SPINNER'S END, COKEWORTH – 14 anos antes

A palavra “deprimente” não era o suficiente para definir a situação de Draco naquele momento. E o fundo do poço, desse ele já tinha passado faz tempo.

Escondido na velha casa de Snape, em Spinner's End, Draco achava que até mesmo o clima estava confabulando com o seu humor tempestuoso, pois fazia uns três dias que Cokeworth não via nada além de água. E durante os breves intervalos entre uma chuva e outra, algumas crianças trouxas saíam para rua somente para pular bestamente em poças d'água e rirem da cara uma das outras.

Todas incrivelmente patéticas, na opinião hipócrita de Draco, pois os dias dele dividiam-se em observar a hora passar no velho relógio sobre a lareira, e rezar para qualquer entidade existente que a lábia de Snape fosse poderosa o suficiente para impedir que o Lorde das Trevas lançasse um Avada Kedavra sobre ele no momento em que o visse. E entre o tédio e o pavor, Draco não tinha mais nada o que fazer além de observar o movimento quase inexistente na rua que mostrava-se janela afora.

Estava confinado à casa e dela não poderia sair até que a “barra estivesse limpa”. Os livros que Snape possuía, e que serviam como única distração ao seu tédio infinito, eram uma mistura sem sentido de ensinamentos de poções, literatura bruxa e trouxa, e obras científicas. Draco achou que já aprendia poções o suficiente em Hogwarts para gastar o seu verão lendo mais sobre o assunto. Literatura nunca foi o seu forte, especialmente a trouxa, romances bregas e piegas eram mais o gosto de sua mãe, e textos científicos não eram processados pelo seu cérebro. Muito complexos e sempre lhe davam dor de cabeça depois da primeira linha lida.

Logo, à ele, restou somente observar a chuva cair, literalmente.

E foi observando a chuva cair que ele viu um movimento diferente na rua naquele dia, um carro entrou em Spinner's End cantando pneus ao virar a esquina e deslizou uns bons metros sobre a pista molhada, parando de maneira perpendicular a calçada em frente a casa oposta a de Snape. Por dois minutos o veículo ficou parado sob a chuva, sem os seus ocupantes se manifestarem, até que a porta do lado do carona se abriu e uma jovem saiu do carro aos tropeços e com o rosto pálido e olhos largos.

Draco franziu as sobrancelhas pois aquela garota que tinha acabado de bater a porta do carro ao sair de forma tão atabalhoada do veículo, lhe pareceu familiar.

Segundos depois da saída dela, a metade superior de um corpo surgiu sobre o teto do carro. Era uma outra jovem, que ria de forma aberta e disse algo à companheira que fez a garota de rosto pálido oferecer como resposta um gesto obsceno e tomar o caminho da casa, batendo os pés. A garota de cabelos escuros, e que Draco presumiu ser aquela que estava dirigindo o carro, seguiu a garota de cabelos mais claros e rosto pálido como cera de vela. Esta continuou seguindo o caminho de casa batento o pé e aos bufos, e a sua carranca ficou ainda mais aprofundada à medida em que andava e ouvia o que a motorista estava dizendo.

Draco as observou até elas sumirem pela porta de entrada da casa, as considerando o ponto alto daquele dia. E foi somente minutos depois delas desaparecessem para a proteção das paredes e teto daquela casa, que ele finalmente associou o nome a pessoa da passageira que deixou o veículo de forma cambaleante.

A jovem que lhe pareceu familiar, do cabelo claro, rosto pálido e expressão carrancuda ao ser debochada pela companheira, era Daphne Greengrass. Sonserina, frequentando o mesmo ano que ele em Hogwarts. A outra menina dos cabelos castanhos escuros, essa Draco não sabia quem era e a delegou para um canto escuro da sua mente, a considerando sem importância a ponto de não precisar em nenhum momento guardar uma lembrança que fosse dela.

Isto até que dois dias depois ele novamente a viu.

Desta vez a chuva tinha dado uma trégua mais longa, algumas horas ao invés de minutos, mas isso não impediu que Draco novamente testemunhasse o mesmo carro de antes entrar em Spinner's End como se o fogo do Inferno estivesse prestes a derreter os seus pneus, e parar com um gemido em frente a casa oposta de Snape.

Curioso, Draco entreabriu o vidro da janela, na esperança de captar uma conversa que fosse, qualquer coisa que o tirasse daquela monotonia sem fim.

Um minuto depois a porta do lado do passageiro se abriu e Daphne novamente saiu do veículo aos tropeços.

— Eu disse para desacelerar na curva, desacelerar, qual a parte disto você não entendeu? — Daphne resmungou e a outra menina surgiu mais uma vez por sobre o teto do carro, rindo do rosto pálido da companheira.

— Nunca a pintei como alguém de estômago fraco. Anda perdendo o tato irmã? — Irmã? Draco franziu a testa. Agora lembrava que Daphne possuía uma irmã mais nova, alguém que a levou a ser motivo de piadas na Sonserina, pois a garota havia ido parar na Corvinal. Entretanto, como em todas as outras vezes, Daphne permaneceu inabalada diante das provocações.

Greengrass era estranha desta maneira.

Quando foi selecionada para a Sonserina, fez pouco caso do assunto e quando descobriram que ela era uma mestiça, não se importou em nada com as palavras ácidas e preconceituosas dos colegas sangue puro. Draco foi um desses colegas. Na verdade, a única reação de Daphne para o comportamento hostil dos colegas de casa era um olhar de indiferença, e um sorriso que guardava grandes segredos, para mais tarde dar o troco de maneira imaginativa e cruel.

Quando Theo Nott acordou uma bela manhã sem nenhum cabelo na cabeça e no corpo, e com a pele um enjoativo tom de lilás, virando alvo de chacota da escola inteira, os sonserinos perceberam que Daphne era o tipo de pessoa que não fazia alarde, apenas esperava o momento certo para dar o bote.

Uma predadora genuína, pois o seu ataque sempre era silencioso, inesperado e mortal, uma verdadeira sonserina.

Após esse incidente, a ida da irmã dela para a Corvinal causou mais algumas piadas, mas nada de grande proporções e que despertasse o lado mais sádico de Daphne, e logo o assunto foi esquecido.

Draco, por exemplo, nunca se deu o trabalho de saber quem era a outra Greengrass que frequentava Hogwarts, raramente via Daphne na companhia da irmã dentro da propriedade da escola, e por isso nem sabia direito como era a menina fisicamente.

Agora, tendo apenas o tic-tac do relógio como distração, guardar as feições da caçula dos Greengrass pareceu ser uma boa maneira de passar o tempo.

— Vá se ferrar! — foi a resposta seca de Daphne e novamente ela foi em direção a casa batendo o pé. A irmã, cujo nome Draco não fazia ideia de qual era, riu mais uma vez e seguiu a garota mais velha até a casa. Logo as duas sumiram das vistas de Draco.

Com isto, saber da existência das Greengrass em Spinner's End, observá-las, tornou-se a nova rotina de Draco. Todos os dias, por volta das três da tarde, as irmãs saíam de casa e entravam no carro que depois de pesquisas, Draco descobriu se tratar de uma Land Rover Defender que deveria ser da década anterior, pois o motor roncava de maneira ensurdecedora cada vez que era dado a partida. Em seguida, o carro saía da rua em uma velocidade moderada, apenas para voltar uma hora e meia depois cantando pneus ao dobrar a esquina.

Daphne sempre descia do veículo resmungando com a irmã e entre uma reclamação e outra, Draco compreendeu que Astoria (finalmente descobriu o nome ao ouvir a colega sonserina gritá-lo em uma outra tarde) estava aprendendo a dirigir. Astoria como resposta ria e provocava a irmã, dizendo que ela tinha estômago fraco e nenhum senso de aventura. E observar as discussões das duas se tornou o novo passatempo de Draco e o fez esquecer que estava com a corda no pescoço e pronto para ser executado a qualquer momento. Isto até que Snape retornou a Spinner's End depois de semanas de ausência, com uma notícia que fez o coração de Draco parar no peito e descer para o estômago:

O Lorde das Trevas fizera da mansão Malfoy a sua nova base de operações e requisitou — leia-se exigiu — a presença de Draco nesta.

— Ele está desapontado por você não ter cumprido com a sua missão, mas o Lorde é caridoso e está disposto e lhe dar uma segunda chance. — Snape disse com uma expressão mais azeda do que de costume, o que não aliviou em nada o pavor de Draco.

Caridoso? Em que mundo o homem vivia? Draco teve experiências o suficiente com o Lorde das Trevas para saber que aceitar a maldita Marca Negra que queimava o seu braço havia sido a coisa mais estúpida que fizera. O problema é que digam o que quiserem, Lucius Malfoy não era o exemplo do ser humano perfeito, mas ainda sim era o seu pai. E Draco o amava, mesmo que agora quisesse esganá-lo por tê-lo colocado naquela roubada, mas ainda o amava.

— Prepare-se para partir em dois dias. — as palavras de Snape foram praticamente uma sentença de morte, o que não estava longe de ser verdade.

Por isso, naquela noite, Draco jogou ao vento a precaução e resolveu sair da casa, para respirar um ar que não fosse o ar mofado da sala de estar de Snape. Como já estava condenado mesmo, que diferença faria dar as caras na rua, mesmo que estivesse fazendo isto no meio da noite?

— Mas olha só quem resolveu dar as caras. — Draco pulou no lugar ao ouvir a voz e mirou olhos largos na criatura que surgiu ao seu lado na calçada e sentou no meio-fio, a poucos centímetros de distância dele. — Cansou de espionar pela janela e resolveu dar um oi?

Draco estava sem reação, pois não somente havia sido surpreendido enquanto estava perdido em pensamentos e lamúrias, mas também havia sido flagrado em seus momentos de espionagem indiscreta das irmãs Greengrass por ninguém mais, ninguém menos do que a própria Astoria Greengrass.

— Eu... — ele balbuciou, sem saber direito o que dizer e com o coração aos pulos. O confinamento na casa de Snape não era apenas para protegê-o dos Comensais desgostosos por ele ter falhado em sua missão, mas também do Ministério que deveria estar a sua caça por ter favorecido a entrada das forças do Lorde das Trevas em Hogwarts.

Astoria bufou, como se lesse na expressão pálida e surpresa dele os seus pensamentos.

— O Ministério caiu e está no controle de Você-Sabe-Quem. O professor Snape não te avisou? — ela indicou com o polegar a casa atrás deles e Draco apenas deu uma negativa abobalhada de cabeça.

Havia ficado isolado do mundo exterior por dias, sem saber o que acontecia ou deixava de acontecer no mundo mágico. Talvez fosse por isso que o Lorde das Trevas estava sendo “caridoso”. Já tinha derrotado Dumbledore e agora tinha o controle do Ministério, deveria estar feliz que nem pinto no lixo.

— É por isso que você está treinando para ser piloto de fuga? — ele disse a primeira coisa que o seu cérebro conseguiu bolar depois do choque de receber tal notícia, e apontou para o Land Rover estacionado do outro lado da rua. Astoria piscou grandes olhos verdes da cor de olivas, na direção de Draco, lançou um olhar para o carro e depois caiu na gargalhada.

— O carro é o meu presente de dezesseis anos. Meu pai o adquiriu no ano em que eu nasci e pretendia dá-lo para Daphne, mas ela não é muito fã de grandes veículos em movimento. Sabe dirigir, mas ainda sim prefere meios mais seguros como aparatar. Como se a possibilidade de deixar parte de você para trás ao se deslocar entre o espaço fosse realmente seguro. — Astoria desembestou a falar em um tom como se Draco e ela fossem amigos há décadas.

— Por que você está falando comigo? — ele perguntou surpreso, a interrompendo em seu tagarelar com tom de familiaridade. Astoria o estava tratando como se ele fosse mais um na multidão, como se não houvesse o sobrenome Malfoy pesando nas suas costas, a Marca Negra queimando-lhe o antebraço, ou acusações de assassinato ardendo-lhe os ouvidos.

— Porque se eu começasse a falar com o poste ao seu lado aí sim as pessoas me considerariam estranha? — Astoria respondeu com um dar de ombros displicente, para Draco que, se fosse ser bem sincero, já a achava estranha somente por causa dessa pequena interação que estavam tendo.

Embora não tivesse mais moral para intimidar ninguém, ainda sim o seu passado o condenava. Astoria esteve lá quando Hogwarts foi invadida por Comensais auxiliados por Draco, quando Dumbledore foi morto por Snape e quando ambos fugiram desembestados pelos terrenos da escola. Ela poderia não ter presenciado tudo de camarote, mas as novidades corriam rápido dentro do velho castelo e todos viram o corpo caído do diretor no pátio sob a Torre de Astronomia.

— Certo, certo. — ela bufou e rolou os olhos. — Eu tenho uma certa queda pelo perigo. — zombou e foi a vez de Draco bufar em desagrado.

— Se me acha perigoso não deveria correr para a sua mãe trouxa pedindo por abrigo? — ele disse em um tom de desdém, enfatizando o trouxa como se essa fosse uma palavra feia, e Astoria gargalhou.

— Bebê, se eu for até a minha mãe reclamar que o grande e malvado Comensal me ameaçou, você estaria fodido. — Draco piscou repetidamente diante do palavrão. — Tsc, vocês sangue-puros e a sua educação de lorde inglês. Que desperdício. — e Astoria disse sangue-puro no mesmo tom de desprezo que Draco havia dito trouxa.

— Você não regula bem. — ele falou, surpreso, e novamente Astoria riu.

— Você não é o primeiro a me dizer isto mas – ela respondeu e deu um tapa na testa, como se subitamente lembrasse de algo. — que indelicadeza a minha, eu sou Astoria Greengrass. — apresentou-se e ofereceu uma mão em um cumprimento, mão essa que Draco olhou por vários segundos antes de recebê-la.

— Draco Malfoy.

— Draco Malfoy. Sonserino, Comensal da Morte e fugitivo da justiça. Há algo mais que eu precise saber antes de prosseguirmos com a nossa conversa? — Astoria falou de maneira tão casual que Draco mais uma vez piscou bestamente para ela.

Os Greengrass realmente eram estranhos, porque aonde em Daphne reinava a indiferença, em Astoria reinava a insanidade. Conversar com ela estava sendo o mesmo que observar um pomo de ouro voar enlouquecido por um campo de Quadribol: você nunca iria saber que direção ele iria tomar e se não ficasse atento acabaria ficando tonto e caindo da vassoura.

— Você esqueceu o extremamente charmoso e rico. — Draco gracejou e a viu olhá-lo de cima a baixo, como se o avaliasse.

— Nah! Rico pode ser, mas o charmoso? Há de se contestar. — e desta vez foi Draco quem riu.

Estava com a corda no pescoço, prestes a voltar para o seu lar ancestral, agora sob o comando do psicopata mais temido do mundo bruxo, e gastava a sua última noite de liberdade sentado em uma calçada fria, conversando com uma menina que até horas atrás ele costumava espionar pela janela da sala de Snape. E o mais interessante era que, onde no passado ele desprezaria qualquer contato que fosse com uma Corvinal mestiça, hoje a presença dela era mais do que bem vinda.

Astoria estava o ajudando a esquecer, mesmo que por algumas horas, os seus erros, os seus arrependimentos e o fato de que estava condenado.