A Carta
1 A carta
Notas iniciais
Dedico essa One-Shot para Ana Helena, aqui no Nyah também conhecida como Dark Mermaid, espero que ela goste, e vocês também. :)
Boa leitura.
A garota de pele alva tomava um banho quente para poder despertar de vez. O vapor turvava todo o vidro do box, também distorcendo a silhueta dela. Seu coração estava acelerado pelo que acabara de ler na carta que havia deixado em cima da mesa, na sala.
“Cassandra
Sei que faz muito tempo que conversamos, e que o motivo disso tudo foi eu ter desaparecido da sociedade para alimentar uma curiosidade sobre coisas ocultas. Algo que você conhece bem em mim. Para falar a verdade eu nem sei se você prestará atenção nessa carta, depois de saber de onde eu a enviei, se é que não já sabe. Mas por favor, leia até o fim.”
Já no quarto, de roupa, secava o cabelo com uma toalha, enquanto encarava-se no espelho. A respiração demonstrava nervosismo. Ela estava perdida, não sabia exatamente o que fazer.
“Há dois anos, eu sendo pesquisador de primeira viagem, tive a honra de participar de um grupo de arqueólogos que iriam visitar o Egito. Bem sabes que sempre tive um fascínio por Lovecraft, e que grande parte das obras dele foram inspiradas na história daquele lugar. Mas não foi apenas isso. Sempre senti que havia algo vivo por trás de tudo. Algo que ninguém poderia compreender o que era.”
Tudo isso parecia uma grande loucura, e Cassandra se perguntava a razão de estar no meio disso tudo. Por que isso havia chegado logo nela? Depois de tanto tempo... logo ela?
“Me preparei, e em poucas semanas, viajamos. A viagem foi produtiva. Aqueles seis homens que foram comigo sabiam muita coisa. Me revelaram mitos antigos demais, que de tão antigos, podiam ser reais. Ganhei vários livros, e eu sentia que aquilo iria ser o começo de uma carreira próspera. Mas eu estava profundamente enganado.
Logo no primeiro dia de estadia, nos reunimos tarde da noite. O tom sussurrado me fazia crer que havia algo que não podia ser dito em voz alta. E hoje eu sei que essa história não poderia ser dita por nenhuma boca humana.”
O primeiro sinal de que o dia seria estranho, era o nome Luke na carta. Há quanto tempo ele havia sumido? Não fisicamente, mas há quanto tempo ele havia deixado de ser realmente ele? Talvez isso tenha sido o motivo dele ter se afastado. E também o motivo de que ela não havia feito muita questão de continuar fortificando os laços de afeto.
Ele estava com a cabeça em uma realidade diferente.
“Me disseram o verdadeiro motivo de estarem ali, e devido a minha sede cega e descontrolada por conhecimento, me acharam “digno” de comparecer. Agora eu me pergunto o motivo de eu ter sido inconsequente a ponto de aceitar tudo que me propuseram.
Eu não quero te dizer o que eu vi naquela gruta onde entramos. Desde o começo, sentimos que algo iria dar muito errado. Mas a curiosidade era maior. Afinal, quem poderia fazer mal a um grupo de sete homens? Acendemos nossas tochas e caminhamos por quase uma hora por um corredor irregular, cheio de relevos pontudos.”
Já no carro, dirigindo para onde Luke estava, as palavras na carta giravam na mente de Cassandra. Havia feito de tudo para ter uma vida normal, sem turbulências, e logo ele havia feito isso. Ela sabia que ele não batia bem da cabeça. Ela sabia. Só não pensou que isso o levaria tão longe.
“Terminamos em uma câmara bem arejada, cheia de teias grossas de aranha. Um dos homens usou a tocha para queimar uma grande parte, que cobria algo no meio do lugar. O que vimos nos fez perder o fôlego. Era a estátua de uma criatura da cabeça alongada, com grandes olhos brilhantes de uma pedra que eu não conhecia. Ele estava sentado, abraçando as próprias pernas.”
E se as palavras dele forem pura loucura? O que ela estava prestes a fazer iria ser errado demais? Iria estragar tudo?
“Tinha mais de dois metros, se ficasse em pé. E era muito branco. Tudo ali parecia ser antigo, menos ele. A boca não passava de um traço frio. E a sensação de ser observado apareceu, percorrendo a espinha e subindo até a nuca, para poder tomar conta de toda minha consciência.”
E se forem verdade? Se forem palavras sãs?
“Havia algo perturbador demais naqueles olhos.
Analisamos, à luz das tochas. Ele não parecia ser algo produzido pelos egípcios. Alguém o teria colocado ali? Escondido? Nos perguntávamos aos sussurros. Até que alguém teve a infeliz ideia de tocar na estátua. O grito que ele deu rasgou a escuridão, e quase meus ouvidos também. Ele gritou “É de verdade! Está vivo!”, e céus, Deus queira que eu possa esquecer o que vi.
A criatura se levantou e olhou bem nos meus olhos. Sussurrou frases desconhecidas dentro da minha mente. Mas o sabor amargo me dizia que não era nada que eu quisesse procurar. Era a loucura pura.”
Então ela estava começando a se envolver com algo que não queria. Algo perigoso demais para uma mente humana poder entender. Algo que estava além dessas dimensões.
Algo que invadiria o mais íntimo do seu inconsciente...
“Me desculpa as letras tremidas, mas isso ainda me abala. Nós corremos, fugimos dali o mais rápido possível. Deixamos nossas tochas, e tropeçamos uns nos outros até sair daquele lugar. Naquela noite, todos nós tivemos pesadelos. Gritamos até nossa gargantas inflamarem.”
Algo que se deliciava na dor...
“A mensagem foi a mesma para todos. Irmos embora, e um nome foi dito. Um nome com sonoridade sombria, que me faz tremer apenas de pensar. Não é um simples nome, ele invoca coisas que eu não consigo entender. Pensamentos de morte e dor. Tentei arrancar minha língua na última vez que sussurrei esse nome.”
E que via beleza na morte e na loucura.
“Todos os seis estão mortos agora. Sofreram de ataques cardíacos. Mas só um tinha tendência a isso. Está conseguindo entender o motivo dessa carta? Eu preciso de ajuda. Eu estou em um manicômio, Cassandra. E tive muito trabalho para que essa carta pudesse chegar até você. Escrevi extensas linhas para poder lhe provar que eu não sou louco. Mas irei ficar em breve. Eu preciso que me visite. Assim que ler, se possível, venha.”
Mas ela estava indo assim mesmo. Estava colocando sua sanidade à prova por causa dele. Resquícios de afeto? Talvez.
“E antes disso acontecer, quero lhe pedir um favor. A chave que chegou dentro do envelope é de minha casa, e você tem de ir pegar algo e me trazer.
Dentro do guarda-roupa tem uma caixa com detalhes dourados. Dentro dela, vai encontrar um pequeno pote com um pó verde.”
O pó verde já estava dentro da bolsa. Quase quarenta minutos se passaram, e ela já estava na frente do manicômio. E ainda não sabia o que pensar de tudo isso.
Ajeitou a camiseta branca, pegou o copo de plástico tampado com café fumegante, e saiu do carro. Conversou com um atendente, e um clínico levou ela até o quarto. Ao entrar, fechou logo a porta. Ali havia apenas uma mesa, com canetas e folhas rabiscadas, e no canto uma cama de armação de ferro.
Luke estava olhando para fora pela janela, que permitia que uma luz agradável entrasse no quarto escasso.
— Há quanto tempo, não é? – ela deu um sorriso meio tímido e se aproximou dele. Ele sorriu e caminhou até Cassandra, que logo o abraçou. Um abraço forte, quase desesperado. Daqueles que se dá depois de ter sido salva de um afogamento. Ela era menor que ele, então sua cabeça batia no peito de Luke. A moça inspirou fundo, sentindo o peito dele bater, levemente alterado.
“Foi com esse pó que eu assassinei todos os seis arqueólogos. Eu precisava fazer isso, não entende? O nome, aquele nome... tornou a loucura contagiosa. Se aquele maldito nome se espalhasse pelas pessoas, o que seria do mundo?
Eu sonhei. Eu sonhei com tudo isso. Eu precisei matar. Para que o nome não se espalhasse. Para que esses pensamentos de morte e dor não invadissem a mente de mais ninguém.”
— Eu estava com saudade, Cassie. Mesmo.
Ela deu um passo para trás e mostrou o copo.
— Aqui está o café que você me pediu. – e ao entregar o copo, ela mordeu os lábios. Da mesma forma que alguém faz quando quer muito perguntar algo, mas está esperando o momento certo.
Ele sorriu e abriu a tampa, tomando alguns goles.
— Obrigado.
Os olhos castanhos dele estavam bem cansados, com olheiras profundas. Mas ele não parecia estar cansado fisicamente, e sim mentalmente. Era possível ver que a cabeça de Luke não estava nada bem.
— Então... ainda está tendo muitos pesadelos? – ela perguntou.
— Sim. No começo os remédios que me davam aqui funcionavam, mas depois não surtiram mais efeito algum. E eu não consigo me acostumar. São pesados demais.
Ela assentiu. Estava nervosa. Nervosa demais, e alisava a parte de trás da calça.
— Que loucura, hein? – Cassie deu um sorriso nervoso, tentando disfarçar. — Isso tudo que aconteceu.
Luke assentiu. Ela parecia bem mais nervosa que ele, apesar de tudo. Na verdade, ele apenas aparentava. Sempre soube ser frio por fora, mesmo se estivesse uma tormenta por dentro. Ele era sempre o que tentava trazer a racionalidade no meio da insanidade das emoções.
— Sua vida está bem? – o rapaz perguntou, terminando de tomar o café.
Cassandra respondeu positivamente com a cabeça, e com um suspiro, falou.
— Eu preciso ir.
— Mas já?
Ela assentiu novamente.
— Tudo bem, eu entendo.
Ela caminhou rapidamente para a porta, e saiu, mas antes que fechasse, ouviu seu nome ser dito mais uma vez.
— Sim? – ela ergueu as sobrancelhas, o encarando.
— Obrigado pela ajuda, de verdade. Amo você.
Aquela frase havia quebrado ela por dentro, em dezenas de cacos de incerteza e uma pontada de angústia em seu peito. Fechou a porta, respirando pesadamente, e caminhou para fora daquele lugar estranho. De pessoas estranhas, loucuras estranhas, e semblantes estranhos.
Passou pelo jardim, ainda com o peito pesado. Só conseguia enxergar o carro encostado. Só conseguia pensar no caminho que a levava até o volante.
“Mas ainda sobrou uma pessoa que sabe o nome.”
Seus olhos se encheram de lágrimas, e sua boca começou a arfar. Correu, desesperada para entrar dentro do carro. E lá dentro, ao fechar a porta, segurou o volante com força e chorou. Chorou com força, com sinceridade, tentando expelir aquilo que sentia. Tentando não se culpar pelo que acabara de fazer.
Enxugou as lágrimas e girou a chave. Colocou uma marcha, e começou a dirigir, tentando não se atrapalhar pela visão turva.
“E você precisa fazer isso. Já não sei por quanto tempo poderei aguentar essa loucura. O nome quer sair. O nome quer ser dito. Eu não sei mais o que fazer. Faça isso antes que eu o diga. Faça isso antes que eu faça você ouvir. Misture o pó com café. Me mate, Cassandra. Por favor, me mate.”
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