A Canção de Morgana
21 Cenotaph
Notas iniciais
E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.¹
Três estalos no sopé da colina interromperam a reunião da Ordem da Fênix aquela noite. Em um grupo sólido e bem armado, os dezoito integrantes presentes cercaram os recém-chegados exigindo sua identificação.
Um gato prateado cortou caminho por entre o grupo e se jogou nos braços do integrante central; ao acolher o animal, seu capuz negro caiu e revelou um rosto sujo de sangue e confuso de medo.
— Vá achar Sirius – Remus murmurou para Nymphadora, choque transparecendo em sua voz contida — Corra.
***
Dumbledore levou os três recém-chegados para a sala de reuniões, que logo se tornou sala de interrogatório. Até onde se sabia, eram os únicos a escapar com alma do motim dos dementadores anunciado há poucas horas pelo informante da Ordem da Fênix dentro da prisão.
Bervely Black. Stanislau Shunpike. Yasi Darkmoon.
“O que exatamente aconteceu em Azkaban essa noite?”, o diretor perguntou para cada um dos três.
Um banquete.
Um recrutamento.
Devoração.
“Como vocês três conseguiram escapar?”
Sorte.
Distração.
Oportunidade, disse a varinha no bolso de Bervely.
“Alguém mais escapou com vida?”
“Doze comensais da morte antigos, mais quatro ou cinco aspirantes.”
E todos os cães. De barriga bem cheia.
***
Sirius chegou e gritou. A arrancou da sala de interrogatório. Ele exalava o amargo do firewisk pelos poros do corpo.
“Filha”, a abraçou no corredor com tanta força que tirou as suas costelas do lugar. Ela se contraiu por reflexo, seu corpo machucado confundindo cuidado com abuso antes que ela pudesse pensar.
“Deixe ela respirar um pouco”, Remus disse por trás dele.
“Sim, sim. Mas, como–?”
“Banho primeiro, perguntas depois”, alguém decidiu por ela. Uma mão macia pegou a sua e a levou para o banheiro mais próximo. Cabelo rosa, olhos violetas.
“Demore o tempo que precisar, prima. Eu seguro a barra por aqui.”
***
Ela tentou lavar Azkaban três vezes; três vezes encheu a banheira, mergulhou, ensaboou, esfregou até a pele arder.
O sangue de Olleant desceu pelo ralo, mas aquela agonia persistente embaixo da pele não foi embora de jeito nenhum. Nem isso, nem quase um mês de nós em seu cabelo, misturado com salitre, sujeira e sangue seco.
Desistiu de água e sabão; se livrou dos nós com a navalha de barbear de Sirius, que achou atrás do espelho. Precisou cortar bem rente à raiz.
No espelho, não se reconheceu. Seu corpo era um quadro branco com hematomas roxos e os arabescos negros da rosa do pulso ao pescoço, mais nada.
Ficou olhando para o fio da navalha afiada por um longo, longo tempo.
Alguém bateu na porta, interrompendo o curso de um pensamento perigoso.
***
— Bervely, eu sinto muito. Eu sinto tanto. Eu devia ter estado lá pra você. Eu devia–
— Está tudo bem. Pare com isso – ela pediu, a voz oca.
Estava sentada na cama. Sirius, ajoelhado no chão à sua frente. Ele já tinha pedido desculpas dezoito vezes. Desde a quinta, ele estava chorando.
Sirius não tinha estado em Azkaban no último mês, mas parecia quase tão ruim quanto ela.
— Pare com isso. Você ia morrer se tivesse ido.
Ele deitou a cabeça em seus joelhos como um cão que tinha destruído seu melhor par de sapatos e agora estava com remorsos. Soluçou, e ela afagou seu cabelo com distração, olhando para a parede descascada à sua frente.
— Eu sinto muito. Eu não devia ter esperado todo esse tempo. Eu fui covarde. Eu a deixei sozinha com os dementadores, você que me tirou de lá quando era só uma criança.
— Isso foi diferente.
Além do mais, eu não estava sozinha.
***
Andrômeda lhe prescreveu oito poções.
Uma para reposição de sangue.
Uma para re-hidratação.
Uma poção-fortificante para acelerar a sua recuperação.
Uma poção-nutritiva.
Uma poção do sono-sem-sonhos, dosagem controlada (“não abuse dessa, você sabe o que acontece”).
Uma anti-fleumática para tratar uma insuspeita pneumonia.
Uma para controle de humor (“caso você se sinta agitada ou muito ansiosa nos próximos dias”).
Uma para dor, até a anti-fleumática fazer efeito.
Mas antes disso, ela lhe deu um longo, morno, maternal abraço que poderia até ser uma nona poção curativa, porque desapertou um pouco o nó justo que Bervely tinha na base da garganta, e que, junto com a pneumonia, a impedia de respirar direito.
— Pensei que ia perder você, Bervely. Não consigo dormir direito faz um mês. Nunca mais me assuste desse jeito.
Bervely se perguntou se Bellatrix perdera sequer uma noite de sono por ela, alguma vez em sua vida.
***
Acordou no meio da noite para um escuro total, saindo de um pesadelo no qual estivera despencando em um precipício.
Seus olhos piscaram e encontraram o nada. Achou que podia ouvir o barulho do mar. Achou que podia ouvir as capas podres dos dementadores farfalhando na esquina do corredor.
Achou que estava de volta.
Naturalmente, nunca tinha saído.
O horror a engoliu como uma onda; roubou todo o ar respirável. Um horrível barulho de asfixia escapou de sua garganta.
Algo enorme se moveu ao seu lado; ganiu baixinho e encostou o focinho molhado em sua mão.
Eu estou aqui.
Ela respirou com alívio; o corpo relaxou, desistindo do pânico.
Afundou os dedos no pêlo denso do cão como se ele fosse a sua âncora.
O peso da cabeça dele pousada em sua barriga lhe garantiu a segurança de que precisava para, eventualmente, conseguir pegar no sono.
***
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.¹
***
— Você sabia que eles acham que você está morta? — Anne sacudiu para ela o jornal da manhã no dia seguinte, admirada.
Anne, que devia ter crescido uns dois centímetros naquele mês.
Anne, que a abraçara por quase tanto tempo quanto Andrômeda.
Anne que, por alguma razão que não queria lhe contar, de repente estava enxergando.
— Publicaram isso no jornal? — Remus se interessou por cima da sua xícara de chá.
— “Departamento de Segurança Mágica confirma motim dos dementadores na noite de sábado e divulga a lista de possíveis vítimas” — ela leu para o padrinho, entregando o jornal para que ele visse. — Estão achando que ninguém escapou com vida… ou melhor dizendo, com alma.
— Melhor assim — disse Sirius, mastigando um sanduíche de presunto ao mesmo tempo em que falava; — Afinal não é porque a prisão se acabou que as acusações contra Bervely vão ser deixadas pra lá.
— Vai haver um novo julgamento? — Nymphadora também esqueceu que estava mastigando e espalhou um monte de farelos sobre a mesa — Ops. Desculpe, Moony. Mas, vai haver?
— Ainda não sabemos — ele olhou de relance para Sirius. — O DELM não é muito de fazer julgamentos póstumos, como bem sabemos.
Remus voltou para o jornal e suas sobrancelhas castanho-douradas se franziram.
— “Theodor Shadowtamer” — ele leu, depois procurou Bervely por cima da cesta de pão, confuso. — Shadowtamer estava em Azkaban aquela noite? Isso é bastante estranho. Você o viu durante toda a… confusão?
Ela encarou o prato intocado de mingau de aveia, seu estômago embrulhado.
Distraia Bellatrix. Só preciso de dois minutos.
— Bervely?
— Preciso de ar — anunciou, levantando de uma vez. Os cinco pares de olhos ao redor da mesa se viraram para ela com diferentes níveis de confusão. O quinto, verde-esmeralda e pertencente a Harry Potter, incluía desconfiança na receita.
Ela derrubou a cadeira e esbarrou em alguém que vinha pela porta da cozinha, na direção contrária.
— Ops, sinto muito… olá querida, machuquei você?
Bervely ignorou a visitante e continuou andando para longe da casa. Não que se importasse, mas… por acaso aquela era a dona do Três Vassouras?
***
— Você tem uma visita.
Deitada estava, deitada continuou. Não se virou na direção da porta para perguntar:
— Quem?
— Snape — o desgosto na voz de Sirius era mais do que evidente.
— Não quero falar com ele.
— Ok! — disse ele e saiu quicando, feliz com a sua recusa.
Bervely rolou na cama de barriga para cima e deu um suspiro.
“Você pode até deixar Azkaban um dia, mas Azkaban jamais lhe abandonará.”
Quem é que tinha dito aquilo mesmo?
***
Eles a tratavam como se ela estivesse doente.
Mas “doente” e “quebrada” não era a mesma coisa.
— Sua metamorfomagia vai voltar a funcionar. Sabe disso, não sabe? — disse Nymphadora baixinho pra ela na noite de terça.
Bervely estivera fitando o fogo queimar na lareira por tanto tempo que seus olhos ardiam. Não vira a prima se aproximar.
— Como sabia?
— Esse “corte” de cabelo não pode ser intencional — ela cochichou, tentando fazer graça. Bervely teria sorrido se se lembrasse como.
E se ela não estivesse humilhada com o fato de sua metamorfomagia estar se rebelando.
— Posso ajeitar pra você. Fazer parecer descolado, sabe. Como se fosse intencional e pans.
Nymphadora era a única pessoa naquela casa que não lhe perguntava três vezes por dia se já tinha tomado as suas poções, se precisava de alguma coisa, “se quiser conversar, sabe que eu estou aqui, não sabe?”
— Tudo bem — suspirou.
Bastava estar quebrada. Não precisava também parecer patética.
***
— Ela estava lá?
Cinco dias até Sirius ter coragem de fazer a pergunta.
— Sim.
Ele se moveu com desconforto na cama. Aquele era o único assunto no mundo que Sirius Black precisava discutir no escuro, no meio da noite, como se fosse pecado.
— O que ela… o que ela fez com você?
Um segundo e Bervely estava de volta à cela; engasgando e morrendo.
“Você está segura agora, querida. Mamãe está aqui.”
— Ela…
“Afiada. É preciso se manter afiada.”
— Tudo bem, Bervely. Só diga pra mim. O que quer que ela tenha feito, você pode dizer pra mim.
— Ela…
“Carmichael, seu desgraçado, eu avisei a você.”
“Cheque seus bolsos.”
— Bervely?
Ela suspirou. Os pulmões ainda pinicavam quando respirava.
— Acho que ela salvou minha vida.
***
Stanislau Shunpike e Yasi Darkmoon também foram dados como mortos pelo Ministério da Magia.
Às vezes, morte queria dizer liberdade.
— Vocês acham que eles me dão uma vaga nessa tal Ordem da Fênix? — o rapaz perguntou à Bervely no sexto dia, quando eles tinham subido no telhado para dividir uma garrafa de hidromel roubada do sótão.
— Não é assim que funciona. Não é uma empresa de combater artes das trevas — ela censurou, rolando os olhos para a estupidez do ex-cobrador do nôitibus andante.
Era fácil conversar com Lalau porque para ele parecia que Azkaban tinha sido um retiro de férias. Ela supunha que, se alguém tinha tido uma existência relativamente ausente de horrores, os dementadores não faziam mais do que umas cócegas incômodas.
— É, mas não sei muito o que fazer agora que estou morto. Digo, tecnicamente morto. Não é como se eu pudesse pedir o meu emprego de volta.
O céu do fim de outubro tinha tantas estrelas que era quase obsceno. Bervely se perguntou se devia estar preocupada com o consumo de álcool interagindo com as oito poções que estava tomando de uma vez.
Decidiu que não se importava.
— Porque você ia querer aquele emprego de volta? — ela lhe devolveu, junto com a garrafa — Você pode fazer literalmente qualquer coisa. Criar uma nova identidade, um novo nome, mudar de país, dirigir seu próprio ônibus mágico invisível.
Ele deu com os ombros, que eram magros e curvados para frente, lhe dando constante má postura.
— Não sou tão esperto para fazer isso. O que você vai fazer com a sua vida?
Ela lembrou de uma piada que Sirius tinha feito de manhã: “Agora nós dois estamos mortos, dá até pra começar uma banda”.
O humor de Sirius estava experimentando alguma melhora naquela semana. Bervely achava que tinha a ver com as visitas (muito frequentes) da dona do Três Vassouras. Ela passava no começo das tardes para ver “como tudo estava indo”. Bervely ouvira Nymphadora comentar que eles tinham ficado “muito amigos” desde que Sirius a livrara de um Imperius de origem misteriosa.
Bervely tinha ganas de arrancar um novo par de olhos toda vez que a mulher estava por perto.
— Você tem… você ainda tem… pesadelos? – Lalau perguntou quando atingiu o nível alcoólico necessário para ter coragem de tocar no assunto.
— Com o quê? Azkaban? — ela tentou ganhar tempo. Ele negou.
— Com os cães… devorando aquele rapaz no píer.
Um arrepio gelado mordeu sua espinha; Bervely apertou os punhos e também os dentes para evitar qualquer memória de emergir; muita poção dos sono-sem-sonhos tinha lidado com aquilo durante a noite, mas de olhos abertos ela ainda conseguia ter pesadelos.
— Ele era seu amigo, não era? Vi ele falando com você antes de tentar chamar os cães. Foi ele quem deu à você a varinha que usou para nos aparatar de volta?
Oh, Theodor.
— Sim – ela mentiu.
— Então foi ele quem salvou a nossa vida. A minha, a sua e a de Yasi. Vocês dois foram os heróis daquela noite.
Ela pegou a garrafa de volta e deu um longo, ardoroso gole.
Se apenas as coisas fossem tão simples.
***
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;¹
***
— Você sabe que eu estou aqui para quando quiser falar, não sabe? Quando você estiver pronta para conversar e coisa e tal. Tirar a coisa toda do seu sistema.
Bervely fingiu que não tinha ouvido. Concordara em dar uma caminhada para esticar as pernas, mas já estava se arrependendo.
Era como se a culpa que estava devorando Sirius por dentro o tivesse convencido de que agora ele precisava ser o pai do ano.
— Se tem alguém no mundo que sabe o que você passou, esse alguém sou eu, Bervely — ele continuou, alternando seu discurso de empatia com arquejos porque estavam subindo a colina estreita atrás de Hogsmeade, outra ideia que tinha parecido inteligente na teoria. — Eu sei como é ter estado lá… e como é estranho não estar mais. Os pesadelos…
— Não — ela exclamou, perdendo a paciência. — Não, você não sabe. Não é a mesma coisa.
Ele parou de escalar. Estava lhe olhando com uma surpresa babaca no rosto. Bervely sentiu uma raiva escaldante dele, vinda de lugar nenhum; uma vontade louca de empurrá-lo dali de cima e vê-lo se espatifar no pé da colina. A rosa sobre a sua pele acordou, como se tivesse sido convocada dos confins do inferno.
— É claro que não. É claro que não é a mesma coisa, desculpe. Você passou por muito mais… Voldemort em pessoa e o “banquete”, isso é muito mais do que eu jam–
— Eu não quero falar sobre Azkaban, Sirius.
— Eu acho que você vai se sentir melhor se tentar — ele insistiu, os olhos negros cintilando persuasivos para cima dela.
Bervely cerrou os punhos; a rosa ardia, os espinhos perfurando seu braço em revelia.
— Eu acho que você vai se sentir melhor se me fizer falar, não é não? — retrucou com acidez.
Os olhos dele se estreitaram.
— O que quer dizer com isso?
— Nada. Esqueça. Não quero dizer merda nenhuma com isso.
— Bervely!
Ela desaparatou antes que ele completasse a frase, antes que visse mais uma expressão de remorso no rosto de Sirius.
***
“Senhorita Black, como recuperou a posse da sua varinha?”
“Eu a busquei na sala de arquivos da prisão, no meio de toda a confusão. Sei onde fica desde que me infiltrei na prisão há três anos. As senhas ainda são as mesmas.”
Talvez Dumbledore não tivesse acreditado, mas o diretor não a pressionara. A história teria sido diferente se ele tivesse checado o bolso esquerdo da sua capa.
À luz do fogo da lareira, a peça de madeira cuidadosamente entalhada para se parecer com a copa de uma rosa parecia vermelha.
Quando fora levada para Azkaban, estivera prestes a usar aquela maçaneta para entrar na estufa atrás da casa dos Tonks. Ela se lembrava de ter visto uma silhueta por trás do vidro sujo…
E não por acaso, tinha sido Bellatrix a lhe devolver o objeto. Sinal de que a sua suspeita estava certa. E de que Charlotte não mentira para ela; a maçaneta a levaria até sua mãe, fosse ou não fosse uma armadilha.
“Preparada para a sua primeira missão, criança?”
***
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.¹
***
— Mais uma noite como essa e a pobrezinha não vai resistir — murmurou Remus Lupin para Sirius no corredor do segundo andar da Casa dos Gritos. A porta estava entreaberta e Bervely os ouviu sem grande interesse.
— Melhor chamar Andrômeda novamente?
— Não tem muito que ela possa fazer, pelo que entendi. A garota tem que sair dessa por si mesma. É uma pena que não podemos levá-la para o St. Mungus, no entanto. Sinto que estamos oferecendo uma estrutura muito mais precária aqui nessa casa velha.
— Já estive preso em pesadelos antes. Em Azkaban…
Eles se calaram ao passar pela frente da porta do quarto que Bervely ocupava; ela se mudara para um dos minúsculos quartos sobressalentes após a sua discussão na manhã anterior. Sirius meteu a cabeça para checá-la e ela fingiu que estava dormindo.
— Bervely vai ficar bem — Remus o consolou. A certeza em sua voz queimou uma irritação em Bervely; como ele se achava no direito de ter tanta certeza?
Sirius só suspirou derrotado.
— Parece que não tem nada que eu posso fazer nesse caso também.
— Dê a ela algum tempo para processar.
— Já faz uma semana, Remus!
Eles se afastaram, descendo os degraus para o andar de baixo. Bervely esperou até não ouvir mais vozes, então rolou para fora da cama.
O quarto em que outra garota estava era no fim do corredor. Yasi Darkmoon.
Ainda não sabia porque tinha a trazido junto. Ela só estava lá, logo atrás de si na fila. Bervely decidira no último minuto, por impulso. Ao contrário de Lalau, não sabia que tipo de pessoa ela era.
Continuava sem saber. Yasi não falara uma palavra sequer durante o interrogatório de Dumbledore; deixara para Bervely e Lalau o trabalho de preencher as lacunas.
Ela nunca saia do quarto de visitas. Quando ela dormia, ficava presa em pesadelos que duravam horas. Aquele já durava dias.
Bervely entrou no quarto dela e ficou ali parada no escuro, vendo-a se contorcer na cama, suando, gemendo com os dentes trincados. Dor ou medo? Difícil definir.
Fosse o que fosse, estava lentamente lhe matando. Bervely se lembrava bem como era ficar presa nos horrores dentro de sua própria cabeça.
Você sai de Azkaban, mas Azkaban não sai de você.
Azkaban não era um lugar – era um estado de espírito.
***
— Você não está com saudades de fazer poções?
Anne era a outra pessoa que não a tratava como se Azkaban tivesse sido uma doença da qual ela estava se curando; infelizmente, ela só podia visitar nos fins de semana.
Por alguma razão, ela ficava trazendo Potter junto. Como se de repente ele tivesse virado seu cão de guarda de olhos-esmeralda e cabelo caótico.
A presença de Potter lhe enervava; ao menos dessa vez o garoto estava conversando com Remus, Sirius e Lalau na cozinha, lhes dando alguma privacidade.
— Bev? Está me ouvindo?
— Não posso fazer poções, não tenho mais acesso a um laboratório — disse, fingindo que a questão não lhe importava grande coisa.
— Peça para usar o de Snape, aposto que ele deixa.
Bervely olhou na direção da irmã, que estava encarrapitada na poltrona mais perto do fogo, com Jinx no colo. Ela afagava distraída o pelo brilhante do gato, que como sempre parecia completamente à vontade na sua presença.
— Severus falou alguma coisa com você?
— Ele me perguntou sobre você ontem. Pediu pra eu ficar depois que a aula terminou, foi bem esquisito, achei que ele ia me dar alguma bronca. Mas ele parecia preocupado.
Bervely, que já tinha recusado um total de duas visitas do seu padrinho, não teceu comentários.
— Por que você o está evitando? Você deve ser literalmente a única pessoa no mundo de que ele gosta. Ele esteve ainda mais insuportável nas aulas desde que você foi presa, e estou começando a achar que as duas coisas estão relacionadas.
— Quem foi que disse que eu estou o evitando?
Anne lhe deu um olhar do tipo “sério mesmo, pra cima de mim?”, o que era muito desconcertante desde que ela não usava mais os seus óculos escuros em tempo integral.
— O que você vai fazer agora? — Anne voltou a perguntar, enquanto repuxava as orelhas de Jinx de um jeito que o fazia ronronar alto.
— Gostaria que as pessoas parassem de perguntar isso.
— Vai voltar para o Instituto?
— Já chega com o interrogatório.
Anne ficou olhando para ela com aqueles olhos perfurantes; de repente eles se alargaram, e depois de encheram de sentimento.
— Ah, não. Theodor. É por causa dele que você não quer voltar, não é?
— Hora de voltar para a escola, mocinha. Antes que fique tarde demais, não é seguro andar por aí depois de escurecer, com as coisas como estão — Remus apareceu na sala, Potter atrás dele. O garoto olhou de uma para a outra e franziu o cenho. Bervely virou-se de forma que ele não pudesse ver seu rosto, que ela tinha certeza que ainda estava exangue.
— Vou acompanhar vocês. Já estava indo dar uma passeio de qualquer forma — Sirius se ofereceu, estalando em sua forma animaga e indo para a porta com a cauda abanando.
Anne veio lhe dar um abraço de adeus.
— Ele ia querer que você voltasse – disse em seu ouvido.
Bervely apertou os olhos. Era como se Theodor estivesse sussurrando pra ela em seu outro ouvido, aquela certeza ingênua em sua voz, o brilho esperançoso nos olhos de gato:
“Tente não perder a sua alma até o amanhecer, sim? Vai dar tudo certo.”
***
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;¹
***
— Bervely. Pode vir comigo até a sala de reuniões?
Era Lupin, polidamente colocando a sua cabeça no vão da porta depois que ela ignorara as suas batidas.
Lupin, que nunca deixava faltar uma pilha de chocolates ao lado de sua cama, mas que já abrira mão de sustentar diálogos inteiros com ela e se resumia à “bom dia” no café da manhã.
Melhor assim, ela achava. Estavam indo bem até agora.
— Pra quê? Dumbledore quer me interrogar de novo?
— Não. É outra pessoa.
— Quem? Se for Snape, diga a ele que estou dorm–
— Ellis Agrippa. A mãe de Theodor Shadowtamer.
***
Ellis ficou pálida quando Bervely entrou. Não como se estivesse “vendo um fantasma” (bruxos não se impressionavam com fantasmas).
Pálida como se estivesse vendo alguém que deveria ser um fantasma caminhar em carne e osso em sua direção.
— Bervely! — ela arfou, apertando a mão contra o coração.
Ellis Agrippa era larga e forte como o filho. Também tinha os seus olhos puxados e o profuso cabelo negro, que ela usava rente ao couro cabeludo por “questões de praticidade”.
Ela também parecia dilacerada. Sendo Ellis uma das pessoas que Bervely mais admirava no mundo, ver o estado de sua mentora e diretora do Instituto Flamel e uma das maiores alquimistas daquele século lhe veio como um choque.
A verdade é que Ellis não era nenhuma dessas coisas naquele momento; ela era só uma mãe que acabara de perder seu filho.
— A senhora Agrippa veio aqui para trazer uma notícia bastante inesperada, Bervely — disse Remus, fechando a porta atrás de si cuidadosamente. — Ela me procurou porque ainda sou o seu oficial de lei, imagino.
— Sim — Ellis não conseguia desviar seus olhos pregados em Bervely, como se achasse que ela fosse desaparecer em uma nuvem de fumaça caso piscasse — Eu não fazia ideia… como pode estar viva? Se você escapou, então há uma chance que Theodor também tenha…?
— Não. Sinto muito.
Ela desejou que também tivesse sido devorada pelos cães quando viu o que a sua resposta provocou no rosto de Ellis.
— Você o viu, querida? Falou com ele aquela noite?
Bervely enfiou as mãos, que tinham começado a tremer, nos bolsos das vestes.
— Brevemente — disse com a boca seca.
— Como– o que aconteceu? Se não se importa, quero dizer. – Ellis tinha os olhos secos, mas isso não diminuía o tamanho do desespero em sua expressão. Bervely sabia como era estar tão afundada em dor que as lágrimas não significavam mais nada. — Ninguém tem respostas para mim. Não puderam recuperar o corpo. Os dementadores não deixam ninguém se aproximar da ilha. Eu nem mesmo sei como…
— Ele foi em paz – ela mentiu sob a respiração. — Foi rápido.
— Oh — Ellis arfou. Remus tentou ajudá-la a sentar-se em uma das muitas cadeiras, mas ela o dispensou com um movimento distraído de sua cabeça. – Então ele não é… ele não foi...?
— Beijado? Não. Theodor não foi beijado.
Um triste alívio surgiu no rosto de Ellis; aliviada porque seu filho estava morto, e não caminhando pela ilha como um corpo vazio até definhar de frio, fome ou doença, como aconteceria com o resto dos aurores e prisioneiros beijados aquela noite.
— Se não fosse por Theodor, eu não teria conseguido aparatar de volta com Stanislau e Yasi Darkmoon — Bervely ouviu a si mesma dizer. A essa altura, ela nem mesmo sabia se aquilo era mentira ou verdade.
— Stanislau e… – Ellis olhou de um para o outro, perdida.
— Dois outros inocentes que estavam sendo levados pelos comensais naquela noite — apressou-se Remus a explicar — Ambos acusados injustamente e pagando por crimes que não cometeram. Como Bervely – acrescentou, para a surpresa da própria.
— Sim. Sim, é claro. Sim – Ellis assentiu, parecendo tentar reencaixar os eixos do seu mundo naquelas novas informações, de alguma maneira. — Então Theodor salvou três vidas aquela noite. Sua morte não foi em vão – ela completou, sua voz falhando.
Bervely desejou que Ellis pudesse acreditar naquilo. Diabos, ela queria acreditar naquilo.
— Eu sinto muito pela sua perda, Sra. Agrippa – Remus disse. Ele conjurou um copo de água para ela e finalmente a convenceu a se sentar.
Bervely percebeu que ainda estava de pé no meio da sala; suas pernas estavam insensíveis e sua cabeça flutuando. Não pela primeira vez desde que se vira fora de Azkaban, era como se estivesse assistindo as coisas acontecerem, ao invés de vivê-las.
Era estranho, mas doía menos.
— Se você o viu aquela noite –, Ellis disse quando recuperou a voz; olhando para ela com aqueles olhos massacrados — ele lhe disse, então?
— Me disse o quê? — Theodor tinha lhe dito muitas as coisas, a maioria das quais ela não achava que ele tinha compartilhado com a própria mãe.
— Que ele ia retirar as queixas contra você. Theodor enviou uma carta para o Ministério no fim daquela tarde, retificando ambas as queixas, o que teria anulado o seu julgamento no dia seguinte não fossem os acontecimentos… Bem, eu descobri a respeito e achei que deveria vir pessoalmente informar ao seu oficial de lei. Imaginei que o Ministério não teria se dado ao trabalho.
— Eu sinto muito, Ellis — Bervely disse de repente, incapaz de segurar por mais tempo .
— Pelo que, querida?
— Por ter sido Theodor. Deveria ter sido– ela suspirou. Era difícil admitir, mais difícil ainda não admitir. — Deveria ter sido eu no lugar dele.
***
Bervely estava certa de que Ellis a odiaria por ter sobrevivido ao invés do seu amado, prodigioso, talentoso e único filho. No lugar da mulher, ela certamente odiaria.
Mas…
— Quando estiver pronta para voltar, eu estou esperando você no Instituto, Bervely.
***
— Hey, Bev. Chegou uma carta pra você há alguns minutos.
Bervely olhou com estranheza para Stanislau; não lembrava de ter dado liberdade para ele lhe chamar pelo apelido – mas também não era como se ele precisasse de oportunidade para ser espaçoso. Ele era o único na mesa do café da manhã naquele domingo, numa hora que normalmente a casa estaria movimentada.
— Onde está todo mundo?
— Remus ainda não acordou. Nymphadora passou aqui mais cedo, mencionou alguma coisa sobre a lua…? Seu pai não dormiu em casa. Yasi continua no pesadelo, a pobrezinha.
— Meu pai não dormiu em casa? — Estranhou, e mais ainda como Lalau sabia dessa informação. Decidiu que ele tinha mais tempo livre do que era saudável.
— Ah é, ele saiu ontem à noite dizendo que ia visitar aquela namorada dele dona do bar, então…
— Aquela mulher não é namorada dele — Bervely disse por entre os dentes, pegando o envelope com seu nome de cima da mesa e quase o rasgando em dois ao tentar abri-lo.
— Não? Devia, ela é bem bonita. Ah, tinha esquecido, hoje é dia das bruxas, vai ter uma festa no vilarejo, você quer–
Bervely parara de ouvir.
O bilhete dentro do envelope dizia:
“Preciso falar com você.
Espero em Neverland.
Wendy.”
***
Não passou pela sua cabeça que poderia ser uma armadilha. A verdade é que sua cabeça estava vazia, a não ser por um zumbido insistente.
Só percebeu o quanto tinha sido precipitada depois que desaparatou; se os feitiços tivessem sido reforçados, ela estruncharia em cinco pedaços de encontro à uma barreira anti-aparatação. Mas chegou inteira, só um pouco tonta.
— Você veio. Eu não tinha certeza se viria. Eu achei que não viria, na verdade.
— É mesmo? Por que isso? — Bervely devolveu com acidez assassina.
A verdade é que Charlotte Summers parecia miserável. Como se estivesse doente ou algo assim. Grandes círculos roxos sob os olhos vermelhos e irritados. Um ar generalizado de desamparo, Ela estivera agachada perto do túmulo de Hector, do qual se levantou para vir na direção de Bervely.
— Se aproxime mais um passo e eu arranco a sua cabeça fora — Bervely avisou. Charlotte parou e ergueu as mãos em trêmula rendição.
— Estou desarmada.
— É mesmo? Cadê a sua arma de trouxas que você usar para acuar crianças? Summers, o que diabos? Bellatrix mandou você atrás de mim?
— Não, ela não sabe que estou aqui – sussurrou, como se caso falasse alto a comensal da morte pudesse acabar lhe ouvindo.
— Então o quê? Você achou que era uma boa oportunidade para bater um papo sobre o túmulo de Hector? Colocar a conversa em dia? ME PERGUNTAR COMO DIABOS EU VOU INDO DEPOIS DE SAIR DA PRISÃO QUE VOCÊ CONVENCEU THEODOR A ME ENFIAR PRA COMEÇO DE CONVERSA?
Charlotte desabou em lágrimas com a menção de Theodor. Bervely ficou ali parada em completo choque, observado a figura lacrimosa de Charlotte se acabar em cima do um túmulo de algum ancestral Malfoy esquecido.
Passou pela sua cabeça como diabos Charlotte tinha conseguido chegar até ali sem uma varinha. Dispensou o pensamento sem lhe dar grande importância.
— Você estava lá — ela disse soluçante quando conseguiu. — Você o viu… você deve saber o que aconteceu com ele. Ele não devia ter ido até Azkaban aquela noite! Eu tentei impedir–
— Você sabia que Azkaban ia ser invadida aquela noite?
— Eu imaginava – ela engasgou. – Sua mãe… bem, ela não queria esperar até seu julgamento.
— Você sabia o que ia acontecer e mesmo assim deixou Theodor ir até lá?
— Eu pensei que ele ia sair antes que tudo começasse!
Bervely sentiu as ondas de desprezo e raiva ondularem sob sua pele, uma atrás da outra. Apertou a mão da varinha, que soltou faíscas vermelhas pela ponta.
— Eu espero que você tenha me chamado aqui para colocar fim na sua miséria, Summers.
Ela virou para Bervely seus aquosos olhos azuis.
— Preciso saber o que aconteceu com ele. Por favor, Bervely. Eu preciso saber. Isso está me matando.
Bervely estreitou os olhos para ela; não acreditava na verdade daquelas lágrimas nem por um segundo. Seja lá qual fosse o motivo pelo qual Charlotte estava lhe implorando por informação, devia ser para seu próprio benefício e não por qualquer sentimento que tivesse por Theodor.
Tanto fazia. Seria bom colocar aquilo pra fora. Pontos extras se pudesse provocar horror e alguns pesadelos na existência medíocre de Summers.
— Tudo bem, vamos lá. Theodor foi à Azkaban aquela noite para me ver; o que quer que você tenha “confidenciado” a ele, o fez perceber o quão caso perdido você era, e ele decidiu retirar as queixas contra mim. Sim, você ouviu direito – confirmou diante do olhar chocado da garota. – Theodor mudou de ideia. O documento que ele enviou ao Ministério é válido, o que significa que eu serei inocentada. Melhor voltar a cuidar do seu rabo daqui para a frente, Charlie, afinal se eu sou inocente, você volta a ser a suspeita principal de ambos os crimes.
O queixo de Charlotte tinha caído, mas ela o fechou depois de uns trinta segundos. Seus olhos no entanto continuavam largos como pires de pedra lápis-lazuli.
— Theodor ainda estava em Azkaban quando os comensais invadiram, porque eles usaram o barco, ou seja, o barco nunca voltou para buscá-lo e levá-lo para a costa. Ele fingiu que estava se recrutando para as fileiras do Lord para ganhar tempo e tentou causar uma distração.
— Que tipo de distração? — ela perguntou com a voz fraca.
— Os cães. Ele achou que podia fazê-los obedecer, mas de alguma forma eles já estavam sob o controle de Fenrir Greyback.
Charlotte se horrorizou, prevendo o restante antes mesmo que Bervely pudesse completar.
— Então os cães…
— Sim, os cães o devoraram. Theodor foi comido vivo. Eu estava lá e assisti de camarote. Não é algo de que eu vá me esquecer… nunca.
A jovem fitou Bervely com uma expressão mista de dor, pena e desespero.
— Não foi sua culpa. Não havia nada que você pudesse fazer. Não se sinta…
— Eu não me sinto culpada! — Bervely exclamou, exasperando-se. — Eu culpo você. Mais uma vez você se intrometeu em meu caminho e arrancou de mim alguém com quem eu me importava!
— Eu o amava também, Bervely!
— OH, FAÇA-ME O FAVOR! — Bervely perdeu a paciência, erguendo a varinha para a direção da testa dela. — Um motivo pra eu não estuporar você agora e te entregar na mão dos aurores, sua doente.
— Você não vai querer me entregar, Bev.
— Não? Engraçado, no momento é tudo que eu mais quero nessa vida.
Charlotte permaneceu imóvel apesar da ameaça; só então Bervely notou que ela devia ter uma carta na manga. Não teria ido ali desarmada, era uma idiota mas não era estúpida. Nunca imaginou o que viria a seguir, no entanto.
— Mas se você me entregar… quem é que vai olhar pelo pequeno Peter?
— Pequeno Peter? Do que diabos você está falando?
Charlotte tirou de dentro das vestes o colar de aparência bizarra que ela costumava usar em torno do pescoço, e que agora pulsava rápido como se estivesse agitado. Era uma das coisas mais perturbadoras que Bervely já vira; o pingente vermelho em forma de diamante, largo no topo e estreito na extremidade, era semi-transparente e parecia entremeado com veias escuras de sangue. Havia alguma coisa mais densa no centro que ela não conseguiu entender daquela distância.
— Peter. O bebê de Hector. O nosso bebê. Se eu for para a prisão, não vão me deixar ficar com ele… então quem é que vai mantê-lo vivo, aqui do lado de fora?
***
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.¹
(Continua…)
Fale com o autor