SPINNER'S END, COKEWORTH – Agora


A rua Spinner's End era o lugar mais deprimente que Ron tinha visto na vida, com as suas casas de tijolo iguais umas as outras, postes de luz dilapidados e com lâmpadas estouradas, asfalto esburacado e calçadas estreitas e de meio fio irregular.

O número quinze da rua ficava próximo a um cruzamento e tinha uma velha picape Ford amarelo desbotado e empoeirada estacionada na entrada da garagem. Era a única casa da rua que possuía uma entrada de garagem, o que Ron suspeitou ter sido adicionada com auxilio de magia.

Ron arqueou as sobrancelhas. No cadastro do Ministério, o nome de Daphne Greengrass encontrava-se associado a aquele endereço. A casa era relativamente grande, com dois andares e uma porta de entrada posicionada entre duas janelas cobertas por cortinas que impediam a visão de qualquer pedestre para dentro do imóvel, além de outras duas janelas também cobertas por cortinas, no andar superior.

Ron atravessou a rua e seguiu em direção à casa, alcançando a soleira desta em menos de um minuto. Com o punho cerrado, bateu com força na madeira e aguardou pacientemente por uma resposta. Uns três minutos se passaram antes que alguém dentro da casa desse sinal de vida e anunciasse a sua presença para o auror ainda parado sobre o tapete puído na entrada.

— Sim? — Veio a pergunta abafada pela porta fechada, o que deixou difícil de identificar se o interlocutor era um homem ou uma mulher.

— Daphne Greengrass? — Ronald pressupôs que fosse Daphne Greengrass e estendeu o distintivo na altura olho mágico na porta, para quem estivesse do outro lado pudesse ler. — Auror Ronald Weasley. — Identificou-se. — Podemos conversar? — Um minuto de silêncio se passou e então o som de trancas pesadas sendo desfeitas foi-se ouvido e a expressão de Daphne, séria e sisuda, foi o que cumprimentou Ron.

— Eu já disse tudo o que tinha que dizer aos aurores, sr. Weasley. — foi a resposta seca dela para uma pergunta que Ron ainda nem tinha feito. — Tenha um bom dia! — praticamente vociferou, fechando a porta na cara de Ron, antes mesmo que ele pudesse reagir.

— Srta. Greengrass! — Ron tentou mais uma vez, a chamando e socando a porta ao mesmo tempo, para atrair a atenção dela. — Eu tenho novas informações sobre o paradeiro de Draco Malfoy e gostaria que me respondesse somente algumas perguntas. Estamos prestes a capturá-lo. — explicou. Ron esperava que a relação entre Astoria e a irmã tivesse sido boa o suficiente para Daphne querer ver o assassino da caçula na prisão, a ponto de ser mais receptiva a presença do auror em sua soleira e voltar a abrir a porta para conversar.

Na época da morte de Astoria, Daphne havia dito em seu depoimento ao Ministério que não falava com a irmã desde que ela cometeu a burrice de se casar com Draco Malfoy. Ainda sim, sangue sempre era mais espesso do que a água e Ron supunha que para alguém desaprovar a atitude de outra pessoa desta maneira, ao menos tinha que se importar muito com ela.

A porta novamente se entreabriu, expondo mais uma vez o rosto contrariado de Daphne.

— Encontraram Malfoy? — a pergunta dela soou em um tom curioso, mas não esperançoso, de alívio, ou até mesmo raiva, os tons que Ron costumava ouvir das famílias das vítimas quando finalmente o seu tormento e angústia foram encerrados com a captura do crimininoso que vitimou o seu ente querido. A reação de Daphne foi, no mínimo estranha. Além da curiosidade, e se Ron não estivesse enganado com o que via, também havia um traço de desapontamento no rosto da mulher.

— Podemos conversar Srta. Greengrass? — a cortina se fechou novamente e Weasley rolou os olhos, achando que teria que esmurrar a porta mais uma vez, mas antes que pudesse fazer isto o som do trinco sendo destravado chegou aos seus ouvidos e logo em seguida a madeira se moveu, cedendo visão para a figura de Daphne Greengrass.

Ron não se lembrava de como era a ex-colega na época de escola, pois não fazia questão de inteargir com sonserinos além do necessário, por isso não tinha nenhum parâmetro para comparar quem foi Daphne durante a guerra e quando a irmã ainda era vida, e quem ela se tornou depois de todos os acontecimentos que vieram depois, mas suspeitava que a mulher não deveria ser muito diferente naquela época, do que era agora. Ouviu em algum lugar que o tempo não limava traços de personalidade, apenas os acentuava e os cimentavam no cerne da pessoa.

Daphne Greengrass tinha um ar cansado no rosto jovem, e os seus olhos refletiam de forma clara todos as cicatrizes em sua alma. Daphne tinha cabelo alourado e curto, diferente do castanho fechado de sua irmã Astoria, os olhos eram cinzentos e a pele no tom pálido de quem vivia eternamente fugindo dos raios de sol. Era alta, magra e de membros longos, usava uma camisa de botões e uma calça jeans, meias e chinelos, e na mão direita segurava uma bengala a qual Ron compreendeu a existência quando Daphne deu três passos para trás, para ceder passagem, e fez isso com a ajuda da bengala, pois mancava da perna direita.

— Eu realmente não compreendo em que o meu depoimento, agora, vai ajudar neste caso sr. Weasley. — Daphne girou sobre os pés e seguiu caminho casa adentro. Ron a seguiu, ouvindo a porta fechar-se automaticamente atrás de si. — Nada mudou nos últimos anos exceto o fato de que agora vocês possuem uma nova pista do Malfoy. — ela o guiou para uma sala com um jogo de sofás surrados e uma mesa de jantar faltando uma perna e que era sustentada por uma pilha de livros.

Aliás, livro era o que não faltava no número quinze da Spinner's End. Na sala havia um portal que dava acesso a um escritório onde duas das paredes eram estantes abarrotadas de livros. Mais volumes espalhavam-se sobre a mesa de mogno, misturando-se a papéis e quase afogando o laptop precariamente equilibrado na borda. Na sala também havia estantes com livros e, curiosamente, ao percorrer os olhos pelas espinhas de alguns, Ron percebeu que eles todos tinham um assunto em comum:

O sobrenatural.

Eram livros sobre paranormalidade, religião, mitologia, demônios e derivados.

— Sou professora titular de teologia e mitologia em Cambridge. — Daphne interrompeu a varredura de Ron pela sala e o fez voltar-se na direção dela. — Preciso saber mais do que os meus alunos. Universitários têm a irritante mania de achar que só porque conseguiram entrar em Cambridge são gênios não reconhecidos. — disse em um tom de desdém, mancando até a mesa de jantar perneta, de onde recolheu uma garrafa de cerveja amanteigada, e tomou um longo gole desta.

— Srta. Greengrass, a senhorita disse que não possuía contato com a sua irmã desde que ela se casou com Malfoy. — Ron começou.

— Sim, e daí? — ela respondeu com descaso e sentou-se na poltrona que na verdade mostrou-se ser uma cadeira de balanço no segundo em que ela inclinou para trás sob o peso do corpo de Daphne.

— Então como a senhorita me explica isto? — Ron recolheu de dentro das vestes uma pasta com todas as informações que conseguiu obter sobre Astoria Malfoy, sua vida em Hogwarts, sua família, e quem ela se tornou depois de se tornar a nova senhora Malfoy. Informações esta que conseguiu após uma breve visita a esposa no Ministério da Magia e por dois minutos implorá-la por ajuda. Astoria trabalhou na mesma divisão ministerial que a sua esposa, mesmo que por pouco tempo, portanto pensou que talvez houvesse alguma coisa lá que pudesse auxiliar nas investigações.

Daphne pegou a pasta que Ron estendeu e correu os olhos brevemente sobre os pergaminhos dentro desta.

— Isso em suas mãos é uma autorização de guarda. — Ron explicou quando os olhos de Daphne demoraram-se mais sobre uma página que ele reconheceu o conteúdo de pronto ao olhar o cabeçalho da mesma. — Aí diz que se algo acontecer a Astoria e Draco, que a guarda dos filhos deles seria sua. Por que a sua irmã daria a guarda dos filhos dela a você, se vocês duas estavam brigadas?

— Não estávamos brigadas. — Daphne respondeu com um rolar de olhos e devolveu a pasta para Ron. — Eu disse em meu depoimento anos atrás que não falava com a minha irmã porque discordava da decisão dela de ter casado com Malfoy, jamais disse que deixei de amá-la por causa disto, ou me importar com ela e com os filhos dela, e Astoria sabia disto. Assim como sabia que em um momento de necessidade, eu estaria lá por ela, como sempre foi feito em nossa família. — Ron viu rapidamente uma brecha nessa declaração.

— E você esteve lá por ela? — perguntou, sentando-se no sofá do lado oposto da cadeira de Daphne.

— Como assim?

— Antes de morrer Astoria deu algum indício de que precisava da sua ajuda?

— Qual a parte do "não falava com a minha irmã desde que ela se casou com Malfoy" você não entendeu auror Weasley?

— Eu entendi essa parte. Assim como entendi que você afirmou que mesmo discordando das decisões de Astoria, estaria de braços abertos para ajudá-la sem pestanejar. Você me disse que ainda amava a sua irmã e o amor nos faz cometer loucuras. Como, por exemplo, ocultar informações do Ministério. — Daphne soltou uma curta risada de escárnio diante da declaração dele.

— Por que eu ocultaria alguma coisa do Ministério sobre o assassinato da minha própria irmã? Se fosse o inverso, se Astoria fosse a procurada pela justiça e Malfoy a vítima, isto até faria sentido, mas eu nunca morri de amores por Malfoy e, sinceramente, pouco me importa o que aconteça com ele. Portanto, não tenho nada a esconder. — Ron franziu as sobrancelhas diante do discurso dela, impassível, sarcástico e seco. Daphne realmente não se encaixava no perfil de parentes de vítimas.

Ela declarou que pouco se importava com o que acontecia à Malfoy, ou seja, para ela Draco poderia ser preso ou permanecer livre e impune que ela não estava nem aí. E, ao mesmo tempo, ela dizia que amava a irmã, porém em contrapartida não tinha nenhum interesse em ver o assassino dela capturado e punido de acordo com a lei.

Talvez a doida da Maribel estivesse certa, talvez o foco dessa investigação estava muito centrada no Malfoy, o que fez os aurores esquecerem dos Greengrass. Porque, convenhamos, as atitudes de Daphne não eram nada convencionais.

— Você tem bastante livros aqui. — Ron comentou, mudando de assunto bruscamente. Às vezes, durante um interrogatório, mudar o caminho da conversa para assuntos mais leves tendia a deixar o interrogado menos na defensiva e o levava a abaixar a guarda. Ele e levantou-se do sofá, foi até a estante mais próxima e apontou para um volume. — Posso? — perguntou, deixando implícito em seu questionamento se não haveria problema dele tocar no livro, e Daphne apenas assentiu, dando-lhe permissão.

Ron retirou o volume da prateleira e começou a folheá-lo lentamente, mostrando a sua espectadora, interesse pelo seu conteúdo, quando na verdade mal lia o que estava escrito em letras minúsculas naquelas linhas. As páginas do livro eram extremamente finas e amareladas, e a sua lentidão em folheá-las era mais cuidado pela delicadeza que elas aparentavam ter do que realmente curiosidade sobre o assunto, e as palavras em si pareciam ter sido escritas à mão. — Nossa, isto parece velho. — comentou em um tom levemente descontraído.

— E raro. — Daphne completou. — O valor dele não chegaria nem a um ano do seu mísero salário de auror.

— Sério? — Ron ignorou a alfinetada dela e continuou a virar as páginas do livro até parar em uma que lhe chamou a atenção. — Símbolo curioso este. — disse displicente, virando o livro na direção de Daphne para ela ver o desenho na página. Daphne franziu as sobrancelhas e mordeu o lábio inferior antes de dizer:

— Isto se chama Armadilha do Diabo. É usada para aprisionar demônios e bloquear os seus poderes.

— Aprisionar demônios? — Ron engoliu um riso de zombaria diante do absurdo de alguém realmente acreditar que demônios existiam, a ponto de criar uma "armadilha" para eles.

— Professora de mitologia, sr. Weasley. Se essa coisa funciona ou se demônios são reais, não é a minha função provar isto, mas apenas de ensinar aos meus alunos a origem de seus mitos e vertentes. — Daphne respondeu com um dar de ombros, o que era uma explicação razoável, e Ron devolveu o livro a estante.

— Srta. Greengrass... Onde a sua irmã e Draco Malfoy se conheceram? — Daphne piscou repetidamente diante da pergunta que fez a conversa bruscamente retornar a razão original daquela visita, e ajeitou-se melhor na poltrona.

— Em Hogwarts, onde praticamente quase todos os casais que existem na comunidade mágica britânica se conheceram. — respondeu.

— Em que ano? Quero dizer, lembro do Malfoy da época de Hogwarts, mas não me recordo dele na companhia de uma corvinal.

— Draco preferiria morrer a ser visto na companhia de uma corvinal — Daphne disse com deboche misturado a divertimento, e um tom de conhecimento de causa. Para alguém que afirmou, várias vezes, que não tolerava Malfoy e preferia manter distância dele a ponto de desaprovar o casamento da irmã e cortar contato com ela, ela parecia conhecer o homem bem o suficiente para saber os seus jeitos e trejeitos.

Ron tinha familiaridade com Malfoy devido a existência ingrata deste em sua vida, zombando dele em todos os seus anos de Hogwarts, em cada classe que compartilhavam, em cada esquina em que cruzavam. A inimizade, curiosamente, criou entre eles uma certa intimidade. Daphne foi colega de casa do homem, mas ser colega de casa não significava nada. Ron teve colegas grifinórios com quem teve contato mínimo em seus anos de Hogwarts. O seu círculo de amigos tendia a ser restrito e fechado, especialmente quando este incluía o famoso Harry Potter e, portanto, eles precisavam ter muito cuidado com quem eles deixavam ou não aproximar-se deles.

— Eles se conheceram no último ano de Draco em Hogwarts — Daphne completou, pela segunda vez naquele encontro referindo-se a Malfoy pelo nome, demonstrando uma intimidade que antes ela fazia questão de negar ter com o homem.

Ron arqueou as sobrancelhas diante do que ouviu.

— Durante a guerra? Por que Astoria se envolveria com um Comensal da Morte no auge da guerra? — Daphne deve ter detectado no tom dele a acusação de que ele achava Astoria louca por ter se envolvido com Malfoy, pois logo ela fez uma expressão azeda e levantou-se da cadeira com uma agilidade surpreendente para alguém com uma perna defeituosa.

— Astoria era especial, peculiar, e um fio de cabelo dela tinha mais dignidade e compaixão do que muita gente por aí. Ela era boa em decifrar as pessoas e sabe-se lá porque, ela viu algo em Malfoy, algo que valia a pena investir.

— E olha no que isto resultou para ela. — Ron respondeu com sarcasmo, o que foi a coisa errada a dizer e na qual ele arrependeu-se de ter dito no segundo seguinte. O seu humor ácido tendia a brotar de vez em quando durante o trabalho e causar-lhe alguma encrenca, e a resposta de Daphne ao comentário inconveniente dele foi uma fuzilada com o olhar.

— Auror Weasley – Daphne começou em um tom presunçoso, apoiando-se na bengala e inclinando o corpo para frente na direção de Ron. — acredito que a pergunta que não quer calar e que vi estampada várias vezes em seu rosto é: por que eu não estou dando mais importância ao fato de que o Ministério descobriu o paradeiro de Malfoy? E a resposta é simples: porque eu não acredito que Malfoy tenha matado Astoria.

Esta informação era nova.

— E eu não disse nada na época ao Ministério porque vocês aurores pareciam convencidos de que a culpa era do Malfoy, que todas as provas apontavam para ele como único suspeito do feito e nada do que eu dissesse os faria mudar de ideia, então me mantive calada, porque na época não faria diferença e também para os aurores idiotas que investigavam o caso não achassem que eu fosse cúmplice de tudo isto.

— E agora você diz o contrário, por quê? O que a faz ter certeza que eu não vou pensar o mesmo?

Daphne deu de ombros.

— Você lutou ao lado de Potter e sobreviveu sendo um dos principais alvos de Voldemort, só porque é amigo de Harry Potter. Claro, tenho a certeza de que a inteligência da Granger ajudou neste caso, mas inteligência somente não é o bastante para sobreviver e vencer uma guerra. Depois disto você se tornou auror e ainda está aqui, firme e forte. Então acredito que não seja tão idiota quanto os seus colegas.

— Okay. — Ron tomaria aquilo como um elogio, embora Daphne tenha deixado subentendido nas entrelinhas que ainda sim o achava um idiota. — E por que acha que Draco não matou Astoria e os filhos? Você mesma disse que não ia com a cara dele.

— Por ele sempre ter sido um mimadinho arrogante filhinho de papai e cuja família em desgraça no pós guerra traria mais dores de cabeça para a minha irmã do que felicidades, mas eu nunca duvidei que Malfoy realmente amasse Astoria, ou aos filhos deles. Astoria foi a razão de Malfoy não ter ido parar no fundo do poço durante a guerra, ou deixar a depressão afogá-lo quando o Ministério caiu matando sobre ele e a sua família no pós guerra. Ela e os filhos que ela lhe deu eram a sanidade dele em forma de gente. Por que ele iria matá-los?

— Vamos supor, por um momento, que você esteja certa, que Draco seja inocente. Então. se ele não matou Astoria e os filhos, quem foi?

— Bem, auror Weasley, isto é você quem tem que descobrir, não?


oOo


A mansão Malfoy, como Ron havia dito, não era nada mais do que pedaços de paredes queimadas e escombros, e em nada lembrava a Harry da enorme casa para a qual ele foi arrastado durante a guerra e aprisionado. A grama do jardim ao redor da propriedade não tinha mais vida e não mais nascera depois da explosão que botou fogo não só nas paredes da casa, mas tudo ao redor dela em um raio de dez metros. A outra parte do jardim não afetada pelas chamas estava malcuidada, com ervas daninhas emaranhando-se nas roseiras, árvores de folhas secas e troncos ocos, e com as fontes de água secas e cobertas de limo e musgo. O portão de bronze da entrada havia ficado torto depois de ser atingindo pela onda de impacto emitida da explosão, e o M que antes o enfeitava tinha uma das pernas faltando.

Harry empurrou uma das bandas do portão, e o ouviu ranger de maneira ensurdecedora. Qualquer feitiço que mantinha o metal polido e lubrificado havia extinguido com a explosão. O portão era pesado, o feitiço que o fazia ser leve ao manuseio também se foi, e, portanto, tudo o que Harry conseguiu fazer foi abrir uma pequena fresta pelo qual ele passou. Poderia ter usado magia para isto? Poderia, mas apesar de alguns feitiços terem sido desfeitos com a explosão e a destruição da mansão, outros estavam tão entranhados no terreno, que ele não quis se arriscar usando qualquer feitiço que poderia causar um efeito rebote com outros ainda presos a linhagem de sangue dos Malfoy, enraizados na propriedade.

As pequenas pedras que haviam no caminho de terra estalavam sob a sola do coturno de Harry e era o único som que ecoava em todo o terreno. O lugar era tão tenebroso que não havia um grilo cantando entre a grama alta, ou alguma coruja piando ao longe no bosque a ser visto além das ruínas da construção. Pouco a pouco Harry avançou entre a grama que quase ocultava a trilha para pedestres e aproximou-se do que restou da casa, tirando do caminho as velhas faixas de isolamento do Ministério, que praticamente se desmancharam sob os seus dedos por estarem sendo castigadas pelo tempo nos últimos anos.

Harry pulou alguns escombros, entrando no que antes foi provavelmente o hall de entrada da mansão. Não dava para saber ao certo. Algumas paredes ainda estavam em pé, embora apenas partes delas, não havia mais janelas ou portas que dessem para identificar o que era entrada, o que era saída, o que era portas dos fundos ou de serviço. Harry presumiu ser o hall devido ao grande espaço aberto entre pedaços de colunas, mas era só isto. E Harry duvidava que fosse capaz de imaginar onde os cômodos da casa ficavam previamente, pois tudo parecia uma coisa só, mas de uma coisa ele se lembrava bem: o acesso as masmorras.

Mesmo que a mansão tenha ido pelos ares, o relatório do Ministério informou que a masmorra havia ficado relativamente inteira, por estar no subterrâneo, e ainda acessível por uma escadaria que a ligava ao térreo da casa, porém a sua estrutura também foi perigosamente abalada, portanto não era recomendado permanecer nela por muito tempo. Os aurores há época do ocorrido fizeram uma rápida varredura no local e saíram antes que as paredes desabassem de vez a sua volta, e toda vez que tentavam usar magia para estabilizá-las, para assim permitir um prolongamento do trabalho e da investigação, os feitiços sempre entravam em conflito com os resquícios do feitiço explosivo que ainda estava nas paredes, as tornando ainda mais instáveis e perigosas.

O relatório também apontou uma curiosidade: o feitiço que explodiu a casa foi ativado da masmorra, e enquanto o restante da construção foi para o espaço, o subterrâneo conseguiu manter-se de pé. De forma precária, verdade, mas de pé. Uma curiosidade cuja resposta concreta nunca foi encontrada.

A teoria? Draco usou a masmorra como proteção e rota de fuga depois de ter destruído a casa e assassinado a família.

O aviso do Ministério era o de não entrar na cena do crime que era a mansão Malfoy sem autorização prévia e acompanhamento de uma equipe especializada, em caso de ser necessário socorro e resgate imediato, mas Harry estava com pressa, precisava de respostas para ontem e seguir as regras nunca foi o seu forte mesmo, assim como ser sensato.

Logo, ele atravessou outra faixa de isolamento do Ministério e desceu as escadas que levavam à masmorra, sentindo os degraus de pedra praticamente esfarelarem sob o seu peso. O lugar não havia mudado muito desde a última vez que o vira, talvez um pouco mais queimado e mais sombrio. Sob a luz da varinha, as paredes de pedra chamuscadas não mostraram nada diferente do que Harry esperou encontrar, e a porta de ferro que dava acesso a grande cela estava toda retorcida, praticamente derretida, assim como alguns grilhões presos à uma das paredes.

Espera um momento? Grilhões?

Harry não se lembrava de haver grilhões na época em que foi prisioneiro ali. Apenas um amplo espaço, colunas e uma porta que levava a um corredor escurecido. Na verdade, na época pensou que a dita masmorra mais parecia um porão antigo e assustador do que uma prisão em si.

Harry atravessou o espaço rapidamente e lançou a luz da varinha sobre os grilhões. Eles estavam chamuscados, tortos, as correntes derretidas e as algemas enegrecidas, mas ele viu os traços familiares de um símbolo curioso. Um círculo com um pentagrama no meio. Harry franziu as sobrancelhas, largou as algemas e mirou a luz da varinha no chão chamuscado que pelo estava que encontrava-se, impossibilitava de ver as pedras que o formava, mas algo disse à ele que se raspasse a fuligem encontraria o mesmo símbolo dos grilhões entalhado naquele chão. E foi o que ele fez.

Com a ponta da lâmina de um canivete suíço que sempre carregava consigo, Harry raspou a fuligem até que a parte carbonizada se soltasse e deixasse à mostra a superfície da pedra e parte do símbolo que havia sido entalhado nela de maneira tão profunda, que havia sobrevivido até mesmo a uma explosão daquele porte.

— Malfoy, Malfoy, Malfoy, o que você estava aprontando? — murmurou para o espaço vazio e o som súbito do toque do seu celular o fez soltar um sonoro palavrão, ainda mais que a vibração fez poeira cair sobre os seus cabelos, o lembrando o quanto aquele local era instável e mantinha-se de pé por um milagre.

Ron e Harry eram uns dos poucos aurores do Ministério que usavam celular, pois achavam muito mais cômoda tal maneira de comunicação quando precisavam se separar em um caso. E o mais divertido era que apesar das suas primeiras experiências mal sucedidas com telefones, agora Ron compreendia a tecnologia trouxa melhor do que o próprio Harry, que cresceu cercada por ela.

— Me diga que você descobriu alguma coisa. — Harry disse sem nem ao menos ver o número no identificador de chamadas. Poucas pessoas tinham o seu contato e somente meia dúzia delas ligavam para ele em horário de trabalho. Por isso, do outro lado da linha, só poderia ser Ron.

— Daphne Greengrass não acha que Draco Malfoy seja o responsável pela morte da irmã e sobrinhos. — o amigo respondeu e essa informação era novidade para Harry. — E você? Descobriu algo?

— Maribel mentiu para nós. Ela conhece Draco, ao menos o suficiente para ensinar uma coisinha ou outra para ele.

— Como?

— Encontrei o mesmo símbolo que vimos na casa dela em grilhões retorcidos e sob a fuligem no chão da masmorra da mansão Malfoy. — Ron ficou em silêncio por um tempo enervante, o que preocupou Harry. — Ron?

— Eu vi o mesmo símbolo em um livro na casa da Daphne.

— Jura? E sabe o que é?

— Uma Armadilha do Diabo.

— Como é?

— Uma Armadilha do Diabo. — Ron repetiu, como se isto fosse o suficiente para Harry saber do que ele estava falando. Spoiler? Ele não sabia, claro.

— Eu te ouvi. O que eu quero saber é o que diabos é uma Armadilha do Diabo, sem trocadilhos. — o nome não lhe era estranho, mas Harry não conseguia lembrar onde o ouviu antes.

— Segundo Daphne, é uma armadilha usada para aprisionar e incapacitar demônios.

— Demônios?

— Sim.

— Do tipo cuspido dos quintos dos infernos, demônios?

— Acredito que sim.

Harry olhou novamente para a parte do símbolo entalhado no chão e suspirou.

Em que encrenca Draco Malfoy tinha se metido desta vez?

— Há mais uma coisa. — Ron continuou.

— O quê?

— Antes de visitar Greengrass eu passei na Divisão de Cooperação Judicial do Departamento e pedi para que eles repassassem para a polícia trouxa os dados sobre o carro de Astoria. O Land Rover estava listado sob os bens de propriedade dela, nos arquivos do Ministério. Eles entraram em contato comigo minutos atrás.

— E? — o coração de Harry começou a bater enlouquecidamente dentro do peito. Eles não poderiam ter dado tanta sorte, poderiam?

— O carro foi visto em Matlock. — Ron respondeu e Harry prendeu a respiração de ansiedade. — Há dez minutos e está sob monitoramento. Então, quanto tempo leva para você chegar ao Ministério? Há uma chave de portal nos esperando.

Harry nem ao menos deu tchau para Ron, simplesmente encerrou a ligação, antes mesmo que o amigo terminasse de falar, e desaparatou de onde estava, rumo ao Ministério da Magia.

Desta vez colocaria as mãos em Malfoy e descobriria o que, afinal, estava acontecendo.