possuía amigos. Ela era nova naquela cidade e o único social que tinha era com o seu cachorro. Seus colegas de classe tinham gosto muito diferente dos dela, mas eu estou mudando, recordou e por esta mesma razão matriculou-se no clube do livro da escola com reunião toda sexta-feira depois do período da aula.

- Cheguei! — Anunciou ao entrar em casa.

- Como foi o clube do livro desta semana? — Sua madrasta perguntou, sem dar tempo da enteada escapulir para o quarto.

- Normal — Deu de ombros — Discutimos O Fantasma da Ópera do Gaston Leroux hoje.

- Podemos conversar a respeito das conclusões que chegaram a respeito desta obra durante o jantar — A mulher sugeriu. Na verdade, aquelas discussões sobre os livros que estava lendo era o assunto principal de todos os jantares das sexta-feiras. Não porque os seus pais tinham interesse no que ela andava lendo, mas porque eles queriam participar de sua vida, algo que eles não faziam seis meses antes.

- Claro! — Sarah forçou-se a sorrir demonstrando uma falsa animação. Estava a tanto tempo fingindo demonstrar satisfação nas sugestões de sua madrasta que se tornara proficiente na mentira.

Tendo a liberdade para continuar o que ia fazer, subiu as escadas e foi para o quarto, mas não sem antes passar o olho em Toby que brincava animadamente com o ursinho Lancelot em seu berçário. Em outra época aquilo a teria irritado, diferente de agora, visto que até ousou a abrir um sorriso verdadeiro. Era bom saber que o seu irmão estava em segurança e que nunca e nem ninguém iria transformá-lo em duende. Talvez o Labirinto não exista e eu tenha inventado tudo aquilo, pensou. Depois do primeiro dia que retornara ao seu mundo, ela nunca mais viu os amigos que fizera naquela outra dimensão. Embora disfarçasse, no fundo ela sentia falta de todos eles, principalmente de Hoggle.

Dando um suspiro, abriu a porta de seu santuário, fechou-a as suas costas e jogou-se na cadeira de frente para a sua penteadeira, colocando sua bolsa em cima do móvel.

Estava tão cansada nesta semana que agradeceu o fato de ser sexta-feira. Faltava pouco menos de um mês para as férias de verão e os exames finais que decidiam se ela passaria ou não para o último ano do colegial era um fantasma real. Durante as férias ela teria que decidir que carreira seguir e pensar em uma universidade para se matricular. O pai tinha as suas preferidas e a sua madrasta outras. Para Sarah era indiferente. Ela ficaria feliz desde que pudesse cursar Letras, uma área que ambos os seus patrocinadores concordavam que era inferior ao que tinham em mente.

- Pelo menos isto eu vou fazer do jeito que eu quero! — Protestou para si mesma e começou a tirar o material de sua bolsa.

O livro do Fantasma da Ópera foi a primeira coisa que retirou. O volume estava tão bem cuidado que parecia ter sido comprado hoje. Ela sorriu com carinho, deslizando a mão pela capa. Ela amava aquela história, ainda que fosse inferior comparada com O Senhor dos Anéis e As Brumas de Avalon, suas duas sagas preferidas. Com demasiado cuidado, depositou o exemplar em cima da penteadeira. Quando fosse jantar iria guardá-lo em seu devido lugar na biblioteca.

Foi nesta ação que ela percebeu a presença de uma caixa entalhada a mão ao alcance de seus olhos. Aquilo não lhe pertencia. Sarah conhecia todas as suas posses, mas não reconhecia aquilo. Podendo ser um presente de seus pais, a abriu. Dentro dela havia uma bolsinha preta de formato arredondado devido ao seu conteúdo e um envelope amarelado com o seu nome escrito em tinta vermelha com uma caligrafia que ela nunca vira antes. Tomada pela curiosidade, dedicou sua atenção à carta e procurou o nome do remetente no dorso, sem obter sucesso. Aparentemente a carta não tinha sido registrada. Aquilo definitivamente não viera de seus pais, podia ter sido deixada por algum vizinho para ela, isto explicaria o fato dela não reconhecer a fonte do indivíduo.

Sem pensar duas vezes, abriu a carta e pôs-se a lê-la.

Labirinto, 9 de maio de 1986.

Sarah,

Sinto em estar lhe enviando esta carta por intermédio de um de meus súditos que você conhece tão bem. Vendo o meu atual estado, Hoggle se voluntariou para fazê-lo e espero que não interprete isto como uma quebra de minha promessa. Prometi que a deixaria em paz e não mais a procuraria, mas como deve saber, homens mortos não tem palavra, ainda que eu esteja vivo durante a elaboração da mesma.

Desde que você me deixou, minha saúde se deteriorou e estou prestes a ultrapassar a tênue linha do existencialismo e gostaria de me despedir de você como um amigo. Espero que você aceite o último desejo deste Rei e leia até o fim o que eu tenho para lhe dizer.

Quando trouxe o seu irmãozinho para o meu Reino, havia tantas coisas que eu queria lhe dizer, mas devido ao meu orgulho inflamado pela sua afronta, não as disse.

Você pensou que o nosso primeiro encontro foi naquela noite fatídica que você apelou pelo encantamento dos duendes, entretanto ouso dizer agora no meu leito de morte que você estava errada. Eu a acompanho há mais de duzentos anos, naquela época eu era apenas Jareth e você atendia por um nome que não é este que usa atualmente. Quando eu a vi pela primeira vez neste tempo em que me refiro, você foi contratada para fazer o meu retrato, que guardo até hoje em minha sala do trono. Como a pintura demorou meses para ficar pronta, pudemos nos conhecer melhor e quando o seu serviço foi concluído, eu a impedi de ir embora lhe propondo casamento. Lembro até hoje que na ocasião você usava um vestido amarelo e dourado, com folhas castanhas bordadas no tecido. Suas mãos eram tão delicadas que aos meus olhos parecia uma ofensa obrigá-la a ostentar a aliança do comprometimento que tinha comigo. Ainda assim você o fez de bom grado. Nosso casamento não durou tanto como ambos esperavam. No nascimento de nosso primeiro filho, você se foi deste mundo levando a criança consigo. Eu desejei de todo o meu ser ir com vocês, mas a Rainha dos Duendes daquela época disse que voltaríamos a nos encontrar uma vez mais e foi por esta promessa que eu continuei vivo.

Quando a minha suserana morreu, eu ocupei o seu cargo e fiz do Labirinto o que ele é hoje. Eu o tornei próspero ao mesmo tempo que o obriguei a refletir o meu espírito de anos de solidão.

Treinado nos ensinamentos da magia, há dezessete anos a minha bola de cristal captou um acontecimento específico: o seu nascimento. Eu não havia pedido nada para ela e mesmo assim ela me mostrou um bebê rosado que vinha ao mundo dos humanos. Soube imediatamente de quem era aquela alma que encarnara: Era você, a minha prometida que retornava para mim. Eu fiz a maior festa desde muitos anos no Labirinto e convidei a todos os duendes e os seres dos reinos vizinhos para participar dela. O que eu não havia pensado, era que eu precisava esperar que você crescesse para trazê-la para cá. O que separa o meu mundo do seu, é a vontade do humano de querer vir ao meu reino. Se você não tivesse demonstrado vontade, eu não poderia tê-la trazido para cá.

Por esta razão, eu acompanhei todos os seus movimentos na forma de uma coruja branca. Eu atrevo a dizer que a conheci melhor do que você mesma se conhece. Eu sabia que o novo casamento que o seu pai contraíra não lhe trazia felicidade e que Toby a infernizava com o seu choro. Fui eu o responsável por ter te ensinado as palavras mágicas que faria com que você o desse para mim. Eu iria acabar com todo o seu sofrimento e você acabaria com o meu tormento. Era o plano perfeito, o momento perfeito.

E você fez exatamente o que eu esperava, Sarah, naquela noite em que pediu para que eu levasse o seu irmãozinho embora. Tudo estava ocorrendo como eu queria e finalmente a nossa apresentação formal ocorrera! Você nunca saberá o que eu senti quando me revelei perante os seus olhos em minha forma original. Eu pensei que a sua alma me reconheceria da vida passada, mas nem tudo é perfeito... Você não me reconheceu e não viria ao Labirinto comigo. Não tinha problema, eu pensei, pelo menos eu teria Toby, que era carne da sua carne e sangue do seu sangue. Eu nunca tive planos para transformá-lo em um duende, como eu disse que faria, eu o trataria como o meu filho; trataria como eu trataria aquele que morreu antes mesmo de nascer. Você também estava inserida neste plano. Eu iria levá-la para visitá-lo sempre que quisesse. Por mais que você detestasse as manhas dele, eu sei que você gostava dele o suficiente para lhe desejar o melhor. Na minha imaginação, conforme o tempo fosse passando, você viria a gostar de mim como já gostou uma vez.

Eu fui tolo. Tolo por só ter visto o meu lado da questão.

Eu disse que a conhecia muito bem, mas devido a minha euforia do nosso reencontro, não vi as coisas com os seus olhos, apenas com os de um tolo apaixonado e você sabe tanto quanto eu o que se sucedeu a isto tudo.

Você foi embora para sempre e levou Toby consigo, cortando todo e qualquer laço que podíamos ter criado. A mim restou apenas o Labirinto e as memórias, já à você... bem, lhe restou uma vida. Como são abençoados os seres humanos que não sofrem com as lembranças! Algumas vezes acho que vou padecer sem o calor que um dia me fora oferecido... Isto é engraçado, porque estou de fato padecendo por esta razão.

Com tantas coisas ainda para serem ditas, eu sinto ter que encurtar esta carta que já se estendeu demais.

A razão de eu estar lhe escrevendo isto não é apenas para aliviar o peso do meu coração e sim lhe oferecer aquilo que eu já havia lhe oferecido. Eu lhe disse que se aceitasse a minha oferta eu lhe daria os seus sonhos. Você estava certa desde o princípio, Sarah; eu não tenho nenhum poder sobre você. Eu estou lhe dando um presente, mas cabe a você decidir se quer aceitá-lo ou não. Se aceitar, dentro do baú de onde você retirou o envelope, está a bola de cristal que irá cumprir a minha palavra. Eu decidi como um último decreto fazê-la minha sucessora no Labirinto e esta bola de cristal servirá como portal. Gire-a em suas mãos, feche os olhos e visualize em sua mente o seu futuro reino. Quando tornar a abri-los novamente você estará aqui.

Espero que com uma parte da minha história que diz respeito a você possamos terminar como amigos. Há tantos sentimentos dentro de mim que mesmo em minha morte é impossível não amá-la mais do que ainda amo.

Atenciosamente,

Jareth.

No fim da leitura, lágrimas escorriam de sua face incontrolavelmente. Se ele tivesse lhe dito isto desde o começo, ela o teria visto de outra forma. Não, não teria. Teria o julgado insano, rebateu, mas se ele provasse o que ele era, então tudo teria sido diferente... Soluçou, guardando a carta com um carinho superior ao que tratava os seus livros. Dentro do saquinho preto estava a bola de cristal que o Rei dos Duendes se referira na carta.

Tendo ela em mãos, o cristal refletiu a luz do quarto. Aquele objeto que a primeira vista podia ser insignificante era o portal que a levaria de seu mundo para outro. Ela não precisava ir para o Labirinto e se fosse, talvez não conseguisse jamais voltar. Era opção dela ir ou não. Você não tem poder sobre mim, lembrou de ter dito isto à Jareth e ela estava certa desde o começo. Como resposta a frase dela, ele lhe disse: Tema-me, me ame, faça o que eu digo e serei o seu escravo. Em meio as lágrimas, foi inevitável não sorrir. Ele era definitivamente o escravo dela. Ela o temeu claramente, mas amá-lo... Ela o amava, apesar de só ter confessado para si mesma enquanto lia a carta. E agora ele vai morrer. Ela queria vê-lo uma vez mais antes disto acontecer e só havia um meio para fazê-lo.

Lutando contra o seu bom senso que adquirira nestes meses que se passaram, girou a bola de cristal em suas mãos e fechou os olhos, imaginando o castelo de Jareth na Cidade dos Duendes. Por favor, espere por mim! Exclamou em pensamento enquanto era transportada para outra dimensão.

Notas finais
A história é dividida em dois capítulos.
Espero que gostem. É a primeira vez que escrevo uma fic em um universo que não é o de Game of Thrones/A Song of Ice and Fire.
Comentário são bem vindos! ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.