A Canção de Morgana

30 Sobre Natal, Corpos e Cabeças


Notas iniciais
Voltei pra postar o cap de Natal antes que vire o ano =) Boa Leitura! (E depois leiam minhas desculpas nas notas finais)


“Você não entede –
existem coisas pelas quais vale a pena morrer!”

— Sirius Black, Prisioneiro de Azkaban

— Seja bem vinda, senhorita Black — disse o elfo mais horrendo que Bervely já vira, se curvando até que o seu longo nariz raspasse os dedos dos pés, ao recebê-la na porta da casa número 12 de Grimmauld Place. — O mestre Regulus a aguarda na sala de estudos.

Bervely deixou o elfo recolher o seu casaco, em seguida o acompanhou através do hall de entrada, os olhos bebendo cada detalhe que podia alcançar; as luzes bruxuleantes de candeeiros seculares que iluminavam quadros da família, cujas molduras cintilavam recém polidas, o majestoso candelabro em formato de serpente, pendendo no teto de trinta pés de altura, feito de prata lavrada por duendes. Havia um aroma impregnado de antiguidade e tradição no ar que fazia seus pulmões cantarem.

— Por aqui, senhorita — o elfo indicou uma curva antes da escada. Bervely só teve um vislumbre muito rápido da célebre coleção de elfos decapitados de sua tataratia-avó Elladora Black, distribuídos no começo da escada, antes de fazer a curva.

Haviam duas portas e o elfo a indicou a da esquerda. Com um aceno de sua mãozinha esquálida, as portas duplas de ébano brilhante se abriram, revelando uma sala ampla, de teto igualmente alto, com uma suntuosa decoração georgiana, incluindo um piano de cauda negro, uma massiva lareira em cada extremidade e uma das maiores estantes de livros que Bervely já vira dentro de uma casa.

Foi lá que ela avistou Regulus Black, o qual ergueu os olhos de um livro para olhá-la quando a jovem bruxa entrou:

— Então conseguiu localizar o endereço trouxa sem problemas? Estou impressionado.

— Tenho bom senso de localização — ela respondeu com só um pouco de arrogância, ainda ocupada em beber cada aspecto daquela sala que seus olhos eram capazes. Havia, de novo, um massivo candelabro no teto, esse ainda maior que o do hall de entrada, com armação em formato tradicional de arabescos e cristais talhados em octógonos. Retiniam como joias, cada um parecia ter sido esfregado até brilhar.

— Obrigado, Monstro — disse Regulus educadamente, dispensando o elfo doméstico. — Como pode ver, Monstro fez um bom trabalho. Acho que ele estava precisando de um encorajamento para se esmerar na limpeza, desde o falecimento de mamãe.

Bervely finalmente prestou atenção em Regulus; era curioso como, em sua palidez e cachos negros, ele fazia par com a sala de estudo da anciente casa dos Black. Para completar, vestia um paletó azul marinho muito bem cortado, adornado com botões de ouro, a lapela bordada em padrões arcaicos que ela reconheceu vagamente como runas célticas. Ela teve que sorrir para aquela caracterização.

— São suas roupas do dia do retrato de família?

Ele deu de ombros, sem se deixar abalar pelo tom de zombaria dela.

— Achei algumas das minhas roupas antigas no meu antigo quarto. Monstro as preservou com esmero obsessivo nos últimos quinze anos… nada melhor do que ser o filho preferido.

Bervely se distraíra de novo; acabara de ver livros conhecidos na seleção das prateleiras atrás dele. Regulus estivera folheando Raízes Negras – Magia Familiar Ancestral. Aquele livro era citado muitas vezes no Signo Negro, mas o único exemplar de que se tinha conhecimento residia em posse da família Black, ou seja, ali mesmo.

— Você parece bem — ela ouviu a voz dele por cima do ombro, um elogio educado. Bervely sorriu para o livro, o rosto oculto pelo cabelo que escorregara da bochecha. Tinha alongado o seu cabelo especialmente para aquela noite, logo abaixo dos ombros, e estava usando um suéter vermelho de gola alta, uma cor que ela escolhera porque esperava influenciar positivamente na boa-vontade dos Grifinórios da família.

— Obrigada. Você também não está nada mal.

— Olha só, ela sabe ser gentil.

Bervely ignorou a alfinetada, caminhando até o grande piano que tomava quase um terço da sala. Era magnífico; o tampo negro também reluzia, sem nenhum indício de poeira, certamente encantado pelo elfo-doméstico para repelir partículas de qualquer sorte. As teclas de marfim estavam perfeitamente alinhadas, parecendo dentes de uma criatura enorme. Ela tocou uma das teclas, a qual emitiu uma única nota aguda e limpa, reverberando pela sala.

— Você toca? — Ele perguntou, curioso.

— Não — Bervely se afastou do piano. — Meu primo tocava…

— Primo? Não de primeiro grau, imagino?

— Longa história — ela dispensou o assunto, dando a volta num dos dois sofás enormes que faziam par, revestidos de cetim negro e dourado, até as prateleiras cobertas de vidro do outro lado. Estavam vazias, notou, surpresa.

— Parece que a Ordem da Fênix andou fazendo uma limpa na casa no ano passado — Regulus explicou, o tom beirando a resignação. — Também não achei a prataria da família na sala de jantar… Ah, Monstro teve muito a falar à respeito, Merlin sabe que precisei ouvir cada palavra de seu profundo descontentamento.

— A prataria foi contrabandeada, ouvi dizer — ela suspirou insatisfeita.

— Não tem problema, mandei encomendar uma nova para o almoço de vocês. Ainda é prata lavrada, mas sem o brasão da família, não ia dar tempo de enfeitiça-lo como manda o figurino num prazo tão curto — completou em tom de desculpas.

— Não tem problema — ela se virou para ele com um sorriso contido. — Depois me diga quanto custou isso tudo, vou reembolsá-lo.

— Não tem necessidade — ele fez um gesto de pouco caso com a mão. — Então, será que posso apresentá-la aos outros cômodos?

Bervely, que estivera admirando os adornos sobre a lareira, um intricado trabalho que envolvia corvos e caveiras entrelaçados ao lema da família, sentiu um retorcimento de excitação no estômago.

— Se você não for tomar demais do seu tempo.

— Será um prazer — ele sorriu seu sorriso pontudo para ela. — Acho que a casa nunca recebeu tanta atenção de alguém desde que meus pais estavam vivos.

Regulus a guiou de volta para o corredor, indicando a porta do outro lado, alinhada à da sala de estudos, onde ficava a sala de jantar. Os tons dessa vez eram um rico verde escuro e negro, recobrindo as paredes do chão até o teto. A mesa de mogno de doze lugares parecia não ter fim, e o candelabro sobre ela, uma obra de arte em vidro e cristal, era formado de doze cúpulas invertidas de diferentes tamanhos, cada uma abrigando uma vela perpétua em seu interior. A parede oposta era coberta de longos espelhos sobrepostos do chão ao teto, duplicando a opulência da sala. Bervely notou pelo espelho o quanto destoava fortemente do esquema de cores, com seu pulôver vermelho-sangue, enquanto Regulus se camuflava quase como parte da decoração.

A mesa estava posta para uma refeição completa; pratos de sopa, entrada, prato principal e sobremesa, taças de vinho branco, água e champagne, jogos de talheres para salada, peixe e sobremesa, guardanapos de seda bordados, envolvidos em anéis reluzentes de prata. Ela sentiu um sorriso involuntário se formar no rosto; nem se lembrava da última vez que sentara em uma mesa como aquela, mas a perspectiva de experienciar mais uma vez um almoço de natal como se deve a encheu de expectativa.

— Está do seu agrado? — Regulus perguntou a menos de um metro atrás dela, um sopro frio em sua nuca.

— Perfeito — o sorriso dela cresceu ao olhar para ele. — Como conseguiu convencer o elfo a fazer tudo isso? Sirius me disse que ele sempre foi extremamente… relutante em colaborar.

— Não quando as ordens vem do seu membro preferido da família — ele lhe deu uma piscadela. — Além do mais, eu disse a ele que neste natal estaria servindo a nova geração da pura realeza Black.

— Você mentiu para ele? — Ela achou graça. — Não tem um lugar especial no quinto anel do inferno pra gente que mente pro elfo doméstico?

— Não é nenhuma mentira. Você é a nova geração da realeza Black, se lembra? Sangue extra-puro por cinco gerações, três incestos em sua árvore genealógica e contando

Bervely sentiu o rosto esquentar com o elogio embutido em seu comentário irônico. Regulus fez um gesto em direção à porta da sala de refeições:

— Pronta para o segundo andar?

Bervely assentiu, contendo um estremecimento de excitação. Tinham quatro andares pela frente. Se aquele não era o dia mais feliz dos últimos tempos de sua vida, não sabia mais o que seria.

Ao subirem a escada, Regulus lhe apresentou em voz baixa a cada um dos elfos decapitados da escada, dos quais ele aprendera os nomes quando era criança. A maior aspiração de Monstro era ter a honra de ter a cabeça incluída na coleção; como nunca procriara, seria o último da sua linhagem a servir à família Black, de acordo com Regulus. A última peça da coleção.

— Talvez ainda dê tempo de lhe arranjar uma namorada — Bervely comentou com sarcasmo, mas Regulus fez um sinal para que ela diminuísse o tom de voz, apontando para pesadas cortinas em frente às escadas.

— Fale baixo, não queremos acordar mamãe.

— Sua mãe está ali atrás? Em forma de inferi, ou…

— Não seja absurda, em forma de quadro. Como eu previa, ela não ficou muito feliz quando descobriu o que me tornei… sua insatisfação pode ficar meio barulhenta de tempos em tempos.

Eles subiram as escadas e Regulus lhe mostrou o quarto de visitas, que tinha duas camas e um papel de parede listrado que já vira dias melhores. Era um quarto opressivo e sem janelas, com um quadro vazio na parede, que no entanto roncava sonoramente.

— Aquele é o quadro de tio Nigellus; tem um par que fica em Hogwarts, ele foi diretor certa vez. Costumava ficar na sala de estudos, se bem me lembro, se metendo em todas as conversas da família, deve ser por isso que a Ordem o enfiou aqui, para não ficar bisbilhotando.

Regulus ignorou as portas de vidro chanfrado no corredor. Quando Bervely fez menção de tocar a maçaneta, ele a impediu com uma expressão arteira.

— Essa fica para o fim. Venha, quero lhe mostrar os demais quartos. Pedi para Monstro fazer algumas modificações no plano e na decoração de acordo com quem iria ocupá-lo.

Você cuidou da decoração? — Bervely zombou sem lhe dar crédito, mas Regulus não se abalou.

— Mamãe tinha obsessão com decoração, aprendi uma coisa ou outra ao longo do tempo.

No segundo andar ficava o quarto que ele decidira atribuir à Nymphadora. Tinha cores claras, cinza pálido e champagne. O papel de parede, relativamente conservado, era floral e delicado. Bervely podia até ouvir a prima reclamando que era ‘frescurento demais’ pro seu gosto.

— Era o quarto de Narcissa, quando ela e as irmãs vieram morar conosco — ele explicou. — Ela ganhou um quarto só para si porque era a mais velha, e Andrômeda e Bella eram supostas a dividir o quarto do terceiro andar, o que obviamente quase resultou numa guerra civil. Finalmente, Andrômeda decidiu reivindicar o sótão para ela e Bella ficou sozinha no quarto de cima.

O antigo quarto reivindicado por Bellatrix ficava no terceiro andar, logo em frente às escadas. A primeira coisa que se via, ao entrar, era uma cama gótica massiva com dóssel de treze pés de altura, talhada em uma madeira vinho majestosa que Bervely não reconheceu. Cortinas pesadas de um cinza lustroso, bordadas de cima à baixo, cintilavam à luz difusa da janela de vitral comprida. Atrás da cama havia uma intricada tapeçaria em tons mais claros – azuis, rosas, beges e verdes desbotados.

— É madeira de roseira-brava — Regulus explicou, vendo-a acariciar um dos postes luzidios e suaves ao toque. — Foi um presente do meu pai para Bella em seu aniversário de dezesseis anos; ela odiava dormir numa das camas do beliche que dividia antes com Andrômeda.

Bervely foi olhar o papel de parede de perto, impressionada. Era o retrato de um jardim primaveril frondoso; podia reconhecer diversas plantas mágicas que usava em suas poções ali. Algumas plantas se contorciam suavemente em resposta quando seus dedos as tocavam.

— Gosta desse? — Regulus perguntou curioso, atrás dela. — Pensei que poderia ficar com este. Pedi a Monstro para restaurar o papel de parede, estava todo roído por pufosos.

— Eu poderia — Ela concordou, um nó na garganta deixando a voz emperrada.

— Se quiser. Ou então, pode ficar com o quarto de visitas, só não vai bagunçar com o meu planejamento, os outros já tem dono.

Ela deixou o quarto sem lhe dignar resposta; não só porque ele estava tentando ser engraçadinho, mas porque ela não conseguiria fazer a sua voz funcionar de qualquer maneira.

Naquele andar também ficava o maior quarto da casa, no qual ela entrou em seguida: tinha duas vezes o tamanho do anterior, e a cor predominante era negro, com nuances de prata e alguns acentos inesperados de laranja em almofadas e numa luminária extravagante ao lado da cama. Os móveis eram de mogno negro brilhante, o papel de parede preto e prata e o candelabro inspirado numa teia de aranha, com pêndulos negros sobre a cama king size.

Bervely deu alguns passos pelo quarto, mesmerizada. As janelas massivas tinham vista para um jardim, o que só podia se tratar de um feitiço de ilusão, já que não havia jardim nenhum ao redor da casa. No lado oposto do quarto, passado o guarda-roupas, ela viu…

— Isso é uma banheira? — perguntou com incredulidade. A banheira de porcelana negra, grande o suficiente para caber duas pessoas com folga, ficava bem do meio da segunda “ala” do quarto, bem em frente a um grandioso espelho.

— Eu pedi ao Monstro para dar uma modernizada no quarto, mas acho que essa peça é original. Suspeito que meus pais não passavam de uns pervertidos…

— Esse é o quarto principal, lógico que é — Bervely se deu conta. Órion e Walburga Black, os pais de Sirius e Regulus, teriam dormido ali ao longo de sua vida. Lera sobre eles… bebera suas histórias como as de muitos outros Black antes de o Signo Negro ser destruído.

— Achei que Sirius ia gostar de ficar com esse — Regulus explicou. — Ele sempre odiou o próprio quarto no quarto andar, resmungava que era muito apertado e não tinha uma janela decente. Acho que esse aqui vai ser grande o bastante.

Ela ainda estava sem fala, agora encarando o massivo espelho na parede. A moldura trabalhada em camadas tinha um nível de detalhes perturbador, parecia viva.

— Eu pus Harry e Anne lá em cima — disse ele, quando subiam as escadas para o último andar da casa. — Como você pediu, cada um ficou com um quarto. Achei que Potter ia gostar de herdar a decoração espalhafatosa de Sirius — completou com uma pontinha de bem-humorado desgosto.

Bervely entendeu o que ele queria dizer quando entrou no quarto da esquerda; a primeira coisa que viu foi uma bandeira enorme da Grifinória grudada na parede. O quarto era aconchegante; uma cama enorme, uma lareira, um guarda-roupas… tudo que Potter tinha tido, até onde ela sabia, fora um armário na infância e um quarto compartilhado, então esse ia ter de deixá-lo feliz.

O último quarto era de Anne; cinza claro e lilás, com uma colcha de aparência macia e um móbile de pássaros no teto, que voavam de verdade. Ela também tinha papel de parede – de listras azuis desbotadas – e um brasão da família Black sobre a cama. Era o único quarto em que Bervely se lembrava de ter visto mobília marrom, e também havia um espelho grande sobre a penteadeira, além de sete gavetas espaçosas.

— Eu acho que ela vai gostar — aprovou, reparando que a janela dava uma vista para a torre de uma igreja, na praça central de Grimmauld Place – De quem era esse?

— Costumava ser o meu. Havia um grande brasão da Sonserina ao lado do brasão da família, mas pedi para o Monstro retirar. Ela não é sonserina, é?

— Não – Bervely sentiu a antiga desaprovação aflorar. — Nem me faça começar a falar disso. Escuta, Regulus, o que você fez aqui, quero dizer, com a cara como um todo…

— Ainda não — ele a impediu, com um sorriso no rosto de quem estava aprontando alguma. — Vamos voltar ao primeiro andar para ver aquela última sala que pulamos.

Bervely obedeceu em silêncio, intrigada. Quando desceram todos os lances de escada até lá, Regulus abriu a porta para que ela entrasse. Se tratava de uma sala triangular enorme, do mesmo tamanho que o quarto principal. Mas, ali as paredes eram verde-oliva, recobertas por uma tapeçaria riquíssima em detalhes, cheias de nuances de dourado. Ainda havia, como sempre, um lustre ostentoso no centro da sala – esse imitando galhos e vinhas, com os cristais em formato de folhas e frutos – e ainda um carpete recém-limpo e uma lareira cravada na parede do outro lado, tão grande que caberia Bervely de pé sem esforço.

Mas, foi a tapeçaria que encheu-lhe os olhos, no minuto em que percebeu do que se tratava. No topo e na base da parede, em faixas claras decoradas com uma caligrafia rebuscada, lia-se “En Stirps Nobilis et Gens Antiquissima Black’ – A Antiquíssima e Nobre Genealogia Black.

Já a vira, é claro – em ilustrações do Signo Negro que não faziam jus à sua magnificência. Ali estavam mais de setecentos anos de linhagem Black; todos os casamentos, alianças, herdeiros, história… Bervely sentiu os olhos pinicarem de emoção.

— Sirius comentou que você é meio obsessiva com as coisas da família. Palavras dele, não minhas.

— Calado — Bervely se aproximou da tapeçaria em passos lentos, com a devida reverência. Aquela árvore… era viva. Os feitiços impregnados naquela tapeçaria eram mais velhos que o tempo, alimentando o registro de nascimentos e morte da família, sobrevivendo à traições, à caça às bruxas que a certa altura quase dizimara a linhagem dos Black, não fossem os irmãos gêmeos Ursa e Pollux Black, que após várias tentativas conseguiram gerar prole sadia…

Bervely localizou a extremidade da árvore, onde os nomes de Bellatrix e Narcissa estavam; ambas retratadas jovens e belas, com a aparência de seus vinte anos. Havia uma queimadura entre elas – Andrômeda – e uma linha dupla ligando os nomes de Bellatrix à Rodolphus Lestrange – sem filhos. Outra queimadura, ainda maior, dizimara o nome de Sirius mais à esquerda; no entanto o de Regulus, ao seu lado, ainda existia, com a sua data de morte em 1980. O rosto que olhava para ela da tapeçaria era idêntico ao do Regulus real, ao seu lado.

— Isso aí embaçando os seus olhos… – ele começou num tom de riso.

— Eu disse: calado— ela repetiu, as palavras curtas para não denunciar a voz embargada. A tapeçaria da família Black tinha um valor incomensurável; depois que tinha fugido da família Malfoy, e que Bellatrix a rejeitara em Azkaban, ela pensara que nunca mais teria a chance de vê-la pessoalmente.

Regulus pousou uma mão fria em seu ombro; ela, que nem se dera conta de que ele estava tão perto, se sobressaltou com o contato inesperado.

— Você não está nela — ele pontuou.

Bervely aprumou os ombros.

— Acho que a árvore não reconhece o meu nascimento, por ter sido fora do casamento.

— Bobagem — Regulus rejeitou com graça. — Nem todas as proles nobres dessa família foram concebidas através de um casamento legítimo, não importa o que lhe digam. Mas, ao contrário do que se pensa, a árvore não adivinha que houve um nascimento, ela precisa ser avisada.

— Como assim? — Bervely estava confusa. Aquilo não ia de acordo com o que ela lera, mas admitia que os critérios da árvore genealógica para “reconhecer” nascimentos eram pouco claras no Signo Negro.

— Há uma cerimônia que deve acontecer no dia do batismo de cada criança Black, chamada de Colheita. Aqui, me dê a sua mão, vou lhe mostrar.

Ela hesitou, mas deixou Regulus recolher a sua mão na palma fria dele, com a sua própria palma para cima e o coração batendo rápido.

— Vou precisar tirar um pouco de sangue — comunicou, com uma expressão solene. – Prometo que não vou me aproveitar.

Ela assentiu, assistindo com um arrepio a percorrer sua coluna, ele levar o seu dedo indicador até o canino superior esquerdo, entre os lábios entreabertos. Regulus pressionou a presa afiada na ponta macia do seu indicador. Ela sentiu uma dor aguda quando a pele se rompeu, depois o calor do próprio sangue fluindo para fora. Regulus então moveu a mão dela em direção à tapeçaria – uma gota de sangue agora brotando na ponta do dedo latejante – e o pressionou sobre a imagem de Bellatrix Lestrange. De canto de olho, ela o viu lamber discretamente os lábios, enquanto que na parede, a tapeçaria absorvia a sua gota de sangue.

— Tradicionalmente usaria-se uma agulha de prata encantada – ele explicou, rouco, ao lado dela. — Mas acho que todas as agulhas de Colheita foram levadas da casa também.

Bervely não estava ouvindo; assistia, hipnotizada, uma linha única brotar de Bellatrix Lestrange até uma parte mais abaixo da tapeçaria – na mesma direção onde estava o nome de Draco, um pouco à direita – e algumas folhas e ramos se afastarem para dar lugar a uma representação do seu rosto, exatamente como ela se parecia agora, e logo abaixo, ao seu nome.

Como—?

— Feitiços muito complexos de reconhecimento de sangue, não me pergunte – ele disse, com um rancor de quem um dia fora requerido a aprender aquele tipo de coisa sem muito sucesso. – O feitiço não irá ligá-la a Sirius porque ele, oficialmente, não faz mais parte da família.

Bervely estava sentindo uma coisa estranha no peito, misto de falta de ar e um balão se inflando. Ela olhou para Regulus, sem palavras.

— Eu tive a impressão de que esse seria um presente de Natal que você apreciaria — ele disse com inocência fingida. — Feliz natal, sobrinha.

Ela piscou, ainda flutuando uns três pés acima do chão. Quando achou a voz de novo, tratou de ser educada.

— Obrigada. Eu não tenho nada para você.

— Vou guardar a sua expressão como meu presente — ele riu. — E, ah, boas vindas à família, acho? Talvez seja um pouco tarde pra isso e eu não seja a melhor pessoa para tal, mas ao menos agora a casa a reconhecerá como herdeira e Monstro obedecerá às suas ordens. O que significa que, se você não tiver nenhuma pergunta para mim, já posso ir embora.

— Quê? — Bervely foi arrebatada daquela nuvem em que estava direto para o chão duro da realidade. – Embora para onde?

— Você entende que eu não brotei de um buraco no chão no dia em que nos conhecemos, não é? Que eu tenho uma existência independente, que eu moro em um lugar e faço coisas–

— Você devia ficar — ela o interrompeu. Quando ficou claro que não tinha feito muito sentido, respirou fundo, se aprumando. – Fique para o natal. Sirius iria gostar de ter você conosco.

Regulus a olhou longamente, duvidoso.

— Nem tenho certeza que você vai convencer Sirius a vir aqui hoje. Ele sempre odiou esse lugar, sabe. Ele literalmente fugiu daqui na primeira chance que teve.

— É diferente agora — ela insistiu. — Ele vai vir pela família dele, e vai ficar ainda mais feliz se você passar o natal conosco.

— Vampiros não celebram o Natal, tradicionalmente falando.

— Blacks celebram — ela teimou. — Regulus, você fez tudo isso com a casa… não vai conseguir me convencer que não tem um carinho especial por esse lugar. Além do mais, é só mais um dia, e depois vai estar livre da gente.

Ele deu um suspiro de falsa consternação.

— Se você promete que depois vou estar livre de vocês – disse sério, embora houvesse uma faísca de riso nos olhos fendados.

Bervely assentiu, mostrando a ponta do dedo indicador pra ele, que ainda sangrava um pouquinho.

— Promessa de sangue.

***

As coisas não estava indo como Bervely planejara. Para começar, seus convidados estavam meia hora atrasados.

— Tem certeza que a lareira está ligada à rede de flú? A Ordem da Fênix pode ter pedido para desligar por razões de segurança.

— Está funcionando — Regulus lhe assegurou, sentado do outro lado da sala ampla com Raízes Negras em uma mão, alguma bebida que Monstro tinha preparado para ele na outra. A cor era de um suspeito vermelho iridescente. — Eu mesmo mandei Monstro verificar. Elfos têm meios especiais para isso.

— “Meios especiais” — Bervely bufou, por nenhuma razão a não ser a sua rabugice. Monstro não deixara nada a desejar; ele tinha sido minucioso com a limpeza e tornara a casa impecável, mas ela lhe pedira para ficar fora de vista quando todo mundo chegasse, e com isso os resmungos do elfo haviam recomeçado.

As chamas da lareira finalmente se tornaram verde-esmeralda. Depois disso, um por um, seus convidados foram saindo dela, meio empoeirados. Remus, Harry, Anne, e por último, com uma carranca enorme, Sirius.

— Qual foi a demora? — Ela reclamou para o grupo, que estava se espanando e ao mesmo tempo olhando ao redor, desconfiados.

— Seu prezado pai — Remus reclamou, olhando feio para Sirius. – Literalmente se acorrentou à mesa da cozinha para não vir. Correntes auto-regenerantes, só Merlin sabe onde as conseguiu.

Sirius tinha o brilho amuado característico de quando era contrariado, e é claro que toda a sua consternação foi dirigida para Bervely no segundo em que a viu ali parada, toda senhora da situação.

— Tem seu dedo nisso, não tem? — Ele acusou. – Quem foi que lhe deu permissão de entrar aqui? Essa merda de casa é minha.

— Não desde a sua viagem através do véu — ela o relembrou. Lembre-se que o Ministério a transferiu para a sua herdeira viva mais próxima registrada, ou seja, Anne – a garota, ao ser mencionada, ergueu as sobrancelhas, já pronta para negar envolvimento no crime, mas Bervely continuou: – O guardião legal dela é Remus, portanto é dele a autorização que preciso, e que ele concedeu de bom grado quando solicitado.

— Você me pediu autorização para reformar a casa — Remus se adiantou, ao mesmo tempo em que Sirius transferia para ele o seu olhar ferido. – Não para nos arrastar aqui! Isso eu só fiquei sabendo ontem à noite por Dora – ele completou, dessa vez para Sirius.

— Mas a casa foi reformada, o elfo a reformou sob supervisão de Regulus, sem o qual nada disso teria sido possível – ela disse com um floreio na direção dele. A maioria deles só se deu conta que Regulus estava ali quando ela o mencionou, tal era o nível com o qual ele se mesclava ao pano de fundo.

O vampiro lhes deu um tchauzinho despreocupado.

— Não me olhe desse jeito, Sirius, eu só estava atendendo um pedido da sua filha — ele disse, dando de ombros. — Além do mais achei boa a ideia de Bervely celebrar o natal aqui, se me perguntarem.

— Só que ninguém está lhe perguntando, está? — Sirius rebateu, numa rara expressão de antagonismo ao irmão retornado dos mortos. — E é claro que você acharia, você sempre gostou de viver nesse pedaço de inferno, antes de bater as botas!

— CERTO – exclamou Bervely, irritada, prevendo que os ânimos não estavam exatamente como ela esperava que estivessem para aquele começo de Natal – Ninguém é obrigado a ficar, só achei que essa família merecia a droga de um natal que se prezasse, todo mundo junto, uma vez na vida. Nunca tivemos um, e só Merlin sabe se todo mundo vai sobreviver ao próximo! Então, ótimo, se mandem se quiser, mas depois não se arrependam.

— Mas poderíamos fazer isso na Casa dos Gritos como planej–

— AQUILO NÃO É UMA CASA! — ela bradou. Até Sirius, que estava pronto a defender seus princípios até o fim, se calou com a intensidade do brado dela. Bervely pigarreou, percebendo que cativara a atenção de todo mundo. — Aquele casebre caindo aos pedaços, que não tem uma peça de mobília que não parece que foi atacada por um animal selvagem, não é uma casa decente. Eu me recuso a passar o meu natal naquele lugar.

— Eu concordo com Bervely — disse Remus, para a surpresa geral. Ele parecia noventa por centro decidido e só dez por cento constrangido pelo seu posicionamento. – Por mais que a Casa dos Gritos tenha nos servido como um bom refúgio e sede até agora, eu não gostaria de passar o Natal lá, se pudesse evitar. Não é lá que estão as minhas melhores lembranças, realmente.

— Por que até parece que eu tenho alguma boa daqui – Sirius rosnou com zombaria ácida.

— Ah, já chega com o drama, Sirius — Regulus rolou os olhos para o irmão mais velho. – Antes de você virar um adolescente rebelde e resolver que odiava a família toda, eu lembro de você se divertindo, infernizando a vida de nossas primas, dos elfos domésticos e do ghoul do sótão.

Sirius fuzilou Regulus com o olhar, mas o vampiro estava invicto, e tranquilamente voltou à sua leitura. Bervely encarou a família de novo, de braços cruzados.

— Então? Quem mais é a favor de Grimmauld Place, em lugar da Casa dos Gritos? — Ela levantou a própria mão no ar, impositiva; Regulus levantou a dele, sem desviar os olhos do livro, e Remus e Anne também, só porque queriam pôr um fim rápido àquela manifestação desnecessariamente dramática. Harry, que pareceu tomar as dores do padrinho e não queria comprar briga com ninguém, permaneceu com as mãos nos bolsos, se fingindo de invisível. — Ótimo, estamos em maioria. Remus, se você trouxe os presentes, pode colocar ali no pé da lareira, e quem mais os tiver, vamos fazer a troca em uma hora, ou quando Nymphadora der as caras.

Uma vez decidido que ficariam, Regulus foi para a cozinha pedir a Monstro que decorasse para o Natal: com estalos de seus dedos miúdos, ramos de azevinhos, laços dourados e vermelhos e fadinhas de natal foram distribuídos pela casa, e uma enorme árvore brotou na sala de estudos. O elfo também acendeu as duas lareiras, mas Bervely o ouviu resmungando algo como “traidores imundos de volta à casa da minha senhora… monstro foi enganado, Monstro foi feito acreditar que seriam merecedores…”

— Não se preocupe, ele vai superar — Regulus a tranquilizou, quando viu Bervely olhar preocupada para onde o elfo tinha saído.

— Espero que o jeito dele de superar não seja nos envenenando.

— Bem pensado – o vampiro concordou, e foi proibir Monstro expressamente de envenenar a comida.

Quando as lareiras já estavam crepitando e os presentes espalhados na base da árvore da sala de estar, o grupo pareceu um pouquinho mais conformado em ficar – afinal era preciso admitir que a sala era mais aconchegante do que a crua sala e decadente sala de estar da Casa dos Gritos. Bervely foi até a estante de livros, procurando entre a sessão de música por um que pudesse encantar para que as partituras fossem tocadas no piano, quando Sirius se aproximou dela, ainda um pouco resignado.

— Como conseguiram restaurar a casa desse jeito? Da última vez que estivemos aqui levou uns cinco dias só para deixá-la habitável.

— Monstro gosta de Regulus – ela lhe informou sem interromper sua tarefa.

— Fico feliz em ver que estão se dando bem – ele disse, em tom mais baixo. Primeiro Bervely achou que ele se referia à ela e Monstro, o que não fazia nenhum sentido, então notou que Sirius queria dizer Regulus. – Por um momento naquele dia na Casa dos Gritos, achei que vocês seriam inimigos mortais.

— Estamos entrando em termos — ela o informou, impassível. Do outro lado da sala, ainda no sofá mas agora conversando com Remus, Regulus era a imagem da elegante perdição. Mas ele era seu tio, lembrou a si mesma. – Ele ganhou um ponto ou outro pelo que fez pela casa.

— Foi por isso que o convidou para ficar? – Sirius sondou, curioso.

— Convidei porque achei que você ia gostar de tê-lo aqui – ela rebateu. – E ser menos um bastardo ingrato.

— Uau, “bastardo ingrato”. Você andou conversando com o quadro da minha querida mãe, por acaso?

Bervely rolou os olhos, mas dava para ver que Sirius estava num humor melhor, e por isso ela estava satisfeita. Àquela altura as chamas da lareira brilharam esmeraldas de novo, e Nymphadora saltou delas, afobada, como sempre metida em seu uniforme de auror, o cabelo escapando de um rabo de cavalo mal-feito.

— Desculpa o atraso, chamado urgente no trabalho – ela olhou rapidamente ao redor. – Hey, Reggie, você por aqui?

— Dora — Regulus lhe deu uma piscadela. Bervely, que não sabia quando eles tinham construído toda aquela familiaridade, sentiu uma queimação por dentro.

— Prima diabólica – Tonks acenou para Bervely. – O que você andou fazendo aqui? Uau – exclamou, olhando para o candelabro – Isso já estava pendurado aí antes? Sempre achei que se tratava de um ninho de aranhas…

— Espere até ver o resto da casa – Remus comentou para a metamorfomaga. Então uma coisa estranha aconteceu; Nymphadora olhou para ele, seu rosto ficou ligeiramente pálido, depois corado, e ela desviou os olhos, pigarreando.

— Certo. Uh… Bervely? Posso falar um minuto com você, a sós?

Bervely estranhou, mas seguiu a prima até a cozinha. Nymphadora permanecia usando suas características originais, cabelos e olhos castanhos, como quando tinham se encontrado há quase uma semana. Ela também parecia cansada, o que não era anormal, dado os seus turnos de trabalho cada vez mais longos, pelo que Bervely ouvira falar.

— Duas coisas – ela começou, numerando com os dedos ossudos, um tantinho afobada. – Primeiro: aconteceu alguma coisa estranha com você hoje? Algum contato, alguma… ameaça?

— Quê? Não! Acordei em Hogwarts e vim direto para cá, conferir a casa…

— Ótimo. Não achei que teria, mas só quis confirmar. Acharam um corpo numa sarjeta trouxa do norte de Devon hoje, por isso que recebi o chamado urgente, estava na jurisdição do meu pelotão.

Bervely sentiu o estômago se contrair com a informação.

— De quem era?

— Aí que está, ainda não temos certeza. Foi achado essa manhã por uns pescadores, tudo indica que foi desovado durante a noite, mas estava sem cabeça.

— Sem cabeça, como em decapitado?

— Sim, e tem mais. O corpo tinha uma marca daquele olho egípcio do cara que perseguia você, o Olho de Hórus.

Bervely reprimiu um calafrio. Seria possível que Thor Carmichael estivesse de volta à ativa, fazendo novas vítimas?

— Pode ser só uma coincidência, trouxas fazem umas tatuagens bem estúpidas de vez em quando, não fazem, com uma agulha ou sei lá o quê?

— Não era um trouxa; os aurores estão achando que era o próprio Thor Carmichael. Parece que alguém com muita raiva dele enfim o encontrou e acertou as contas.

— Ótimo, se for mesmo — Bervely disse, com uma esperança cega de que fosse verdade. — Já não era sem tempo.

— Bervely, não me odeie por perguntar, mas… você não tem nada com isso, tem?

— Quê? Você acha que eu– quê? Quando eu teria arranjado tempo– como eu teria encontrado Carmichael e como diabos eu ia arrancar a cabeça dele fora – não que eu não quisesse, não me entenda mal

Ok, ok – Dora ergueu as mãos no ar, um gesto universal de “pare de falar antes que se comprometa demais”. – Eu precisava perguntar, tá ok? Fico aliviada que você não tem nada a ver com isso! Segunda coisa: se lembra daquele exame de cuspir que você me forçou a fazer da última vez que te visitei em Hogwarts?

***

De volta à sala de estar, Regulus e Remus haviam iniciado uma partida de xadrez bruxo, observados de perto por Harry. O primeiro estava ganhando de lavada, porque Remus estava apreensivo e distraído e não parava de olhar na direção da porta por onde Nymphadora e Bervely tinham saído.

Sirius serviu a si mesmo de uma dose de conhaque que trouxera consigo – já que não confiava em nada que Monstro preparasse para ele aquela noite nem nunca – e foi se sentar perto de Anne, que estava anormalmente quieta desde que tinham se encontrado com eles na Casa dos Gritos, mais cedo.

— Hey, passarinho – Sirius chamou, o que pareceu arrancá-la de um longo torpor, envolvida que estava em seus próprios pensamentos.

— Hey – ela devolveu com a voz distante.

— Você parece pra baixo, vai um golinho? — disse, lhe estendendo o conhaque. Anne suspirou.

— Não até eu ser maior de idade, se lembra?

— Boa garota. Era um teste — ele deu uma piscadela marota para ela, mas Anne, a não ser por um sorriso fraco, não esboçou reação. Sirius torceu os lábios, tendo falhado em sua tentativa de animá-la.

— A sua avó… como vai indo? Tem notícias?

— Ainda sem alma — a garota disse com secura, mas logo se arrependeu. – Desculpe, eu não quis ser rude. Ela ainda está na ala de danos irrecuperáveis. Sophia ainda quer pôr fim ao “sofrimento” dela, mas combinamos de discutir isso novamente após o feriado.

— E você, o que acha?

— Só quero que isso acabe — Anne suspirou. — Não posso tomar essa decisão, nem Sophia. Ninguém tem o direito, tem?

— Por isso que eu digo, se um dia um dementador me beijar, nem hesite, ponha fim à minha miséria imediatamente.

Anne o fitou com desaprovação, sem achar graça da tentativa de humor negro do pai.

— Você devia tomar mais cuidado com a sua alma, falando nisso. Foi loucura o que fez naquele dia, quase matou a Bervely, o Harry e a mim de preocupação.

— Desculpe, passarinho. Mas eu não posso ficar parado como vocês esperam que eu fique, esperando a morte chegar! Olhe, todo mundo vai morrer um dia. Isso não é desculpa para se esconder quando as coisas ficam feias!

O rosto de Anne se contorceu; ela estava fazendo força para não chorar. Num impulso, se levantou do sofá.

— Não quero falar sobre isso, ok?

— Tudo bem – Sirius franziu confuso, já que fora ela quem tinha começado. — Adolescentes, eu juro…

Bervely e Nymphadora estavam retornando naquele momento, ambas parecendo mais pálidas do que tinham saído. Bervely retornou à sua tarefa de tentar encantar o piano para tocar partituras, e Harry tomou o lugar de Remus, que fora massacrado por Regulus no xadrez.

— Dora — Remus chamou quando a metamorfomaga passou por ele. — Hey, pode olhar aqui um minuto? O que está acontecendo?

— Agora não, Remus — ela disse, branda. — Já disse que me atrasei por causa de um chamado urgente, foi isso. Nada com que se preocupar. Vou me trocar…

— Não estou falando do seu atraso, sabe disso. Há algo estranho com você. Eu posso sentir— ele completou, mais baixo. – Que cheiro é esse, você está doente?

— Pare de me farejar, já falei que isso me dá arrepios – ela se desvencilhou dele, se afastando. — Nós vamos conversar mais tarde, ok? Nada com que se preocupar agora. Vá beber com Sirius, relaxe um pouco.

Ela sumiu para as entranhas da casa, deixando Remus para trás, com uma sensação ruim. Enquanto isso, Regulus e Harry conversavam por cima do tabuleiro de xadrez.

— Dumbledore me mostrou a sua lembrança – disse Harry, quando constatou que os adultos estavam distraídos com seus próprios dramas, e Anne acabara de deixar a sala, provavelmente indo atrás de Tonks. – Aquela em que você procurou a minha mãe para entregar um livro.

Regulus não mudou a sua expressão, mas ele ficou parado um segundo mais do que precisava, antes de mover seu cavalo, então assentiu.

— Percebi, conversando com o professor Dumbledore, que ele nunca teve conhecimento do livro em questão. Sempre supus que a sua mãe tivesse comentado com ele o que quer que tivesse descoberto, mas se ela não disse, deve ter tido as suas razões – ele deu de ombros. – Xeque.

Harry nem tinha visto aquele movimento acontecer. Ele fez uma careta, tentando descobrir como poderia mudar o jogo ao seu favor.

— Como sabe que havia uma pista no livro? — Disse baixinho. – Qual era o título? Você o leu?

— Não é do tipo de livro que se lê. Olha, Potter… eu só fui até Dumbledore porque achei que devia dar continuidade ao que comecei, afinal acabei renunciando a minha vida humana por isso. Mas, já estou quebrando umas seis cláusulas do acordo de Gomorra só por ter vindo aqui, arriscando uma guerra diplomática com meu clã e o Ministério, senão coisa pior. Eu espero que vocês achem o livro, mas já disse ao professor Dumbledore tudo o que eu sabia a respeito.

— Tudo bem – Harry disse à contragosto, percebendo que a sua rainha estava em perigo. – Só mais uma pergunta, então?

— Vá em frente, se é mesmo a última – o vampiro permitiu, cercando a rainha de Harry por todos os lados.

— O que quis dizer com “renunciou a sua vida humana por isso?” Pensei que Voldemort mandou matar você porque desertou.

— Sim, isso é fato. Mas, quando Voldemort descobriu que eu tinha posse do livro, ele se mostrou disposto a negociar.

— E você recusou? – Harry se surpreendeu. — Por quê?

— Foi uma decisão óbvia, Potter. A vida de um desertor pela chance de salvar milhares de inocentes. Eu posso ter muitos defeitos, mas egoísmo nunca foi um deles.

***

— Imagino que podemos começar a abrir os presentes? – Dora quis saber, ansiosa, quando voltou para a sala de estar. Trocara o uniforme por um suéter branco com letras embaralhadas: “memola bãae”. Se era alguma piada ou trocadilho, ela não se deu ao trabalho de explicar.

— Ainda não! — Sirius a impediu – Está faltando uma pessoa chegar.

— Quem? — Bervely suspeitou. — Não convidei mais ninguém.

— Mas eu convidei — Sirius teimou. – Rosmerta ia passar o Natal conosco na Casa dos Gritos, nada mais justo do que estender o convite para cá…

— Sob o meu cadáver ressecado que aquela conspiradora inescrupulosa vem pra cá!

Ainda não tinha perdoado Rosmerta por ter dado uma varinha à Sirius na noite do ataque aos dementadores; e nem tinha Remus, mas ele tentou pacificar o que parecia mais uma fogueira pronta para queimar.

— Talvez ela tenha outros compromissos, não? Já devia estar aqui há mais de uma hora…

— Ela me disse que não ia passar o dia com a família. Ela deve estar se sentindo intimidada, mas se eu for buscá-la pessoalmente…

Bem em tempo de impedir a cena constrangedora em que Bervely e Remus iam tentar impedir Sirius, as chamas da lareira ficaram verde-esmeralda novamente; mas não foi o rosto de Rosmerta, e sim o de Yasi a aparecer no fogo:

— Oi… olá, Sirius! Justo quem eu estava procurando. Acabou de chegar uma coruja de Rosmerta com uma carta para você, imaginei que fosse urgente, então achei melhor lhe entregar pela lareira.

— Obrigado, Yas — Sirius agachou na frente das chamas para receber o pergaminho dela, que ele leu com o cenho se franzindo mais e mais, até alcançar a última linha. — Hum. Acho que ela não está vindo. E também acho que está me dando um pé na bunda.

— Ouch, por coruja? Golpe baixo — Dora lamentou. Bervely no entanto olhou suspeitosa para Remus, que pareceu ocupadíssimo em encarar o teto no momento.

— Bem, uma pena — Sirius amassou o pergaminho e o jogou no fogo, longe de parecer devastado. — Tinha arranjado uma garrafa de rum enoquiano para ela, vou ter que beber tudo sozinho!

— Sinto muito – Yas lhe deu um pequeno sorriso de simpatia. – Bom, um feliz Natal para vocês!

— Yas, espera – Sirius chamou. — Onde você vai passar o natal?

— Aqui mesmo, acho. Lalau resolveu ir visitar a família e revelar que está vivo, então… – ela deu de ombros como se não fosse grande coisa.

— Bem, você devia vir passar conosco, então. Tenho certeza que Bervely não vai se importar – completou, olhando para Bervely como se a desafiasse a discordar.

— Se essa é a sua vingança mesquinha, Black, vá em frente — a jovem fez um aceno de descaso. – Yasi é inofensiva.

Então eles eram sete, e as pequenas pilhas de presente começaram a ser abertas sem muita demora. Bervely não tinha grandes expectativas em relação aos seus, só queria garantir que todo mundo tivesse uma experiência completa de natal. Ela tinha garantido, com a ajuda de Remus, que os presentes dos outros fossem transferidos para Grimmauld Place 12 aquela manhã bem cedo.

Bervely foi abrindo a sua pilha só com metade de sua atenção: de Tonks, um lenço que mudava de cor de acordo com o seu humor. De Anne, um novo livro de notas de poções com encadernação de couro de dragão, porque a irmã descobrira que ela já tinha usado o seu último até o fim; de Sirius, uma caixa de diabinhos de pimenta, edição especial de natal, extra-picante.

— Ela é tão fofa! – Anne disse do sofá, tendo desembrulhado o presente de Sirius, uma motocicleta trouxa em miniatura que cabia na palma da sua mão.

— Bem, espere só pra ver no tamanho real, ela é muito mais do que “fofa”.

— Espera — Anne engasgou em choque, percebendo o que ele queria insinuar. — Essa é A sua moto? A Dama da Noite? Você está me dando a Dama da Noite de presente?

Era o primeiro sorriso de verdade que aparecia no rosto da menina aquela noite, espelhado pelo de Sirius, cujos olhos brilhavam como a estrela do seu nome.

— Achei que ia lhe interessar! Mas o seu padrinho gostaria de lhe lembrar que você só deve usá-la quando completar dezessete. – Ele disse com a voz séria, e depois, mais baixo em tom de conspiração – O que não significa que não deve aprender a pilotar, com um adulto responsável, a começar imediatamente…

Bervely rolou os olhos; ao menos a irmã estava feliz, podia esmagar os sonhos dela mais tarde lhe lembrando que artefatos de transporte trouxas eram proibidissimos em Hogwarts desde que Harry Potter atingira o Salgueiro Lutador com um carro voador há três anos.

No entanto, havia outra explosão armada para acontecer na sessão de presentes:

— Dora, o quê…?

Remus puxara de dentro de uma caixa um suéter com os dizeres “papai lobo”, e a impressão de uma patinha de lobo logo abaixo. Naquele momento, as letras do suéter de Dora se desembaralharam para soletrar “mamãe loba”. As bochechas dela ficaram rosas.

— Desculpe se tenho estado estranha ultimamente, precisava disfarçar. Estive pensando em um jeito de lhe dar as novidades, achei que seria engraçado...

Remus parecia prestes a ter uma síncope, e não era de tanto rir. Ninguém nunca vira seus olhos tão arregalados.

— Você está– Realmente

— É, grávida de um lobinho — ela disse com cautela, esperando a reação de Remus depois que ele superasse o choque.

A sala inteira tinha parado para acompanhar o drama, inclusive Bervely, que interrompera o movimento de abrir a sua última caixa de presente, a tampa suspensa no ar, distraída olhando na direção de Nymphadora e Lupin. Pelo menos até Yasi soltar um grito estridente, apontando para a caixa em seu colo.

— Você ganhou uma cabeça?!

Bervely olhou para baixo. Do fundo da caixa, a cabeça decepada de Thor Carmichael esperava por ela, seus olhos opacos lhe encarando.

(Continua…)



Notas finais
A maioria das fotos nos links são da caracterização real da casa dos Black para os filmes, com excessão do quarto de Bella/Bevy e o de Sirius. Para quem já tinha adivinhado que tem lobinho no forno, parabéns pelo faro! Nem o Remus descobriu o que era antes, tsc tsc. Quem vocês acham que enviou o presente para Bervely?? Feliz virada de ano/ano novooo!!