A Carta Cinza

8 CAPÍTULO 7 - Fim do Arco 1 - A escolhida


Na manhã seguinte, depois de fazer meu próprio chá na cozinha que mais parecia um cenário, abri o celular e digitei, sem pensar duas vezes:

“Eliane, posso visitar meus pais essa semana?”

A resposta veio menos de um minuto depois.

“Não é recomendável no momento.

Vocês começaram a convivência conjugal agora.

A ausência precoce pode gerar burburinhos sobre desacordo ou fuga.”

Eu li duas vezes. E só depois disso percebi o quanto me doeu.

“Mas eu queria só ver meus irmãos. Ensinar minha mãe a mexer no celular. Mostrar pro meu pai como o dinheiro entra.”

Demorei a enviar. E quando enviei, fiquei olhando a tela, como se ela fosse devolver um “sim” com uma estrelinha no canto.

A resposta foi sóbria, como todas dela:

“A tecnologia é intuitiva. A pulseira ativa pagamentos automaticamente com aproximação. Mas… sim, posso enviar um agente para instruí-los discretamente.

E vou chegar na sua casa em breve para temosnoção da nova planilha de atividades diárias,.”

“Discretamente.”

Eles não podiam saber que estavam sendo treinados. Nem os vizinhos.

Ninguém podia desconfiar que eu ainda não pertencia totalmente a essa nova vida.

Esfreguei os olhos com a palma da mão e deixei o celular de lado.

Fui até o quarto e me joguei na cama, ainda feita com os lençóis dobrados por outra pessoa.

Fiquei ali, olhando pro teto, sentindo aquela liberdade cercada por paredes que não eram minhas.

Sussurrei pra mim mesma:

— Agora posso comprar todos os livros que quiser. As roupas novas, sapatos. — Corei só de pensar no meu sapato de trabalho meu sapato descolou, mas agora...

*.*.*

A sensação era de que eu tinha sido colocada ali para decorar. Não para viver.

Como um vaso de porcelana caro, num canto bonito, sem propósito real.

Os móveis estavam limpos demais, sem arranhões de uso, sem poeira nos cantos.

As janelas estavam fechadas, mas sem marcas de dedos.

Nem um prato sujo na pia, nem uma xícara esquecida na bancada.

A casa inteira parecia um espaço que tinha sido preparado para a visita de alguém importante — mas que nunca chegou.

Ou pior: que chegou e foi embora tão rápido que nem deixou sombra.

Ali, eu não era uma dona de casa.

Nem uma esposa.

Eu era parte da mobília.

Elegível. Silenciosa. Funcional.

Dei um passo em direção à estante vazia, apenas para me manter em movimento.

Toquei uma prateleira lisa e pensei que ela parecia mais frágil do que aparentava.

Foi quando ouvi a voz:

— Você está explorando?

A voz veio pelas minhas costas.

Fiquei com o coração disparado.

Rafael estava ali. Em pé, ao lado da porta da sala, como se tivesse surgido do nada.

Sem fazer barulho.

Sem aviso.

— Que susto! — ofeguei, colocando a mão no peito. — Você... voltou quando?

— Agora.

Ele caminhou até a bancada e deixou uma pasta ali, como se fosse rotina.

A camisa ainda estava alinhada. Os cabelos, intactos.

— Eu achei que só voltaria amanhã — disse, sem saber se deveria demonstrar alívio ou desconforto.

— Antecipei algumas reuniões. Dormi no centro técnico.

— Você sempre faz isso?

— Sempre que necessário.

Ficamos em silêncio por um momento.

Ele me olhou, mas não como quem observa.

Era como se me escaneasse.

— Está se adaptando?

— Estou tentando.

— A casa é sua agora, Catarina. Pode andar, abrir, mexer, questionar.

Só... tente manter a ordem.

Ele se aproximou da geladeira, pegou uma garrafa de água e tomou um gole direto.

— Eu pensei em fazer café — comentei, só para preencher o ar.

— Não temos café. Café não está na sua dieta.

Mas se quiser, posso pedir para incluir. Basta solicitar pelo terminal.

Assenti, olhando para o chão.

Senti os olhos dele sobre mim por mais alguns segundos.

— Vou me trocar. — Ele disse, já se afastando. — Depois volto com a planilha de hoje.

E sumiu pelo corredor com a mesma leveza com que apareceu.

Deixando para trás o eco dos seus passos e a lembrança incômoda de que, dentro daquela casa,

eu era a única tentando aprender o que significava ficar.

Eu achei que devia colocar em prática o que aprendi nas aulas de ética conjugal.

Talvez tentar me aproximar.

Não do jeito frio e metódico que esperavam de mim — mas de um jeito real.

Humano.

A verdade é que eu sempre tive curiosidade sobre o que acontecia entre um casal depois do casamento.

O que era o sexo propriamente feito, sem as metáforas escolares, sem os diagramas no quadro.

Agora, tecnicamente, estávamos prontos.

E mais do que isso — esperavam que fizéssemos isso.

Tínhamos que ter filhos.

E se era pra isso que tudo tinha sido desenhado...

Talvez estivesse na hora de deixar o papel de lado e tentar viver o que vinha depois da cerimônia.

Mesmo que ele fosse tão fechado quanto a casa.


*.*.*

Mais tarde naquela noite, depois de revisar a prancheta e dobrar as roupas da manhã seguinte, encontrei Rafael no escritório.

Ele estava de pé, em frente ao painel holográfico, passando gráficos com o dedo — como se estivesse tocando um mundo que eu não podia ver.

— Posso conversar com você um minuto?

Ele pausou o visor, sem suspirar, sem impaciência.

— Claro.

Fechei a porta atrás de mim.

Fiquei em pé por um instante, antes de decidir sentar na cadeira do outro lado da mesa.

— Eu… pensei em a gente conversar um pouco. — Ele me olhou, mas não respondeu. — Ou... fazer algo juntos. Nós dois. — Hesitei. — Como casal.

Ele inclinou a cabeça levemente, como quem ouve um conceito novo.

— Acha que é necessário?

Engoli seco.

— Não sei. Só achei que... poderíamos começar de verdade.

Ele se sentou, cruzando os braços.

Seus olhos lilases estavam calmos. Pensativos.

— Catarina... Nosso casamento foi aprovado por critérios genéticos, institucionais e logísticos. Você está aqui por causa de uma função, e essa função inclui proximidade, eu sei.

Mas também inclui preparo físico, estabilidade nutricional e acompanhamento hormonal... Você ainda tem 16 anos.

— Então você quer esperar?

— Eu não quero nada — disse, com uma honestidade que doeu. —

Mas segundo os protocolos, é recomendável que esperemos até sua curva de adaptação atingir o patamar saudável.

Fiquei em silêncio.

Ele parecia notar.

— Você não está sendo rejeitada. Está sendo protegida.

— Mas ninguém me perguntou se eu queria ser protegida desse jeito.

Dessa vez, ele não respondeu.

Apenas voltou o olhar para a tela, e com o mesmo gesto anterior, fez os gráficos reaparecerem.

Fui embora sem dizer boa noite.

Mais tarde, com a casa quieta e o tempo sobrando, fui até a cozinha.

Não havia ingredientes comuns. Tudo parecia limpo demais, empacotado demais.

Mas achei uma gaveta no congelador com alguns legumes embalados a vácuo.

Fiz o que dava: beterraba com pepino.

E uma carne que parecia mais cara do que todas as feiras da minha mãe somadas.

Cortei com cuidado, temperei como lembrava que meu pai fazia.

A cozinha era moderna, mas eu usei como sempre usei — com uma colher de pau e muita intuição.

Arrumei os pratos com um capricho estranho.

Como se cozinhar fosse minha forma de falar algo que ainda não sabia dizer com palavras.

Torci para que ele comesse.

Nem por agradecimento.

Mas só pra eu saber que existia espaço pra mim ali.

Mesmo que fosse no prato.

Deitei na cama enorme, fria.

E pela primeira vez desde que cheguei ali, desejei estar de volta à casa apertada da minha mãe.

Onde, pelo menos, o silêncio nunca parecia tão ensaiado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.