A Canção de Morgana

18 O Destino Segundo Alvo Dumbledore


Notas iniciais
Opsy. De novo faz um tempo desde a última postagem! Aqui vai um resumo cap anterior para poupá-los do esforço: >>> Sirius descobre que Anne recuperou 'parcialmente' sua visão. Os alunos nascidos trouxas e mestiços estão planejando uma festa secreta de Halloween com temática trouxa; Katie é enfeitiçada pelo colar amaldiçoado que recebe de alguém no 3 Vassouras e é salva por Sirius; Harry é requisitado a depor como testemunha de acusação no julgamento de Bervely. Enjoy, vejo vocês nos comentários!

Duas dezenas de garrafinhas se despencaram da prateleira mais alta e caíram com um barulho dos diabos; Sirius soltou um palavrão. Era uma droga de um paradoxo: tateava no escuro atrás de uma varinha, e sem ter uma varinha não podia usar um maldito lumus

para encontrar a varinha. Ele tentou se abaixar e catar as poções que tinha derrubado, só para bater a cabeça em uma prateleira na volta. Um novo palavrão escapou de sua boca, a dor da pancada enraizando do topo da cabeça até os confins de sua alma.

Um clique e em seguida uma luz irradiou na direção da porta da despensa. Ele piscou diversas vezes antes de conseguir ver a silhueta magrela e descabelada de sua prima de segundo grau olhando feio para ele, usando uma blusa larga à guisa de pijama e empunhando a própria varinha em sua direção.

— Parece que eu peguei um vira-latas com a boca na botija — ela zombou, mas seus olhos correram para o local onde ele estivera remexendo e o sorriso sumiu do seu rosto — Hey, o que é que você estava procurando?

— Nada do seu interesse — Sirius se aprumou, recusando-se a parecer como se tivesse sido pego no flagra — A pergunta certa é o que você está fazendo fora da cama, especialmente considerando que a sua cama fica numa distância média de seiscentos quilômetros daqui, em um chalé pitoresco em St. Catchpole.

Tonks cruzou os braços, tentando parecer digna.

— Estava tarde quando a reunião terminou, Remus me convidou para passar a noite.

— Oh, ele convidou, não foi? Pela pureza do seu coração, eu suponho. Mais um motivo para você voltar para a cama e aproveitar a trégua, amanhã ele vai ter um surto de consciência e vai estar insuportável.

Enquanto tagarelava, Sirius se aproveitou da luz da varinha dela para dar uma olhada na prateleira que estivera investigando. Ele pegou o olhar suspeito dela através da sua visão periférica.

— Não mude de assunto, Sirius, porque você está agindo todo sorrateiro no meio da noite, fuçando nosso estoque de emergência?

Ele apertou os maxilares e não respondeu, virando-se de novo para a prateleira e continuando sua busca como se ela não estivesse ali. Tonks suspirou como se lidasse com uma criança teimosa.

— Nós mudamos a localização das varinhas de emergência, não estão ficando mais na despensa. Se é isso que você está procurando, quero dizer.

Ele a olhou com raiva, as narinas infladas.

— Sem me avisar? E se eu precisasse de uma varinha de emergência? Eu também sou parte dessa merda de organização, caso tenha se esquecido!

— Mas você está de resguardo mágico… caso tenha se esquecido — argumentou Tonks condescendente, tendo que dar um passo para trás quando ele avançou para fora da despensa intempestivamente.

— Resguardo! — Sirius cuspiu no mesmo tom que usara para os últimos palavrões — Coisa de mulher parida e gente com o pé na cova!

Ela suspirou paciente, acendendo as luzes da cozinha com um aceno de sua varinha. As explosões de humor não eram incomuns; culpa do coquetel de poções que ele estava tomando, segundo os medibruxos. Mas conhecendo bem o primo, Tonks sabia que eram mais parte dele e de sua frustração do que resultado de qualquer interação química das poções em seu organismo.

— Sirius… você tomou sua poção do sono? Dormir é o importante para a sua recuperação, você se lembra do que minha mãe disse.

— Pare de falar como se eu fosse uma criança descerebrada de cinco anos — ele rosnou, encostando-se à mesa, esfregando o rosto com as mãos.

— Então pare de agir como uma. — ela o observou com atenção. Ele não trocara suas roupas do dia por roupas de dormir, e ela podia jurar que ele nem tentara se deitar, apesar de já ser bem tarde. Também parecia agitado, aquele constante brilho inquieto nos olhos, a constante agonia que ela conhecia dos tempos que ele precisara ficar preso em Grimmauld Place, se escondendo. Tonks se sentiu compadecida — Você quer conversar? Posso fazer um chá… com conhaque — completou com um sorriso persuasivo.

O primo rolou os olhos em rendição, puxando uma cadeira.

— Soa razoável. Pra mim sem a parte do chá, por favor.

Tonks rolou os olhos, sorrindo. Ela pensou por um momento se deveria fazer o chá com magia, mas decidiu que na forma manual as chances de explodir a cozinha e acordar Remus eram menores – ainda existentes, mas menores. Deixou a varinha em cima da mesa e se virou para os armários sobre a pia, onde sabia que Remus guardava uma coleção de chá que faria inveja a qualquer velhinha dos gatos na Europa inteira.

— Eu sei que é uma droga, acredite em mim — disse ela, enquanto escolhia um chá de salgueiro que sabia ir bem com o conhaque que tinham em estoque — Ficar enfiado aqui sem poder fazer magia enquanto as coisas acontecem lá fora. Mas Remus está fazendo o que pode por Bervely, ele vai visitá-la amanhã de novo e então teremos mais notícias… além do mais o julgamento está se aproximando. Eu tenho certeza que ela será inocentada, mesmo que pareça improvável… Dumbledore deve ter um plano na manga, certo? Além do mais eu ouvi que a própria Ellis Agrippa está disposta a depor a favor dela. Dá pra imaginar, que moral? Opa — a lata de chá tinha escorregado de suas mãos, espalhando as raspas de Salgueiro por toda a pia. — Droga, Remus vai me matar! Ok, melhor recolher isso antes que ele descubra…

Tonks se virou para alcançar a varinha na mesa, mas suas mãos encontraram apenas o espaço vazio. Ela virou o corpo completamente; seus olhos encontraram uma mesa igualmente vazia. Um vento gelado atingiu a lateral do seu corpo; ela viu então a porta da cozinha escancarada. Lá adiante, ainda pôde avistar a silhueta de um cão negro do tamanho de um urso, antes que ele fosse engolido pela escuridão da madrugada.

— Droga! Sirius seu filho de uma cadela manca! Remus definitivamente vai me matar agora.

— BD —

O cão negro atravessou o semi-breu da estradinha na direção do vilarejo, procurando se misturar nas sombras. Só um em cada dois postes da rua principal estavam acesos, vertendo uma luz amarelada no pavimento de pedras desiguais enquanto ele fazia o caminho mais longo, porém mais seguro, até o seu destino aquela noite.

A porta do Três Vassouras estava fechada, mas não trancada, um descuido leviano que só confirmou as suspeitas alimentadas por Sirius desde que ouvira a história de Katie Bell no sábado. Ele atravessou o bar, completamente vazio de clientes e mais escuro do que a rua, chegando até o balcão, onde um candeeiro permanecia aceso. A dona do pub, que Sirius conhecia desde os seus treze anos, estava atrás do balcão, cantarolando uma música enquanto enxugava uma série de canecas com acenos automáticos de sua varinha.

— Estamos fechados — ela disse com algum atraso, pois o sino que anunciara a entrada de Sirius já soara há quase um minuto. Seu aviso foi de uma monotonia desinteressada; Rosmerta sequer se virou para ver quem acabara de entrar no seu estabelecimento.

Sirius voltou à sua forma humana e puxou uma cadeira. Ele se sentou, a varinha de Tonks em sua mão, a mão apoiada em sua coxa por debaixo da mesa.

— Sua porta estava destrancada. Péssima ideia em tempo como estes, aliás.

A dona do pub se virou devagar, apertando os olhos para tentar vê-lo; Sirius sentara-se às sombras de propósito e sabia que ela não veria suas feições a não ser que se aproximasse.

— Eu devo ter me esquecido — disse Rosmerta, vaga — Ando tão esquecida ultimamente. Mas estamos mesmo fechados, você tem que ir embora. Foi um longo dia.

Aposto que foi, pensou Sirius, observando-a com atenção. Rosmerta sempre fora uma mulher deslumbrante; ela deixava uma impressão por onde passava, e com frequência uma série de corações partidos também. A idade e a sua atividade de gerenciamento do Três Vassouras lhe dava um ar de independência confiante; no entanto, mesmo daquela distância ele via que ela parecia cansada. Não cansada de um dia de trabalho; cansada como alguém que vinha lutando contra algo e perdendo, dia após dia, sem descanso.

— Tudo bem, venha tomar um drinque comigo então. Por sua conta — ele propôs, um tom de humor proposital na voz, ensaiando um sorriso. Viu surgir no rosto dela uma centelha, algo entre dúvida e medo.

— Eu conheço você?

— Sim, mas você não vai se lembrar, dei uma repaginada no visual. Perdi uns quilos, uns dentes, alguns diriam que até uns pedaços da minha alma, mas isso é discutível.

Rosmerta piscou várias vezes. Ela parecia tentar se livrar de um sonho que estava grudado em suas pálpebras e não queria se dissolver; Sirius esperou, mas sem grandes expectativas. Logo aquele vazio turvo retornou aos olhos castanho-esverdeados de Rosmerta e sua expressão se desmontou em apatia.

— Você precisa ir embora, o bar já fechou, não estou servindo mais nada.

Sirius suspirou, ergueu a varinha e conjurou uma garrafa cor de rosa. Preferia uísque de fogo em qualquer tempo, mas lembrava-se que vinho rosé era o que Rosmerta bebia ao final de cada turno, depois que ela guardava todas as canecas e arrumava todas as garrafas, repunha o estoque e fazia o inventário do dia. Conjurou duas taças e serviu a bebida, acenando na direção dela.

— Venha sentar um pouco Rosmie, você merece um descanso. — chamou, colocando na voz uma calorosidade proposital. Mas o tom não bastava, era preciso um pouco de mágica; em suas palavras, Sirius adicionou um feitiço não verbal de persuasão que ajudaria a convencê-la. No momento que a magia fluiu para a varinha ele sentiu uma imediata fraqueza, como se as luzes do ambiente fraquejassem; seu estômago ficou oco e sua cabeça leve. Ignorou a sensação, observando que o feitiço funcionara e Rosmerta dava a volta no balcão, vindo em direção à mesa que ele ocupava.

Como um bom cavalheiro, Sirius se levantou e puxou a cadeira para ela, vendo que a dona do pub falhava em lhe dar uma boa olhada e decidir se ele era ou não uma ameaça. Uma onda de revolta o atingiu; se ele fosse alguém perigoso, ela não teria a menor chance de se defender naquele estado. Mas então, alguém perigoso já tinha chegado até ela antes, não era essa a questão? Ele se sentou de novo, sorrindo para ela apesar da irritação pungente que o fazia querer ir atrás de quem a deixara daquele jeito, para um acerto de contas.

— Eu gosto deste vinho — ela disse um pouco surpresa, após beber um gole. — Como você…?

Mas o feitiço impregnado no cérebro dela fez a pergunta morrer antes de se completar, nublando seus bonitos olhos mais uma vez. Se Sirius tivesse a sua varinha, e se ele tivesse num estado melhor (por mais que fosse difícil admitir), poderia ajudá-la com um simples mas poderoso Malignus Finite, como o que usara em Katie Bell. Mas até ele conseguia reconhecer que dois daqueles na mesma semana o levariam de volta ao hospital, senão direto para o túmulo.

Teria de ser do jeito difícil, então. Sirius esperou ela tomar mais um gole, antes de dizer:

— Sou Sirius Black. Nos conhecemos há mais de vinte anos aqui no Três Vassouras. Você ainda era garçonete, trabalhando para o seu pai e eu era um pirralho convencido de quinze anos que achou razoável pedir a sua mão em casamento.

— Oh — Rosmerta inclinou a cabeça ligeiramente, a história lhe intrigando, mas não o suficiente para penetrar a nuvem densa do feitiço e afetar suas memórias mais antigas. — Você me pediu… o que eu disse?

— Você deu uma gargalhada, umas batidinhas em minha cabeça e me ofereceu biscoitos para acompanhar minha cerveja amanteigada. Meu coração nunca foi tão profundamente partido como naquele dia.

Ela deu um sorriso vago e distorcido, enquanto que seus olhos pareciam ter dificuldade em focá-lo; por mais que ela tentasse, eles acabavam olhando através dele como se Sirius fosse feito de fumaça.

— Naturalmente, eu continuei insistindo. Meus pedidos foram ficando mais constrangedores com o passar dos anos. Você deve se lembrar daquela vez com a pinhata…

Aquilo não estava funcionando; as memórias eram antigas e tinham pouco apelo para ela. Sirius fora só um dos muitos estudantes abusados que faziam demonstrações públicas e descaradas de ‘afeto’ à Rosmerta ao longo dos anos. Ele se aprumou, servindo mais um pouco de vinho para ela.

— Domingo passado uma garota foi vítima de um artefato amaldiçoado aqui no vilarejo. Ao que parece, ela o recebeu aqui dentro. Alguém lhe entregou a coisa dentro do Três Vassouras.

— Oh? — Rosmerta novamente emergiu de sua própria nuvem, num rápido susto. Sirius achou que estava fazendo avanço e prosseguiu:

— A pobre garota está entre a vida e a morte no hospital, não acham que ela vai resistir. Eu me pergunto quem poderia fazer algo tão terrível… Você não saberia de alguma coisa, saberia? Queremos mais do que tudo achar o bastardo que fez isso a uma criança, e fazê-lo pagar, realmente…

Ele parou ao perceber que os olhos dela estavam inundados de horror. Rosmerta cobria a boca com a mão, que tremia.

— Eu s-sinto m-muito, eu n-não… oh, a pobre menina…

— Pelo que você sente muito, Rosmie? — ele pressionou, ainda segurando a varinha por debaixo da mesa na direção dela. Queria ajudá-la, mas nunca se sabia quais teriam sido as ordens recebidas pelo seu mestre caso o feitiço fosse descoberto; precisava estar preparado para se defender.

— Eu n-não quis…. fui obrigada…

— Sim, você foi, eu sei que foi. Você foi amaldiçoada também, mas pode lutar contra isso. Se você lutar pode conseguir quebrar o feitiço — disse Sirius, esperando que suas palavras fossem verdadeiras e que ela pudesse mesmo fazê-lo. Algumas pessoas simplesmente não podiam.

— Não… eu não…

Ele soube que a estava perdendo quando seus olhos se desfocaram por cima do ombro dele, vazios de novo, à medida que a maldição proibida lutava para recuperar o controle da bruxa. Sirius se inclinou para ela, deixando a varinha de lado e segurando os seus ombros com as duas mãos, fazendo com que ela olhasse para ele.

— Rosmerta, é o bruxo que controla a magia, não a magia que controla o bruxo! Você pode vencer isso, pense na pobre Katie, quantas pessoas mais você vai colocar em perigo se continuar seguindo as ordens dele?

Ela soltou um lamento de horror arrepiante, seguido de um rosnado de dor através de seus dentes. Sirius continuou segurando seus ombros com firmeza, assistindo com fascinação enquanto ela de fato lutava contra o feitiço de dentro para a fora; ele viu quando ela enfim o quebrou, a névoa deixando seus olhos, ao mesmo tempo em que a expressão e a cor retornava ao seu rosto. Rosmerta deixou a cabeça cair no ombro dele, exausta e assustada, e Sirius passou um braço em torno de seu ombro, dando batidinhas suaves nas costas dela.

— Você conseguiu — ele disse baixo, provavelmente tão aliviado quanto ela estaria em breve — Muito bem, Rosmie, você conseguiu quebrar a maldição sozinha, muito bem.

Como se o som da voz dele lhe trouxesse a recordação de quem ele era — dessa vez para a sua mente alerta e clara — ela deu um pulo para longe de Sirius, a cadeira desabando atrás dela no processo. Rosmerta tropeçou na cadeira na ânsia de se afastar mais e manejou não cair, sacando a varinha da dobra do avental, a qual apontou para a testa dele.

— Você é Sirius Black! — ela disse com histeria.

— Sim — retrucou Sirius, sem demonstrar grande emoção.

— Você está morto! — ela lhe comunicou em seguida, acusatória.

— Eu obviamente não estou. Jornais cometem esse tipo de erro o tempo todo.

— Você… você… — ela parecia estar revisando todas as manchetes de jornal que lera sobre eles nos últimos anos, o que era muito, então Sirius lhe deu tempo. Finalmente ela ofegou e pareceu ainda mais surpresa do que estivera nas últimas duas afirmações — Você era inocente, não era?

— Fico feliz que você leu esse. A circulação foi menor e a credibilidade bem pequena, mas nos abre uma premissa para discussão e nos poupa uma série de explicações chatas que eu preferia não ter que dar agora.

Rosmerta ponderou, seu decote farto subindo e descendo no ritmo de sua respiração acelerada. Por fim avançou os metros que recuara, reergueu a cadeira e se sentou nela. Uma de suas bem desenhadas sobrancelhas estava erguida em sinal de que ainda não fora completamente convencida.

— O que está fazendo no meu pub depois da hora de fechamento, bebendo vinho rosé, Sirius Black?

— Vim salvar você de uma maldição Imperius. De nada. E eu não bebi nem um gole desse rosé, então nem pensar em colocar na minha conta.

A bruxa ignorou a segunda parte, ainda fixada na primeira. Seus lábios repetiram as palavras “maldição Imperius” sem fazer o som, enquanto que ela revisitava o que deviam ser memórias muito vagas dos últimos dias. Seus olhos se ampliaram em gravidade.

— Oh, não. Aquela pobre garota!

— Katie vai ficar bem. Nós a encontramos a tempo de evitar uma catástrofe e ela está se recuperando na ala-hospitalar de Hogwarts nesse momento. No entanto, ainda queremos saber quem era o alvo final do colar, e mais importante, quem foi que amaldiçoou você com o Imperius.

— Certo. Sim… eu suponho que você esteja nessa organização de Dumbledore? Faz sentido, faz sentido. — ela assentiu, um pouco atazanada ainda, e olhando para Sirius com mais cuidado. Ele se arrependeu de não ter pensado adiante e colocado umas roupas mais impressionáveis, só seus trapos velhos de sempre. — Eu gostaria de saber, mas… não sei, não sei quem me amaldiçoou. Eu estava de costas, pegando um barril de cerveja amanteigada no estoque quando a maldição me atingiu, é a última coisa que eu me lembro. Sinto muito.

— Tudo bem — disse Sirius sem animação. Agora que ele percebia que o feitiço Imperius colocado em Rosmerta fora meio amador, esperava que o bruxo em questão tivesse sido descuidado também em proteger a sua identidade — E quanto ao alvo?

— Oh, eu sei para quem era, é claro, mas isso não é nenhuma surpresa — Rosmerta assentiu, agora relaxada o suficiente para alcançar de novo sua taça. — O colar era, naturalmente, destinado à Alvo Dumbledore.

— DB —

— Então, foi assim que aconteceu — disse Dumbledore ao lado de Harry. Um segundo depois eles estavam flutuando mais uma vez para fora da penseira e em seguida pousando no atual escritório do diretor. — Sente-se — disse o bruxo, pousando ao lado dele com suavidade.

Harry obedeceu, a mente ainda cheia do que ele havia acabado de ver dentro da penseira. Aquela era a sua segunda “aula de Voldemort” com o diretor, e dessa vez haviam entrado em uma memória do próprio Dumbledore, após uma breve explicação do que tinha acontecido com a mãe de Voldemort depois de ser expulsa de casa. Era uma triste história que envolvia a bruxa vagando, grávida e derrotada pelas ruas de Londres, deserdada de sua família, acabando por vender o medalhão de Slytherin à Borgin’s & Burkes por uma ninharia e enfim dando a luz à Tom Riddle em um orfanato de trouxas, morrendo logo em seguida.

A memória que Dumbledore lhe apresentara há poucos segundos lhe mostrara Tom Riddle, já com onze anos, neste mesmo orfanato em que nascera. Um garoto bonito, alto para a sua idade, definitivamente arrogante e que, segundo a dona do orfanato, “assustava” as outras crianças. Dumbledore fora lhe levar sua carta de Hogwarts e Tom reagira interessado e desconfiado diante da notícia de que o que ele fazia era mágica e que poderia estudar em Hogwarts.

— Ele acreditou nisto muito mais rápido do que eu — disse Harry, pensativo — Eu quero dizer, quando você lhe falou que ele era um bruxo. Eu não acreditei em Hagrid de primeira quando ele me disse.

— Sim, Riddle estava perfeitamente pronto para acreditar que ele era – usando a palavra dele – “especial” — disse Dumbledore.

— Você soube, então? — perguntou Harry, intrigado.

— Se eu soube que eu tinha conhecido o bruxo das trevas mais perigoso de todos os tempos? — disse Dumbledore. — Não, eu não tive nenhuma idéia que ele ao crescer seria o que ele é. Porém, eu fiquei certamente intrigado por ele. Eu voltei a Hogwarts pretendendo manter um olho nele, algo que eu deveria ter feito em todo caso, determinado que ele estava só e sem amigos, mas agora eu sentia que deveria fazer por causa de outros também. Os poderes dele, como você ouviu, eram surpreendentemente desenvolvidos para um bruxo jovem e – de forma interessante e sinistra – ele já tinha descoberto que tinha alguma controle sobre eles e começado a usá-los conscientemente. Ele já estava pronto para usar magia contra outras pessoas, amedrontar, castigar, controlar. As pequenas histórias do coelho estrangulado e o menino jovem e menina que ele atraiu em uma caverna eram muito sugestivas. . .

— “Eu os posso machucar se eu quiser. . . .” — Harry parafraseou — E ele era Ofidioglota!.

— Sim, realmente; uma habilidade rara e supostamente conectada com as Artes das Trevas, embora como nós sabemos, há Ofidioglotas do lado bom também. Na realidade, a habilidade dele para falar com serpentes não me fez tão intranqüilo quanto os instintos óbvios dele para crueldade, segredo e dominação. O tempo está nos fazendo de bobos – disse Dumbledore de repente, indicando o céu escuro além das janelas. — Mas antes de nos despedirmos, eu quero chamar sua atenção a uma certa característica da cena que nós há pouco testemunhamos, porque ela deve ter grande importância nos assuntos que nós estaremos discutindo em reuniões futuras.

“Eu espero que você tenha notado a reação de Riddle quando eu mencionei que o dono do Caldeirão Furado compartilhou o primeiro nome dele, ‘Tom’?" Harry concordou. “Lá ele mostrou o desprezo dele por qualquer coisa que o prendia a outras pessoas, qualquer coisa que o fazia comum. Até mesmo, então, ele desejou ser diferente, único, notório. Ele alterou o nome dele, como você sabe, dentro de alguns poucos anos daquela conversação e criou a máscara de Lorde Voldemort' atrás do qual ele ficou muito tempo escondido. Eu confio que você também notou que aquele Tom Riddle já era altamente independente, reservado, e, aparentemente, sem amigos? Ele não quis ajuda ou companhia na viagem dele para o Beco Diagonal. Ele preferiu ir sozinho. O adulto

Voldemort é o mesmo. Você ouvirá muitos dos Comensais da Morte reivindicando que eles são de confiança dele, próximos e que o compreendem. Eles estão iludidos. Lorde Voldemort nunca teve um amigo, nem eu acredito que ele alguma vez quis um.”

“E agora, realmente é tempo de ir para a cama.”

Harry assentiu e foi saindo, mais descobriu que ainda havia algo perturbando-o no fundo da sua mente e tornou a se virar para Dumbledore.

— Professor?

— Sim, Harry?

— Algo aconteceu… pode não ser nada — adiantou-se, indeciso. Não queria soar absurdo, mas sentia que era algo grande que devia contar para Dumbledore só para o caso de haver alguma verdade na história. Dumbledore fez um sinal de “vá em frente mesmo assim” com o queixou, encorajando Harry — Johanne… a filha de Sirius — ele se adiantou a explicar, não esperava que o diretor conhecesse todos os alunos pelo primeiro nome, mas o diretor assentiu sorrindo. — Parece que ela pode saber sobre a história de um objeto apenas tocando nele, então eu lhe dei o punhal para segurar… ela o pediu, quero dizer. Ela disse que talvez pudesse descobrir mais sobre ele, desde que sabemos tão pouco.

— E então? — Dumbledore pareceu intrigado — O punhal não a queimou, como fez com Sirius?

— Não, por alguma razão não a queimou. E então ela viu, uh, algo estranho.

— Você está especialmente misterioso hoje, Harry — disse o diretor, seus olhos brilhando com humor — Acho que talvez esteja passando tempo demais nessa sala e pegando um ou outro hábito meu?

Harry sentiu o rosto esquentar e se apressou em dizer de uma vez:

— Ela acha que o punhal foi enviado por Morgana, senhor. A feiticeira Morgana, aquela, sabe, do cartão do sapo de chocolate. Que morreu há uns mil anos ou coisa assim.

— Oh? — o diretor fez um breve de silêncio de hesitação, mas Harry não soube se ele estava contendo surpresa ou uma expressão de descrença. — Penso que a feiticeira Morgana ficaria intrigada em saber que você lembra dela pelas figurinhas do sapo de chocolate. Mas isso é interessante, Harry. O que você pensa a respeito?

— Eu? Hum — Harry deu uma olhada distraída na direção dos quadros, tentando ganhar tempo. Fineus Nigellus, do seu quadro, prestava atenção na conversa deles sem disfarçar a curiosidade. — Eu acho que é improvável, professor. E se ela enviou… por que justo pra mim? Como ela poderia saber… quero dizer — Harry respirou fundo, com um estremecimento — Será possível que tudo isso já estivesse definido há tanto tempo, séculos? Eu pensei que a profecia do departamento de mistérios só tinha dezesseis anos!

— Eu vejo que a ideia o inquieta — pontuou Dumbledore, seus olhos azuis cintilando por trás dos óculos com certa empatia.

— Bem, sim! — Harry confirmou, sentindo-se bem agitado agora que deixara o pensamento emergir por completo — Se tudo que está acontecendo agora estava destinado desde um milênio atrás, então eu imagino que tudo mais que aconteceu no passado estava no “plano”… a morte dos meus pais, a guerra… e então tudo que vai acontecer a partir de agora também deve estar definido, de forma que não importa o que eu faça…

— Tome um fôlego, Harry, por favor — Dumbledore pediu, penalizado. Harry obedeceu e voltou a se sentar na cadeira; o diretor lhe ofereceu drops de limão de uma lata em cima da sua mesa — Eu entendo a sua preocupação. No seu lugar, eu estaria sentindo algo semelhante… oras, eu posso mesmo dizer que já me senti assim antes. De mãos atadas, como se nada que eu fizesse importasse, porque no fim só um resultado fosse possível, não importasse os meus esforços. Pode ser um sentimento sufocante.

— Então o senhor acredita em destino também? — o garoto perguntou, perturbado.

— Sim. E acreditar faz toda a diferença, sabe? O destino não é uma linha reta, Harry. Não é uma estrada na qual a gente viaja sempre em uma direção até o fim. Eu penso mais nele como… um campo de golfe.

— Um campo de golfe? — repetiu Harry perdido, não só porque era uma metáfora trouxa inesperada, mas porque teve um rápido e desconcertante vislumbre de Dumbledore em roupas de golfe segurando um taco.

— Sim. Veja, você é o jogador… e aquela bolinha é a vida que você impulsiona em uma certa direção… várias e várias vezes. E você não pode escapar do que concerne ao campo de golfe… as subidas e as descidas, os charcos, a velocidade do vento e tudo mais pelo caminho… mas você também faz as escolhas. O quão forte a sua tacada será e em que direção. E com um pouco de sorte, você atinge o buraco que estava mirando, se conhecer bem o campo de golfe.

— Ah… certo — Harry achava que estava com cara de bobo. Nunca tinha jogado golfe na vida, mas já vira algumas vezes na TV de tio Valter. Sempre lhe parecera um jogo incerto que envolvia muita caminhada e uma grande dose de acaso.

— Espero que isso lhe deixe mais tranquilo! — exclamou o diretor numa renovada nota de positividade — Agora, Harry, hora de ir pra a cama! Não queremos lhe cansar para o resto das aulas da semana.

Harry se perguntou se algum dia lhe aconteceria de sair da sala de Dumbledore menos confuso do que entrara.

— BD –

Destinos e campos de golfe à parte, Harry tinha problemas mais urgentes com que lidar na semana. Katie ainda estava na enfermaria após o seu acidente com o colar enfeitiçado no último sábado e tudo indicava que ela iria ficar lá por um tempo, o que significava que o time da Grifinória, tão cuidadosamente treinado por Harry, estava desfalcado. Ele não a substituiu logo, mas a primeira partida deles contra a Sonserina estava se aproximando e ele começava a aceitar que ela não voltaria a tempo de jogar. Se sentia desanimado em fazer novos testes, já que nenhum dos outros postulantes a artilheiro demonstrara qualquer genialidade para a posição no primeiro teste.

Harry se viu repassando as possibilidades em voz alta com Rony, em sua aula de Herbologia na quarta feira, tentando achar uma solução para o problema.

— Se ao menos Gina voltasse logo — comentou Rony, enquanto desgostoso tentava domar os galhos dos Arapucosos, mais terríveis plantas que já haviam visto. — Tem tido notícias dela? O que tinha naquela carta afinal?

— Ah, sim — Harry ficou feliz de que o capacete que eles estavam usando para proteger a cabeça contra os galhos grossos e inquietos da planta também ocultavam o leve rubor que devia estar colorindo suas bochechas, ao lembrar da carta que havia finalmente lido no domingo — Ela está se recuperando bem, mas parece que ainda demora um pouco para voltar. Com certeza não até o final de outubro.

— Saco. E não temos nada sobre Dino também… ele era um bom jogador, não era?

Harry assentiu com um suspiro, enfiando seu braço em um dos buracos no tronco da planta para arrancar uma das ovas que deviam recolher. Quando finalmente a puxou das entranhas nojentas da planta, ela explodiu em sua mão e empapou a manga de suas vestes com gosma amarela e mal-cheirosa, o fazendo soltar um gemido desgostoso.

— Ah, já sei! É claro — Rony se empolgou de novo — Coloque Johanne, ela queria ter feito os testes daquela vez!

— Humm, eu não sei. — Harry murmurou, tentando limpar a coisa das vestes o melhor que podia, mas só conseguindo mais aderência.

— Eu poderia ajudar a treiná-la — disse Rony com animação — Treinos extras quando não tivermos treino do time, sabe. Assim ela poderia chegar ao nível do time mais rápido…

— Treinar quem? — Hermione se aproximava deles com uma nova bacia para ser enchida de vagens.

— Rony acha que eu devo chamar Anne para o time. Temporariamente, enquanto Katie está se recuperando — Harry respondeu inocente.

— Ah, é claro que Rony acha — disse ela com uma sutil aspereza, sem olhar para o garoto — Ela ao menos sabe jogar? Seria bem ruim se você escolhesse alguém não tão bom para o time agora, não é, poderia diminuir as chances de vocês na partida contra a Sonserina.

Harry estava prestes a responder, mas Rony o cortou asperamente, rebatendo Hermione:

— O que você tem contra ela?

— O quê? Nada! Você entre todas as pessoas deveria estar se importando com a qualidade do time…

— E você de repente entende tudo de quadribol, é? — Rony cortou com rispidez, surpreendendo ambos, mas gerando uma torção especial de ofensa no rosto de Hermione.

— Muita conversa por aqui! — disse animada a professora Sprout, acabando com a confusão e alheia ao clima tenso que acabara de se construir — Vocês estão ficando para trás, todos já completaram a sua segunda bacia e Neville já está indo para a terceira!

Os três olharam de mau humor na direção de Neville, a quem as plantas reagiam com doçura ao invés de tentar arrancar-lhe a cabeça. Esperaram a professora Sprout se afastar para continuarem a conversa, dessa vez num tom mais baixo.

— Eu vou pensar no que fazer, talvez eu abra testes de novo — disse Harry, querendo evitar uma nova onda de comentários alterados. — Ou então a gente espera Katie se recuperar…

— Não acho que vá acontecer antes do jogo, sinceramente — disse Hermione com conhecimento de causa, fazendo força para imobilizar dois galhos que tentaram furar seus olhos através do capacete — Fui visitar ela hoje de manhã e ouvi Madame Pomfrey falar de mais duas semanas sob observação, no mínimo.

— O que é que você foi fazer lá? Não sabia que era tão amiga assim de Katie Bell — Rony comentou. Hermione lhe deu um olhar como se ele fosse uma das vagens que precisavam espremer, antes de responder numa voz austera.

— Não somos amigas mas eu tenho compaixão, Ronald. Além do mais, decidi que vou assumir as atividades do S.E.M.T.A.H. até que ela volte à ativa.

— Ah, não brinca — Rony gemeu, se arrependendo ao receber O Olhar da amiga. Hermione puxou ar com dignidade.

— Essa organização representa um momento histórico no posicionamento político de Hogwart diante do atual cenário do mundo mágico na Europa, só estou fazendo a minha parte como representante dos nascidos trouxas! Não sei porque essa cara, vocês mesmo assinaram a lista no sábado quanto a Katie passou de mesa em mesa…

— Aquilo era para uma festa, Mione — Harry lhe lembrou, mas achou melhor completar rápido — Não que eu não apoie o movimento, eu apoio, completamente, a favor você sabe. Estamos aqui para o que precisar. Não estamos, Rony?

— Obrigada, Harry — ela disse com doçura, fuzilando Rony em seguida, só por hábito — Vou levar essas ovas que já recolhemos para a outra mesa antes que alguém resolva ser estabanado e arruinar todo nosso trabalho da última hora.

— Argh — Rony bufou quando ela saiu, reconhecendo que a indireta era para ele — Todo mundo sabe que ela só está se oferecendo para o cargo para poder lançar uma nova coleção de bottons e sair distribuindo por aí. Dá pra imaginar Hermione organizando uma festa? Aposto que a ideia dela de diversão é colocar todo mundo sentado para revisar estudos dos trouxas e depois organizar um debate ou qualquer coisa do tipo!

— Isso foi cruel até para a média de implicância de vocês — Harry comentou, dando uma olhada para ver se Hermione não tinha ouvido aquilo, porque ela certamente ficaria magoada. — Que está acontecendo? Esse azedume todo tem a ver com o… a coisa que aconteceu entre vocês na plataforma no começo do verão?

Rony deu de ombros de má vontade, esticando-se para alcançar um galho mais alto e grunhindo ao puxá-lo para baixo, deixando exposta uma nova cavidade em potencial.

— Nunca veio à tona, ela está preferindo fingir que nada aconteceu. Ótimo, para mim tanto faz. Nem me lembro mesmo, mal penso nisso, quem se importa?

Harry preferiu dar uma força com o galho do que responder, porque estava mais do que óbvio que alguém ali se importava um bocado.

— BD –

— Sem bacias hoje. Agora que pelo menos a metade da sala tem uma vaga ideia de como limpar a mente dos pensamentos superficiais, vamos partir para o nosso segundo módulo do curso: a arte da Oclumência.

Harry foi um dos alunos que deixou escapar um “finalmente”, porque toda a coisa de encarar a bacia e depois tentar capturar os pensamentos superficiais dos colegas não estava funcionando muito bem para ele. O garoto ficou feliz em ver as bacias retornarem para a caixa de pedra, ao que a professora Sophia os instruiu a formar duplas.

Naturalmente ele faria a primeira dupla com quem estava diretamente à sua direita – hoje, Neville – mas para a sua surpresa, Anne atravessou a sala na direção deles e pousou uma mão no ombro do colega, se agachando.

— Nev, você se importa de ir com a Luna?

— Não, claro que não, tudo bem — disse Neville, pego de surpresa e um pouco atrapalhado com o pedido súbito — Quer dizer, se o Harry também não se importar…

— Eu não me importo — Harry disse rápido, fazendo um aceno.

Anne sentou no almofadão que Neville desocupara com uma expressão culpada.

— Desculpe, eu devia ter perguntado a você antes.

— Não tem problema — ele a assegurou. Anne sorriu, fazendo o movimento automático de tirar o seu colar do pescoço e depositar ao seu lado no chão, depois ajeitando o cabelo negro e volumoso por cima de um dos ombros. — O que a fez mudar de ideia?

Anne vinha evitando deliberadamente fazer dupla com Harry na aula de Adivinhação Avançada, porque a mente dele era “acessível demais”, aparentemente.

— Eu só queria sentir alguma coisa boa, para variar — confessou baixo garota, sorrindo pra ele de forma culpada.

Harry sentiu uma ferroada quente no estômago, se lembrando da ultima vez que tinham trabalhado em duplas e da sensação incomum que eles tinham sentido ao tentar ler a mente um do outro. De repente estava ansiando sentir aquilo de novo, como quem anseia voltar a experimentar uma sobremesa preferida ou dar a volta em uma vassoura de corrida. Seu coração tinha disparado; ele mal ouviu as instruções que Sophia estava dando em seu habitual tom musical do outro lado da sala.

— …a ideia é proteger a sua mente contra a investida do colega, algo que já vínhamos fazendo antes com os pensamentos superficiais, mas dessa vez o seu colega estará buscando uma informação precisa. Lembrem-se, toda mente possui defesas inatas que podem ser maiores ou menores a depender da pessoa… seguindo a teoria do capítulo seis, que vocês certamente leram como bons alunos que são, tentem descobrir qual o mecanismo da sua defesa e que estratégia você pode usar para amplificá-la…

— Eu obviamente não sou um bom aluno — Harry sussurrou para ela, fazendo-a rir.

— Mas você deve saber como se defender, já fez isso antes com Snape, não foi?

Harry fez um ruído de descaso com os lábios.

— Aquelas aulas eram uma piada. Além disso, eu podia usar a varinha… o que a sua madrinha tem contra o uso de varinhas, afinal de contas? Isso torna tudo tão mais complicado!

— O silêncio ajuda na concentração para essa tarefa — lembrou-os Sophia numa maciez incisiva — Eu quero ser capaz de ouvir seus pensamentos, não suas palavras.

Harry rolou os olhos, Anne respondeu fazendo o mesmo. Eles travaram contato visual como indicado pela professora e Harry tentou se concentrar em deixar que sua “visão interior” tomasse o controle, o que ele era suposto a fazer primeiro deixando que os olhos desfocassem de modo a parar de vê-la à sua frente. Era difícil, porque os olhos dela lhe distraíam. Já tinha notado antes como o anel fino cor de prata circulava a íris preta, lhe lembrando um eclipse lunar, e como finos enraizamentos prateados invadiam a área escura da íris, mais visíveis na periferia e mais finos em direção ao centro, sumindo antes de chegar à pupila.

Distraído, mal percebeu que ela encostara sua mão à dele, que estava pousada em seu joelho, e agora passava a ponta do indicador de leve no torso de sua mão, contornando as falanges. Harry sentiu aquela impressão quente e confortável de submergir em água morna, ou de ser acolhido por uma cama bem macia que abraçava seu corpo. Ao mesmo tempo, seus pelos se arrepiavam, um arrepio bom subia pela sua coluna e sua cabeça ficava leve.

Oi., ela o ouviu falando dentro de sua cabeça com espantosa clareza. Harry ainda a via, então sabia que seus lábios não se moviam.

Ele se perguntou se conseguiria respondê-la sem falar também, e tentou pensar em “Oi, será que eu consigo responder sem falar em voz alta?”

Sim, você consegue.

Ele sorriu para ela, embriagado pela sensação prazerosa que deixava seus membros leves e formigando. Sabia que ela sentia o mesmo. Foi quando Harry se deu conta: ele podia sentir que ela sentia o mesmo.

Eu sei, é meio louco, disse Anne em sua cabeça.

Harry pensou: “Você também consegue…”

Sim! Olha isso.

Ela beliscou a mão dele. Harry sentiu a pontada em sua pele, mas também uma outra sensação, como um eco ou um sonho, que ela experimentava ao lhe beliscar.

Tenta você.

Ele virou a palma para cima e capturou o indicador dela entre seus dedos. Apertou a ponta do dedo de Anne entre os seus com gradual força, até sentir, no fundo de sua mente, mais uma sugestão do que sensação real, a pinçada que provocara nela.

— Isso é louco — ele deixou escapar, esquecendo-se por um momento que podia pensar ao invés de falar.

Anne lhe deu um olhar de advertência. Você é suposto a resistir à minha invasão, lembra? Hoje a aula é de Oclumência.

“Não faço a menor ideia de como resistir.”

“Bem, das estratégias de resistência, quais você acha que tem mais relação com o seu perfil? Dispersão, foco-inverso, transformação, ataque-direto, contra-ataque…?”

A voz dela era como uma carícia fazendo cócegas em algum ponto no topo de seu ventre. Harry pensou que era melhor interrompê-la antes que as cócegas virassem alguma coisa mais séria que o deixaria constrangido, especialmente agora que ele sabia que ela podia sentir o que ele estava sentindo.

Não sei, qual a mais fácil? Qual eu deveria tentar primeiro… qual você tentaria se fosse eu?

Difícil dizer. Harry a viu dar um sorriso divertido. Harry, você parece tenso.

“Não estou tenso.”

Ele estava tenso. Anne deslizava os dedos de forma despreocupada na palma da sua mão, o que estava mandando uns arrepios direto para a base da sua coluna.

Talvez tensão seja a sua estratégia. Eu me pergunto se isso deixa os pensamentos que você não quer que eu eu veja mais ou menos vulneráveis… O sorriso dela cresceu com alguma malvadeza, o que fez as estranhas de Harry darem uma volta completa. Felizmente (ou infelizmente), Sophia escolheu aquela hora para chegar até eles a fim de verificar seu avanço.

— Eu devo supor que Anne seja a legimente e você o oclumente da vez, Harry?

— Sim, professora — ele disse rápido, recolhendo a mão de sob a dela. Percebeu que estava ofegante, o que não seria uma reação inesperada para alguém sob ataque mental, mas ainda assim ficou envergonhado.

— E que estratégia você está usando?

— Eu, hm… contra-ataque?

— Eu não acho que contra-ataque esteja de acordo com seu perfil — Sophia observou-o atentamente com seus olhos de vidro azul. Harry achava que no fundo ela sabia de absolutamente tudo que circulava em sua mente, superficial e profundo, como se sua cabeça fosse uma esfera de vidro com todo o conteúdo boiando contra a luz. A diferença é que sob aqueles olhos ele se sentia bastante desconfortável. — Tente querer resistir, Harry, isso ajuda.

— Mas eu quero…

— E nada de contato corporal. Se eu ver mãos dadas novamente vocês não vão voltar a fazer dupla, entendido?

Os dois concordaram, as cabeças baixas. Esperaram Sophia estar longe o bastante antes de tecer comentários.

— Eu sei que ela é sua madrinha, mas… — começou Harry, azedo.

— Que vaca — Anne resumiu de cara feia.

Harry não conseguiu segurar um acesso de risos, que ele pelo menos teve a decência de manter silencioso.

— BD —

Na semana seguinte, Harry abriu testes para artilheiro temporário na tentativa de achar um substituto para Katie, mas estes foram um desastre. A única pessoa vagamente à altura do time que eles tinham agora era Cormac McLaggen, que reaparecera para tentar a nova posição. Harry preferia comer uma bacia de lesmas a colocar McLaggen em seu perfeitamente entrosado time, de forma que logo arranjou uma desculpa para dispensá-lo.

Ele queria ter visto o desempenho de Anne como artilheira, mas ela se recusou a fazer o teste quando soube que o primeiro jogo seria no mesmo dia do julgamento de Bervely. Tinha a esperança de convencer o padrinho a deixá-la assistir o julgamento, mas mesmo se não conseguisse, não achava que teria condições de jogar enquanto o destino de sua irmã era decidido em algum lugar do país sem que ela soubesse o que estava acontecendo.

Por fim, Harry se reuniu com o time e eles decidiram por uma estratégia arriscada; jogariam a primeira partida com apenas dois artilheiros ao invés de três. Isso significou treinos extras para Demelza e Cristine a se somar aos treinos da equipe, que já estava acontecendo quatro vezes por semana, e também alojou um peso crônico na base do estômago de Harry que não se desfazia com nenhuma estratégia de respiração, noite bem dormida ou distração possível.

Não ajudou em nada ter de ir até McGonagall para avisá-la de que não aceitaria depor no julgamento de Bervely, como lhe pedira o advogado de acusação do caso.

— Se isso é por causa do jogo, Potter, podemos procurar alternativas. Merlin sabe que eu sou a última a querer diminuir as chances da Grifinória esse ano, mas para uma questão dessa importância talvez possamos pensar em substituí-lo…

Harry negou, argumentando que o time já estava desfalcado e a substituição dele poderia ser a garantia de uma derrota. Ele não pode evitar de se sentir fútil usando o jogo como uma desculpa para não depor, mas ficou com a impressão de que McGonagall, no fundo, entendia que haviam razões mais profundas para recusar o convite, as quais Harry não sentia vontade de discutir abertamente.

O dia do jogo chegou com o tempo pesado. O peso no fundo do estômago de Harry se tornara um animal nervoso que ocupava toda a sua barriga e o impedia de sequer pensar em comida; Hermione, no entanto, estava lá para garantir que quantidades razoáveis de pão e suco fossem empurrados pela sua goela, garantindo-lhe o mínimo de energia para perseguir o pomo.

Se Harry estava nervoso, Rony estava verde-lago. Ele era uma das preocupações de Harry naquele dia, pois quando a autoconfiança de Rony vacilava suas habilidades de defesa decresciam proporcionalmente. Já vira acontecer antes; no último treino no dia anterior, o amigo estivera tão nervoso com a aproximação da partida que acertara sem querer uma goles na cara de Demelza, resultando em um bocado de sangue e gritos.

— Eu acho que vou vomitar — anunciou Rony pela terceira vez, pressionando a barriga que na verdade não tinha nada dentro, pois ele também estava recusando café da manhã.

Hermione deu um giro completo na direção dele.

— Oh, pelo amor de Deus, você vai ficar bem. Harry disse que você defendeu todas as bolas no último treino, até os balaços que tentaram atravessar no aro você segurou!

— No último treino que eu conseguir jogar, você quer dizer — ele gemeu — Por que ontem à noite eu mal consegui ficar na vassoura de tão nervoso.

— E ninguém te culpa por isso, Rony. Estamos todos uma pilha de nervos, além do mais foi bom para dar um tempo extra aos nossos artilheiros. — Harry repetiu o mesmo que tinha dito na noite anterior, esperando que o amigo acreditasse.

Rony assentiu miseravelmente e deixou a cabeça cair entre as mãos.

— Viemos desejar boa sorte! — Colin, que se aproximara com Anne em um braço e Luna no outro, exclamou para Harry e o restante do time sentados à mesa. O garoto loiro olhou para o estado miserável de Rony e franziu — O que é que ele tem?

— Estou morrendo — Rony disse entre os dedos, sua voz abafada.

— Não está não — Hermione teve a presença de espírito de se inclinar e dar uma coçadinha no topo da cabeça dele. Ato que muito surpreendeu Harry, visto que os amigos prosseguiam num ânimo explosivo e alfinetante nos últimos dias — Só uma pequena crise de nervos, vai passar.

— Depois que eu morrer — completou Rony melodramático.

— Bem, nesse caso, ainda mais boa sorte para os sobreviventes — Colin reiterou com um sorriso incerto.

— Eu vou torcer pra vocês — disse Luna, indicando o estranho cachecol que usava, que parecia feito de cabelo ruivo emaranhado — É feito de juba de leão em homenagem à Grifinória. Mas só dos pêlos que caíram naturalmente, claro!

— Só dos que caíram naturalmente, Deus a abençoe — Hermione murmurou quanto a garota saiu. Harry não deixara de reparar que Anne não falara nenhuma palavra, e acompanhou o movimento ondulado de seu cabelo preto enquanto ela se afastava.

— Eu vou na frente para garantir que está tudo certo no vestiário — disse ele se levantando, agoniado demais para continuar sentado ali enquanto seu coração dançava a polca.

— Vou com você — Rony se levantou também, mas Hermione o segurou pela manga.

— Espera, Rony, quero dar uma palavra rápida com você, pode ser?

Ele assentiu, espantado.

— Claro, Mione.

Harry passou um olho pelo corredor antes de seguir para fora do castelo, mas não conseguiu mais enxergar Anne em lugar nenhum. Ele gostaria de ter falado com ela antes de ir para o campo, mesmo sem saber bem o que diria. Será que ela ia assistir o jogo, mesmo que sua cabeça estivesse no julgamento da irmã? Será que alguém ia passar o dia com ela e garantir que estivesse bem? Será que ele deveria ter aceitado o chamado para depor no caso de Bervely, será que isso teria feito uma grande diferença?

Mas Harry sabia que precisava deixar tudo isso de lado e esvaziar a cabeça se queria dar o seu melhor naquela partida; era o seu primeiro jogo com capitão, estavam desfalcados em um jogador, mas ele tinha confiança na qualidade do time. Quando Rony entrou no vestiário minutos depois com um sorriso de orelha a orelha e o peito estufado, Harry aceitou a mudança de atitude do amigo e sem nem perguntar, para não dar chance ao azar. Se Rony também estivesse em sua melhor forma, eles tinham chances reais de vencer aquela partida.

— BD —

A Grifinória estava em nirvana; todo mundo estava tão feliz com a vitória que parecia até final do campeonato. Harry sentia que o seu peito poderia explodir e finalmente não era porque o seu coração queria escapar pela garganta e se esconder numa masmorra escura, mas porque estava inflado de orgulho do tamanho de um balão.

Os colegas continuavam narrando e narrando as melhores partes da partida, enquanto que alguém contrabandeara cerveja amanteigada e algo mais forte numa garrafa azul, que eles só deixavam ir parar nas mãos dos sextanistas e setimanistas. Rony desistira de parecer modesto e agora liderava os coros de “Weasley é nosso rei”, sacudindo no ar a camisa do time que ele arrancara de si mesmo em algum ponto.

Harry se largou numa poltrona e assistiu com vago interesse uma Lilá exultante tentar chamar a atenção de Rony, passando os braços em torno dele e meio que se esfregando como uma gata. Harry fez uma careta para aquilo e olhou ao redor, procurando Hermione; a amiga não estava à vista, mas Harry tinha certeza que a vira ao final do jogo, ela viera para engrossar o coro de abraços e ovações logo após Harry pegar o pomo.

— Brinda com a gente, Harry? — perguntou Romilda, sentando-se no braço da sua poltrona sem nenhuma reserva. O cabelo longo e preto dela fez Harry se lembrar de outro cabelo longo e preto, mas o de Romilda era liso demais e não tinha nem de longe a mesma personalidade.

— Ah, não, Romilda, obrigado — ele recusou a bebida azul, que podia muito bem ter alguma poção do amor misturada, se os boatos que Hermione ouvira estavam certos. — Mas valeu…

— Você quer assinar minha blusa? Posso guardar de recordação pela maior vitória que o time da Grifinória já presenciou nos últimos mil anos! — ela disse com um sorriso luminoso. Harry achou graça do exagero, mas teve dificuldades para se desviar da pena que Romilda tirou sabe Merlin de onde para ele assinar em sua roupa.

— Harry! — Hermione apareceu pela moldura, lhe salvando do constrangimento. Ele levantou e pediu licença para Romilda como se fosse muito importante e totalmente urgente abraçar Hermione naquele exato momento. — Você foi fantástico!! Vocês todos!

— Obrigado, onde é que você estava?

— Precisei resolver uma coisa para o S.E.M.T.A.H.! Mesmo com toda essa bagunça que o quadribol faz com a escola não podemos interromper os preparativos para o nosso primeiro evento!

— Ah, sim, certo — ele estava cuidadosamente não opinando no “evento” que Hermione estava promovendo agora, a tal festa de dia das bruxas secreta da organização também secreta dos nascidos trouxas. Ele realmente não sabia o que esperara daquilo.

— Onde é que está o… Rony!

Ao ouvir seu nome, Rony ergueu a cabeça e um enorme sorriso se espalhou pelo seu rosto, vindo fácil com a excitação e adrenalina da vitória. Harry não lembrava do amigo sorrindo com essa intensidade para Hermione desde que ele descobrira que ela estava viva e bem depois da batalha do Ministério. Mais impressionante ainda foi ver o mesmo sorriso surgir no rosto de Hermione.

— Você conseguiu! — ela exclamou, imediatamente atravessando a sala na direção dele. Todo mundo que estava perto meio que tinha parado para ver o que estava acontecendo, inclusive Lilá bem ao lado de Rony; só que no caso dela, parecia que estava assistindo um acidente de trem prestes a acontecer.

— Claro que consegui, nós fizemos um acordo…

Hermione se jogou nos braços dele sem titubear; até o próprio Rony foi pego de surpresa. Ela o beijou, pressionando seus lábios contra os dele numa resolução bem Hermionesca que calou até quem não tinha se calado ainda.

Demorou dois segundos pra Rony recuperar o movimento dos membros e a abraçar de volta. O salão explodiu em aplausos, vivas e gritos de “até que enfim”. Hermione, retornando ao seu bom senso, escondeu o rosto no pescoço de Rony, que a abraçou pela cintura e começou a movê-la através da multidão de colegas barulhentos.

— Ok, ok, já chega agora, isso é entre mim e a Srta. Granger, seus intrometidos — ele foi resmungando, mas incapaz de arrancar da cara o sorriso gigantesco, as orelhas da cor de dois pimentões maduros.

Eles sumiram pelo buraco do retrato. Embora Harry também tivesse se segurado para não gritar um ‘finalmente’, no minuto que os amigos sumiram de vista, ele sentiu um imediato oco no peito.

— Uau, isso foi intenso. O que será que ele “conseguiu”, eu me pergunto — sondou Romilda de volta ao seu lado. Ou talvez ela nunca tivesse saído mas Harry tinha se esquecido que ela estava ali.

Harry imaginava, mas não quis dizer a garota. Rony tinha conseguido defender todas as vezes aquele jogo, nenhuma das vinte e cinco bolas arremessadas pelo time rival atravessara os aros da Grifinória. Ele achava que isso de alguma forma fazia parte do misterioso acordo entre ele e Hermione antes da partida.

Ele tentou ficar e curtir a festa, mas de repente já não estava mais se divertindo. Continuava feliz com a vitória — mais aliviado, na verdade — só que outras coisas estavam rondando sua mente. Enfim, Harry se levantou e pediu licença à Romilda, que unida à mais duas amigas, tentava envolvê-lo numa advocacia por uma equipe de líderes de torcida para os próximos jogos. Harry subiu até o dormitório, entrou debaixo de sua capa e escapou de fininho do Salão Comunal, se desviando dos colegas no caminho.

Ele foi até o corujal com a pretensão de enviar uma carta para Sirius a fim de ter notícias sobre o julgamento. Para a sua surpresa, encontrou Anne estava empoleirada em um dos nichos-janela da torre, as pernas recolhidas contra o corpo, as quais abraçava, o rosto virado para o lado de fora e o cabelo solto ondulando com o vento gelado que entrava pelo teto aberto da torre.

— Hey — ele disse, escorregando a capa pelos ombros para se fazer visível. Anne não demonstrou surpresa para a sua aparição, virando a cabeça em sua direção e dando um sorriso preguiçoso.

— Hey, Harry. Parabéns pela vitória, foi um jogo fantástico.

— Você assistiu? Não vi você nas arquibancadas.

— Fiquei com Sirius de um lugar da floresta proibida que dá pra ver o campo. Nós dois queríamos nos distrair, mas é claro que ele não podia vir até as arquibancadas, então ele narrou o jogo pra mim.

— Então você já sabem o resultado? Do julgamento da sua irmã, quero dizer.

Anne deu de ombros, se encolhendo mais e abraçando as pernas com mais força.

— Difícil saber, não temos nenhuma notícia de lá e Remus ainda não voltou — ela deu um suspiro pesado. — Além do mais Jinx sumiu de novo, estou com medo de que ele tenha tentado ir até Azkaban e algo tenha acontecido a ele.

Harry mordeu o lábio, segurando o impulso de dizer que tudo ficaria bem. Odiava quando diziam isso pra ele da boca pra a fora, especialmente quando as chances de ser verdade eram poucas. Anne lhe olhou com um pequeno sorriso e fez um sinal para que ele ocupasse o nicho com ela, puxando as pernas para lhe dar espaço.

— Não quero incomodar, só vim aqui mandar uma carta para o Sirius, para saber notícias— ele hesitou.

— Não seja bobo, você não incomoda.

Harry se aproximou, subindo com cuidado no nicho largo e ficando de frente para ela, uma perna solta no vazio, a outra dobrada em frente ao corpo. Havia pouco espaço, de forma que ela precisou alocar os pés debaixo da panturrilha dele.

— Vocês estão fazendo uma festa no Salão Comunal, não é? — ela se deu conta, procurando nos olhos de Harry a resposta. Ele percebeu que Anne sondava seus pensamentos superficiais como fazia na aula de Adivinhação Avançada. — Por que não está lá comemorando?

— Hermione beijou Rony — ele achou-se dizendo. Viu-se repassando a imagem em sua cabeça e percebeu que Anne podia ver também.

— Finalmente. Eu venho falando com ele para tomar a iniciativa há séculos, mas ele estava assustado demais para tentar. Ele tem um pouco de medo da Hermione, veja bem. E depois da tentativa desastrada na estação…

— Ele contou isso pra você? — Harry se espantou, sentindo-se um pouco ciumento, mesmo que Rony também tivesse dividido a informação com ele. Anne deu risada.

— A única razão para estarmos tão próximos é que ele queria uma visão feminina da coisa toda. Acho que eu era a pessoa mais próxima e imparcial no caminho, ou isso ou ele estava mesmo desesperado.

Harry notou a risada sem graça dela, e também como a ponta de seu nariz estava avermelhada. Ela devia estar com frio, sentada ali contra o vento gelado da torre por sabe Merlin quanto tempo. Tentou descobrir por sua conexão mental, que estava flutuando ativa em torno deles, mas descobriu que não conseguia acessar qualquer coisa a respeito dela, provavelmente porque era terrível naquilo.

— O que você está tentando pescar em minha mente? — ela quis saber, curiosa — Posso sentir você fuçando.

— Achei que Rony estava gostando de você — Harry se ouviu dizer. Não sabia de onde aquilo tinha vindo, só queria mudar de assunto, sem graça por ter sido pego no flagra fuçando. Anne balançou a cabeça com divertimento.

— Não, não mesmo.

— E, hmm, da sua parte…?

— Eu considero Rony como meu guia consultivo de cultura Grifinória. Meio como um irmão mais velho e tal.

— Eu pensei que eu era suposto a ser seu irmão mais velho. Sirius não vai gostar nada de saber disso, ele tem expectativas, você sabe — Harry falou brincando, mas se arrependeu logo em seguida. Algo no jeito em que ela encolheu os ombros lhe disse que o comentário a incomodou.Talvez porque lembrar de Sirius a lembrava imediatamente da irmã mais velha e do silêncio sobre o julgamento.

— Eles me pediram para depôr contra Bervely no julgamento — disse Harry depois de algum tempo de silêncio, observando-o olhar os terrenos de Hogwarts com um semblante distante. Ao ouvir isso Anne se voltou, as sobrancelhas franzidas.

— E você disse não? — Harry assentiu. — Por quê?

A pergunta o pegou de surpresa, como aquilo podia não era óbvio para ela?

— Eu não queria dizer nada que pudesse piorar a situação dela, não quero que ela receba uma sentença.

— Uma sentença maior, você quer dizer — Anne o corrigiu, seus lábios de repente tremendo — Porque ela não tem como escapar de uma, ela é culpada de pelo menos um dos crimes. E as pessoas que vão depor contra ela, eles tem provas…

— Mas, mas, Anne…

— Por que você não se ofereceu para depor a favor dela, então? — os olhos dela de repente brilhavam de acusação — Se você dissesse que não foi ela, então ela com certeza escaparia de pelo menos uma sentença! Eles acreditariam na sua palavra, você é Harry Potter!

Harry abriu a boca e fechou, sem ação. Não sabia que não tinha sido Bervely, do mesmo modo que achava que não fora ela. Acabara decidindo não se comprometer… e agora percebia que agira como um covarde. E se Bervely pegasse uma sentença gigantesca só porque ele não tinha ido lá desmentir a parte do sequestro? Sirius ficaria devastado, e Anne certamente nunca o perdoaria…

— Eu não culpo você — ela disse rápido e sem fôlego. Era evidente que estivera acompanhando seu fluxo de pensamentos — Desculpe! Só estou… assustada, eu acho. Mas isso não é sua culpa, nem nada, você não tem que salvar a pele de Bervely, eu só não quero vê-la mofando em Azkaban o resto da vida, mesmo que ela tenha feito umas coisas meio… erradas.

— Tudo bem. Também não quero. — Harry tentou desesperadamente achar outro assunto que pudessem discutir e que não fosse acabar em lágrimas — Você está com frio?

Anne assentiu, fungando firme e enxugando as lágrimas antes que tivessem a chance de cair.

— Venha para debaixo da capa.

Harry jogou a capa em torno do ombro dos dois, tornando-os em cabeças flutuantes. Pensando melhor, ele puxou-a mais um pouco sobre as suas cabeças e os cobriu completamente. A capa oferecia uma boa blindagem contra o vento e como bônus, não seriam colocados em detenção por quebrar o toque de recolher se Filch entrasse ali de repente.

— Obrigada — ela murmurou, como se a nova ordem debaixo da capa fosse falar aos sussurros. — Você está chateado com a ideia de Rony e Hermione ficarem juntos?

Harry pensou por um momento e balançou a cabeça.

— Estou feliz se eles estiverem felizes. Mas se eles começarem a brigar como um casal, ai sim vai ser um inferno.

Os dois riram daquela verdade. As brigas de Rony e Hermione já eram bem dramáticas sem eles serem um casal oficial só Merlin sabia o caminho daquilo de agora em diante.

Anne ainda estava sorrindo. Como estavam inclinados um em direção do outro para caberem embaixo da capa, Harry via os lábios dela bem de perto. Ele se perguntou como seria beijá-los; pareciam macios e tinham mais volume que os de Gina… dos quais pensando bem ele mal se lembrava. Culpa e vontade se misturaram em seu peito, depois um pouco de preocupação de que Anne estivesse acompanhando aquele curso de pensamentos também; mas quando ergueu os olhos pra ver se ela estava, a achou inquieta.

— Harry, posso te pedir uma coisa?

— Claro — ele pensou ‘bem que podia ser um beijo’. Depois quis bater cabeça na pilastra do corujal – o que é que estava errado com ele?

— Você me empresta a capa? Quero ir até a Casa dos Gritos, talvez Sirius já tenha uma notícia do julgamento ou talvez Remus já tenha voltado. Não aguento ficar esperando aqui, vou acabar ficando louca.

— Eu vou com você — ele se ofereceu, concordando que se ficasse ali também ia acabar louco, ou melhor, já estava ficando. — Conheço um atalho.

— Pela bruxa de Olho só no terceiro andar?

— Como você sabe disso? — ele se impressionou, depois percebeu que estava sendo bobo. Anne era filha de um dos Marotos, era mais do que esperado que ela já conhecesse as passagens secretas de Hogwarts.

Estavam passando já pelo quarto andar, andando devagar para conseguirem ficar ambos cobertos pela capa, quando perceberam que havia algo fora do normal acontecendo. Primeiro McGonagall passou apressada por eles, depois, uns metros adiante, Snape surgiu com a cara alarmada, desviando num passo rápido em direção à enfermaria.

— Que será que está acontecendo?

— Vamos descobrir — Harry deu meia volta, indicando o caminho em que Snape seguira. Eles o encontraram à porta da enfermaria, aos sussurros com Mme. Pomfrey:

— …e o diretor quer todos os membros avisados em caráter de urgência. Vamos nos reunir no quartel general em dez minutos.

— Mas o que foi que aconteceu? — perguntou Papoula, uma mão pressionada contra o peito como quem protege o coração da fúria urgente do professor.

— Nova fuga em massa em Azkaban. O Lord das Trevas invadiu a prisão e rendeu todos os prisioneiros há cerca de uma hora.

— Oh, pela varinha de Cacilda! E o que foi que ele fez com os prisioneiros? Nem todos aceitaram seguí-lo, eu imagino!

— Não, eu penso que não. Os que juraram ou renovaram juras de lealdade a ele foram levados. Os que se recusaram a seguí-lo…

— Não me diga… — ela adivinhou antes que ela respondesse, horrorizada, mas Snape disse mesmo assim.

— Entregues aos dementadores para um banquete, todos eles.

(Continua…)

Notas finais
Hmm. Será que nossa Black Rose perdeu sua alma nesse banquete? ;*