A Canção de Morgana
40 O Que Anne Esqueceu
Notas iniciais
Avalon, início de janeiro, 1997.
A alimentação de uma sacerdotisa em treinamento se restringia a pão seco, manteiga, mel, frutas e água pura do poço sagrado. Elas também não eram autorizadas a beber leite a comer carne. Coreen lhe explicou que uma dieta simples, sem carne ou laticínios facilitava a Visão, e que um estômago leve encorajava as sacerdotisas a canalizar forças de outros lugares que não em si mesmas a fim de conjurar a magia.
Anne achara a informação controversa, considerando a fartura e diversidade de comida que Hogwarts oferecia. Fazer magia sempre abria o seu apetite e ela comia muito mais em Hogwarts do que durante as férias, quando não estava autorizada a usar a varinha. Nem imaginava como as sacerdotisas de Avalon não morriam de fome.
À noite, sempre havia alguém tocando música na sala comum da Casa das Moças – uma salinha circular aconchegante, cheia de almofadas, bancos forrados com peles e balanços pendurados nas vigas do teto. Música, Anne aprendeu, era uma parte importante da educação mágica em Avalon, porque ritmo e afinação eram essenciais para os cânticos que conjuravam magias grupais, como a que Anne presenciara no círculo de pedras. A maioria das aprendizes tocavam harpas – feitas de madeira mágica retirada de árvores da ilha – mas também haviam flautas, todas feitas pelas próprias sacerdotisas em seu terceiro ano de treinamento.
Quando, naquela noite, Coreen começou a bocejar, as duas voltaram ao quarto e a garota deitou em sua cama, que era feita de madeira e coberta com peles que podiam ser de cervo ou urso, Anne não sabia dizer. As mesmas peles cobriam a sua cama. Eram rústicas e cheiravam a floresta, muito diferente dos lençóis fofos de veludo oferecidos em Hogwarts.
Avalon não tinha elfos domésticos – eram as próprias sacerdotisas que acendiam suas lareiras, conjurando fogo com as próprias mãos, coisa que aprendiam a fazer no primeiro ano. Elas também colhiam a sua comida e se revezavam em cozinhar ou limpar a casa das moças, de acordo com as afinidades mágicas de cada uma. Também eram elas que colhiam o algodão para tecer as túnicas e produziam os pigmentos para tingi-las. Tecelagem mágica era ensinado no quarto ano e as propriedades de tingimento de diversas plantas e minerais eram parte do currículo do quinto ano de treinamento.
Coreen não tinha problemas em falar sobre o treinamento para Anne, já que estava convencida de que a garota ia ficar em Avalon e começar o seu próprio treinamento no verão.
— Algumas meninas começam um pouco tarde, mas não tem problema. Você vai se dar bem, a parte mais difícil vai ser se acostumar a fazer magia sem varinha. Eles não ensinam isso em Hogwarts, não é mesmo?
Anne não comentara que a maioria dos bruxos nem mesmo sabia que era possível controlar magia sem varinha.
A respiração calma de Coreen informou a Anne que a garota tinha pegado no sono, mas ela não conseguia dormir. Não conseguia parar de pensar em algo que Coreen tinha dito dias atrás, quando estavam conversando sobre Harry, à beira do córrego:
“Por que você estava cega? Sua visão estava bloqueada?”
Anne tinha assumido que ela estivesse perguntando sobre a sua visão física, mas e se ela estivesse se referindo à Visão?
“Não é incomum que memórias se percam sob o efeito de certas maldições.”
Anne se sentou na cama, percebendo o que a estava incomodando. Aquela não era a primeira vez que ela perdia memórias. E se ela também tivesse sido amaldiçoada antes?
Anne escorregou para fora da cama e foi sacudir Coreen. Se sentia culpada em acordá-la, mas não sentia que podia esperar até a manhã seguinte.
— O que foi? — perguntou Coreen, a voz embolada pelo sono.
— Se você quisesse recuperar memórias perdidas, onde você iria? Há um lugar em Avalon, não há? Um lugar que responde todas as perguntas sobre o passado e o futuro?
Coreen despertou mais um pouco, atarantada.
— Que memórias você perdeu?
— Eu não me lembro de tudo que aconteceu no monte Tor. E, há muitos anos, alguma coisa aconteceu na floresta quando eu fiquei cega, mas eu também não me lembro. Acho que as duas coisas estão conectadas. Eu parei de enxergar na floresta e agora de novo, no topo do monte. Você mesma disse que os olhos são o portal para ambas, a visão a física e a interior, então faz sentido, não faz, que se a minha Visão interior foi afetada, a minha visão física seria também? Eu preciso saber, Coreen. Preciso saber o que eu esqueci!
— Ah, pela graça da Deusa, Anne — Coreen se sentou, agora completamente desperta. — Não posso levar você até o Lago do Tempo. Só as altas sacerdotisas são permitidas a consultá-lo e apenas com a permissão da Senhora. Além do mais, você não tem treinamento, a carga mágica poderia deixar você doente. Nenhuma memória vale tanto assim.
— Você não entende, Coreen, há uma profecia… e eu estou começando a achar que envolve muito mais gente do que é suposta a… — ela engasgou, aterrorizando-se com a formação daquele pensamento. — Eu preciso saber porque eu estou no meio de tudo isso. Preciso saber o que aconteceu no topo de Tor e na floresta, porque seja lá o que eu esqueci há dois anos, isso pode ser a resposta de tudo que eu não entendo sobre mim agora!
Alguma coisa no desespero da voz de Anne deve ter comovido Coreen, porque ela, após um suspiro pesado, deslizou para fora da cama e segurou a sua mão.
— Eu não sei o que aconteceu na floresta há dois anos, mas acho que sei o que aconteceu no topo de Tor. Que a Deusa me ajude, serei punida em sua ira se me descobrirem, mas… ande, venha comigo. Tem algo que você precisa ver.
* * *
Coreen conduziu Anne noite adentro, por um caminho que seguia a base do monte e as levava para a face oposta, através da floresta de juncos, a qual ainda não tinham visitado. A trilha quase invisível serpenteava a floresta sob a luz pálida de uma lua miguante. Depois de algum tempo caminhando no escuro – Coreen emprestando a Anne os seus olhos para que ela soubesse por onde iam – chegaram a uma clareira, à beira de um lago calmo. Mais adiante estavam as brumas, indicando a Anne que elas estavam na borda do monte. Coreen lhe indicou uma série de formas recortadas no escuro. Anne demorou a perceber que eram lápides, marcadas com pedras planas muito bem polidas. Quando elas se aproximaram, Anne viu que as lápides tinham inscrições de símbolos mágicos, entre eles o símbolo celta da “passagem”, que representava a jornada da alma após a morte.
Aquele devia ser, então, cemitério de Avalon. Segundo a lenda, o rei Arthur fora enterrado ali, bem como Morgana LeFay e muitos outros bruxos lendários da idade média.
— Por aqui — Coreen se afastou das lápides, indicando uma construção círcular que parecia uma pequena torre ou um farol. A entrada era um arco de pedra sem porta, que levava ao topo de uma escada em espiral descendente.
Coreen conjurou uma pequena chama com as mãos e as duas desceram em silêncio, Anne com uma sensação crescente de receio do que veria no fim da escadaria. No fim da escadinha elas encontraram uma câmara ampla, uma espécie de caverna com o teto alto e circular. As paredes tinham nichos, cada um repleto com ossos brancos, crânios e placas que reluziam à luz fraca de Coreen.
— Ele está ali — Coreen apontou para um ponto mais afastado, onde havia uma plataforma cavada na pedra, lembrando a Anne um altar. Sobre ela, um corpo coberto por um lençol sem tingir, do mesmo tipo que fazia a túnica que Anne usava. — Sinto tanto, Anne. Mas acho que no fundo você já sabia, não é? Às vezes é preciso ver com os próprios olhos o que a Visão já nos mostrou…
Anne avançou para o corpo, o coração batendo forte na base da garganta. A sua Visão não tinha lhe dito nada – na verdade, era o silêncio absoluto que a perturbava. Era o vácuo, o buraco onde deveria achá-lo, onde se acostumara a achá-lo, que a estava desorientando.
Ela puxou o lençol, descobrindo o rosto do rapaz de dezesseis anos que vinha ocupando seu pensamento sem cessar naqueles últimos meses. Ele estava pálido sob a luz mágica de Coreen. Os lábios tinham uma cor cinza doente, e havia um pouco de sangue seco em seu queixo. Anne puxou mais um pouco o lençol, descobrindo o suéter Weasley, também manchado de sangue. Um pequeno rasgo em forma de estrela fora aberto no tecido, do lado esquerdo do seu peito. Debaixo, Anne sabia que havia uma perfuração funda com o mesmo formato, atravessando pele e músculos até o coração dele.
— Eu vi quando ele foi trazido, no dia do ataque.
— Quem o touxe? — Anne quis saber, a própria voz soando estranha.
— A… a nossa nova Senhora de Avalon, Sophia. Ela trouxe vocês dois, mas você acordou e ele não, então ela o trouxe aqui, para a câmara mortuária. Acho que ainda não decidiu o que fazer com ele.
Anne estremeceu, seus joelhos esquecendo-se de como sustentá-la. Coreen correu para ajudar, mas antes que pudesse, Anne já tinha se firmado novamente.
— Preciso falar com Sophia — disse por entre os dentes apertados.
— Iremos amanhã bem cedo. Achei que vê-lo lhe trazia alguma paz… Anne! Você vai nos meter em problemas!
Coreen saiu correndo atrás dela, porque Anne já estava escalando as escadas em espiral, usando as mãos para se guiar.
— Me leve até ela! — Anne pediu quando chegou ao topo e descobriu que não sabia para que lado deveria ir.
— Não, eu não posso! Eu nem devia ter te trazido aqui. Obviamente você não estava pronta pra isso.
— Que seja, vou encontrar o caminho sozinha, então.
— Anne! Minha Deusa, estou condenada…
Anne deixou Coreen para trás, avançando às cegas pela noite, as mãos estendidas à sua frente, esperando não tropeçar em nada grande o suficiente para quebrar uma de suas pernas.
Projetou raivosamente a sua mente para alcançar Sophia, porque se conseguisse achá-la, saberia o caminho mais rápido até ela. Para a sua surpresa, sua mente se expandiu através de Avalon como um balão. De repente, ela sabia exatamente onde estava e para onde precisava ir. Aquele conhecimento não era seu, percebeu, mas de outras sacerdotisas…
“Em Avalon, a sua magia é parte da ilha …a magia da ilha e de todas as sacerdotisas que estão aqui também fazem parte de você.”
Anne atravessou a floresta de seixos sem tropeçar ou se perder. Coreen a chamava, alguns passos atrás, mas Anne não lhe deu atenção. Uma vez de volta a campo aberto, ela tomou a direção de onde sentia a magia de Sophia pulsar. Só que, antes de pegar a trilha que a levaria para a casinha de taipa que tinha visitado mais cedo, ela se viu na base da trilha em espiral que levava para o topo do monte.
Anne sabia o que havia lá em cima. As respostas que estava procurando, as respostas que Sophia se recusava a lhe dar desde que ela tinha doze anos.
Mudando de curso, Anne começou a escalar o caminho em espiral. Já não ouvia mais Coreen no seu encalço, então achou que a menina tinha seguido direto para a cabana de Sophia, o que significava que Anne tinha pouco tempo… seguiu o caminho em espiral, se confiando na intuição que obtinha daquele impossível mapa mental fornecido pela consciência coletiva da ilha. Se ao menos algo assim existisse em Hogwarts, ela jamais se perderia tentando achar as malditas masmorras…
Antes de alcançar o círculo de pedras, Anne pegou um desvio e seguiu uma trilha diferente, um caminho de pedras lisas que a levou, mais adiante, até um espaço entre duas pedras muito altas. No centro dele havia um lago de águas paradas como vidro, tão escuras quanto um poço sem fundo. Não precisava que os seus olhos funcionassem para vê-lo; ele existia dentro dela, tanto quanto fora. Era mágico e poderoso, e sussurrava para ela.
Anne ajoelhou na pedra fria e engatinhou até a beira do lago com cuidado. Ela sabia o que fazer, porque muitas tinham-no feito antes dela. Arrancou a tira de couro que prendia a sua trança e a desfez rapidamente com os dedos. Desatou a faixa em torno da sua cintura e tirou a túnica pela cabeça, depois se livrou das roupas de baixo.
Nada feito por mãos humanas devia tocar as águas sagradas.
Nua e tremendo de frio e antecipação, ela mergulhou as mãos em concha nas águas do lago, trouxe-as de volta e bebeu. Era fresca, ferrosa e amarga.
— Me mostre o que eu esqueci — ela pediu ao lago, a voz tremendo. — Me mostre o que aconteceu na floresta e no topo do monte Tor, me mostre tudo de que eu não me lembro.
Nada aconteceu. Anne tinha os olhos bem abertos, mas ela não podia ver qualquer coisa. Bem, ela estava cega e não podia ver a superfície do lago de qualquer maneira, mas aquilo não devia impedir a Visão de se manifestar, certo?
Certo?
A noite continuou silenciosa, a água imóvel e o ar frio gelando o seu corpo nu. Lhe ocorreu o quão despreparada era parecia, o quão inepta. Provavelmente estava pulando as etapas do ritual que lhe mostraria o que queria ver, porque nunca fora treinada em nenhum deles. Anne soltou um urro de frustração, o tipo de som que nunca tinha escapado de sua garganta antes.
— ME MOSTRE O QUE EU QUERO VER! Eu estou pronta!
Ela se levantou e avançou para dentro do lago. Talvez beber não fosse o bastante. Talvez, se ela mergulhasse…
O chão do lago se dissolveu sob os seus pés e Anne foi engolida pelas águas.
* * *
Ela tinha doze anos e estava decidida a saber a verdade. Se esquecera de pegar um casaco antes de sair – a parte superior do corpo tremia, mas tentava não prestar atenção àquele detalhe. Trazia a sua varinha muito apertada em sua mão, embora tecnicamente não fosse permitida a fazer magia fora da escola.
Não demorou a chegar à orla da Floresta Branca. Ali, a névoa mágica de St. Sensille ondulava mais alta e densa do que em qualquer outro lugar, cobrindo o chão como um tapete fantasma. Era quase tão alta quanto Anne e seguia os seus passos, como se fosse atraída pelo movimento do seu corpo no escuro.
Anne estava com medo, mas decidida a não admitir o fato para si mesma. Medo não ia ajudar em nada. O medo era inimigo da verdade, não era isso que o seu avô dizia?
A sua avó tinha uma opinião bem diferente. Para ela, o medo era o melhor amigo da sobrevivência. E segundo Amélia, Anne devia ter medo de Bervely Black. Porquê, segundo Amélia, a mãe de Bervely tinha sido a responsável pela morte da sua. E, Amélia estava certa de que a história se repetiria.
“Fique longe dessa menina”, lhe dissera a avó. “A família dela tem sido a ruína da nossa desde que a sua mãe se envolveu com Sirius Black…”
Anne não queria acreditar no que Amélia dizia; estava disposta a descobrir a verdade por si mesma. Parada à borda da floresta, uma pequena figura perdida entre os troncos altos embranquecidos, ela arrancou a Orbe de Parlaisa do pescoço, sentindo o mundo se adensar ao seu redor, como se alguém tivesse aumentado o volume de todos os seus sentidos.
Ela parou um segundo, arrepiada e tonta, e esperou enquanto se habituava.
“Me mostre minha mãe”, disse baixinho, a Orbe bem fechada na mão, os dentes travados.
Sentiu os olhos arderem e soube que eles estavam sendo tomados do brilho prateado que precedia a Visão das coisas assustadoras. A Visão que normalmente ela tentava evitar, mas que, aquela noite, ia lhe trazer as respostas que ela procurava.
—Frank, cuidado…
Anne abriu os olhos, pois reconhecia aquela voz. Ela apertou os olhos, percebendo o contorno difuso de pessoas mais adiante, entre as árvores.
— Expeliarmus! — Alguém disse, e então uma voz feminina gritou.
Anne hesitou, o coração batendo enlouquecido no peito. Sabia que a primeira voz tinha sido da sua mãe. Já a tinha ouvido antes, nas memórias do seu avô. Também sabia que o pai de Neville se chamara Frank.
Mas sua mãe tinha desaparecido na floresta onze anos atrás. Na mesma noite em que Frank Longbotton ficara louco.
Os vultos se moveram mais para dentro, entre as árvores esguias e retorcidas. Dessa vez Anne conseguiu ter um vislumbre da jovem de longos cabelos claros e uma saia plissada azul, antes que ela sumisse de novo.
— Mamãe? — ela chamou, seguindo as vozes para dentro da floresta.
Anne encontrou o grupo mais adiante, alguns metros após a orla da floresta. Dois deles eram bastante familiares; um homem baixo, de cabelo escuros e olhos corajosos e uma mulher caída no chão a alguns metros dele, cujo rosto doce em formato de coração Anne já vira em fotos na casa dos Longbotton.
Um pouco à esquerda do homem — que Anne sabia ser Frank Longbotton – estava a sua mãe, Olivia. Ela era jovem e bonita, mas olhava com um misto de terror e ódio para os outros três ocupantes da clareira: dois homens e uma mulher em longas capas negras.
A mulher, posicionada um pouco mais à frente dos outros dois, parecia ser a líder do grupo. Tinha brilhantes cabelos negros, era alta e com olhos tão escuros como os do resto da sua família. Sua semelhança com Bervely era assombrosa, mas os seus olhos eram cruéis e o riso manchado em seus lábios não era nada que Anne já tinha visto aparecer no rosto de sua irmã mais velha.
Os dois homens atrás dela se pareciam, mas um era alto e esguio, com estreitos olhos raposa. O outro era mais baixo e robusto, o cabelo comprido e a barba mais longa, resultando numa versão menos polida do primeiro.
— Bellatrix — Anne ouviu sua mãe sussurrar num tom de aviso.
A comensal da morte, embora tivesse os olhos cravados em Olívia, se dirigiu ameaçadora para Frank, que tentava se aproximar da esposa caída no chão.
— Eu não faria isso se fosse você, Longbotton. Não se mova.
Frank se apressou, mas nunca alcançou Alice. Alguém lhe lançou um feitiço não-verbal, vindo das sombras, e ele caiu de joelhos com um grito de dor.
— Frank! — Olivia chamou, avançando para o amigo.
— IMPEDIMENTA! — disse Bellatrix, a varinha apontada para ela.
— NÃO! — Disse a voz das sombras, de quem quer que tinha lançado o feitiço em Frank. Um adolescente franzino, de pele leitosa e muito branca, cabelos cor de palha, olhava para Olívia com uma expressão sôfrega de culpa.
— Bartô — Olívia murmurou ao reconhecê-lo. Diante do som de desapontamento da voz dela, Bartô se empertigou, parecendo se lembrar do porque estava ali, e lhe devolveu um olhar obstinado.
Ele avançou para Alice, que estava mais próxima dele do que de Frank, e a pegou pelos cabelos, apontando sua varinha para a cabeça dela.
Bellatrix não tinha desviado os olhos de Olívia por todo aquele tempo. Ela parecia deliciada com o desenrolar dos acontecimentos.
— Solte-a — disse Frank ao adolescente chamado Bartô.
Durante tudo isso, Anne não foi capaz de tirar os olhos de sua mãe. Seu coração estava batendo dolorosamente no peito, porque agora ela sabia que noite era aquela. As duas mulheres se fuzilavam com ódio mortal, e só uma sairia daquela floresta.
— SOLTE-A — urrou Frank, liberado do feitiço que o derrubara, avançando, desarmado, para onde Bartô e Alice estavam.
— Frank, NÃO! — Olívia e Alice gritaram juntas.
Os comensais da morte detrás de Bellatrix, prontamente e como se fossem um só, lançaram raios vermelhos através do ar, atingindo Frank no peito. Ele caiu de joelhos na terra, se contorcendo.
— O que você quer de nós? — Perguntou Olívia a Bellatrix, através dos gritos de Frank. A comensal abriu um sorriso suave que não atingiu seus olhos negros, e não respondeu.
— Digam-nos onde está o Lorde — ordenou um dos homens, o mais baixo e de barba, interrompendo o seu feitiço. O seu irmão fez o mesmo, e Frank tombou no chão, gemendo baixo.
Bartô soltou Alice e a deixou correr até o marido. Anne olhava, agora horrorizada, na direção de Frank. Nunca tinha ouvido alguém gritar daquele jeito. Se não o visse inteiro agora, teria achado que ele estava sendo desmembrado um segundo antes.
— Nós não sabemos onde ele está! — Gritou Alice, fervorosa e irritada. — Ele está morto, Bellatrix!
— O Lorde não está morto — sibilou a comensal, sem piscar. Ela nunca desviava os olhos de Olivia. Parecia que o melhor da sua noite era assistir os sentimentos que provocava no rosto da mulher enquanto torturava os seus amigos. — O Lorde nunca morre. Rod — chamou, virando-se rapidamente para o mais alto dos gêmeos — Faça-os dizer. Eles sabem.
Os dois comensais foram até o casal. Um deles levantou Alice grosseiramente pelos cabelos e Frank tentou defendê-la, se erguendo instável, mas o outro comensal logo estava atrás dele e o segurou.
O adolescente, Bartô, se afastou dos dois homens como se os temesse também.
Anne quis que a visão parasse. Ela tinha uma vaga ideia do que tinha acontecido naquela noite à Frank e Alice, embora sua avó sempre tivesse lhe proibido de saber a história inteira. Ela tinha a impressão de que algo tão terrível quanto estava aguardando a sua mãe. Mas, agora que estava ali, ela se viu paralisada, incapaz de deixar a floresta, incapaz de fechar os olhos.
Incapaz de interferir no que estava prestes a acontecer.
Um dos comensais voltou a usar o Cruciatus em Frank, o outro segurando Alice para que ela assistisse. Tanto Alice quanto Olivia gritavam para que ele parasse.
Olivia, a única ainda com uma varinha, tentou erguê-la discretamente na direção do comensal.
— Impedimenta!
— Paralisae — contra-enfeitiçou Bartô, do outro lado. O feitiço de Olivia desapareceu no ar, de encontro ao dele.
O Cruciatus foi interrompido mais uma vez. Anne olhou no rosto de Frank Longbotton e percebeu que seus olhos castanhos estavam se apagando.
— Você não quer sofrer, Frank — Bellatrix sussurrou, quase cantarolando, os olhos faiscantes. — Veja a sua mulher, ela está enlouquecendo… Fale para nós onde está o Lorde e a sua morte será mais rápida.
— Nós não sabemos! — Disse Frank, mas a voz de Alice cobriu a dele, furiosa:
— NÓS NÃO VAMOS DIZER! Não vamos dizer para você, Bellatrix!
— Não vai dizer? — Repetiu a comensal, debochada, e se virou para Olivia, a sombra de um riso incrédulo no rosto. — Ninguém vai me dizer onde o meu Lorde está? NINGUÉM VAI ME DIZER?
Bellatrix chegando bem perto de Frank e apontou a varinha não para o seu peito, mas na sua têmpora.
Anne recuou, fechando os olhos. Os gritos foram ainda piores dessa vez. Eles rasgavam o ar e os seus tímpanos, perfuravam a sua cabeça e sacudiam os seus ossos. Suas costas encontraram uma árvore e Anne se encolheu ali entre as raízes, apertando as palmas das mãos contra as orelhas numa tentativa vã de abafar o som.
Os comensais amarraram Alice, Frank e Olivia em troncos de árvores e continuaram o seu interrogatório, alternando Cruciatus em Frank e Alice, atiçando-os a assistir-se enquanto enlouqueciam de dor. Aquilo já não era mais sobre conseguir informações… estava claro que Bellatrix só estava se divertindo. As gargalhadas estridentes da bruxa perfuravam o ar estagnado da floresta, tão afiadas quanto os gritos.
— Já chega, Bellatrix. Já chega — Anne ouviu a sua mãe implorar, a voz fraca. Nem Alice nem Frank emitiam sons. Anne não tinha coragem de levantar o rosto, enfiado entre os joelhos, para olhar para eles.
— É uma pena que não puderam ajudar, não é mesmo, Olie? — disse a comensal, num tom alegre. — Rabastan, Rodolphus, façam o que quiserem com os corpos. Tenho assuntos importantes a tratar com a minha velha amiga.
Anne procurou coragem para levantar o rosto, e viu que Bellatrix soltava Olivia das amarras. Sua mãe parecia instável sobre as pernas. Haviam cortes profundos em seus pulsos onde as cordas tinham lhe amarrado. O sangue fluía deles quando ela abaixou os braços, encharcado as suas mãos e pingando no chão aos seus pés. Gotas muito vermelhas estampavam os seus tênis brancos de cadarço.
— Vamos, Loren, precisamos conversar — disse Bellatrix, como se acreditasse ter uma autoridade natural sobre a outra mulher.
Olivia tentou resistir e implorou para que Bellatrix a deixasse salvar Frank e Alice, mas Bellatrix a estapeou, em seguida a arrastando consigo para o interior da floresta. Olivia não resistiu daquela vez, cambaleando um pouco.
Anne obrigou a si mesma a se levantar e seguir as duas. Ela precisava saber o que tinha acontecido. Sua mãe não tinha sido torturada até a loucura como os pais de Neville, mas ainda assim ela nunca saíra da floresta. O seu corpo nunca fora encontrado…
As duas mulheres andaram por algum tempo, Bellatrix puxando Olivia pela manga de sua capa. Olivia deixava um rastro de sangue na terra branca.
Bellatrix soltou Olivia quando chegaram à uma clareira no meio da floresta, onde as árvores haviam crescido de forma a delinear um perfeito círculo. Seus troncos brancos e retorcidos se inclinavam e as copas se entrelaçavam, tecendo um teto prateado sobre a cabeça delas. No meio da clareira havia um velho poço de pedra.
— Você nunca chegou tão longe, não é, Loren? — Bellatrix perguntou, ofegando um pouco. — Eles dizem que esta floresta pode ser perigosa… parece que estavam certos.
Havia um ódio pulsante no rosto de Olivia. Num movimento feroz ela socou o rosto da comensal, com toda a força do seu braço, fazendo Anne pular de surpresa. O soco devia ter-se somado com alguma mágica, porque Bellatrix caiu alguns metros adiante, entre as raízes de um dos troncos, batendo a parte de trás da cabeça.
A comensal se levantou em seguida, tirando alguma coisa do bolso de sua capa negra. Era um punhal de lâmina polida como ouro branco e punho de prata, talhado com insígnias. Olívia pareceu reconhecer o punhal, pois olhou com desprezo para a sua oponente.
— Você não passa mesmo de uma ladra sem honra, Bellatrix.
— Não é engraçado que justamente a faca velha de Sirius seja o que vai dar um fim em você? — A comensal deu uma risadinha irritante. — Eu acho engraçado.
Bellatrix arrastou Olivia até a borda do poço. A esse ponto, Olivia tinha perdido tanto sangue que não tinha a força necessárias para resistir. Bellatrix inclinou a mulher sobre o poço, segurando-a pelos cabelos, e com a outra mão, alinhou o punhal com a sua garganta.
— Você sabe porque eu vou jogar você aqui, Olívia? Porque eu não quero que achem o seu corpo. Assim, você não pode se tornar uma heroína. Já estamos cheios de heróis…
Mas quando ela tentou cortar a garganta de Olivia com o punhal, a lâmina resistiu.
— Mas que diab…?
Outras coisas estranhas estavam acontecendo na clareira. A névoa agora as circundava, girando rapidamente próxima ao chão. O ar se tornara mais frio, e um suave assobio vinha das profundezas do poço. O punhal apertado na mão de Bellatrix começou a emitir um brilho fraco.
Logo a névoa se tornou um redemoinho frenético, vertendo para dentro do poço. Olivia, reunindo suas últimas forças, agarrou a mão de Bellatrix e a afastou de sua garganta. Quando Olivia tocou o punhal, Bellatrix gritou de dor, soltando-o de repente.
— Pare já com essa magia! — ordenou a bruxa, largando Olivia para recuperar a própria varinha. — O que está fazendo, Loren? PARE AGORA!
O assobio do fundo do poço aumentou, arrepiando cada fio do corpo de Anne. Ela olhou para a mãe e viu que ela parecia em transe — não estava mais ofegando, e o azul em seus olhos fora substituído por prata líquida, incandescente. Ela era quem segurava o punhal agora, e ele não parecia queimá-la.
— Devolva! Isso é meu! — mandou Bellatrix, uma nota de pânico evidente em sua voz. Ela avançou para recuperá-lo, mas uma força mágica invisível lançou o seu corpo longe. Ela caiu mais uma vez no chão da floresta, derrapando, mas prontamente se levantou.
— LOREN, DEVOLVA!
Mas Olivia não podia ouvi-la. A jovem lançou um olhar vazio para o fundo do poço. Àquela altura, a névoa espiralando ao seu redor era tão densa que se assemelhava a um véu, ondulando com rapidez em torno dela. A névoa se rasgou ao meio, abrindo um buraco. Do fundo do poço vinham sussurros baixos, excitados.
Olívia passou as pernas para dentro do poço. O punhal continuava firme em sua mão, a ponta para baixo. O buraco na névoa se alargou, ficando do tamanho da boca do poço. Ela impulsionou o seu corpo para frente sem hesitação.
— Não ouse…!
Olívia caiu pela borda do poço, sumindo de vista. Anne gritou, avançando com as mãos estendidas, seu coração caindo junto com a mãe. Bellatrix também tentou alcançá-la, mas a névoa a repeliu e a jogou ainda mais longe, onde ela caiu, inconsciente.
Anne assistiu o poço engolir a névoa restante e o assobio diminuir até sumir.
Agora só havia o poço e sua escuridão sem-fundo, e o silêncio. Ela estava sozinha na floresta.
Anne notou que sangrava. Devia ter se machucado em algum galho, atravessando a floresta… mas não sentia nenhuma dor.
Nenhuma dor física, pelo menos.
Sua mão ardia. Anne a abriu e percebeu que, em sua palma, a Orbe de Parlaisa tinha se quebrado em vários pedaços.
O mundo se dissolveu no escuro. Anne afundou mais profundamente nas águas geladas…
Estava no topo do monte Tor de Glastonbury e o sol brilhava alto no céu. Voldemort se inclinou e sussurrou em seu ouvido, a voz de uma serpente sibilante.
— Crave o punhal no peito do garoto — com um dedo longo e branco que parecia um osso, Voldemort indicou o ponto no peito do Reflexo, bem sobre o olho esquerdo do leão bordado em seu suéter. — Bem aqui.
Anne obedeceu. Ela acertou o ponto exato entre uma e outra costela, por onde a lâmina deslizou sem grande dificuldade. Sentiu três estalos refletidos em seu pulso – pele, músculos e coração.
— Agora puxe — disse Voldemort, clínico. Exultante.
Anne retirou a lâmina. O peito do garoto se inundou de sangue quente, cada pulsação mais fraca que a anterior. Os olhos verdes pregados nela, muito surpresos, muito incrédulos.
O mundo ficou escuro de novo… Anne continuou afundando, sem saber onde ela terminava e as águas começavam. Sentiu uma luz intensa por detrás das pálpebras, o que a fez abrir os olhos.
Morgana estava lá. Seu cabelo negro flutuando ao seu redor, a túnica vermelha tremulando, os lábios pálidos murmurando uma canção de ninar.
“Eu dei ao meu amor uma chave, para abrir um esconderijo…”
Os gestos de suas mãos pálidas teciam as cerdas do tempo, tramando a sua música entre milhares de outras linhas que brilhavam para Anne, desde o início dos tempos até o fim, só que não era uma linha reta, e sim um círculo…
“Dei-lhe também um passarinho”, cantou a feiticeira, sua mão acariciando a testa de Anne suavemente, “…que em sua cabeça fez um ninho”…
Anne sentiu um puxão que a afastou da feiticeira. Ela estendeu a mão, tentando alcançá-la, mas Morgana negou com a cabeça, os olhos prateados lhe advertindo.
“Não resista.”
* * *
Anne descobriu-se de volta à cabana de Sophia, encharcada e tremendo, enquanto o fogo da lareira queimava forte, tentando expulsar o frio enregelante que se instalara em seu corpo.
— Anne! Finalmente...
Era a voz de Sophia, mas Anne não abriu os olhos. Havia um ardor constante em seus pulmões e no fundo de sua garganta. Estava fraca; tinha ido muito longe.
Descobriu que a sua visão havia voltado. Podia ver a casinha de taipa, que era pequena como imaginara. Os móveis eram de madeira, a cama em que estava, tão rígida quanto a que encontrara na Casa das Moças. O fogo da lareira sempre queimava forte, e Anne agradecia por ele. No entanto, o frio nunca ia embora.
Depois do que pareceu a Anne muito tempo – era incapaz de saber quanto, pois dormia sem parar e quando acordava, sua consciência era vacilante – ela finalmente conseguiu abrir os olhos e os seus pensamentos estavam claros.
Sophia estava por perto, alimentando o fogo da lareira com pedaços de madeira. Sabia que Anne tinha acordado mesmo sem olhá-la.
— Como se sente?
— Você mentiu para mim — disse, a voz arranhando por falta de uso. — Mentiu sobre Harry… sabe muito bem onde ele está.
— Nós duas sabemos que aquele não é Harry Potter — disse Sophia, sem se virar. — O que significa que você também tem escondido coisas de mim.
Anne quis se defender, mas não teve forças. Ela voltou a cabeça para o travesseiro, exausta e com vontade de chorar.
— Eu vi tudo — murmurou sob a respiração. — Tudo que eu tinha esquecido. A floresta…
— Eu imaginei. Só sinto que tenha precisado se afogar para isso. — Com um suspiro, Sophia veio até a borda da cama e se sentou numa cadeira posicionada ali perto. Ela afastou o cabelo do rosto de Anne e olhou para o seu rosto com pesar. — Se tivesse ficado e feito seu treinamento como eu sugeri, teria visto tudo quando estivesse pronta. Por que tem que tornar tudo tão difícil para si mesma, Anne?
A menina se encolheu, as memórias recuperadas lhe assolando como agulhas quentes por debaixo da pele.
— Foi por isso que eu esqueci, então? Por que eu não estava pronta?
— Sim — Sophia assentiu, fitando-a com carinho. — Quando a encontrei na floresta naquela noite, você estava aterrorizada. Nenhuma garotinha deveria assistir a tortura e morte da própria mãe.
Anne estremeceu, cerrando os olhos bem apertados. O som dos gritos de agonia não só de Olívia, mas de Alice e Frank, ficariam gravados em sua memória enquanto ela vivesse.
— Quando você acordou, já não se lembrava de nada. É natural esquecer-se de Visões no início, especialmente as mais perturbadoras. Mas, bloquear visões tão importantes vieram com um preço alto para você. A sua cegueira se instalou, como um sintoma de tudo que não estava pronta para ver.
Anne assistiu o fogo queimar laranja-vivo por debaixo do braço de Sophia, as ondulações das chamas lembrando-lhe das ondulações da névoa em torno do poço, na floresta Branca.
— Bellatrix não matou minha mãe. Ela se jogou no poço, antes que Bellatrix pudesse… — sua voz quebrou. Anne engoliu em seco, forçando-se a continuar, porque precisava entender. — Minha mãe tinha a Visão, não tinha?
— Sim, é claro. Como todas as mulheres da família.
— Quando ela tocou o punhal, alguma coisa aconteceu — Anne estremeceu, lembrando-se da força mágica que tinha sentido vir do objeto, a mesma que repelira Bellatrix para longe. — Queimou Bellatrix e abriu… abriu um portal? Eu vi a névoa se abrir, na borda do poço.
Eu dei ao meu amor uma chave, para abrir o esconderijo.
— Quando Sirius voltou do véu com o mesmo punhal, ele disse que minha mãe tinha entregue para ele. Achei que ele tinha imaginado isso, mas é verdade, não é? Ela estava lá, esperando, esse tempo todo?
Sophia assentiu, os olhos cintilando com lágrimas não derramadas.
— Por que é que ela não voltou com ele? Onde é que ela está?
— Não era parte do destino dela voltar, Anne. Ela cumpriu a parte que lhe cabia e seguiu em frente.
— Mas não é justo! — Anne reclamou no limite de sua voz, que não era muito. Tudo que ela conseguiu foi um grito rouco de frustração.
— Não, não é justo — Sophia concordou, ainda afagando seu cabelo. — Mas justiça é raramente o caso, quando se trata do destino. Há outras forças em jogo, mais importantes...
— Eu não entendo. Por que eu comecei a ver de novo, quando conheci Harry?
— Por que você precisava da sua Visão, e as duas coisas estão intimamente ligadas. Lembre-se… o que aconteceu logo depois que você conheceu Harry Potter?
Anne repassou os acontecimentos do verão anterior. A cerimônia de nomeação dos aurores no Ministério, ela se deu conta. A primeira vez que a sua Visão tinha se manifestado depois de muito tempo, quando ela tinha ouvido…
— Sirius! Eu ouvi Sirius chamar do outro lado do véu! — Ela voltou a encarar Sophia, assustada. — Quer dizer que isso era parte do meu destino? Eu precisava estar lá para…?
— Terminar o que a sua mãe começou, sim — completou sua madrinha, a voz triste. — Olívia protegeu o punhal até que que fosse a hora de devolvê-lo para Sirius que, pelo que compreendo, era o responsável a entregá-lo para Potter. Coube a você trazê-lo de volta do véu.
— Mas ele precisou morrer para recuperar o punhal! O véu causou danos irreversíveis à magia dele!
— Um preço alto, sim.
— Está tudo conectado, então? Como isso é possível? Meu pai, minha mãe, Harry… é como se eles não tivessem escolha, senão...
— Eu lhe disse, Anne. Há forças mais poderosas em ação no momento. Tentei evitar que elas interferissem no seu destino, mas agora penso que isso nunca foi uma possibilidade. Como a sua mãe e o seu pai, você segue um caminho que foi definido para você há muito tempo.
Anne respirou fundo. Seu peito e sua garganta doendo. Se sentia assustada e fraca, e Sophia não podia ajudá-la. Ninguém podia.
— E vi Morgana LeFay no fundo do lago.
Sophia assentiu, sem parecer surpresa de que Anne tivesse visto uma bruxa que morrera há quase um milênio enquanto estava se afogando.
— Ela estava cantando uma canção… então ela me disse… para não resistir. O que ela não quer que eu resista?
— O que você acha? — Sophia lhe devolveu a pergunta, uma sombra de dor no fundo dos seus olhos azuis.
Eu dei ao meu amor um passarinho, que em sua cabeça fez um ninho.
— Mas e se eu... e se eu quiser um destino diferente pra mim?
Sophia não lhe respondeu. Só continuou afagando o seu cabelo, em silêncio, e Anne sabia que a madrinha estava lutando para não derramar as lágrimas que se acumulavam em suas pálpebras.
Nem mesmo a Senhora de Avalon podia responder certas perguntas.
* * *
Anne melhorou muito lentamente nos dias seguintes. Recuperar a sua visão significava que ela não precisava mais de Coreen para circular em Avalon, pelo que ficou agradecida. Por mais que tivesse apreciado a companhia da garota nos últimos dias, sentia que precisava de silêncio.
Havia muito para conversar consigo mesma. Muito para decidir…
Não resista.
Fácil para Morgana dizer aquilo. Tinha sido uma das maiores bruxas de todos os tempos. Provavelmente nunca tinha sentido o medo quanto Anne sentia agora.
Por outro lado, quanto mais tempo Anne passava em Avalon, mais vontade de ficar ela tinha. Ela se sentia mais em casa ali do que tinha se sentido em St. Sensille, ou mesmo em Hogwarts.
Na verdade, só tinha sentido aquila sensação uma outra vez, e não fazia muito tempo…
Harry.
Só que Harry pode estar morto, ela lembrou a si mesma. Segundo as regras do espelho, Harry devia estar morto. Danos ao Reflexo podem causar danos ao original… E o Reflexo estava definitivamente morto na câmara mortuária de Avalon, embora Anne o tivesse visitado de novo e o seu corpo permanecia tão intacto como antes. Não fosse a sua palidez, ele poderia estar dormindo.
Sophia não conseguira notícias sobre Harry, do outro lado das brumas. Ninguém parecia saber dele desde o incidente em Godric’s Hollow.
Mas Anne precisava saber.
No final do terceiro dia de perambulações pela ilha, Anne foi se encontrar com Sophia em sua casinha de taipa. Ela vinha fazendo as suas refeições com as outras garotas na Casa das Moças, mas hoje Sophia tivera algum tempo livre e a convidara para o jantar.
Havia um guisado de raízes em uma travessa na mesa pequena, esperando por elas. A ideia soava um pouco nojenta, mas acabou sendo um dos pratos mais saborosos que Anne já tinha provado.
— Eu preciso voltar para Hogwarts — disse Anne quando elas terminaram de comer. Sophia a olhou longamente e assentiu.
— Eu compreendo.
Anne ficou um pouco surpresa; achara que a madrinha resistiria à ideia. Afinal, ela tinha sido torturada por um bruxo das trevas e forçada a cometer assassinato em seu nome (embora Anne não tivesse mencionado aquela parte à Sophia).
— Vou pedir a Leonora que a acompanhe até Glastonbury, onde você pode viajar de lareira até a escola. Contactarei a vice-diretora para programar a sua passagem pelo flú.
Anne assentiu. Agora que tomara a decisão, havia um peso de antecipação palpitando em seu peito.
Sophia preparou para Anne uma sacola com seus poucos pertences — sua varinha, as roupas com que chegara ali e, para a surpresa de Anne, a capa da invisibilidade de Harry.
— Eu a achei no monte — ela explicou. — Imagino que queira ficar com ela?
Anne assentiu, acolhendo a capa em suas mãos, a seda fina deslizando pelos dedos. Ainda cheirava como ele, o que fez o seu coração se contorcer num nó apertado.
— Avalon estará esperando por você quando desejar voltar — disse-lhe Sophia com gentileza e, Anne achou, uma ponta de esperança.
Anne se despediu de Coreen mais tarde, para o grande desapontamento da garota. Ela prometeu que se encontrariam num futuro próximo, mas Coreen lhe lembrou de que não poderiam conversar, por conta do seu iminente voto de silêncio.
— Obrigada por me emprestar os seus olhos — Anne agradeceu, dando um abraço apertado na garota. — Talvez eu tenha a chance de lhe retribuir um dia.
— Talvez com a sua voz — a garota sorriu, brincando.
Sophia e Leonora acompanharam Anne até o topo de Tor, onde ficava o círculo de pedras.
No tempo em que o monte Tor era cercado por água, era preciso atravessar as brumas com um barco encantado, mas agora bastava-se dissolver o encantamento no topo do monte e elas podiam reaparecer sob o arco da torre de Tor.
Quando Sophia removeu o encantamento das brumas com um movimento imperativo das mãos e elas atravessaram para o outro lado – onde era inverno, o céu branco e o chão seco, congelado, elas puderam ver os contornos de Glastonbury à oeste. Anne se virou e percebeu, surpresa, que ainda podia ver os contornos do círculo de pedra, como se fizessem parte de um sonho ou um truque da luz.
— A partir de agora você sempre poderá vê-lo — explicou Sophia ao seu lado, uma mão em seu ombro. — Aqui é a sua casa, Anne.
Elas se despediram e Sophia colocou uma nova Orbe em seu pescoço.
— Você deve usá-la, para a sua proteção. Sem o treinamento adequado, a sua visão ainda pode machucá-la. Além do mais, se precisar de mim, saberá como me chamar.
Anne assentiu. Não gostava do efeito que a orbe tinha nos seus sentidos, mas agora entendia melhor porque precisava dela. Enquanto não fosse iniciada, era mais seguro desse jeito.
— Tenha cuidado, Anne. Em Hogwarts, não há muito que eu possa fazer para protegê-la.
Anne assentiu, mordendo o lábio inferior, incerta.
— Acha que ele pode mesmo estar vivo?
Sophia hesitou.
— Espero que ele esteja. Mas se não estiver, o seu coração vai se curar e se fortalecer com a sua perda, disso tenho certeza.
Em seu último vislumbre de Sophia antes de partir, Anne percebeu o quanto Sophia se parecia com a sua mãe, não só em aparência, mas no cuidado e preocupação que tinha com ela. E foi quase como se Olívia, e não Sophia, se despedisse dela naquela manhã.
(Continua….)
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