A Carta Cinza
2 CAPÍTULO 1 - A Carta
Para: Catarina [ID XXXXXXX]
De: Jorge [ID 00A-198X] – Autorizado por Núcleo de União Nacional
Classificação: Matrimonial Prioritário – Nível 2
Assunto: União programada com fins de continuidade genética funcional
Catarina,
Sua designação foi concluída e validada para união com Jorge Rafael Prado Cunha, conforme a Portaria 14/31-UN. Solicitamos que organize seus documentos pessoais e prepare-se para transição de distrito. A permanência em sua atual região compromete as probabilidades de sucesso reprodutivo.
Recomenda-se início imediato de ajustes alimentares. Seu exame físico aponta risco leve de fragilidade óssea, além de subnutrição. A melhora do seu quadro será observada até o casamento e continuará sendo avaliada após a concepção.
Considere este aviso como oficial e inegociável. Sua colaboração é esperada com maturidade e consciência do papel que desempenhará. O país aguarda não apenas sua obediência, mas sua eficácia.
Assinatura digital: Jorge [ID 00A-198X]
Ministério da Tecnologia e Continuidade Genética
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Terminei de ler a carta sem conseguir fechar a boca. A garganta seca, os olhos ardiam. Diante de mim, o técnico matrimonial e o segurança me observavam como se fosse apenas mais uma etapa do protocolo.
Pela pulseira do técnico, ele era Classe Prata.
Gente que não precisava explicar — só mandar.
— Por que assinatura digital? — perguntei, num tom que eu tentei manter neutro. — Nem tem votação sobre isso no meu distrito ainda…
— Seu noivo solicitou.
— Noivo?
— Carta cinza. Nenhum dos dois pode recuar da decisão.
Minhas irmãs, que até então cochichavam no canto da sala, gritaram:
— O quê?! A Cata vai se casar? Com quem?!
— Isso é de verdade ou só castigo do colégio?
— Dá pra escolher o noivo pelo menos?
O técnico fechou os olhos, exausto. O segurança encostou a mão no cinto — só por precaução.
— Por favor, silêncio — disse o técnico. — Estamos prestes a registrar uma biometria de Estado. Isso é oficial.
Minha mãe, encostada no batente com um pano no ombro, murmurou:
— E pra que tudo isso? Ela nunca foi boa com comida nem com costura. Vai servir pra quê?
Eu respirei fundo.
Eles não sabem.
Não sabem ler. Não sabem o que está acontecendo.
Eles acham que essa carta é sorteio. Uma benção. Ou uma punição.
— Pensei seriamente em acionar o Banco Genético Nacional e até a Constituição — continuou o técnico, agora visivelmente irritado — mas prefiro resolver rápido. Só preciso da sua biometria digital.
— E se eu me recusar?
— Você se torna inimiga do seu próprio país. É isso. Posso, inclusive, solicitar que seu noivo venha pessoalmente.
— Ele é tão importante assim?
O segurança riu.
O técnico apontou para minha pulseira ocre.
— Você acha que alguém da sua cor recebe uma carta cinza à toa?
Não respondi.
Jorge.
Um nome que, até aquele momento, não significava nada.
Agora era meu noivo. E aparentemente, alguém poderoso o bastante para me arrancar daqui.
A carta chegou no meu aniversário de 16 anos. Como um presente. Ou um aviso.
Não aconteceu com ninguém da escola. Nem com ninguém da rua.
Era como se eu tivesse sido… sorteada.
— E depois?
— Seu marido vai entrar em contato.
Eu estava com o caderno aberto no colo, rabiscando anotações da aula de Ética. A mesa estava cheia de farelo de pão, e minhas irmãs mais novas brincavam de bater colher contra prato como se fosse música.
— De novo com esses riscos, Catarina? — minha mãe reclamou, sem nem olhar. — Você não cansa de gastar papel?
— É estudo.
— Estudo não enche barriga.
Suspirei. Guardei o caderno antes que caísse molho em cima.
Na minha casa, ninguém sabia ler. Nem minha mãe, nem meus irmãos. Nem meu pai, que dizia que “palavra demais estraga a cabeça”.
Fui alfabetizada por acidente.
Quando eu tinha uns seis anos, a senhora Lurdes, vizinha da casa da frente, ficou doente e não pôde dar aula no colégio. Como favor, ela me levava para ajudar a cuidar do neto — e, enquanto ele dormia, deixava um caderno de leitura em cima da mesa.
“Se você conseguir entender isso, pode ficar com os biscoitos da lata.”
Eu entendi. E fiquei com os biscoitos.
Quando meu pai descobriu, disse que “era coisa de gente que não tem trabalho pra fazer”.
Mas a Lurdes defendeu. Disse que, se eu sabia ler, talvez não precisasse casar tão cedo.
Ela morreu um ano depois. E minha mãe fez questão de me lembrar que “quem lê demais acaba querendo ser coisa que não é”.
Desde então, eu lia escondido. Jornais velhos, bulas de remédio, etiquetas de comida.
O que sobrava, eu lia. O que rasgava, eu copiava num caderno.
Ninguém nunca se importou. E ninguém nunca quis aprender também.
Me tornei a única alfabetizada da casa.
Não porque me deixaram. Mas porque eu me agarrei em cada letra como quem se agarra num pedaço de tábua em alto-mar.
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